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A morte de Kadafi, “amigo, irmão e líder” de Lula

por Flavio Morgenstern

Washington ainda aguarda que um oficial americano veja o corpo de Kadafi (Gaddafi ou whatever) antes de confirmar a morte do  ditador líbio no poder desde 1969 (quando a ditadura militar brasileira trocou Costa e Silva por Garrastazu Médici, o que prova sem querer querendo o que a Folha disse sobre a ditabranda e Roberto Campos já afirmava sobre as ditaduras de esquerda, muito mais duradouras).


É um bom momento para relembrar do que ninguém gostaria de lembrar: Lula (o nosso Lula), na Cúpula da União Africana em 2009 (saindo do olho do furacão da crise americana e antes da primavera árabe), que deveria ficar sentado entre Muammar Kadafi e Mahmoud Ahmadinejad, embora este último tenha cabulado o encontro, começou seu discurso como convidado dizendo a Kadafi: “Meu amigo, meu irmão e líder”  A notícia foi dada no Estadão Online:

Lula começou seu discurso dizendo a Kadafi: “Meu amigo, meu irmão e líder”. Logo de início, o presidente elogiou “a persistência e a visão de ganhos cumulativos que norteia os líderes africanos” e ressaltou que “consolidar a democracia é um processo evolutivo”.

A partir de então, o presidente deu início a repetidas críticas aos países industrializados. Lula afirmou que “a crise financeira e econômica mundial revela a fragilidade e o caráter perverso da atual ordem internacional” e parafraseou o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, ao sustentar que “o consenso de Washington fracassou”.

 “As instituições e pessoas que sempre foram pródigos em nos dar conselhos hoje estão contabilizando a falência de suas políticas”, sentenciou Lula. “Durante muito tempo, os países ricos nos viram apenas como uma periferia distante e problemática. Hoje somos parte essencial da solução da maior crise econômica das últimas décadas. Uma crise que não criamos.”

 Minutos depois, em entrevista a jornalistas brasileiros, Lula respondeu às críticas feitas sobre sua proximidade com ditadores africanos, como Muammar Kadafi. O presidente ironizou a imprensa pelo não comparecimento de Ahmadinejad, afirmando que as críticas que recebera eram “preconceito premeditado”.

Lula disse ainda que ausências como a do líder iraniano não tinham sido boas. “Eu não trabalho com preconceito, porque se trabalhasse não estaríamos nem na ONU, tamanha é sua diversidade”, afirmou o presidente. (grifos nossos)

Comentário

É uma sorte que Lula saiba o que é o Consenso de Washington, pois 99% da esquerda que o apóia o desconhece plenamente. Mas o que surpreende é a visão fantasmagórica que se apresenta apenas dois anos depois das afirmações liliputianas de Lula. Kadafi, este sanguinário financiador de terroristas (e ele próprio maestro a distância da explosão de um avião) é “amigo, líder e irmão” de Lula. Não é a imprensa golpista quem afirma isso: é Lula. A imprensa só noticia – e, por isso, é criticada e ironizada.

Quando a primavera árabe começou, quase uma década após o 11 de setembro, o establishment esquerdista só pôde ficar calado – embora Lula, matraqueador, tenha considerado, por exemplo, que os protestos com mortes após “eleições” fraudulentas que deram mais um mandato a Ahmadinejad foram “choro de perdedor” (mais uma vez: a galera que reclama da Folha chamar a ditadura de “ditabranda” não deu um pio) e que era apenas uma briga entre “flamenguistas e vascaínos”, mais uma vez na saída de um discurso na ONU (do Estadão Online):

“Não é o primeiro país que tem uma eleição na qual alguém ganha e quem perde faz protesto. No Brasil, isso está virando moda. As pessoas que ganham as eleições perdem na Justiça e a oposição toma posse”, alertou o presidente.

 “Eu não posso avaliar o que aconteceu no Irã. Agora veja, Ahmadinejad teve uma votação de 61% ou 62%. É uma votação muito grande para a gente imaginar que possa ter havido fraude”, apontou Lula.

