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Na Carta Maior, negros servem é pra futebol

 por Flavio Morgenstern*

 

Um tal de Marcelo Salles pergunta retoricamente na Carta Maior, embaixo de um banner da Petrobras (ou seja, em cima do seu dinheiro): por que não chamar o terrorista norueguês de “ultracapitalista”? Sua resposta também retórica é justificada com a afirmação de que a revista Veja o chama de “ultranacionalista”. Minha resposta nada retórica o lembra que, afinal, sendo ultranacionalista, não pode ser ultracapitalista, que é um modelo inapelavelmente globalizado.

O tal Salles também reclama das “variantes usadas no restante das corporações de mídia (atirador, terrorista, extremista e outros tantos, que confundem muito mais do que explicam)”. Estranho que uma palavra como “atirador” confunda mais do que explique: ele não atirou? Ou foi na pedrada? Na estilingada? E não é “terrorista”? Aliás, não estava a esquerda reclamando ontem mesmo que “a mídia” supostamente não o teria chamado de terrorista?

Quem nos lembra disso é o próprio tal Salles: “São confiáveis esses veículos de comunicação que imediatamente após o tiroteio apontavam o dedo para um providencial ‘extremista islâmico’? — versão que, aliás, não resistiu a 24 horas.” – quer dizer que, ao constatar que o rapaz não é muçulmano (e foi a polícia que o constatou, não a “mídia”), ele imediatamente também deixa de ser terrorista – rótulo “que confunde”? E eu achava que a Carta Maior seria o último lugar onde veríamos preconceito com muçulmanos…

Há uma explicação aqui: a esquerda reclamou, durante essas supracitadas 24 horas, que “a mídia” não o chamou de terrorista, mas se fosse islâmico, com certeza o teriam chamado desta forma. O problema é que… bem, a imprensa o chamou sim de terrorista, e bem rapidamente. Com a palavra se alastrando, foi melhor fingir então que denominá-lo assim é que é problemático. E que “confunde”. O que se “esquece” é que, se ele fosse de esquerda, ganharia o risco de estampar camisetas de universitários por aí.

Pergunta o tal batráquio: “Estou sendo radical? O capitalismo não prega genocídios? O capitalismo tem um lado humano?” Respondo: Sim. Não. Talvez. O talvez é devido a outro ponto levantado pelo tal Salles: “Estou me referindo ao que é escondido (o trabalho escravo ou semiescravo e a máquina de moer essa gente que trabalha por um salário mínimo de fome)”. Ora, talvez minha definição de “trabalho escravo ou semiescravo” signifique ser obrigado a trabalhar. Via de regra, com um chicote no lombo. O capitalismo, e ninguém cuidou mais disso do que o próprio Marx, é o sistema dominado pelo capital, em que se ganha pelo que se trabalha. Ou seja, o capitalismo foi o único sistema econômico da História a abolir o trabalho escravo. Nenhum outro o conseguiu. Muito menos vocês-sabem-qual.

Mas esse é o blá blá blá de sempre. Como reclamar da crítica do terrorista Breivik ao multiculturalismo. Ninguém menos do que o último marxista que presta, Terry Eagleton, no recém-lançado O debate sobre Deus – Razão, fé e revolução, tasca na cara da esquerda (p. 135):

“O multiculturalismo, em seu aspecto menos atraente, ostensivamente abraça a diferença como tal, sem examinar muito de perto o motivo que a gera. Sua tendência é imaginar que existe algo inerentemente positivo em ter um leque de diferentes visões quanto ao mesmo assunto. Seria interessante saber se esse é o caso quando se trata de indagar se o Holocausto algum dia ocorreu.”

Mas o tal Salles adora o discurso pregador da moral que diz que qualquer pessoa que discorda dele é autoritária e se acha dona da verdade, não reflete e prega o ódio ao próximo ao invés de olhar para os próprios defeitos, atribuindo sempre a culpa ao outro. E emenda: “A propósito: o nazismo não era capitalista? Se não, o que era?” O que era o NSDAP, o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, o Partido Nacional-Socialista dos trabalhadores Alemães, sr. Marcello Salles? Ora, é difícil ter de explicar isso sem ter vontade de se dar descarga em si próprio, mas era nacional-socialista. Uma versão nacionalista, porque racista, do que o senhor prega. Mas será que é só o Partido Nazista alemão que é racista, e suas visões são tão distantes assim?

