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Na blogosfera de Luis Nassif, Cuba e Didi Mocó

por Flavio Morgenstern

No portal blogosférico que Luis Nassif hospeda, o “Portal Luis Nassif – construindo conhecimento“, saiu um texto postado por “dalva de oliveira” intitulado Cuba, melhor país de América Latina para as crianças. O pastiche começa afirmando com uma fonte azul horrorosa:

O representante de UNICEF em Cuba, Juan José Ortiz, declarou que o país caribenho é o que apresenta a melhor qualidade de vida para as crianças de entre todos os Estados latino-americanos.

Quem afirmou que Cuba é o melhor país para as crianças? O representante de UNICEF em Cuba. Entenderam? Um dançarino cubano que, graças às suas aulas de salsa, virou embaixador da UNICEF. O embaixador da UNICEF no Brasil é Renato Aragão, o nosso famoso Didi Mocó, cujas opiniões sobre o futuro das criancinhas sensibilizam todo ano nossos corações na Rede Globo, pedindo dinheiro para o Criança Esperança (melhor não perguntar o que a família de Zacarias e Mussum o que acham da caridade toda do Renato Aragão, que se desvinculou dos “Trapalhões” para largar seus ex-companheiros na pindaíba). Didi Mocó também tem opiniões sobre outras coisas além de crianças: escreveu um livro elogiado pela Academia Brasileira de Letras que inclusive tem uma cena de sexo. É um pouco pior do que a cena de sexo de Team America.

O Didi Mocó deles prossegue explicando por que acha que Cuba, apesar de comunista, é o melhor regime para as criancinhas:

Estados [latino americanos] estes que apresentam, em diversos graus, problemas como a falta de escolarização, de assistência sanitária ou agressões como a exploração laboral e sexual (problemas que não só afetam a América Latina como às crianças de todo o mundo capitalista).

A Cuba revolucionária é um exemplo na aplicação prática da Convenção dos Direitos das Crianças da ONU, destacando a UNICEF que Cuba supera as suas dificuldades economicas e escassez de recursos pela vontade política do governo para o qual esta, entre outras questões, é uma prioridade à hora de desenhar as suas políticas globais.

Ora, Cuba melhorou a Educação e a Saúde, isto é um fato. Assim como acabou com a miséria extrema. Mas o que a esta galera que ainda sonha que o socialismo é algo parecido com as Aventuras de Toddynho ou a rave de Zion no Matrix 2 e que acha tudo em Cuba lindo (mais ou menos como europeu acha tudo na Tanzânia lindo) esquece de alguns pontos.

A educação de Cuba, tal como a da URSS, resume-se ao básico que permita uma doutrinação mais eficaz. É difícil dizer prum analfabeto bóia-fria que político é tudo lindo. Já prum alfabetizado que lê o Manifesto desde criancinha, é facílimo dizer que aquele barbudo que mandou prender o seu vizinho e matar seu cunhado é um deus, porque “te tirou da miséria”.

Cuba forma médicos (que cuidam muito do básico e pouco de uma robot assisted laparoscopic radical prostatectomy), a URSS formava engenheiros (que só se tornaram os melhores do mundo após aprenderem com alemães capturados na 2.ª Guerra). Quantas doenças Cuba conseguiu curar e quantas qualquer indústria farmacêutica extremamente corrupta (estão entre as mais corruptas do mundo) conseguiu? É fácil tirar algumas conclusões daí.

Mas se o assunto é Educação, quem já viu Cuba formar economistas? Qualquer um que estude Economia sabe que o regime cubano poderia garantir muito mais riqueza para cada um se fosse aberto à liberdade econômica. Já viu Cuba formar cientistas políticos? Juristas? Historiadores especializados em Revolução Americana? Filósofos com especialização em liberalismo? Não, porque um regime que vive do básico, um regime de subsistência, não agüentaria o peso da verdade.

Enquanto Cuba tem 2% de analfabetismo (os EUA têm 3%), países que aumentaram sua liberdade econômica e individual absurdamente têm índices de analfabetismo ainda menores do que Cuba. Inclusive, conseguiram isso muito mais rapidamente. Por que brasileiro não se encanta com a Coréia do Sul, que no começo dos anos 80 era um regime autoritário, conservador e corrupto, e hoje tem os melhores alunos DO MUNDO (melhores do que qualquer cubano)?

