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O voto Tiririca na extrema-direita da USP

* por Flavio Morgenstern

Saiu no portal iG a notícia: Extrema-direita universitária se alia a skinheads. Uma chamada que nem precisava da ênclise para ser assustadora. Aquele povo magrelo caxias, que vai pra faculdade de camisa social por dentro da calça, sem voz nos cursos de Humanas por serem cristãos, estão mancomunando-se a skinheads fortões e briguentos, com tatuagens de cruzes de malta com caveiras, para defender seus ideais. Um risco que a USP não deveria enfrentar.

Não mesmo. Poucas coisas são mais parecidas com o extremismo de esquerda do que o extremismo de direita. Poucos fanáticos se parecem com um moderado, embora fanáticos completamente díspares sempre se pareçam um bom bocado entre si. Antes de tentar enxergar um antagonismo leve demais entre “esquerda” e “direita” na extrema-esquerda e na extrema-direita, é de bom alvitre perceber uma muita mais óbvia confluência no fator “extremo”.

Segundo a reportagem do iG, uma tal União Conservadora Cristã (UCC) merece virar notícia porque seu “núcleo duro” (4 membros, ui!) defende valores ultra-conservadores (aquela papagaiada de casamento, ativismo anti-drogas, faniquitos homofóbicos bastante afetados), além das típicas viagens maionesísticas tão propaladas por Olavo de Carvalho, como Geraldo Alckmin colocar “uma mordaça gay na sociedade paulista” (HUAEhUAEhuAEhuAEhu), ou “a pedofilia na Igreja ser fruto da infiltração de agentes da KGB” (HAEUHUAEhuAEhuAEHuhuAE!!). A tal União Conservadora Cristã tem 16 membros, sendo 14 da USP.

Algo merece virar notícia ou por seu caráter insólito (como um anão vestido de palhaço que mata 8 na Croácia), ou por sua importância para o leitor (a corrupção no Estado brasileiro é a mais trivial e manjada das manchetes políticas, mas não deixa de merecer sempre a capa das revistas). Fica então uma dúvida séria para o iG: como 14 magrelos guris de apartamento que simplesmente dizem apoiar skinheads merecem mais destaque do que a desforra que é a tomada da USP pela extrema-esquerda há… bem, meio século?

Claro que reclamo disso para proteger meu próprio rabo. Eu também tenho uma proto-chapa para o DCE da USP (a proto-chapa é minha e eu chamo do que eu quiser). Ela também vai contra todos esses que estão aí, há décadas dizendo que são contra tudo isso que está aí. É a Chapa América, e nós também queríamos aparecer no iG pela defesa intransigente e fanática de ideais radicais e extremistas. Entre nossas propostas, arrole-se:

  • Privatização imediata da Universidadepúblicagratuitaedequalidade.
  • Extinção de 80% de vagas na FFLCH, com 50% de cotas para gostosas nos vestibulares da Faculdade, além de troca do curso de Ciências Sociais pelo de Mercado de Capitais e Especulação Financeira.
  • Passagem total para a PM no campus da Universidade, com postos policiais permanentes localizados na praça da FFLCH.
  • Execução do glorioso hino nacional americano The Star-Spangled Banner diariamente, na abertura e encerramento de atividades da Universidade.
  • Fim da estabilidade do servidor público. Faltas e vagabundeagens serão administradas com demissão sumária sem resgate do fundo de garantia.
  • Patrocínios com grupos empresariais como ITAU, SOUZA CRUZ, GERDAU, USIMINAS com o objetivo de trazer influxo de recursos para troca de carteiras e equipamentos.
  • Privatização do Bandejão, transformando-o em um praça de alimentação com Applebee’s, Outback e Starbucks.
  • Renomeação dos prédios da FFLCH para Ronald Reagan Building e Margaret Thatcher Complex.
  • Palestras de Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Leandro Narloch e Luiz Felipe Pondé sobre o tema “Neoliberalismo como meio de desenvolvimento e educação”.
  • Grupos de estudo do Livro Negro do Comunismo e dos Axiomas de Zurique, além de obras como Capitalismo e Liberdade (Milton Friedman), A Revolta de Atlas (Ayn Rand) e O Caminho da Servidão (Friedrich Hayek).
  • Auditorias verificando se a cada vez que nomes como Marx, Trotsky, Gramsci, Adorno ou Lukács são citados, menções elogiosas a Mises, Hayek, Sowell, Friedman, Jouvenel, Rothbard, Bastiat ou Ortega são feitas imediatamente e em igual ou maior quantidade.
  • Criação de estátuas de bronze em tamanho real de Ayn Rand entre os prédios de Sociologia e Letras e de Ludwig von Mises no vão do prédio de História.
  • Aproximação com as Universidades americanas da Ivy League com troca de intercâmbio e pesquisas acadêmicas em liberalismo, em troca de patrocínio através de vaquinhas para os estudantes que querem defender partidos socialistas na Índia ou no Cazaquistão consigam suas passagens.
  • Devolução do Brasil para Portugal (todo mundo com passaporte europeu, nossos times jogando na UEFA e ainda ganharemos em euro!).

