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A reginaduartização das eleições para o DCE da USP


As eleições para o DCE da USP deveriam ter ocorrido nos dias 22 a 24 de novembro. Os eventos fartamente consabidos do fim do ano passado – a autuação de alunos fumando maconha no campus, a invasão do prédio da administração da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) e posterior invasão da reitoria, além da auto-decretada greve dos alunos ligados a grupos extremistas, com piquetes e até violência contra professores em sala de aula – criaram um clima pouco favorável sequer a se freqüentar os prédios de algumas unidades no último mês do ano.

Sob tal panorama, uma Assembléia Geral foi convocada e decidiu pelo adiamento das eleições do DCE. Como a assembléia não tinha poder algum para isso (era uma gigantesca votação teatral), a pauta foi decidida de fato no CCA (Conselho de Centros Acadêmicos), onde espertamente votaram pela exclusão do voto (!!) da FEA (Faculdade de Economia e Administração), sabidamente uma faculdade pouco afeita a grupos fanáticos e greves. Em lugar da decisão dos estudantes da USP, um auto-intitulado “comando de greve” ficou encarregado de fazer uma proto-gestão golpista enquanto isso.

O motivo alegado foi que, estando em greve, não seria possível realizar eleições para o DCE naquele momento. Motivo pelo qual também seria estranho realizar qualquer espécie de assembléia que decidisse isso, aliás. A verdadeira razão que todos conhecem, porém é tabu ser comentado, é que a Chapa Reação, a única não-esquerdista concorrendo ao DCE, já é nacionalmente conhecida como a mais provável vencedora do pleito.

O recado é claro: após as eleições para o DCE da UnB serem vencidas pela única chapa não-esquerdista concorrente (a Aliança pela Liberdade) e o mesmo seguir ocorrendo na UFMG, o muro de Berlim que cerca as Universidades públicas brasileiras, sobretudo os cursos de extrema-Humanas, começou a cair. Um espectro começou a rondar os estudantes: o espectro da direita, além da força da realidade extra-muros que passou a saber o que acontecia nos campi – até há pouco com autonomia completa da realidade, eternamente brincando de versões mirins dos totalitarismos mais genocidas da história mundial.

Graças às redes sociais, as “decisões” por assembléia nas Universidades públicas tiveram de enfrentar seu mais duro inimigo até hoje: a realidade. As assembléias não apenas não representam estudantes, como na maioria dos casos decidem pelo exato oposto do que a maioria dos estudantes defende. E se antes era impossível explicar isso a alunos que só andam com seus cupinchas e freqüentam mais pátios do que salas de aula, as redes mostraram que a opinião e os desejos dos estudantes em relação à Univerdade é bem outra.

Agora, a duas semanas da nova data para as eleições para o DCE (dias 27 a 29 de março), o grupo Território Livre, uma das formas de organização dos ultra-radicais do MNN (Movimento Negação da Negação, uma das forças mais extremistas da USP antes da LER-QI – Liga Estratégica Quarta Internacional) resolveu admitir mais explicitamente todo o golpismo e as razões da maracutaia eleitoral: retirou seu apoio à chapa francamente loser “27 de Outubro” (desconhecida até de USPianos, sonhando em concorrer com a projeção nacional da Reação) com o fito de apoiar alguma chapa que tenha chance de derrotá-la nas urnas.

O discurso é: estão com medo reginaduartístico de que fique claro, sem a manada raivosa das assembléias, que o DCE não é propriedade privada de grupos de extrema-esquerda brigando entre si por dinheiro sem controle dos gastos.

Cedê Silva comenta no Estadão:

O grupo Território Livre retirou ontem seu apoio à chapa 27 de Outubro e convocou as demais chapas de esquerda a votarem na Não Vou Me Adaptar, da situação. O objetivo é derrotar a Reação, única chapa favorável à presença da PM no câmpus. “Este momento nos impõe como tarefa fundamental esmagar a chapa do reitor Rodas”, diz o Território Livre, em nota.

A agraciada da vez é a chapa da situação atual do DCE, “Não Vou Me Adaptar”. O seu nome dá conta da cabeça-durice e da ojeriza à realidade. É uma jogada desesperada de quem resolveu abandonar os discursos de “não é possível fazer eleições durante da greve” para um honestíssimo “essa chapa é um lixo, mas é o único jeito de continuarmos manipulando assembléias USP adentro, já que não dá pra adiar eleições de novo”.

O golpismo não só é desabrido, como as fraudes são admitidas até pelo outro lado:

Integrante do Território Livre, o estudante de Filosofia Murillo Magalhães, de 24 anos, disse hoje que a 27 de Outubro perdeu cerca de um terço dos membros. A carta do grupo tem 25 assinaturas, e restariam umas 50 pessoas na chapa. Murillo é da opinião de que a chapa Reconquista, que candidatou-se em 2009 com membros e ideias semelhantes aos da Reação, foi a real vencedora das eleições e vítima de uma fraude (na contagem de votos a Reconquista perdeu por uma diferença pequena). “A vitória da direita seria muito ruim porque eles não reconhecem a legitimidade das assembleias de estudantes”, afirmou Murillo. “O mais importante é a esquerda deixar de lado as diferenças e construir a unidade nestas eleições contra a chapa do Rodas”.

É uma voz que resume a USP: as eleições para o DCE são admitidamente fraudadas (ainda que os votos sejam em urnas, não levantando as mãozinhas, como são os das assembléias), e ainda assim, a preocupação do rapaz é… que não poderão continuar impondo suas vontades no teatrinho pseudo-representativo.