De repente, o tal Marcelo Salles muda completamente de assunto:

“É evidente que o genocida norueguês nunca assistiu a um desfile da Estação Primeira de Mangueira. E nem viu um Neymar da vida jogando. Muito menos teve a oportunidade de apreciar uma partida como a de quarta-feira, entre Flamengo e Santos. Ali, na Vila Belmiro, quando todos os deuses do futebol (que não são nórdicos, por suposto) baixaram simultaneamente em campo, ficou provada a existência de milagres. Esses milagres que permitem uma jogada como a do terceiro gol do Santos, quando o miscigenado Neymar fez com a bola algo que desafia a compreensão até mesmo dos deuses. Esses milagres que fizeram com que o Flamengo virasse uma partida após estar perdendo por três gols de diferença, sendo que o miscigenado Ronaldinho fez três e foi chamado de “gênio” pelo melhor jogador do mundo na atualidade. (…) Deve ser duro para os racistas ouvirem isso, mas a verdade é que esses milagres nascem justamente com a miscigenação que as teorias nazistas repudiam. Futebol e música soam melhor quando tem mistura, é assim em qualquer lugar do mundo.”

Em primeiro, a principal diferença entre o socialismo e o nacional-socialismo mostra-se esponjosa aqui: esse tal Marcelo Salles também é nacionalista. E parece ser anti-nórdicos, apesar de defender a “miscigenação”.

Mas o pior é sua conclusão: então defende o tal Salles os negros porque… eles jogam futebol bem. Afinal, já viu o Marcelo Salles negros fazerem outra coisa bem além de jogar futebol? Negros, em sua visão, servem é pra fazer milagres com uma bola – mas, ora, devemos combater o racismo e respeitá-los em sua condição de seres que servem para nos entreter. Se o negro precisa de um emprego, basta lhe dar uma bola ou uma lata para ele bater e ser animal exótico para turista ver.

Os exemplos dados sobre negros que deixam brancos comendo poeira não são de homens como Thomas Sowell, o maior economista vivo do globo – que, por sinal, de esquerdista não tem nada. Não são intelectuais como Walter Williams. Não são bastiões das artes como Machado de Assis, Cruz e Souza, Capistrano de Abreu, Lima Barreto. Não tem nem uma porcaria de um Obama na lista. Negro, para esse pensamento (com o perdão da hipérbole), é futebol, samba e macumba. Se os negros não vão à ópera, os brancos vão ao baile funk. E assim se atinge a tão sonhada igualdade.

São os descolados classe média alta que fazem concurso público para ganhar mais e trabalhar menos, e defendem que todos deveriam poder trabalhar para o governo – inclusive ele próprio, com concursos mais fáceis, que exigem menos estudos. Não são cabeças muito afeitas a se perguntar de onde vêm o dinheiro que o governo usa para pagar seus salários torrados a rodo – não são cabeças que já se perguntaram por que é “moralmente errado” trabalhar para uma empresa, e correto para o Estado, muito menos por que o Estado “moraliza” o dinheiro que não vem senão tungado das empresas.

É a turma progressista politicamente correta que se acha completamente tolerante e sou da paz porque trata bem o seu pedreiro. É a turma elitista e preconceituosa das cotas e do “preconceito lingüístico” do Marcos Bagno, que quer defender os negros porque acha que eles nunca saberão usar um objeto pessoal do caso oblíquo – e devem ser “tolerados” por isso. É a galera do bem que acha

que um negro nunca escreverá (nem apreciará) uma ópera como Lohengrin ou Idomeneo Re di Creta, então se acham muito culturais e pró-humanidade indo ouvir maracatu na Vila Madalena. Aliás, até entram na onda e vão buscar baseado na boca da favela – praticar um pouco de “distribuição de renda”. Assim, se tornam muito mais “multiculturais” do que os “reacionários”… uma boa favela para buscar bagulho é a do Morro do Cantagalo, em Ipanema, onde fica o Ciep Presidente João Goulart, da Secretaria Municipal de Educação, que, com AfroReggae e Criança Esperança, obtém os piores resultados do Rio de Janeiro. É o resultado em números do bom-mocismo de nulidades como Marcelo Salles et tutti quanti.

Não são pessoas que acreditam que negros e brancos sejam todos do mesmo sangue, só mudando a cor da pele. É uma gentinha que acredita em “raças”, mas é do bem porque também acredita que uma mereça “compensação histórica” sobre os filhos da outra (descontando-se que os negros e árabes foram muito mais escravizadores do que os brancos, como atesta a História da África e suas eternas querelas entre tútsis e hutus, tão “ignorada” pelos professores de História brasileiros). Não foi senão um insuspeito Adolf Hitler que fez a contragosto uma saudação ao atleta negro Jesse Owens nas Olimpíadas de Verão de 1936, em Berlim. É uma admissão tão “cortês” quanto a defesa dos negros por se admitir que eles nos entretêm mais do que os brancos no futebol. Ademais, como ficará seu glorioso argumento se o Brasil ou Gana perderem para a Holanda ou a Suécia na Copa?

