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Classe Média que Odeia a Classe Média: Parte I

Introdução:
Falar mal da classe média está na moda desde antes da década de 50, e SEMPRE quem a odiou (e odeia) são pessoas que a ela pertencem. Essa grita ideológica não poderia ser mais adolescente, pois é exatamente o que ocorre na puberdade: com raivinha da família (e seus vetos), a pessoa dá chilique e diz que odeia tudo e todos que a ela pertencem (sem notar que também faz parte da parentada).

Ter raiva gratuita de seus pares não é novidade:

(in memorian aê, foi mal a piada com defunto, blz?)

Quanto à origens e motivações disso em relação a TODA uma classe social, há quem culpe abusos sofridos durante a infância (nunca era escalado no time, tomava muito pescotapa etc.). Pode também ser a forçada abstinência sexual durante toda a puberdade seguida das chances mínimas de pegar mulher nas Faculdades e DCEs da vida (ou seja, às vezes não rolava nem com aquelas garotas de pé sujo, sovaco peludo, com cecê e bigodinho pagodeiro-futebolístico).

Esse caldo de cultura, suor e lágrimas, dizem, contribui sobremodo para o ódio à classe média. Um ódio a si próprio, pois são todas elas também pertencentes a esse estrato social. Moram nos bairros que deploram, têm os carros que xingam, fizeram e fazem as viagens das quais caçoam.

Esse ódio é bocó. Não apenas por ter origem em chiliques de adolescência ideológica, mas também porque é injusto. A classe média, ao longo das décadas, produziu as mais saborosas receitas caseiras, os melhores peitos não siliconados (em especial nos bairros de colonização italiana ou espanhola) e – não me perguntem o motivo – bons cronistas esportivos. Também costuma dar uma força nos impostos, para pagar o salário de eventual odiador que trabalhe no serviço público.

Ninguém odeia mais a classe média do que as pessoas da própria classe média: responsável por boas macarronadas, inesquecíveis feijoadas e partidas de buraco simplesmente épicas. Os ricos precisam, toleram e até vão com a cara; os pobres sonham com o dia de chegar a isso.

A raivinha chiliquenta é obra exclusiva do pessoal da própria classe média. Mas essa contradição é pequena, perto das milhares apontadas nesta série.

SOCIALISTAS DO MARLBORO
Não, amigos, o pior problema do socialismo brasileiro não é quando dizem “não sou comunista, sou socialista” – tentando, assim, reduzir o número de vítimas sobre suas costas ideológicas. O diabo, como se sabe, está nos detalhes. Nosso socialismo moreno e com gingado é mesmo afeito à Phillip Morris.

Eles não largam a porra do Marlboro!

Funciona da seguinte forma: é mais fácil convencer o mundo (não uma casa, rua ou bairro) a largar o hábito de consumir novidades, possuir bens privados e deter os meios de produção, eventualmente perpetrando algum genocídio, a LARGAR A PORRA DO CIGARRO. Isso mesmo. Eles não conseguem parar de fumar.

Assim, mantêm uma indústria imperialista e ianque cada vez mais rica, justamente disseminadora do câncer e dona do mais poderoso lobby do mundo. É como se um hipotético gay militante sustentasse hipotética indústria discriminatória. Ou feminista financiasse fábricas clandestinas de cachaça, chinelos e cintas.

E quem são esses fumetas socialistas (não comunistas, por favor, porque eles não compactuam com massacres, somente assassínios eventuais em nome da “causa”)? Eles: os grandes críticos da classe média. E o que são? Sim, são da classe média. Acho que curtem um cowboy.

QUE MERDA DE CLASSE MÉDIA… DESCE UMA BOHEMIA!
Pobre bebe pinga. Rico bebe uísque ou vinho. Quem bebe cerveja? Classe média. Adivinha o que bebem os críticos da classe média? Cerveja. Mas não de marcas populares, qual o quê! BOHEMIA (que é popular, barata e até ruinzinha, mas eles acham que é melhor…)

Há explicação, claro. Por não ser cara como as importadas, nem tão baratinha como as qualquer-nota, é a escolhida. Ou então “Original”. Ou aquelas da América do Sul, agora comuns nesses bares mais descolados.

