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58% da USP apoia a PM no campus. O que muda?

por Flavio Morgenstern

“Em primeiríssimo lugar, lembro que a mãe das assembleias capciosas é Odisseia, canto 2, e a mãe das paralisações indevidas é aquela feita pelos pretendentes na casa de Odisseu. Sabemos como essa história termina.” – Christian Werner, professor de Literatura Grega

Na Folha de hoje, pesquisa do Datafolha informa que 58% dos alunos da USP são favoráveis à permanência da PM no campus. A pesquisa não é oficial, mas serve para mostrar como as coisas se dão na USP.

Há uma questão escorregadia, que nem o texto do caderno Cotidiano explica: a maioria absolutíssima das pessoas que são contra a PM no campus o são por acharem que ela deve ser substituída pela Guarda Universitária, e sobretudo porque querem dizer que a USP não deveria precisar da PM. Não é porque 42% da USP não quer policiamento.

É uma reivindicação justa, mas que não aparece nas estatísticas. Com o agravante de que eu também quero não precisar da PM no campus. Não é felizmente, mas infelizmente que me sinto mais seguro saindo dos prédios quase 11 da noite com se avisto um carro da polícia por perto – o que nunca aconteceu, nem quando precisei ficar até quase 1 da manhã do lado de fora esperando um guincho, sem auxílio da Guarda Universitária, que só cuida do patrimônio (ou seja, dos prédios).

Aliás, eu também queria não precisar de provas de recuperação. Queria que os banheiros fossem melhores. Queria que o pessoal da FFLCH, se não tem senso do ridículo na política, o tivesse ao menos para se vestir (o que comprova que senso do ridículo é um todo uno que não se subdivide para as diversas áreas de atuação possível de um indivíduo). Queria que os alunos fossem menos cabeçudos. E queria mesmo que a PM não precisasse entrar no campus. O problema é que a reportagem coloca no mesmo balaio dois grupos distintos: os que querem policiamento via Guarda Universitária, mas sem requisitar a presença constante e direta da própria PM porta adentro, e dos revoltadinhos que vociferam “Fora PM do mundo” como prova de que sabem que o Brasil já teve uma ditadura militar. Entendam algo importante: não são 42% da USP que ao ver um PM, gritam por uma hora sem parar “Fora PM” e “coxinha filha da puta”, sem mais nenhum som articulado dotado de significado, como se vê em vídeos filmados pelos próprios revoltosos “estudantes”.

Se essa representação estatística é falha, é ainda um errinho menor ante à própria pseudo-representação da vontade dos estudantes que impera na USP.

O real problema da USP tem nome: assembléia. Não reclamam de um “anacrônico” decreto de décadas vetustas? Pois então, assembléias são reuniões que tiveram “legitimidade” numa época sem internet. Numa época em que era melhor 300 pessoas decidindo por 80 mil do que gastar com eleições caras. Tudo o que acontece na USP é decidido por assembléias. Elas são marcadas em horário de aula, contam só com as pessoas que nitidamente podem cabulá-las, os assuntos propostos pela mesa são todos impostos por grupelhos que definem a própria mesa (as assembleías recentes decidiram OU por “greve”, OU por invasão da reitoria, enquanto outra decidia se iria “apoiar” a invasão, com 15 minutos para decidir se o teto máximo de deliberação seria de 45 minutos, estourando em 2 horas). Se as propostas radicais não passam, imediatamente cancela-se a assembléia e remarca-se outra, onde são votadas os mesmos temas.

Banca revirada na frente do Bandejão. "Diálogo".

Como expliquei no Papo de Homem, os votos são contados no olhômetro, vendo quem levanta a mão ou não. É isso que a geração iPod jura que é “decisão democrática”. Quem me provar que a assembléia da FFLCH que decidiu pela desinvasão do prédio (mesmo que seja uma proposta que eu apóio!) teve mesmo o número de votos a favor e contra que teve ganha um abraço do Brandão. Segundo os defensores do assembleismo, é mandatório que as decisões só possam ocorrer por assembléias porque apenas nelas se “discute”. Segundo o site do PCO, “uma manifestação espontânea que agrega 20% dos estudantes presentes no momento não pode corresponder à vontade de uma minoria”. Para o PCO, 20% de algo é a sua maioria. E se o PCO acha que a Terra é redonda, é motivo mais do que suficiente para desconfiar que ela possa ser quadrada.