A disputa pelo modelo de votação (ou uma discussão sobre o séc. XXI ter chegado ou não) é franca: de um lado, temos reuniões de alunos que só são realizadas quando se pensa em greves. Para discutir se poderemos exercer o direito democrático de ter aulas, já se é obrigado a matar aulas para participar das votações. O resultado vem antes da votação. É como votar pelo Estado laico de dentro de uma igreja pentecostal no fim de um culto. Assim que se perdem as votações, cancela-se a assembléia e marca-se imediatamente outra, num processo ad nauseam até que só os alunos que não estão interessados em mais nada na faculdade além de greve compareçam. A isso chamam “democratização”.

A desculpa é que apenas em assembléia se “discute” os temas. É um acinte às sinapses: 90% dos discursos em assembléia são idênticos, e desconheço uma única pessoa que tenha chegado em uma assembléia pensando em votar X e, ao ouvir 3 minutos de alguém berrando no microfone, mudou sua opinião para Y. Ademais, por que deixar as decisões para os rebanhos nas assembléias? Por que uma pessoa tímida, ou com medo das inevitáveis represálias, vaias e ameaças (no mínimo) não pode ter sua opinião contada em voto?

Outro aluno também mostra a que veio:

Na opinião do mestrando Thiago Aguiar, de 22 anos, candidato à reeleição pela Não Vou Me Adaptar, a atitude do Território Livre foi correta, apesar de ainda existirem diferenças entre as chapas de esquerda. “A Reação é a expressão política da reitoria e dificilmente será a favor do que o movimento estudantil propõe”, afirmou.

Descontada a Reação, diferenciar uma chapa de outra, na verdade, é um árduo trabalho. Uma é chefiada pelo PSTU em coligação com o PSOL, outra pelo PCO, outra pela LER-QI, outra por PT junto ao PC do B. Suas disputas muitas vezes são entre formas de trotskysmo, com uma preferindo o gramsscismo. As diferenças entre elas remontam à condução da Revolução Russa. É uma realidade tão apartada das questões da USP que chega a ser quase uma escolha pautada em “Qual é o seu totalitarismo preferido?” Em uma enquete online criada por um membro da chapa 27 de Outubro sobre as votações para o DCE, uma das opções era “Não sei, mas não será na Reação”. (A Reação contava com vantagem de 527 votos a 439 da segunda colocada)

Enquanto brincam de revolução, membros da Reação, mesmo antes das eleições, apresentavam projetos para a reitoria (já apresentados anteriormente em 2009 nos Conselhos Universitários) de expansão dos circulares da Cidade Universitária, para se poder ter um novo ônibus gratuito até o metrô sem atrapalhar os funcionários da Universidade que não são estudantes. O projeto foi aceito e já está funcionando neste ano. A proposta das outras chapas para o caso? Ora, elas (todas elas) apenas diziam que iriam boicotar o novo bilhete único exigido nos ônibus que vão até o metrô e, em declaração ao Estadão, prometiam: “Vamos nos organizar para fazer alguma coisa.” ALGUMA COISA. Sentiram a diferença?

Tampouco deixa de ser interessante observar que, a exemplo da fusão entre “Estado” e “Partido” nos totalitarismos comunistas, os assembleístas igualmente deixam de fazer distinção entre “movimento estudantil” e “extrema-esquerda”. Acaso a opinião de 527 estudantes e mais de 58% da USP não é “movimento estudantil”? Os próprios alunos que decidem politicamente por uma chapa que não seja a deles não são estudantes, sendo que são justamente os que se posicionam a favor das aulas e contra as greves? Alguém precisa avisá-lo que o brinquedo não é dele.

Continua:

Gabriel Landi, estudante de Direito de 20 anos e membro da chapa Quem Vem Com Tudo Não Cansa, disse que a vitória da Reação é “o pior cenário”, mas que como eles “não têm força” para ganhar, não há planos para aceitar o convite do Território Livre. “É mentiroso que a Reação representa a maioria silenciosa, porque eles mesmos não são silenciosos”, disse. “E agora que a greve acabou,  a polarização na esquerda diminuiu e o consenso contra Rodas aumentou”.

De fato, há o que temer na Reação: como afirmei ao Reinaldo Azevedo, “entre todas as chapas inscritas, aparentemente os criminosos da USP apenas temem a chapa “Reação”. É um excelente indício. Tais crimes, que vão de dano ao patrimônio a lesão corporal (já houve casos até de envenenamento de comida do Bandejão), são chamados de “perseguição política”. São crimes comuns que nunca são divulgados.”

De fato, podemos ser “o pior cenário” para alguns. Sobretudo para quem quer impor suas opiniões goela abaixo de 80 mil alunos, e dizer que “são a USP”. O que há de risco em uma chapa que propõe um plebiscito para definir as questões fundamentais da USP (como a PM no campus), ao invés de uma que já chegue lá com tudo “decidido”? O “perigo” demonstra o que pensam quem tem o medo reginaduartístico da Reação.

Mas, com efeito, não há motivos para aceitar o convite para o segundo pior cenário: o Brasil inteiro já sabe quem a Reação é. Falta apenas que a USP saiba o que a “Quem Vem Com Tudo Não Cansa” é. Ou, sei lá, acreditar que são algo além de invasores de reitoria e os velhos maconheiros de sempre.

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. É o 314.926º da esquerda pra direita naquela foto da assembléia. Está com a mão abaixada. No Twitter, @flaviomorgen

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