E entre uma cervejinha e outra descem a marreta no pessoal que não é “politizado”. Um absurdo, por exemplo, não ler a Caros Amigos. Golinho na gelada. Falam do último texto do Zé Arbex. Desce mais uma Original. Ou do Blog do Emir. Vem uma Norteña. Mino Carta, gênio. Patricia, uruguaia! PHA, blogueiro independente.

Fato é que ser contra a classe média, no outro dia, dá uma puta dor de cabeça. Mas a revolução tem um preço a ser pago.

NÃO SOU PETISTA, MAS…
Essa é velha, amigos. Todo odiador da classe média é petista. Ocorre que declarar filiação ao partido, hoje, queima o filme sobremaneira. Ninguém quer ser associado a isso. Então, como ele começa o assunto?

Não sou petista, mas…

É sempre assim. Vai defender o Lula e manda bala no “Não sou petista, mas… ESSE É O MAIOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE TODOS OS TEMPOS”. Ou então “Não sou petista, mas… A DILMA ROUSSEFF É EXTREMAMENTE PREPARADA…” (não a conhecia antes de 2004; não sabe que apenas 20% do PAC saiu do papel etc.).

E tem coisa mais classe média que adorar o Presidente da República? Isso lembra o Lombardi narrando a Semana do Presidente no meio do Programa Silvio Santos. Porque TODO PETISTA É CLASSE MÉDIA, mas odeia a classe média.

Essa zorbinha roxa, fala a verdade, leitor da classe média… Quantas vezes você não imaginou repleta de dólares. Assuma seu lado petê.

QUEM ODEIA A CLASSE MÉDIA ADORA A PENA DE MORTE
Desde que seja para crimes pequenos. Isso mesmo. Se você mata vinte e cinco pessoas, aí jamais pode receber pena capital. Nunca e em tempo algum. Mas, por exemplo, se tenta fugir de uma ilha (essa abaixo)…

…nesse caso é aceitável a da pena de morte. Entenderam? Claro que não. Mas, teoricamente, deveria fazer sentido.

Na cabeça de um odiador da classe média, gostar da pena de morte é votar no Maluf. Bobagem. Vida humana é vida humana. E todos eles, que odeiam a classe média, adoram o país dessa imagem bonita.

Lá, se você tenta escapar, a pena é uma só: fuzilamento. Mesmo assim, muitos tentam, correndo risco de morrer também no mar. Imaginem como deve ser lindo viver naquele país. Ah, sim, eles dizem que não gostar de lá é coisa de classe média.

Quando podem e juntam grana o suficiente, vão a passeio. Quando não conseguem, pedem um mojito no bar, mesmo. Há sempre a opção de “turismo partidário”, aquela viagenzinha esperta subsidiada pela LEGENDA DO CORAÇÃO – muitos vão assim. Mas MUITOS.

E fica a regra: odiadores da classe média amam a pena de morte. Mas apenas quando o delito é leve.

A CLASSE MÉDIA (QUE ODEIA CLASSE MÉDIA) DESCOBRE A RUA AUGUSTA
Tá… Faz tempo e essa é velha. No começo, tomavam cerveja (bebida de classe média) nos bares lá de cima, simulando um clima meio marginal – e também economizando uma grana. Cerveja de garrafa, sempre. Passa uma puta, chega um sujeito vendendo poesia, encosta um nóia. Super “da margem”, saca?

Agora rola todo um “baixo augusta”, uma boca-do-lixo de butique. Ainda assim, não é lá grande novidade (deve ter uns cinco anos). Bom, e daí? Vamos falar mesmo assim. Afinal, tal região é uma “nova Vila Madalena” (até então reduto único da classe-média remediada que odeia a classe-média às vezes nem tão remediada).

