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Esquerdista diz: “A esquerda precisa de um novo discurso.” Sério mesmo?

EXCLUSIVO: Capa da próxima revista Cult trará alguém de esquerda dizendo que a esquerda precisa de um novo discurso! Quer apostar quanto?

por Flavio Morgenstern*

 

Vladimir Safatle fez um “debate” sobre a violência na USP depois do assassinato de um estudante da FEA (Faculdade de Economia e Administração) em pleno campus. Um desses “debates” em que um grupo de Direito achado na rua “discute” com um grupo coitadista penal sobre a segurança não advir do policiamento, mas sim da liberação da cocaína públicagratuitaedequalidade e da distribuição de renda pelo Estado. Portanto, fiquem de olho em Vladimir Safatle.

A Carta Maior entrevistou Vladimir Safatle. Segundo ela, “o filósofo Vladimir Safatle”. Schopenhauer afirmou: “Congressos de filósofos são uma contradictio in adjecto, já que raramente se encontra no mundo dois filósofos ao mesmo tempo e quase nunca em grande número”. A maioria dos 3 filósofos contemporâneos a Schopenhauer se destacou por seus livros de literatura. Hoje, qualquer professor de Neomarxismo Revisado 2 Plus Reloaded já é chamado de “filósofo”. Pela Carta Maior. Não digam isso a um certo editor deste site, que já cometeu a mesmíssima cagada uma década atrás. Voltem a ficar de olho no filósofo Vladimir Safatle.

É de bom alvitre repetir: Vladimir Safatle. Vladimir Safatle. Vladimir Safatle. Esse cidadão é tão segundo escalão que eu sempre esqueço o nome dele quando mudo de parágrafo. Segundo a Carta Maior, Vladimir Safatle é “um dos mais instigantes analistas da cena política atual”. Vladimir Safatle deve ter menos leitores até do que eu.

Vladimir Safatle é “dotado de uma radicalidade não imobilista”. Gostaria de que a Carta Maior explicasse o que chongas seria um “radical imobilista”. Citasse um exemplo, sei lá. Talvez também fosse de bom tom explicar por que um radical de extrema-esquerda que só falta pedir para explodirem Mc Donald’s em uma entrevista merece tanto carinho, e centristas e direitistas, liberais ou conservadores, sempre são tratados como algo próximo a excrementos de mosca varejeira por essas publicações, sendo sempre tratados, com deliberado nojinho, como “radicais” mesmo quando não o são. Ao menos já sabemos tudo o que é preciso saber sobre Vladimir Safatle.

 Eu prefiro o Jô Soares

Carta Maior pergunta ao filósofo Vladimir Safatle sobre o descrédito das siglas partidárias, lembrando que “esse diagnóstico parece embutir um desejo conservador – que não é novo – de desqualificar a representação do conflito social”. Na resposta de Safatle:

“No Brasil, temos um embate em torno da dita nova classe média ao mesmo tempo que encontramos uma sub-representacão de conflitos próprias à ‘velha classe pobre’.”

Leiamos de novo:

“No Brasil, temos um embate em torno da dita nova classe média ao mesmo tempo que encontramos uma sub-representacão de conflitos próprias à ‘velha classe pobre’.”

Ainda não entendeu? É porque você não é filósofo. Um leitor de Carta Maior, Emir Sader e Ivan Valente teria entendido. Mesmo com a falta de uma vírgula.

Para Vladimir Safatle, filósofo, o descrédito com as siglas partidárias se dá porque a “velha classe pobre” está ganhando mais dinheiro, mas ainda tem uma “sub-representacão de conflitos próprias”. “Representacão (sic) de conflitos próprias”. REPRESENTACÃO DE CONFLITO PRÓPRIAS. A representação é que é “próprias” à classe pobre, ou os conflitos é que são “próprias” à classe pobre?

Traduzindo: Vladimir Safatle, filósofo, percebe que os pobres estão ganhando mais dinheiro, embora não perceba que isso se deve ao Plano Real, às privatizações, ao preço dos produtos – que só cai diminuindo impostos, que significam 52% do seu preço (diminuir o “lucro dos empresários”, exploradores, gananciosos e capitalistas, significa diminuir o preço do produto em 2,3%); com isso, os pobres se tornam classe média, e classe média tem de ser exterminada a bala, para os esquerdistas.

