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Breve análise da defesa dos mensaleiros

 Breve análise da defesa dos mensaleiros   dirceu yessir

Os mensaleiros no STF são acusados por todos os lados, de uma série de coisas diferentes (alguém aí sabe explicar o que foi o mensalão? como foi operado? de quem pra quem? parece que as pessoas que o compreendem no país não lotam uma Kombi). Seus advogados de defesa estão dançando um Créu Número 5 retórico para safar seus clientes.

Quando alguém está enfrentando uma saraivada de acusações distintas vindas de todos os lados ao mesmo tempo, uma técnica útil é responder a cada uma individualmente (uma mentirinha fácil de cada vez), sem fazer qualquer ligação com a próxima acusação (o que desmontaria todo o esquema de falsaria).

Se se quer ter alguma certeza sobre uma possível má-fé dos discursos dos advogados, basta cotejá-los, e ver que enquanto se defende um a todo custo, com os volteios oratórios que produzem os nós cegos mais difíceis de serem desatados, acaba-se acusando outro.

Os 38 réus (co-réus, ou no Novo Acordo Ortográfico, corréus, e ainda acreditam que alguém vá escrever isso), vários deles bem pouco amigos entre si (tanto é que precisam ser comprados para concordar em algo), farão de tudo para jogar qualquer possibilidade de culpa, já considerada praticamente certa nesse momento, apenas no seu amigo do lado. Todos eles pintados assim por seus advogados, como uma falange de anjos que se situam no ponto bramânico eqüidistante entre a ausência completa de orgulho e o completo desinteresse pessoal abdicado pela pátria, revelam apenas como todos têm seu quinhão culposo, sendo doado em desespero ao companheiro à sua esquerda. É o jogo da batata-quente mensaleira no STF.

José Luís de Oliveira Lima, advogado de José Dirceu, apela aos testemunhos de petistas para… para… bem, deve ter algum objetivo. Além de Lula e Dilma, foram citados os maiores guerreiros do partido para tentar engavetar a CPI dos Correios (onde tudo começou): Carlos Abicalil (acusado pelo petista preso Carlos Veloso de ser o mentor do escãndalo dos aloprados), Maurício Rands e Ideli Salvatti. Além destes engavetadores, foram citados o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e Paulo Bernardo, atual ministro das Comunicações, ambos do PT.

 Breve análise da defesa dos mensaleiros   dirceu rsNervoso, em sua defesa do réu, afirmou algo desatinado com a investigação: que os saques no Banco Rural, que coincidiam perfeitamente com as trocas partidárias da base aliada e as votações no Congresso, bateram com alguns momentos em que o governo perdeu votações. Ora, além de pouco significar, tal dislate é quase uma confissão de culpa: mesmo um governo que gosta de um Estado inchado não seria trouxa (abusando-se da boa-fé) de comprar votos de votações que fossem do interesse natural da base aliada. O esquema de corrupção deslindado indica, justamente, que se tentava comprar votos de parlamentares de partidos fisiológicos, que poderiam ou não votar com o governo em decisões que eram do interesse exclusivo do PT – e tais saques foram feitos justamente para se evitar o “ou não”. Foi o caso da disputa entre PT e PTB pelo controle da Diretoria de Comunicação e Tecnologia dos Correios, com contratos de centenas de milhões de reais, que ameaçava sair da alçada petista e cair nas mãos do PTB. Foi investigando esta área que surgiu o famoso vídeo de Maurício Marinho pedindo propina, que desencadeou a crise petista e a CPI dos Correios.

Roberto Jefferson, inclusive, revelou à Folha de S. Paulo que Marcos Valério, que pretendia solucionar o rombo do PT, atolado em dívidas até o pescoço inclusive com o PTB depois da biliardária campanha de 2002, foi a Portugal como “embaixador” do Brasil, de 24 a 26 de janeiro de 2005. Acompanhado do tesoureiro do PTB Emerson Palmieri, a quem teria dado uma mala com R$ 4 milhões – ou R$ 4,5 milhões, segundo outras fontes – pretendendo intermediar a venda da Telemig Celular (administrada pelo Opportunity de Dantas) para a Vivo, da Portugal Telecom. “Os portugueses serão para o PT o que os espanhóis da Telefonica foram para os tucanos”, dizia Valério. Apesar de Valério, quando a viagem veio a público, afirmar que Palmieri foi a Portugal para relaxar (“ele estava estressado”), fica implícito que Valério queria dar provas a Roberto Jefferson de que estava empenhado em resolver o imbróglio da dívida do PT com o PTB. Se o acordo lograsse êxito, Valério pretendia receber dos portugueses uma comissão de R$ 24 milhões. Foi uma das primeiras declarações bombásticas de Roberto Jefferson.