 “Eu não conheço ninguém, além da oposição, que tenha discordado da eleição no Irã. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos“, disse o presidente, durante uma entrevista em Genebra depois de participar de reuniões na ONU. (grifos nossos)

Já a famosa intelligentsia da esquerda, aquela que defende o PT e ditadores socialistas e teocracias muçulmanas haja o que houver, ficou um pouco confusa quando Hosni Mubarak caiu no Egito, e a na Líbia a população rebelava-se violentamente contra seu ditador, Muammar Kadafi. Parte dela, que sempre associa o que é mal no mundo a “EUA” e “neoliberalismo”, afirmou imediatamente estar em apoio aos “rebeldes” líbios (a imprensa poderia usar um substantivo melhorzinho, não?), enquanto outra parte, que sabia ao menos algo antes de falar, sabendo que Kadafi aplicava um regime socialista baseado em seu “Livro Verde”, tratou de apoiar Kadafi e sua “resistência” (ou “persistência”, como afirmou Lula).

Cartazes de partidos de esquerda em faculdades de Humanas contradiziam-se, uns afirmando que Kadafi era “financiado pelo imperialismo estadunidense”, enquanto outros gritavam pela “resistência anti-imperialista” do socialismo árabe. Exatamente quando o Implicante™ International Group of Golpist Media foi criado, afirmei que Mubarak ou Kadafi mereciam o Nobel da Paz. Um dos espertalhões que sabiam que Kadafi é um grande representante da esquerda multiculturalista mundial foi Hugo Chávez, que “pediu” que Kadafi “resistisse” (sabemos como se dá essa “resistência”) e afirmou que o país não seria tomado, e o ditador não deixaria a Líbia, como afirma que o socialismo do séc. XXI irá vencer a crise econômica mundial (também no Estadão Online):

Chávez convocou os países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), os governos de esquerda da América Latina e os Estados africanos a unirem forças para interromper a “barbaridade” desencadeada pela Otan na Líbia. “Temos de formar uma contraofensiva mais coordenada para deter esta barbárie“, disse ele, sem dar maiores explicações. (grifos nossos)

Para Chávez e Lula, a violência é culpa da mídia. Estão certos. Não fosse a imprensa e a internet, que noticiam o que antes só ficava nos desvãos de conversas secretas palacianas, além de torturas em porões de teocracias, a primavera árabe não teria ocorrido. O maior acerto dos EUA na guerra contra o terror não foi a trilionária captura de Osama bin Laden e Saddan Hussein, mas o fato de a promoção da democracia em países que nunca ouviram falar no conceito gerou revoltas e fez líderes como Mubarak e Kadafi caírem, sem precisar de ocupação americana – como expliquei mais detalhadamente no aniversário do 11/9, desmistificando o que sobrou do 11 de setembro.

Quando Lula fala sobre a “crise [financeira] que não criamos”, tem a sorte de ter seu mandato acabado antes da captura popular de Kadafi – e mais sorte ainda com a amnésia coletiva brasileira, além do voto de silêncio que domina a mídia que ele chama de “golpista”. Essas informaçõez acima não estarão hoje no Jornal Nacional. Mas, sobretudo, não estarão na Carta Capital, no blog do Luis Nassif, do Paulo Henrique Amorim, de Luiz Carlos Azenha, de Brizola Neto ou da “blogosfera progressista”, aquela que afirma que, na América Latina, vota em quem apoiar Chávez (este é o único critério). Nós, que afirmamos o que Lula afirma, somos derrotistas. Agora imagine-se o que aconteceria se um presidente, ou sequer um deputado não-petista chamasse Kadafi de “meu líder”

Só existe um motivo para a esquerda, sejam os “progressistas” ou os revolucionários, odiarem a imprensa: de Cuba à Líbia, da Venezuela ao Irã, o único governo esquerdista que funciona é aquele que ainda não existe, e onde foi aplicado gerou um morticínio – mas, se houver “persistência” e “luta”, um dia certamente funcionará.

(com ajuda e dedurações de @NegoOsvaldo e @MarceIoMeireIes)

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Na torcida entre ditadores, torce sempre contra todo mundo. No Twitter, @flaviomorgen

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