Se parece uma crítica igualmente extremista, vide-se o “cronograma” de assembléias passado recentemente por Camila Souza Ramos, e tente o leitor encontrar espaço para “discutir”, entre as caras fechadas, as vaias, as tentativas de microfone arrancado das mãos e os 3 minutos de fala, com temas já não apenas propostos, mas decididos a priori pela própria pauta apresentada:

A assembleia deliberou os seguintes encaminhamentos:

1. Continuidade da greve geral dos estudantes da USP.

2. Reafirmação dos eixos da última assembléia.

(…)

Indicativo de Ato na sexta-feira dia 18/11 a ser discutido na próxima assembléia. Duas propostas apresentadas: Concentração na reitoria às 14 horas e caminhada ao MASP ou ato com arrastão e trancaço no P1.

*Bandeiras*

1. “10% do PIB para a educação pública já!”

2. “Fora PM violenta de toda a Sociedade” – divulgação desta bandeira na grande mídia;

(…)

2. Por uma campanha de arrecadação entre entidades estudantis e sindicais para repor o dinheiro das fianças e compor um fundo de defesa dos presos políticos;

Em suma, a assembléia decide por uma nova assembléia, com propostas pré-definidas por extremistas apresentadas apenas para se dizer “sim, eu obedeço” ou “não, não aceito”, e assim que se vota e se vai embora, nova votação é feita para o “sim” prevalecer. As votações (ou “divulgações”, vai entender) incluem temas como “Fora PM violenta de toda a sociedade”. Confundem a autonomia da Universidade (sua capacidade administrativa de ser gerida sem depender do substrato de nenhum órgão exterior) com uma soberania, como se a USP (aliás, apenas a Cidade Universitária, pois ignoram completamente outros campi, inclusive no interior) fosse um país à parte do Brasil, em que se pode decidir leis contrárias à Constituição em assembléias, por olhômetro, e tudo estará definido.

Como se vê, as assembléias sequer se preocupam com a segurança dos estudantes ou com a Guarda Universitária – querem apenas proibir a entrada da PM em qualquer hipótese no campus. Não fica claro se, caso haja um assassinato, como o que pode acontecer se a extrema-direita da USP, aliada a skinheads, invadir o campus e matar os maconheiros a bordoadas, a PM poderá entrar para averiguar o caso. Ou, ao menos, para fazer a perícia (talvez também queiram expulsar os laboratórios da Polícia Científica do campus). Só pelo índice Folha-se, tem-se a impressão de que 42% dos estudantes da USP pensam como essa “assembléia” aí.

Barricada no prédio de Letras.

Numa das dúzias de assembléias realizadas só na Letras essa semana (com piquete e “greve” – como se estudante pudesse fazer greve – se recusam um serviço oferecido, na realidade fazem um boicote), um certo discursante falou indignado sobre as DOZE salas tendo aula naquele momento. A turma do Alemão, incluindo negros, foi chamada, obviamente, de nazista. O vídeo de uma discursante jurando que “não estamos aqui para prejudicar vocês” e que a assembleia “democrática” representa a vontade real dos estudantes ficou famoso, com o piquete que ela defende sendo destruído por estudantes pedindo por aula no meio do seu discurso, deixando-a falando sozinha.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=p7VSkHcV4jQ[/youtube]

Não se “decide”, ainda mais por “assembléia”, cometer um crime ou não. E piquete é crime. Impedir alguém de ir e vir é crime (poder-se-ia gritar “cárcere privado!”, só de sacanagem). Do contrário, uma assembléia marcada só entre a galera reaça do mal fura-greve poderia decidir sacrificá-los todos arrancando-lhes o coração enquanto estão vivos, e depois invadir a reitoria para evitar “processos políticos” e enrolar pra “negociar”.

A chapa para o DCE Reação foi a primeira não-esquerdista, que propõe votações eletrônicas. Vejam uma entrevista com a chapa e suas propostas para o Reinaldo Azevedo (inclusive com a última pergunta respondida por este que vos fala). A USP tem diversos mecanismos eletrônicos para tal. As próprias matrículas são realizadas eletronicamente, pelo sistema Júpiter Web (conhecido pela alcunha de Lúcifer Web). Basta realizar as votações por lá. Também há a rede social de estudos Stoa, que fica dentro de outro sistema eletrônico, o Moodle. E até as Bibliotecas possuem sistemas eletrônicos, como o Dedalus. Aliás, as eleições para o DCE são por urnas, sem “discussão”. Por que diabos decidir tudo em assembléia?