Se a “vila” era famosa pelos bares – mesmo aqueles que cobravam/cobram entrada -, as partes baixas da dona Augusta ganharam fama recente pelas casas noturnas não exatamente baratinhas, geralmente frequentada pelos alternativos. Mas são tantos e tantos alternativos que isso faz lembrar uma antiga charge do Angeli, na qual milhares de rebeldes usavam uma camiseta com a mesma inscrição: “Fuck the Fashion”.

OS FERIADOS E A CLASSE MÉDIA QUE ODEIA CLASSE MÉDIA
Primeiro eles lutam para conquistar um dia. Qualquer dia. Desde que represente o símbolo de uma luta. Qualquer luta. Pode ser a consciência negra, os direitos da mulher, a luta pelo direito à terra ou até mesmo efemérides para comemorar profissões como datilógrafo.

IMPORTANTE: eles lutam pelo reconhecimento, em forma de feriado, de causas que não são suas. Uma espécie de “altruísmo de calendário”. Sempre dando de ombros para a classe média (como quando ridicularizam datas como “dia das mães” ou até mesmo “dia dos namorados”).

Mas quando finalmente chegam as datas comemorativas que tanto defenderam e defendem, aproveitam para ir à praia (adivinha que classe tem casa ou consegue alugar algo na praia?). Quando não viajam, ficam em casa coçando e passando pomada.

Não estão nem aí para eventuais grupos homenageados, querem mais é aproveitar a folguinha e – como são da classe média, embora a odeiem – aproveitam mesmo para descansar no feriado. E danem-se Zumbi, operárias de NY e a porra toda.

Justiça seja feita, na botecagem de feriado, independentemente do homenageado da vez, eles aproveitam para xingar a classe média (entre uma cerveja-média e outra).

CHICO BUARQUE E O ÓDIO À CLASSE MÉDIA

Ele entende a alma feminina, dizem. Deve ser verdade, haja vista a imensidão de relatos sobre sua vida conjugal com a ex-esposa famosa. Mesmo depois das traições, era recebido em casa com açúcar e afeto. Esse, sim, entende a alma feminina!

Independentemente do casamento pequeno-burguês do ídolo da classe média que odeia classe média, é preciso mostrar também outra característica importante.

SUAS DEVOTAS ODEIAM ESSES CANTORES CUJAS FÃS VÃO AOS SHOWS PARA GRITAR APENAS QUE SÃO LINDOS! Com Chico é diferente! Nada da bobagem da “beleza física”. Ele é intelectual, brilhante, escritor, compositor que capta a essência do universo e o suspiro da existência. Chico transcende.

Mas, quando sobe ao palco…

– LINDO! LINDO! GOSTOSO!

São fãs classe média, ora.

NA VERDADE, ELES ODEIAM OS POBRES
O ódio à classe média é papo de bar – tomando Bohemia, Original ou Norteña. O que odeiam, mesmo, é pobre. Não suportam, não convivem e não conseguem chegar perto. Sim: não chegam perto.

Quando estavam na faculdade, embora defendessem aquelas coisas todas de discurso social, havia toda uma contradição, por exemplo, quando iam ao forró. E começava pelo nome: “Forró Universitário”. O que significa isso? Somente alunos matriculados no ensino superior entravam no recinto?

Não.

A tradução é um pouco menos bonita. Trata-se de eufemismo para “forró sem nordestinos”. Desse modo, o estudante da classe média, que já começa a odiar a classe média, fica tranqüilo quanto à inexistência de pobres e “baianos” ou “paraíbas” no estabelecimento.

E quando resolvem promover a Cultura Nacional? Vão às “rodas de choro” ou “sambas de raiz” nas praças bem freqüentadas da Zona Oeste de São Paulo, ou nos melhores estabelecimentos da Lapa ou Santa Teresa, pra fingir que são do povo, desde que ninguém do povão chegue muuuito perto.

É o ambiente perfeito para falar mal da classe média, essa gente elitista que não “pensa o Brasil”, que não se preocupa com os excluídos e não respira a verdadeira essência de nossa gente.

Até vão de chinelinho, precisa ver!

(semana que vem: Parte II)

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