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É justo reclamar do #preçojusto?

por Flavio Morgenstern*

Eu não sei quem é Felipe Neto. Mas ele reclamou de impostos. Reclamar de impostos é bom. Parabéns, Felipe Neto. Só não digo que quando crescer quero ser como você porque não sei quem é você e quando vi 30 segundos do seu vlog achei o show meio panaca. Mas continue reclamando de impostos, enquanto continuo com preguiça de descobrir quem é você.

Pelo que entendi, acharam a atitude pequeno-burguesa pois ele reclamou de impostos sobre iPads, videogames, Macbooks e iPhones. Eu não tenho um iPad, nem um videogame, nem um Macbook e nem um iPhone. Isso me faz algo mais pobre do que um pequeno-burguês. Gorki teria pena de mim. E aí é que tá o problema: eu não tenho um iPad, nem um videogame, nem um Macbook e nem um iPhone por causa dos impostos.

Pergunte se alguém que criticou a atitude do Felipe Neto se tocou disso.

Reclamar de impostos é reclamar de pagar mais por algo pelo qual se poderia pagar menos. O termo ainda mantém seu sentido etimológico no próprio significante: é um dinheiro que lhe é tomado por um poder maior imposto. Isso significa que não é preciso ter muita justificativa para se tomar o seu dinheiro além da força maior ser, afinal, maior do que a sua. O imposto é o bullying das operações financeiras desde que inventaram a civilização (e antes mesmo do papel moeda, da Bolsa de Valores, do Estado de Bem Estar Social e do Felipe Neto).

Na verdade, ao contrário do que dizem, reclamar de impostos não é algo da classe média. Da burguesia (mesmo a burguesia daqueles países que mais usam essas palavras – justamente aqueles que, curiosamente, nunca tiveram burgos). Quem reclama de pagar mais por algo pelo qual poderia pagar menos é o proletariado. Parabéns, Felipe Neto, seu proletário.

A classe média não se incomoda de pagar R$2,00 por uma garrafinha d’água só porque está fora de casa e, indispondo de seu filtro, não vai beber água da torneira. A classe média não se incomoda de comprar no Pão de Açúcar ao invés de no Sacolão. A classe média acha comum pagar R$8,00 por um saco de pipocas no cinema, sem perceber que milho, óleo e sal para fazer aquela pipoca para a família inteira não custam, juntos, R$8,00. Já o proletariado vai fazer compras no Atacadão e nas Casas Bahia. Só o proletariado que está deixando de ser proletariado vai ao Wal-Mart.

Dentre as inúmeras contradições da esquerda, uma das mais notáveis foi fazer o povo deixar de adorar Deus, aristocratas decadentes e burocratas corruptos para adorar impostos.

Pequena aulinha de História sem um professor trotskysta

Quando se estuda História, aprendemos logo que todas as classes superiores (ainda mais naqueles tempos em que o termo “classe” se referia mesmo a classes, e não a faixas salariais mutáveis) se mantinham no poder sem trabalhar, impondo às classes trabalhadoras (ainda mais naqueles tempos em que o termo “classes trabalhadoras” se referia às únicas classes que trabalhavam) tributos. Os pobres não podiam fazer como os donos do poder, e simplesmente se manter no poder sem trabalhar. Primeiro, porque não tinham poder. Segundo, porque os poderosos os obrigavam a trabalhar.

Na Idade Média, a coisa começou a mudar de figura. A escravidão não era mais aceita ao deus-dará (sim, seu professor estava errado). Ao invés de simplesmente obrigar o populacho a trabalhar e só lhes dar algumas migalhas para mantê-los vivos e produzindo, começaram a lhes arrendarem a terra, cobrando-lhes impostos cacete por isso. Os impostos eram a corvéia, a talha, as banalidades (o imposto mais honesto já inventado), a capitação, o Tostão de Pedro (o dízimo), o censo, a Taxa de Justiça, a Formariage, a Mão Morta e a Albermagem. Sim, os impostos supracitados estão na ordem encontrada na Wikipedia. Se você não teve argumentos contra o Felipe Neto além do fato de ele ser o Felipe Neto (e eu posso concordar em parte com você), poupe-me de dizer que estou errado por usar a Wikipedia. Ela também não está.

Essa putaria toda continuou até fins do Absolutismo. Na verdade, a putaria continua até hoje, ou não estaria falando de Felipe Neto (na verdade, estava preparando uma explicação em termos tomísticos provando que a Geisy Arruda é, sim, gostosa). O problema é que a putaria mudou de figura com a ideologia que seu professor trotskysta tem até hoje: com os Estados Modernos (absolutistas), unificando-se, os impostos e as desculpas para eles, de amarelas, se tornaram praticamente sifilíticas.

Mas eis que surge o problema que me obriga a redigir essas mal traçadas (mal aí, Geisy): com o Iluminismo e a Revolução Francesa, começam a questionar o que fazer com o Estado, e a dividir opiniões (até então basicamente apenas críticas ao sistema a la punk rock). Surge a direita e a esquerda. Aparecem uns caboclos como Rousseau e Robespierre de um lado e Edmund Burke e de Maistre de outro (eu sei que você só conhece os nomes de um dos lados, e você sabe por qual razão). E aí, o Estado, de máquina dominadora, passa a ser visto como o próprio instrumento para se livrar daqueles caras que se mantinham às bases do trabalho dos outros, sem nunca meter a mão na massa.

E um tempinho depois, com Karl Marx, a parada se torna ainda mais “obrigatória”: sendo hegeliano, conclui que a História caminha até um fim determinado e obrigatório (ou seja, o próprio Estado moderno), e então o proletariado acaba não agüentando e se rebela e quebra tudo e faz a Revolução e lá se vão todos os problemas quando se arranca na porrada toda a velharada exploradora imperialista burguesa elitista oligárquica escravocrata de direita e os mandamos para campos de trabalhos forçados na Gulag e assim se restaura a ordem do trabalho democrático e fraternal bonzinho com todos.