Porque se não decidirem por assembléia, a extrema-esquerda perde acachapantemente. Portanto, com 58% da USP sendo favorável à PM no campus (ou mais, como fica demonstrado), fica ainda uma dúvida: os extremistas vão respeitar a maioria ou vão vandalizar e novamente gritar que querem a USP inteira para eles, do contrário picham até “Fora FEA” nos muros”? Sendo todos extremistas fanáticos de um livro só, nós já sabemos a resposta.

Em um dos atos pró-PM realizados nessas semanas, quase na frente da reitoria ainda invadida, propusemos novamente o sistema eletrônico. Os invasores, alguns que não quiseram se identificar, falaram que deveríamos dizer o que tínhamos a dizer nas assembléias convocadas pelos invasores, e “votar” tudo por lá. Tente pedir a voz numa “assembléia” deles pra você ver. Tente, sei lá, entrar na reitoria, então. Quando explicamos que votar em assembléia não tem legitimidade nenhuma, apelaram pro clichê de sempre: ah, mobilizem-se! Saiam do Facebook! Política se faz na rua! Não pude perguntar se alguém ali, fumando bagulho na reitoria o dia inteiro, tinha alguma espécie de emprego. Também replicaram que voto em urna e eletrônico é facilmente fraudável. Por que não impugnar todas as candidaturas do DCE até agora, que sempre são ganhas fraudando-se as urnas da Poli (Escola Politécnica) e da FEA (Faculdade de Economia e Administração)?

Até agora, não entenderam que defender a democracia implica defender que a decisão da maioria não tem nada a ver com a sua. Democracia não é quando seu partido ganha, fellows. Uma manifestante disse que tinha mais medo de ser estuprada por um policial do que por um bandido – portanto, defender a PM por segurança seria hipocrisia. Que casos de estupro envolvendo PMs no campus a USP contabilizou? Afirma que a violência é culpa da desigualdade social (explica isso pro favelado da São Remo, com medo dos ricos traficantes que dominam o local com grana de USPianos – ou alguém acredita que sejam favelados que compram submetralhadoras 9 mm?). Quando fotógrafos tiravam fotos, ela pediu para não ser fotografada, “porque aquilo ali era um espaço democrático”. Fotos desse calibre só não podem ser tiradas em ditaduras. Nossa equipe apenas conseguiu uma foto sem seu rosto mostrando sua linda bolsa Levi’s e sua blusa Puma.

Mas um dos mais impressionantes relatos veio logo a seguir. Pouco antes de uma das invasoras do prédio da administração da FFLCH lembrar que os invasores, além de quebrarem e sujarem muita coisa, roubaram até panetone que uma funcionária vendia para aumentar a renda (“a violência é fruto da desigualdade social” e tal), e não poderia mais apoiar ladrões, uma moça, que não quero identificar, lembrou que já foi do movimento estudantil. Ao ver esse tipo de abusos numa greve, foi perseguida pelo Sintusp e seus cupinchas. Apanhou e ficou 2 meses de cama (isso eu descobri sozinho). Foi agredida pelo Brandão. Foi cuspida na cara pela Nely, a “tia louca da greve” que aparece no recentemente extinto vídeo Sintusp Wars. Fizeram-na se tornar “inelegível” para defender o CRUSP. Perseguiram até seu namorado, revelando seu nome, dizendo onde morava, no que trabalhava. O CRUSP inteiro a odeia, mesmo sem saber quem ela é. Não foi senão ela, paraibana e com jeito de não ter lá muito dinheiro, que avisou: “Tem alguém interessado nisso tudo”. Há processos por agressão, e estão querendo retirar esses processos. Chamam a esses crimes de “perseguição política”. Infelizmente, fez seu pronunciamento e queimou o chão dali antes que eu pudesse entrevistá-la.

Lembram das “reivindicações legítimas” dos estudantes sofrendo processos por “perseguição política”, que vocês juram que são “o real motivo” da invasão da reitoria na USP? Estão aí, gente. Apóia quem quiser.

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Está na dúvida se mantém “FFLCH” no seu currículo, ou se falsifica dizendo que estará trabalhando em telemarketing ativo durante esses anos. No Twitter, @flaviomorgen

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