Por que não merecemos o mesmo marketing do iG? Só porque somos apenas uma proto-chapa, e não uma chapa? Falta radicalismo? Falta extremismo? Falta fingir com mais empenho que o DCE serve para alguma coisa?

Há de se entender o que significa o surgimento de organizações como a tal UCC (em plena USP, não tinha nome menos cretino do que algo cuja abreviação é pronunciada como “o cecê”?): elas são uma conseqüência, um efeito, não uma causa eficiente. E a causa é que se pode viver uma vida tranqüila e saudável sem esbarrar com sindicalistas barbudos de extrema-esquerda (e com cecê). Se não houvesse tanta extrema-esquerda na Cidade Universitária, transformando-a em uma colônia de férias comunista em pleno Brasil, não haveria UCC. Mas fazendo qualquer curso que não seja Medicina, parece impossível sobreviver na Cidade Universitária sem ter aulas interrompidas por militantes do PSTU, PSOL, PCO, LER-QI, MNN, Pão e Rosas e mais um sem número de organizações extremistas.

E essas organizações controlam o DCE, as greves, as invasões de Reitoria, interrompem aulas, fazem propaganda política ilegal em espaços públicos, manipulam funcionários, reviram lixo pelo prédio e são defendidas até pelos professores.

Quando a famosa “greve do lixo” do começo deste ano foi decretada na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, o antro dos comunistas dos cursos de extrema-Humanas da USP)  virou notícia pela quantidade de papel higiênico espalhada pelo prédio just for fun por matriculados vagabundos (ou alguém os chamaria de “estudantes”?), não vi nenhuma afirmação em algum veículo de comunicação, nem na chamada “mídia corporativista burguesa”, de que a Universidade estava sendo danificada, atacada e destruída por alunos “de extrema-esquerda”.

Isso cansa. No Brasil, ser de direita é ser de extrema-direita, e ser de extrema-esquerda é apenas ser de esquerda. Mas antes que um crítico da extrema-esquerda da USP possa comemorar, é preciso lembrar que é muito mais natural criticar radicalismo com mais radicalismo chumbreca do que com alguma seqüela de argumentação.

É o que fazem esses chongos da UCC. Cansou do radicalismo irracional do PSTU à luz do dia? Apele pros sentimentos contrários e pronto. Foi o mesmo erro da campanha de Serra em 2010: não apresente argumentos contra o PT, apele para valores que nunca são discutidos à luz da análise perfunctória, e faça campanha sobre aborto e se alie a pastores evangélicos retardados “pró-vida” sem sopesar ambos os lados.

Ninguém está livre de acabar se associando ao totalitarismo comuno-fascista – muito menos quem sofreu por ele. O ressentimento é bem conhecido por quem conhece Israel, e mesmo a paranóia de alguns judeus em considerar qualquer coisa “anti-semitismo” (recuso-me a escrever “antissemitismo” com SS, senhora Nova Norma). É o mesmo que se dá aqui, com pessoas que só atrapalham qualquer seqüela de senso do ridículo em ambos os lados. Se com 14 integrantes a chapa conseguiu o quinto lugar de votos, foi por serem votos de protesto de alguns que não agüentam mais viver tendo de lembrar de comunismo e Tchecoslováquia o dia inteiro. A UCC é o voto Tiririca do DCE.

A UCC vira notícia por serem alguns moleques mimados que finalmente surgiram na USP com um discurso ultraconservador. Ela é apenas uma reação de fanáticos nocivos igualmente ao discurso radical trotskysta que está lá há gerações, depredando e invadindo os prédios e impedindo aulas. E não custa lembrar que os Bolsonaros da esquerda são piores. Enquanto a nota sobre a UCC mobiliza todas as Universidades do país a olharem para a chapa com o desdém que ela merece, rola um Festival de Cultura Cannábica, com, ABRE ASPAS, “temas cannábicos, dicas de cultivo, bate papo ativista, ato em defesa do orgulho cannábico”, FECHA ASPAS, que também ganha espaço com artigo de defesa até no Observador Político – mas não tratam universitários queimando brenfa na USP como “notícia”, nem mesmo falam de extremismo já lugar-comum.

Se não há problema apontado pelas chapas de extrema-esquerda do DCE que não se resolva com um Starbucks gigante no vão do prédio de História, também não há nada no discurso molóide da UCC que não se resolva fazendo sexo mais do que uma vez por década. É uma conversinha típica de gente que não trepa. Os problemas da USP são muito fáceis de se resolver.

