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Kim Jong-il: Um outro mundo é possível (e inevitável)

por Flavio Morgenstern

“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” – Kim Jong-Il

Morreu na sexta-feira Kim Jong-il, ditador da Coréia do Norte, um mito do Tumblr e da indústria de óculos escuros. O ditador, no poder desde 1994, era chamado de “Querido Líder”. Seu pai, Kim Il-sung, era o ‘Grande Líder”, sendo considerado uma espécie de “presidente eterno” da Coréia do Norte até hoje. Uma verdadeira múmia ideológica. É pela alcunha de “líder” que muitos canais de notícias brasileiros, sempre acusados de “direitismo”, o chamaram, com horror à alcunha de “ditador”. A notícia de sua morte só foi divulgada na madrugada de segunda-feira ao Ocidente pela agência de notícias estatal KCTV, para evitar que o ditador aparecesse nas primeiras páginas dos jornais de domingo e do Implicante™.

KCTV. KCTV. Ca-ce-te-vê. Taí um nome que mata o Casseta & Planeta de inveja. “KCTV”. Um fuzil na cara da sociedade. A tal KCTV (impossível parar de repetir isso) atribuiu a morte de Kim Jong-Il à “fadiga” do Líder Supremo e à “dedicação de sua vida ao povo”. Já a agência de notícias sul-coreana Yonhap diz, com base em fontes na Coréia do Norte, que o ditador morrera de ataque cardíaco  numa viagem de trem. Deve ter sido na linha que vai pra Guaianazes.

A Coréia do Norte foi governada com mão-de-ferro desde a sua criação, em 1945. Kim Il-sung e Kim Jong-il tornaram a Coréia do Norte o Estado mais totalitário e fechado do mundo. É o único país existente com liberdade econômica tecnicamente inexistente, estagnado em último lugar no índice de liberdade econômica, que analisa a liberdade dos países através de critérios como negócios, comércio, liberdade fiscal, de intervenção do governo, monetária, investimentos, autonomia financeira, corrupção, trabalho e direitos de propriedade, ganhando de todos os países totalitários mais violentos do mundo atual, como Irã, Myanmar, Zimbábue, Líbia, Venezuela (já com menos liberdade do que Cuba), Bielorússia, Cuba, Laos, Turcomenistão, Haiti (aquele que juram ser um retrato do lado podre do “capitalismo”) e Nigéria.

A política da Coréia do Norte foi fechar as portas ao mundo exterior e viver com uma espécie de falsa autonomia completa da realidade. Ainda assim, o país morreria inteiro de fome, não fossem substanciais verbas injetadas por aliados anti-ocidentais, como China e, em menor grau, Rússia. Ainda assim, ambas as grandes potências asiáticas dão sinais de incômodo cada vez maior com o ousado, extravagante e caro irmão menor, sempre a pedir mais dinheiro de fora, tendo como único investimento centralizado as armas nucleares.

O que aprendemos com a Coréia do Norte

A Coréia é talvez o único lugar do mundo em que a Guerra Fria ainda não acabou. O Império Coreano foi dominado pelo Japão em 1905, após a Guerra Russo-Japonesa. Uma das batalhas mais violentas da Segunda Guerra no extremo oriente foi em seus pântanos. Com a derrota japonesa no fim da Segunda Guerra, o território foi dividido entre uma zona soviética ao norte e outra ocupada pelos EUA, ao sul. Como em todas as ocupações militares americanas no séc. XX, a situação piorou muito assim que as tropas militares yankees queimaram o chão e deixaram o país sob seu próprio destino.

Desde sempre, ambas as Coréias reinvidicavam supremacia sobre todo o território, não aceitando a cisão imposta pelo inimigo vencedor. A Coréia do Norte, desde seus primeiros dias governada por Kim Il-sung, recusou-se a participar das eleições de 1948 supervisionadas pela ONU, que criaria dois governos distintos. Era o prenúncio da Guerra da Coréia, que separaria os dois territórios para sempre.

A Guerra da Coréia pode ser encarada como a única batalha da Guerra Fria vencida pelos EUA, ou, em termos mais científicos, a menos perdida. Iniciada no segundo mandato do democrata Harry Truman, seria a única guerra iniciada e terminada “rapidamente” por um democrata – dali para frente, a Guerra Fria se caracterizaria por guerras iniciadas por democratas e terminadas por republicanos, ciclo que só foi quebrado com a primeira Guerra do Iraque, na gestão de Bush pai.