É dito que todo cubano tem um almoço nojento “dado pelo governo” (mentira: qualquer economista sabe que governo nenhum produz riqueza; ele toma da produção dos trabalhadores e finge que “dã” em troca). Enquanto isso, sul-coreano vai pro trabalho de Hyundai, empresa que hoje produz carros tão bons quanto uma Toyota da vida. Tudo quanto é produto coreano há poucos anos eram versões ruim dos asiáticos e americanos, e hoje já estão entre os melhores do mundo. Vamos comparar o nível de vida e riqueza média de um sul-coreano com um cubano? Ou isso é tabu?

No aeroporto José Marti, principal de Cuba, damos de cara com um out-door afirmando: “Hoje 200 milhoes de crianças irão dormir na rua – nenhuma delas é cubana.” Que tal analisar quantos sul-coreanos passam fome e vivem na miséria? Quantos suíços (outros campeões em educação)? Quantos islandeses? Quantos belgas? Quantos austríacos? Quantos noruegueses? Ou foi apenas Cuba e outros países totalitários socialistas que melhoraram a vida dos pobres?

Sempre que se cita um país da Escandinávia, aliás, lembram que lá há “Estado de Bem-Estar Social”, e é tudo mais estatal do que o modelo “neoliberal” e “privatizante” do FHC e companhia. Então, por que estão entre os primeiros em liberdade econômica no mundo, e nós quase entrando na metade do mundo com menor liberdade?

É claro que o totalitarismo traz vantagens. O mesmo ocorre hoje com as empresas chinesas: um investidor prefere investir em uma empresa estatal controlada pelo Partido, que tem o interesse óbvio em fazer a coisa funcionar, do que em lidar com burocracias e trâmites legais de democracias, liberais ou não. Mas e para a população no dia-a-dia: é uma vantagem?

Qualquer totalitarismo melhora alguns padrões, pois do contrário não se sustentaria. Mas sempre são os básicos. Vide que todo país totalitarista tem os melhores esportistas do mundo (os EUA, pelo tamanho e investimento, são o único país do mundo campeão de Olimpíadas sem ser uma ditadura). Mas por que só se olha para a “Educação” e saúde cubana, que são apenas básicas (não têm nem um caderno de Economia que preste no jornal), e não olham para países com mais educação e que conseguem fazer isso sem precisar dar só o básico e sair prendendo e matando quem quer um sistema que permita muito mais? (e o nível de vida da população não se deve apenas à educação e saúde.) Entre uma ditadura sanguinária que dê o básico como Cuba e uma ditadura menos sanguinária que dê uma das maiores rendas per capita do mundo, educação ainda melhor do que a cubana, saúde, segurança e toda a possibilidade de riqueza que só o livre-mercado é capaz de fornecer como Singapura, por que iria preferir Cuba?!

O fato de nós, brasileiros, desconhecermos completamente essa realidade lá fora e só pensarmos em “Cuba e Revolução Russa” (dadas nossas aulas de História igualmente doutrinárias, que já estão no mesmo padrão de qualidade cubano), mostra que nossa Educação é deficiente até pra quem tem dinheiro e pôde se educar. Alguém acredita que em Cuba é diferente? É de se duvidar muito que uma aula de História em Cuba olhe proa algo além do próprio umbigo e se preocupe em mostrar, por exemplo, como o nível de vida mundial melhorou com o comércio (pegue-se um exemplo aleatório, como a renda per capita japonesa antes e depois da maior privatização do mundo). Já pensou se eles descobrem como é a vida na Coréia do Sul? Deve ser por isso que existe uma tal de censura em Cuba. É essa a “Educação gloriosa” cubana? Me ne frego.

Temos uma dica gloriosa para os cubanófilos que Luis Nassif abriga em seu blog: quer garantir um nível de vida cubano para as criancinhas? Pegue aquela turminha dos cursos de extrema-Humanas da USP que fumam maconha e invadem reitoria (nota de corte: 3,3), tire o Toddynho e, talvez, até piore um pouquinho a Educação. Aí é só pedir pra eles terem filhos sem ajuda de custo dos avós (chame isso de “embargo econômico). Ainda assim, eles provavelmente terão um consumo de calorias por cabeça maior do que a média cubana. Só precisa piorar.

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. É pobre, e ainda dá quase 40% do que ganha pro governo. Comparando com a economia informal de Cuba, a diferença entre sua vida e a vida de uma criança cubana é apenas ter empresas legalizadas por perto. No Twitter, @flaviomorgen

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