Dentre os inúmeros problemas dessa teoria, ignoremos por ser um detalhe menor os 150 milhões de mortos que essa estrovenga nos legou: fiquemos apenas com o foco no trabalho. Quando tanto se defende a classe trabalhadora, ela começa a obter algum espaço de decisão, mesmo sem ter a educação adequada para tal como acompanhante. Assim, em pouco tempo, ela tem um pouco de poder dentro da esfera estatal, e quando mais se defende como “classe trabalhadora” e se diz representante (obrigatória) de toda a classe, menos a representa e menos… trabalha.

Em pouco tempo, Marx fez com que os impostos, de armas do capeta para escravizar o povo, virassem a melhor das invenções da bondade humana, com o corolário um pouco escondido de que, por mais caridoso que seja o resultado final (desviando o olhar da montanha de 150 milhões de cadáveres novamente), acabam sendo cobrados da própria classe trabalhadora. Na verdade, sendo imposto um mecanismo que cobra e transfere dinheiro de quem trabalha para quem não trabalha, todo imposto é uma forma de escravidão em doses homeopáticas.

Vamos pular agora essas filigranas como duas Guerras Mundiais e passar direto para Felipe Neto.

Eu quero a minha Caloi e o meu Playstation

Um Nissan Altima (veja foto) nos EUA sai por US$ 20.080 (R$36.144,00). O Honda Civic custa US$ 15.010 (R$27.018,00). O Toyota Corolla sai pela bagatela de US$ 14.405 (R$25.929,00). Aquela pick-up Silverado, da Chev, só custa 18.145 verdinhas (R$32.661,00). É o segundo carro mais vendido dos EUA. O campeão é outra pick-up, a F-150 da Ford: 17.345 doletas, ou R$31.221,00). É o preço de Fiesta, Gol, Palio, Mille, Corsa ou Ka modelo básico por aqui.

Despiciendo explicar a meus leitores e detratores, sempre tão inteligentes e simpáticos e descolados, que os impostos no Brasil são cobrados em sacas.

Mas é fácil já prever o argumento reverso: ora, por que a classe média reclama tanto de impostos, com tanta gente por aí sem dinheiro pra pegar busão pra trabalhar?!

O problema que ninguém se tocou além de mim é a coisa mais óbvia do mundo: as pessoas estão apenas com o feijão com arroz básico, sem bens de consumo “burgueses” e supérfluos, justamente porque o governo tunga de impostos cada produtor deles para que a classe média, essa ingrata que já tem tudo, seja penalizada por consumir amenidades como iPads, videogames, Macbooks e iPhones. Até aí, tá tudo bem para os marxistas e os caras que fazem piadinha no Twitter. O problema é: e quando é que a “classe trabalhadora” vai ter mais em casa do que arroz e feijão e Gugu, se quando arrisca virar classe média passa a ser penalizada por isso?

Aí vão todos cair de pau no Felipe Neto, dizendo que 1) Ele é o Felipe Neto; 2) Ele é um burguês que se preocupa com preço de joguinho da Apple Store, quando deveria se preocupar com o preço de feijão e livros.

Ignoremos o fator 1). Mas ora, em primeiro lugar, o feijão paga muito menos imposto do que o joguinho da Apple Store.

Em segundo, eu quero que no Brasil as pessoas trabalhem em escritórios transados e liguem para os chefes nas Bahamas falando inglês com sotaque de alguma banda escrota dessas que esse povo com tatuagem de código de barra no pulso ouve, ao invés de serem um povo de famélicos boiadeiros que podem cair nas mãos do MST em algum momento, e isso só será possível quando, puta que pariu, baixarem a porra dos impostos sobre os joguinhos da Apple Store!

E em terceiro, todo dinheiro de impostos é o dinheiro que gera corrupção lá para frente, além de coisas que não são consideradas corrupção, mas gastam mais ainda, como o blog da Bethânia e os gastos dos Congressistas com seus assessores e cafezinhos. Eles não conseguiriam isso só tungando os feijoeiros. Eles fazem isso tornando produtos da Apple tão caros que eu tenho de usar um Motorola todo escangalhado pra ligar pros editores desse site publicarem o texto logo, ao invés de entrar no MSN de um iPhone (organizem uma vaquinha).

Ademais, quem aí já se tocou que o Estado fornece um serviço bem pior do que a iniciativa privada? Como Lula e FHC privatizaram companhias estatais falidas e tiveram programas sociais, mas Lula é apenas conhecido por esses últimos, enquanto FHC é apenas conhecido pelas primeiras? Quem aí não se mata para passar num concurso público e ganhar hiperfaturadamente pro resto da vida sem riscos e na mais pura mordomia, para depois dizer que só o Estado distribui renda?

Enfim, o Felipe Neto pode ter umas piadinhas meio merda, mas nesse caso tenho de concordar com ele. E não tenho medo de concordar com um vloggeiro com fama de babaca: aposto que até Stalin deveria gostar de sorvete de nozes e achar Radiohead uma bandinha chata pra cacete.

Felipe Neto tem um showzinho bem dos porcaria, e isso só demonstra como nosso país tem uma educação tão ridícula fornecida por esse Estado que “tem o dever de nos dar educação” que faz com que o povão ainda o considere um humorista a la W. C. Fields. Exceto, é claro, meus leitores, tão eruditos e descolados e bacanas.

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Se não fossem os impostos, teria dinheiro pra deixar de ser isento do Imposto de Renda. No Twitter, @flaviomorgen

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