Os sistemas comunistas se entendiam por uma irmandade de características comuns. A primeira, que já se afiguraria na primeira Internacional Comunista, mas só se materializaria com a ascensão do Partido Bolchevique, seria o monopólio total do Partido. Se, em Marx, a dialética histórica implica que o capitalismo inevitavelmente não se sustentaria e ruiria, cedendo historicamente seu lugar ao socialismo, os partidos, já pré-criados pelo próprio Marx, subvertem a ordem e forçam uma derrocada que não aconteceria – via de regra pelas armas e terrorismo. É exatamente esse o famoso “outro mundo possível” que propagam como a futura salvação de todos os problemas da humanidade. Segundo discurso do próprio Kim Jong-il, no documentário Team America, esse outro mundo possível não apenas é possível, como inevitável, como mostra esse curto trecho:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=mltwQJR0IDs&feature=youtu.be[/youtube]

Aliada a isso, a segunda característica seria ainda mais determinante: embora o partido local permita alguma discussão interna, assim que uma decisão é tomada entre os seus, toda a sociedade deve aceitá-la sem resignação e posterior discussão. O poder é centralizado ao extremo, com uma pequena aparência de discussão racional que só é tangível a seus cupinchas. A partir deste momento, todo o poder é vertical, nunca permitindo uma horizontalização de decisões. É um sistema muito bem aprendido pelo modelo de decisão por “assembléia”, barbarismo autoritário que viceja até hoje na extrema-esquerda de qualquer universidade, como já denunciei aqui, aqui e também no Papo de Homem.

O caminho está armado para uma crescente centralização totalitária, condição sine qua non para o poder comunista. Ao contrário do que se costuma propalar, o culto da imagem de um líder não foi um desvio da doutrina aplicado por Stálin e, por coincidência, por Mao Zedong e todos os outros líderes comunistas, sendo sim a conseqüência mais inescapável do próprio marxismo.

O stalinismo só vingou com o próprio Stálin. Os outros estados socialistas que iriam nascendo após a Segunda Guerra eram de orientação rigorosamente marxista-leninista (Lênin também era considerado uma espécie de “eterno comandante” do bloco soviético). Apenas no extremo Oriente alguns dirigentes totalitários eram encarados como “pensadores”, tendo então suas idéias alçadas ao mesmo nível de Marx e Lênin. O artigo 2.º da Constituição da República Popular da China de 1978 dizia: “a ideologia norteadora da República Popular da China é o marxismo-leninismo-pensamento de Mao Zedong”.¹ Já no caso da nossa Coréia do Norte, Kim Il-sung já é descrito mais modestamente como “superior a Cristo em amor, superior a Buda em benevolência, superior a Confúcio em virtude e superior a Maomé em justiça”

Assim, cai-se o mito da esquerda que trata Trotsky como seu velho Dom Sebastião – aquele que foi sem nunca ter sido, e aquele que, se for copiado no que não fez, trará finalmente o socialismo que dá certo. Ditadores como Stalin, Mao, Pol-Pot e os nossos Kim norte-coreanos são vistos como personalistas malucos que destruíram logo o melhor sistema político já criado pelo homem. Curiosamente, seu apelo à quase divinização de figuras que nunca exerceram o poder (ou não por muito tempo) como Trotsky, Che Guevara, Rosa Luxemburgo ou Marighella já personaliza o poder antes mesmo de algum destes figurões ser entronado.

As tomadas de poder pelos comunistas ocorriam, via de regra, por membros da burguesia em arroubos um tanto lunáticos em que se acreditavam proletários. Quase sempre, não recebiam apoio algum da população que juravam defender. Mesmo assim, pode-se definir que uma tomada foi “nativa” quando era realizada sem uma ajuda externa decisivamente importante. Mesmo dilacerada e cindida por três inimigos externos distintos em meio século, dificilmente a subida ao poder na Coréia seria considerada nativa. Grupos pequenos, impopulares e apoiados com tropas da União Soviética (que debandaram em 1948) foram a força motriz para passar como um rolo compressor sobre uma população cujo contato com a palavra “democracia”, ou com a idéia de que têm poder em si para a participação política, foi, por milênios, praticamente nulo.

Mesmo com a anexação oficial da Coréia como colônia do Japão em 1910, ela só se tornou campo de batalha no fim da Segunda Guerra. Kim Il-sung foi um dos que lideraram movimentos de resistência à ocupação japonesa. É levado para a Rússia após causar boa impressão nos líderes vermelhos para um treinamento político e militar adicional.³ O velho Kim, portanto, não era exatamente um intelectual, e sim um grande guerreiro que sobe ao poder absoluto. É o que dá não estudar e se preocupar com invasão de reitoria. Coloca-se um guerrilheiro esquisitão e ultra-nacionalista no alto posto e imediatamente começa-se o massacre.