Com isso, o pobre vira traidor do movimento punk, e aqueles que merecem continuar vivos encaram uma “sub-representacão de conflitos próprias à ‘velha classe pobre'”. Isto é, o pobre tem telefone celular (por que será?), TV a cabo e carro popular, mas ainda ouve axé, rap e funk, e ainda usa aquelas calças ridículas e cheias do tipo “mamãe, caguei”, com o cavalo no joelho. Você tira o favelado da favela, mas não tira a favela do favelado.

Vladimir Safatle confirma:

“As revoltas dos trabalhadores em Jirau é um bom exemplo.”

E as concordâncias é um péssimo exemplo. Os pobre fala tudo errado. Não deixem seus filho ler issos!

 Tio, dá dá um trocado?

Carta Maior, preocupada, pergunta também: “Aqui parece haver um ludismo com sinal trocado na medida em que se dá à tecnologia tratos de um fetiche. Tudo se passa como se ‘a tecnologia partidos’ tivesse se esgotado.” – em outras palavras: ainda dá pra ganhar uns trocados se filiando ao PT?

Vladimir Safatle, filósofo, aconselha cautela:

“É mais fácil fazer militância hoje, já que você pode operar da sua casa através de redes de contra-informacão.”

Contra-informação. O Facebook agora é CONTRA-INFORMAÇÃO. O Twitter é o rei da contra-informação de 140 caracteres. A blogosfera progressista é contra-informação bancada com o dinheiro da Imprensa Oficial – o primeiro caso de contra-informação que é Ctrl + C / Ctrl + V da informação oficial, diga-se.

E buscar informação, agora, é “millitar”. Minha militância maior é na busca por códigos para passar de fase no Half-Life 2. Pura “contra-informação”.

“No entanto, insistiria que há uma tendência de mobilizacão social que tem pêgo os partidos a contra-pelo.”

Eu sei que é bonito flexionar particípios reduzidos, mas aí o particípio é por extenso mesmo: “pegado”, tio. Pegado. O revisor do Word não colocou uma cobrinha vermelha embaixo desse atentado violento ao pudor aí, não? Não tirou o chapéuzinho na marra?!

Seu prognóstico:

“Falta uma nova geracão de partidos capaz de dar forca institucional a tais mobilizacões. Este partidos talvez não funcionarão de maneira “tradicional”, mas como uma frente, uma federacão de pequenos grupos que se organizam para certas disputas eleitorais e depois se dissolvem.”

Ignore-se o oxímoro “federação de pequenos grupos”. Como assim, “falta”?! O que mais existe nesse país são alianças, “frentes” e pequenos grupos que se organizam para ganhar uma eleição e depois cada um vai prum canto. Ou alguém aí sabe qual é o objetivo nacional do PMDB? Alguém aí perdeu Collor, Sarney e Lula governando juntinhos? É essa a grande esperança de Vladimir Safatle?!

Vem uma confissão num ato falho:

“Não creio que podemos ‘mudar o mundo sem conquistar o poder’.”

O que se quer é poder. Vencer eleições nem que seja na “federação de pequenos grupos”. Todo o resto é acessório. Tudo isso para mudar o mundo. A gramática já andam conseguindo mudar.

Sobre a “captura da vida democrática pela supremacia das finanças” (what the fuck ever does it mean), Vladimir Safatle (ainda não decorei seu nome; e você?) é taxativo:

“Certamente. Este é um dos limites da democracia parlamentar. Não há como escaparmos disto no interior da democracia parlamentar. Só se contrapõe ao domínio do mundo financeiro através de um aprofundamento da democracia plebicitária, como a Islândia demonstrou ao colocar em plebiscito o auxílio estatal a um banco falido. Devemos simplesmente deslocar questões econômicas desta natureza para fora da democracia parlamentar. Um Estado não pode emprestar bilhões para massa financeira falida sem uma manifestação direta daqueles que pagarão a conta. O problema é que vivemos em uma fase do capitalismo de espoliação.”

Tudo o que “precisamos”, então, é tomar o poder, e depois um modelo de concentração de poder na base do plebiscito. A propósito, nenhuma palavra sobre diminuir o número de congressistas nessa toada.

Mas sabe que não é de todo uma má idéia? Que tal exigirmos plebiscito popular com voto facultativo toda vez que o BNDES, a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa e o CNPq liberarem seus fundos para as Marias Bethânias da terceira classe? Um plebiscito novo a cada novo projeto? Antes de ter pelo menos 51% de votos favoráveis de 51% da população que queira essa “democracia direta continental”, o Estado não dá um centavo pra ninguém. Chega do capitalismo de espoliação.