 

Novilíngua

O escritor mexicano Octavio Paz sabia que a principal forma de controle era sobre a língua. Assim também falou Nietzsche: nunca nos livraremos de nossos deuses enquanto não nos livrarmos de nossa gramática. George Orwell sabia disso bem, ao imaginar como uma sociedade totalitária perfeita criaria uma língua em que fosse impossível reclamar do Estado.

Palavras são signos, que representam conceitos. Se um físico sabe que existem mais de 100 partículas subatômicas, enquanto nos contentamos com “elétron e próton”, o mesmo se dá na taxonomia política. Cuidei do tema ao tentar explicar o que são “conservadores”, por que a defesa da mulher e seus direitos não é o mesmo que feminismo (inclusive explicando a espinhosa diferença entre um ateu e um agnóstico), não canso de tentar explicar princípios liberais e libertários para meus também incansáveis leitores.

Trabalhar com palavras exige uma delimitação perfeita do que são os conceitos que elas representam – as técnicas oratórias que políticos e advogados utilizam para engabelar suas audiências visam, justamente, fazer o contrário, arrolando e misturando um sem-fim de conceitos em uma só palavra, para espatifar a sintaxe e vê-la realocada justamente por seus cupinchas acadêmicos, e achar que se descobriu a cura do câncer no processo.

A reportagem do portal iG não foge a regra – diz:

“Em mais de duas horas de conversa, entre um cigarro e outro, o estudante citou pelo menos 15 autores conservadores, muitos deles nunca traduzidos para o português.”

É um problema, pois não poderia haver maior elogio a uma pessoa numa Universidade brasileira do que ler autores que seus professores não leram. E se há algo que não quero fazer é elogiar moleque mimado da UCC. É de se perguntar, por exemplo, se alguém do portal iG conhece os tais autores não citados (quem foram? Peyrefitte? Ron Paul? David Stove? P. J. O’Rourke? Horowitz? Santayana? S. E. Cupp?). Mas falam, por exemplo, no “integralismo (versão brasileira do nazismo) de Plínio Salgado”. Plínio Salgado, por imbecil que fosse, defendia judeus – logo, não era nazista, “apenas” fascista. Tentou-se apelar para uma dimensão psicológica da linguagem que não existe no original, aproveitando-se da ignorância do público a respeito – ou, na melhor das hipóteses, chutando hipóteses pelo próprio desconhecimento de causa. Por que chamar as coisas pelo nome dói tanto no Brasil?

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Óbvio que até o tal Celso Zanaro, o entrevistado do “núcleo duro” de 4 membros da UCC, mostra ser um parvoete que adora ignorar o assunto com que lida – ao falar de skinheads, ataca: “Eles se dizem de extrema-direita mas o líder deles é vegetariano”.

Deu pra entender? Se você é a favor do mercado, da família e de valores de direita, você é obrigado a comer carne. Afinal, a conditio sine qua non para ser favorável a planificações econômicas e revoluções é deixar de comer carne…

O que o trocinho faz é revelar a que veio: como reação pendular ao extremismo oposto, mostra que seu discurso também é pronto, comprado, lhe deram já mastigado em formato de papinha. Para ele, não aceitar a imposição comunista que grassa na USP é adotar um estereótipo padronizado, que inclui, mas não se limita a, ser fanático religioso, ter uma retórica reacionária contra inimigos genéricos e nunca individualizados e indigitados, acreditar que ter senso de ecologia é imposição dos quartéis do Kremlin (um erro histórico imperdoável), defender todos os erros e problemas do capitalismo apenas por acreditar que toda crítica ao sistema irá culminar fatalmente no genocídio famélico de Holodomor, não ser cristão é ser bolchevique e ser vegetariano destrói a família nuclear heterossexual.

A diferença principal entre um liberal e um conservador é que o primeiro não quer que o Estado seja tomado e inflado para ditar regras na vida de ninguém, enquanto o conservador odeia apenas os ditames estatais que influenciem no seu bolso, mas aplaude cada influência estatal se for para obrigar os indivíduos a acreditarem nas histórias da carochinha em que acreditam. A UCC é o PSTU católico.

Enquanto o Celso Zanaro e seus coleguinhas não aprenderem a distinguir cada lado e não perceberem que mesmo conservadores casca grossa como Roger Scruton conseguem lutar por direitos animais sem comprar um discurso tão pronto e estereotipado que parece saído de uma linha de produção soviética, o melhor a fazer para deixar a USP menos atolada de comunistas e papel higiênico usado seria calar a boca.

(com colaboração do Juliano Torres, do Liber, que ajudou no resgate das propostas da gloriosa Chapa América. God bless America!)

 

* Flavio Morgenstern é tradutor, redator e analista de mídia. Foi considerado “muito pouco de direita” pela UCC. Melhor elogio, impossível. No Twitter, @flaviomorgen

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