Outro sinal do mensalão é a conta de número 2595-2 do Banco Rural, a “conta-mãe” da agência SMP&B de Marcos Valério. Em 4 de março de 2003, o gerente de marketing do Banco do Brasil, Leo Batista de Souza, ordenou o repasse de R$ 32 milhões à DNA, a outra agência de publicidade de Marcos Valério, sem que houvesse a devida prestação de serviços de publicidade correspondentes, de acordo com a CPI dos Correios. Em 12 de maio do mesmo ano o gerente Douglas Macedo repassou mais R$ 23,3 milhões – totalizando R$ 58,3 milhões. No mesmo período, através da conta de outra agência do publicitário mineiro, partiam repasses para os deputados do PT e da base aliada. Segundo o relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio (PMDB-PR), “É a prova de que houve uma operação triangular para dar lastro aos aos empréstimos do valerioduto e mascarar também a origem dos recursos”.

Foi o estouro do escândalo Visanet – empresa que, apesar de privada, possui um fundo compartilhado para investimentos em marketing. Se a idéia do fundo era aumentar a venda de cartões de crédito, na prática os contratos de publicidade, investigados pela CPI dos Correios, parecem mais ter inventado algum “serviço público” prestado por agências para maquiar o repasse de dinheiro público para parlamentares.

É esse lado substancial que o advogado de Dirceu, chamado de “chefe de quadrilha” por outro procurador-geral da República (estranha coincidência: segundo seu advogado, parece que dois, ou até três procuradores-gerais da República estariam enganados sobre a figura angelical de seu cliente, todos atuantes nas gestões petistas), teria de explicar. Afirmar que o governo (na verdade, o PT, excluindo-se a base aliada) perdeu votações importantes, que eram do interesse do PT e não da base aliada, realizadas coincidentemente com os saques na conta do Banco Rural, é apenas confessar, sem o perceber, que o PT tinha interesses em votações em que não conseguia convencer os partidos fisiológicos e pouco ideológicos que o ajudaram a alçar Lula ao estrelato. Não seria, justamente, demonstrar que há algo errado com tais votações e saques?

Foi o que terminou de explicar Reinaldo Azevedo:

Diz ainda que o governo só venceu certas votações porque contou com o voto das oposições, a exemplo do que aconteceu com a reforma da Previdência. Também isso não significa absolutamente nada! Até porque todos sabem que mais a oposição era favorável àquelas mudanças (muitas delas tentadas no governo FHC) do que a base aliada. Em que a lógica impede que a transferência de dinheiro buscasse garantir os votos dos beneficiados?

Ao explicar por que José Dirceu se encontrou com a direção do Banco Rural no período em que essa instituição fez um “empréstimo” ao partido, limitou-se a dizer que, entre as funções do ministro-chefe da Casa Civil, está o encontro com diretores de bancos. Pode ser. Ocorre que o Rural estava interessado numa decisão do governo sobre o Banco Mercantil de Pernambuco. O encontro aconteceu no momento em que o Rural, o banco por excelência do mensalão, fez um de seus falsos empréstimos ao partido.

O advogado de Delúbio Soares vocês já conheceram aqui, ao afirmar que o mensalão foi união pelo bem do Brasil. Foi o terceiro a falar. Sempre é bom relembrar: um dos maiores amigos de Márcio Thomaz Bastos (ex-ministro da Justiça, advogado mais caro do país e atualmente defensor de mensaleiro) é um dos favoritos a ocupar a vaga que será aberta com a aposentadoria de Peluzo ao STF.

Já o advogado de José Genoíno também parece pouco interessado em debater fatos e circunstâncias (a materialidade tangível que pode demonstrar por a+b se o réu é culpado ou não). Sem tentar novamente o famoso “assinei sem ler” que seu cliente jogou às fauces do incréu espectador na época dos “empréstimos” feitos pelo BMG e pelo Banco Rural que levam a assinatura de José Genoíno, o advogado Luiz Fernando Pacheco ventila a tese de que quem cuidava das finanças do partido era o então tesoureiro Delúbio Soares.

 Breve análise da defesa dos mensaleiros   Genoino medioAbusando do recurso da captatio benevolentiæ, Pacheco sustenta que a reeleição de Lula e a eleição de Dilma são evidências de que a opinião pública não reconhece o mensalão. Em pleno STF, ainda temos clamores públicos pela absolvição, enquanto se passa a batata quente a Delúbio Soares. É curioso notar, neste ponto, como blogs progressistas (com uma década de PT no poder inchando de dinheiro público os seus cupinchas, é fácil notar que eles são os “chapas-brancas”) adoram pedir “atenção aos autos” e um julgamento não voltado ao “clamor público”, mas nenhum reclamou dessa torção de braços nos fatos e desse apelo puramente emotivo, em plena mais alta Corte do país.

Pacheco foi além: “Ele não é réu pelo que fez ou deixou de fazer, mas é réu pelo que ele foi [presidente do PT]. A denúncia não faz individualização de conduta, redunda na responsabilidade objetiva. Se é bruxa, queima, se queima é bruxa. É o direito penal nazista. Se é judeu, mata. Foi presidente do PT, então tem que ir para a cadeia”. Argumentum ad Hitlerum para alguém com assinaturas comprobatórias? De fato, é réu pelo que foi: presidente de um partido quebrado de dívidas e que precisava se livrar delas a qualquer custo. Qualquer custo.

O advogado ainda finalizou, citando uma advogada falando sobre a honra de Genoíno: “É um verdadeiro homem de esquerda”. Percebemos, dr. Pacheco. Percebemos.

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