Aí vem a pergunta que toda imprensa governista não cansa de perguntar:

“A mídia é muitas vezes apontada como a caixa de ressonância dessa subordinação do conflito aos limites da finança. Nesse sentido a sua regulação não seria tão ou mais importante que o financiamento público de campanha?”

Ou seja: quais são os argumentos filosóficos para ganharmos dinheiro até de quem não nos lê? Vladimir Safatle, filósofo, filosofa:

“Seria importante que houvesse um sistema que facilitasse a entrada de novos atores no campo midiático. Não consigo admitir, por exemplo, que universidades públicas, sindicatos e associacões tenham tão pouca presença em rádios, televisões e jornais.”

Mas esse sistema de facilitação existe, oras! Basta que a Rádio USP pare de ser uma rádio insonsa e comece a tocar pagode e sertanejo universitário 24 horas por dia para sua audiência levantar vôo. Já as verbas para um canal de TV pra um sindicato e uma “associação” (o Implicante™ é uma “associação”? já podemos pedir verba pra montarmos nosso próprio Manhattan Connection?) existem às mancheias. É só ver quanto custa a TV do Franklin Martins. Se eles “têm tão pouca presença”, significa que têm tão pouca AUDIÊNCIA, não tão pouco dinheiro. Que tal passar reprises do Chaves na TV Lula no horário nobre? Eu aposto que funciona. (aliás, alguém sabe QUAL É O CANAL da TV do Franklin Martins?!)

Ademais, o papo não era “plebiscito” para liberar verba pública? Por que não perguntar então pra quem vai pagar, antes de arrancar seu suado dinheirinho? Ou só vale plebiscito quando é para concentrar poder, mas na hora de roubar a produção e a mais-valia do povão, aí que se dane o modelo plebiscitário?

Diógenes de Sínope, filósofo, quando perguntado por que as pessoas davam esmolas aos mendigos, mas não davam dinheiro aos filósofos, respondeu: “Porque as pessoas sabem que correm mais risco de se tornarem mendigas do que de se tornarem filósofas”. Vladimir Safatle, filósofo, também sabe.

 E quanto custa algo gratuito?

Carta Maior prossegue:

“O PT no Brasil condensa todos esses impasses ao personificar, na opinião de alguns, uma trágica verdade: o preço do poder é a necrose da identidade mudancista.”

WHAT THE BLOODY FUCK ARE YOU TALKING ABOUT?!

Mas a pergunta emblemática vem a seguir:

“O Governo Dilma será a culminância dessa acomodação histórica? Ou a crise mundial pode destravar o processo e inaugurar um novo ciclo, na medida em que impõe escolhas duras entre desenvolvimentismo versus financeirização?”

A cada novo monólogo, diálogo, entrevista ou pasquim comunista, inventa-se uma nova “polaridade”, às vezes com termos criados ad hoc para se dar uma idéia dialética sobre o sexo dos anjos. Com a palavra, Vladimir Safatle, filósofo:

“Creio que o governo Dilma será um governo que usará a margem de manobra fornecida pelo crescimento econômico em uma era onde as economias dos países europeus (assim como os EUA) continuarão em crise.”

O que todo marxista adora falar é das crises do capitalismo. A última crise (a segunda maior em UM SÉCULO) ferrou sobretudo com a Islândia, uma ilhotinha no Ártico com 317 mil habitantes (que aumentaram para 400 mil nos últimos 2 anos). Resultado: a Islândia fechou 2007 EM PRIMEIRO LUGAR no IDH mundial, empatada com a toda poderosa Noruega, mas caiu vertiginosamente 16 posições (empacando ao lado de economias falidas como Israel e Finlândia, a frente de Bélgica e Dinamarca) por mudanças no critério de verificação do IDH, contando com coisas que a Islândia nunca poderia ter (como centros universitários e tecnológicos).

Marx acreditava que o capitalismo ruiria sozinho, não iria “agüentar” com tantas crises. O socialismo viria naturalmente. O socialismo, na prática, veio sempre de cima pra baixo (com burgueses universitários, de Lênin a Pol-Pot) e ruiu… sozinho. Não agüentou tantas crises. O capitalismo falido continua alive and kicking, com pobres com cada vez mais bens de consumo e maior qualidade de vida (os dados estão aí).