 

Bananam et circeneses

O tal Marcelo Salles, que pouco sabe sobre nazismo, e menos ainda sobre capitalismo, poderia ter lido o fabuloso ensaio El Origen Desportivo del Estado (El Espectador, vol. 7), de Ortega y Gasset – talvez o mais importante filósofo político do séc. XX, e não por outra razão escorraçado e proibidão nas faculdades que lidam com política. Lá, aprenderia que a atividade esportiva, como a primeira atividade humana, é despropositada, luxuosa, supérflua – e, portanto, a atividade realmente criadora da vida. Como tal, não é à toa vê-la pautando, por emulação, o Direito Internacional e a estrutura dos debates parlamentares democráticos. Não foi, portanto, o Direito que instituiu a lei como melhor meio de convivência em sociedade, e o esporte a imitou – foi exatamente a atividade lúdica do esporte que, sem pretensões muito maiores do que reunir um bando para roubar mulheres de outras tribos, definiu as primeiras regras, e o primeiro fair play para a vida em sociedade.

Por outro lado, não foram senão forças retrógradas, entre a direita progressista e a esquerda populista (que adotou essa tática após seu fracasso retumbante), que se aliaram ao esporte para controlar as massas – o que sai mais barato do que o Estado policialesco que o socialismo defendido pelo tal Marcelo Salles e seu irmão gêmeo fascismo propõem. Não é uma novidade, portanto, o culto ao corpo e a submissão voluntária das massas a regras de comportamento que limitem suas possibilidades de ação, que regem todos os Estados totalitários, de Esparta até a China. O Estado totalitário precisa de uma unidade que nunca poderá ser encontrada no modelo liberal e seu culto ao individualismo: daí que sempre busque “um homem ideal”, e tente prová-lo em disputas com outros Estados, como foi o uso das Olimpíadas por tiranos como Hitler e Kim Jong Il, na última Copa do Mundo – num regime, aliás, bem afeito ao que o tal Marcelo Salles defende.

Não é difícil entender por que tantas pessoas preferem o caminho disputado e globalizado do esporte (não soa bem capitalista e “desumano”?) se nascem em ditaduras, sobretudo os totalitarismos que grassaram no séc. XX –o fascismo e o comunismo. É um meio fácil de ascender e ter algum poder de barganha com o governo para salvar a própria pele – ou picar a mula, como mostram os pugilistas cubanos que Tarso Genro entregou para Fidel. Mas não são senão com reflexões como a de Ortega e de seu amigo, o historiador holandês Johan Huizinga (outro proibidão nas faculdades) em Homo ludens, que se compreende por que os Estados máximos sempre promoveram o esporte – sejam as medalhas sempre conquistadas por Romênia, Hungria, Alemanha Oriental (que decaiu muito esportivamente quando Dresden e Dessau voltaram à democracia), União Soviética e, em seu esteio, Cuba e China, seja mesmo a relação da ditadura militar populista sul-americana com o futebol.

Não sem razão Ortega e Huizinga concordam com a visão do esporte como uma atividade primitiva do homem, porém, não a vêem em sentido denegritório: não é senão o esporte o criador, e não se vê senão decadência entre sua força e sua honestidade e ulterior a corrupção das sociedades. Mas o esporte não deixa de ser, como a guerra, atividade essencialmente masculina e ligada á força – o que fez com que a esquerda, até idos dos anos 70, ligassem o esporte sempre com a reação, com a inanição das massas para a revolução. Foi justamente a manipulação política do esporte e sua comercialização sem peias que permite a ascensão de um oligopólio ao poder com apoio das massas.

Quer entender por que o tal Marcelo Salles escreve tanta bobagem flertando perigosamente com o racismo mais deslavado? Suas próprias bobagens o explicam.

(Post Scriptum: O tal Marcelo Salles assina dizendo que é jornalista e “colabora com outros veículos de comunicação democráticos”. Para quem não sabe, um “veículo de comunicação democrático”, ao contrário da tal “mídia”, é um veículo que pede verba do governo para sustentar burguesinhos saídos de faculdades de jornalismo que não sabem escrever nem jogar futebol, pois, sem o governo, faliriam; ou seja, o “veículo de comunicação democrático” é o que te obriga a pagar por ele mesmo que você não o leia.)

 

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Além do Implicante™, colabora com outros veículos de comunicação aristocráticos – mas se você não quiser o ler, não vai pagar nada por isso. No Twitter, @flaviomorgen

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