Todos os partidos se fundem no Partido Comunista, que chega a ter 600 mil membros em dezembro de 1946 (cerca de 10% da população adulta). Como queria hegemonia sobre toda a península coreana, a Coréia do Norte só aparece como Estado dois meses depois de a Coréia do Sul ser declarada Estado independente. O líder sul-coreano era o conservador nacionalista Rhee Syngman, apoiado então pelos EUA. A única coisa em que Syngman e Kim Il-sung concordavam era que a Coréia seria unificada um dia – cada um aspirando ser o grande timoneiro.

O resultado da cisão das Coréias é conhecido. A Coréia do Sul, pelas décadas subsequentes, virou no máximo uma democracia falha e corrupta. Um processo de democratização começou a surgir nos anos 80: sério e bem-sucedido, tornou o atrasado país autoritário em um dos tigres asiáticos com garras mais afiadas do planeta. Seu IDH, cada vez mais alto, já é maior que o da Dinamarca e se situa quase encostado no da Islândia e de Hong Kong, passando pesos pesados como Israel, Bélgica, Áustria, França, Eslovênia (que soube enriquecer rapidamente aplicando princípios liberais com o desmantelamento da Cortina de Ferro) e Finlândia. Para tal, mantém uma altíssima liberdade econômica, superior a de paraísos fiscais menores como Costa Rica, Panamá e Cabo Verde, tendo realizado uma das privatizações mais ferozes que o mundo já viu.

Seu sistema de educação é considerado o melhor do mundo junto ao chinês e ao finlandês, sendo exportado para o mundo criando escolas baratas e de altíssimo padrão onde quer que sejam encontradas. Sua língua, baseada no alfabeto silábico hangeul, é vista hoje como uma das línguas mais bem estruturadas do mundo, guardando uma riquíssima cultura. Com a abertura ao mundo, a Coréia alçou em menos de 20 anos vôos simplesmente impensáveis, como ter hoje um dos circuitos de Fórmula 1 mais modernos do mundo, além de seu altíssimo desempenho em esportes (o que a Coréia do Norte, mesmo com o totalitarismo favorecendo esportes, nunca conseguiu), a ponto de criar sua própria arte marcial, o Tae Kwon Do, e tecnologia (as versões coreanas de marcas importantes, embora nem sempre igualáveis às originais, são fonte de equipamentos eletrônicos baratos a todo o mundo). Em 1978, o PIB da Coréia do Sul foi quase quatro vezes maior que o do Norte. Hoje, apenas duas décadas de democratização e liberalismo depois, o PIB da Coréia do Norte corresponde a apenas 3,1% do da Coréia do Sul. Tal fato não impede o Querido Líder de gastar com guardas de trânsito femininas escolhidas a dedo por ele para funcionarem como semáforos humanos em ruas sem carros, nem dos projetos faraônicos como uma cidade inteira para mostrar a superioridade comunista em relação ao sul – a cidade de Kijong-Dong, com prédios sem vidro, paredes ou salas: apenas muros de concreto, numa cidade fantasma onde ninguém mora. Isso sem falar nos gastos com conhaque (US$850,000 gastos com Hennessy anualmente) e, claro, as armas nucleares.

Kim Jong-il, o Christopher Hitchens deles

Kim Il-sung, o pai de Kim Jong-il, possuía uma contradição em relação a outros comunistas: era praticamente um desconhecido, inclusive dos comunistas coreanos. Graças a isso, não houve resistência à sua ascensão à liderança do partido, nem mesmo por parte da União Soviética, acreditando que seria fácil controlá-lo.A guerra da Coréia já foi uma mostra do poder de Kim, por Stálin, finalmente, após um ano de pressão, ajudá-lo a invadir o sul. Mesmo com a guerra terminada poucos meses depois da morte de Stálin, a Guerra Fria coreana nunca mais terminaria. Três milhões de norte-coreanos fogem do norte para o sul durante a guerra. Até 1987, foram 1,663 milhões de coreanos mortos. Mais de um vigésimo do país.