O capitalismo em crise significa isso: Islândia com a melhor qualidade de vida do planeta. Lojas caríssimas ainda faturando altíssimo mês a mês em Reykjavík. O socialismo cubano a pleno vapor está aí, racionando papel higiênico. usando jornal do partido como substituto. É o destino final do “sistema que facilita a entrada de novos atores no campo midiático”.

Um país capitalista em crise significa que seus trabalhadores só devem estar ganhando 1.500 vezes o que um trabalhador socialista está ganhando no mesmo período trabalhado. Mas se um comunista não pode comprar iPod, ele conclui que ninguém deve poder.

Eis a bomba de efeito moral:

“Neste sentido, nossa única esperanca concreta de mudanca virá quando a dita nova classe média perceber que ele só continuará seu ciclo de ascensão se não precisar gastar fortunas com educacão e saúde privadas.”

Ora, o problema não é gastar fortunas com educação e saúde privadas: é gastar fortunsa com educação e saúde PÚBLICAS e elas serem um lixo. Mas Vladimir Safatle, filósofo (alguém aí já decorou o nome do filósofo?), não é tolinho o suficiente para acreditar que NINGUÉM paga pela saúde e educação públicas, já que elas “são de graça”:

“No entanto, a consolidação de um verdadeiro sistema público de educacão e saúde não será feito sem uma pesada taxação sobre a classe rica e um aumento considerável na tributacão da renda. Isto, em um país como o Brasil, tem o peso de uma revolucão armada. Vejam que engracado, vivemos em um país onde a implantação de um modelo tributário das sociais-democracias européias dos anos 50 equivaleria a uma ação política da mais profunda radicalidade.”

A tributação da renda no Brasil está na ordem de dar mais da metade do que se produz para o governo. Aumentar a tributação significaria o quê? Abolir a propriedade privada? É óbvio que isso tem o peso de uma revolução armada: se já precisamos pagar R$2 mil por um celular bom que custa R$500 fora daqui, por que alguém aceitaria pagar R$5 mil por ele, sem nem poder ganhar uma massagem tailandesa por isso?

Mas é surpreendente que, com os juros reais mais altos DO MUNDO e a carga tributária mais estapafúrdia do planeta, Vladimir Safatle, filósofo, acredite que a “implantação de um modelo tributário das sociais-democracias européias dos anos 50” seja “uma ação política da mais profunda radicalidade”. Ora, O que tem de radical em não mover uma palha no statu quo? É isso que é ser “dotado de uma radicalidade não imobilista”?!

Já pagamos exatamente estes impostos. O que não temos é um modelo de planificação econômica do Leste Europeu a partir da década de 20: embora, com a diferença de uma montanha de 150 milhões de mortos daquele lado da Cortina de Ferro, o modelo europeu de tributação também causou crises estupendas nas economias européias – ou qual é a explicação de Vladimir Safatle, filósofo, para a Europa hoje precisar mendicar dinheiro para a Alemanha e patinar como economia bem atrás dos EUA?

Não se poderia tirar conclusão mais original:

“Precisamos de um discurso de esquerda alternativo que esteja em circulacão no momento em que as possibilidades de ascensão social baterem no teto.”

Ah, a esquerda precisa mudar o discurso! Poxa vida, entramos em um acordo. Que tal, pra começar, parar de achar que o Estado é padroeiro e deve ser dominado? Poderia ser um bom primeiro passo. Mas, aliás, onde foi que já ouvi isso mesmo? Foi em Hobsbawn? Em Slavoj Žižek? Em Agamben? Em Rancière? Qual capa da Cult NÃO foi sobre isso na última década? QUAL “filósofo de esquerda” desde o dia da queda do Muro de Berlim não papagueiou que a esquerda precisa virar o disco, e ESSE PRÓPRIO DISCURSO continua sendo a cantilena chata bagarai com 2 décadas de idade que todo coletivista tem orgulho em remacaquear como a redescoberta da América e da descarga?!

   

Mas não deixa de rolar uma certa explicação como conclusão e chamado às armas:

“O melhor que seu Instituto [de Lula] poderia fazer é organizar uma espécie de Internacional lulista que ajude a esquerda a vencer em países da América Latina.”

 

Ah! Socialismo do século XXI! Agora entendi a originalidade do novíssimo discurso!

 

* Flavio Morgenstern é tradutor, redator e analista de mídia. Acha que a Carta Maior é bem mais engraçada do que o CQC. No Twitter, @flaviomorgen

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