A Coréia do Norte foi o único país a se aproveitar do stalinismo mesmo depois de Stálin morto. A figura do Grande Pai seria importante para Kim Il-sung injetar um caráter mitológico ultrapassando as raias do ridículo para a preparação de seu filho, Kim Jong-il, como seu sucedâneo. Mas logo o líder soviético foi sendo paulatinamente trocado por um fortíssimo apelo nacionalista: desde 1997, três anos após a morte de Il-sung, quando finalmente assumiu todos os cargos que seu pai ocupava, o “Querido Líder” se cercou de uma corte e, com hábitos esquisitíssimos e cafonérrimos, aproveita todo o luxo e ostentação do Ocidente, ao mesmo tempo que tenta livrar seu feudo de qualquer possibilidade de influência, mesmo cultural, externa. Aqui vemos um belo compêndio, no mesmo documentário, mostrando os hábitos do ditador em seus momentos de maior intimidade:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=SXQ8unERVTE[/youtube]

A doutrina aplicada por ele, o socialismo juche (que chega a ser quase oposto ao socialismo baath, de, entre outros, Saddam Hussein), prega a completa auto-suficiência do país em relação ao mundo, embora, como visto, a Coréia só não morre de fome por dinheiro chinês e russo. O país abandonou parte das doutrinas stalinistas (embora também seja descendente direto do leninismo) para uma doutrina xenófoba que busca “pureza racial” aos moldes nazistas.

O corte de contato com o mundo exterior é patrocinado pelas forças armadas. Um departamento do partido tem como principal função verificar se os rádios nas casas das pessoas está sintonizado em freqüências fixas, que permitiriam transmissões do exterior.

Como todo socialismo, além da retórica, há o dinheiro: altos funcionários são muito bem pagos, como generais do Exército, sem falar nas autoridades do partido e da polícia. Os mitos sobre sua pessoa que são passados à população são um show de criatividade: as cartilhas do governo dizem que Kim Jong-il não produz urina ou fezes. Seu nascimento teria sido “sobrenatural”, com uma nova estrela e um arco-íris duplo o “anunciando”, além de um iceberg falante. As estações do ano também teriam repentinamente mudado de inverno para primavera (também não entendi se o iceberg sobreviveu). Toma essa, Moisés.

Foi isso que o mundo perdeu. Não foi um dos ditadores que Lula chamou de “meu amigo, irmão e líder”, nem um destes ditadores que acabam fazendo com que os terroristas que o colocam no poder ganhem o Nobel da Paz, mas não custa também lembrar que, quando o Brasil quis uma vaga no Conselho de Segurança da ONU em 2009, sabe lá Deus pra quê (o que faria se o Querido Líder resolvesse jogar uma bomba atômica no seu antigo inimigo, o Japão, por exemplo?), pensou seriamente em abrir uma embaixada em Pyongyang, quase enviando o embaixador Arnaldo Carrilho para a capital, quando qualquer apoio à candidatura brasileira ao assento permanente no Conselho de Segurança era lucro – inclusive bajular e defender com votos o programa nuclear iraniano. O teatro dos vampiros só não deu certo por um teste nuclear realizado pouco antes da viagem do embaixador – só assim para Celso Amorim dar pra trás. Sequer a Alemanha, que tem 30% de sua energia vinda de usinas nucleares, possui assento permanente, visto ser a derrotada da Segunda Guerra.

Com um país governado tão personalisticamente por um ditador que ditava moda, o mundo tem de ficar de sobreaviso a qualquer novo chilique que passe pela cabeça de seus líderes atômicos. Mas, de fato, há que se comemorar o fim de uma era, e torcer para seu filho, Kim Jong-un, ser alguém provavelmente brega, mas menos desbaratadamente demente. Os riscos são grandes: mas se comemoro até morte de barata, não vejo motivo para não comemorar morte de um ditador sanguinário. Fica aqui uma música para celebrarmos.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=3BN1jSpiyIM[/youtube]

¹: Archie Brown, Ascensão e Queda do Comunismo. São Paulo: Editora Record, 2011. p. 139.

²: idem, p. 395.

³: citado de Christopher Bluth, Korea (Polity, Cambridge, 2008), p. 11

4: citado de Dae-Sook Suh, “A Preconceived Formula for Soviezation: The Communist Takeover of North Korea”, The Anatomy of Communist Takeovers (Yale University Press, New Haven, 1971), p. 475-89.

Com piadas devidamente kibadas de @giovsr@mlklaser@rbressane e @gustavo_cbb

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Saddam Hussein foi sacaneado pelo filme do South Park. Kim Jong-Il, por Team America. Tá notando notando um padrão na parada? No Twitter, @flaviomorgen

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