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Preconceito lingüístico e coitadismo lingüístico

O livro do MEC não é novidade no reino das Letras – é até fichinha perto da subserviência à ignorância que as faculdades obrigam seus alunos a aceitarem. O objetivo do plano tem, sim, a assinatura do PT.

„Gelernt habe ich dort nur Latein und Lügen.”
(Lá [na escola] aprendi apenas duas coisas: latim e mentiras.)
– Hermann Hesse (com a diferença de
que no Brasil não aprendemos latim.)

Neste momento já é consabido que o MEC aprovou o livro “Por uma Vida Melhor”, da professora Heloísa Ramos, que defende a idéia revolucionária de ser fisicamente possível falar “nós pega o peixe”, sem punição divina imediata com um raio nos fundilhos. O argumento é que o maior dos problemas em usar tal sentença nas CNTP é sofrer “preconceito lingüístico”. Em outras palavras, o maior problema está em quem ouve, não em quem profere.

Pela primeira vez o Brasil secular descobriu o que se estuda porta adentro das ignotas faculdades de Letras (visto que nenhum letrando parece dominar muito bem a gramática normativa) – por lá o que se faz são discussões bizantinas como o “preconceito lingüístico”, além de outras patranhas a respeito da “sociedade de classes”. Muitos “especialistas” em algo indefinido (especialistas em preconceito?) vieram a público explicar seu ponto de vista. Sendo uma área do saber humano em que há teorias rivais terçando armas entre si pela propriedade da verdade, é hora de um especialista no assunto mostrar o lado inverso dessa patacoada.

O preconceito lingüístico é um conceito marxista criada pelo sociólogo Nildo Viana como demonstração de outra forma de opressão e luta de classes. Seu maior defensor, calcado em escritos de Pierre Bordieu, é o professor da UnB Marcos Bagno. Seu opúsculo “Preconceito Lingüístico – O que é, como se faz” vendeu feito pão quente e colonizou mentes pós-púberes em todo o Brasil. Outro monumento à sabedoria simiesca de sua autoria é “A Norma Oculta – Língua & Poder na Sociedade Brasileira”. É um interessante exercício de antropologia escatológica descer às minudências malcheirosas destes livros.

Ciência petista

Após a publicação na imprensa do livro aprovado pelo MEC ensinando o molusquês (que angariou a bagatela de R$700 mil para a autora operária e R$5 milhões para a editora, num país famoso por sua incultura), que muitos afirmaram ser mais uma obra do petismo barbarizando o país. Não foi outro senão o próprio Marcos Bagno que veio a público defender a autora. Segundo o esbulho, quem está comentando o caso são jornalistas que não têm conhecimento sobre lingüística, que apenas confirmam mais preconceito. Lingüisticamente falando, não há certo e errado. E nada tinha a ver com o PT.

Conheço mais pessoas que entendem de psicologia evolucionista e álgebra abstrata do que bem versadas nos capilares ramos inquietos da Lingüística. Esta é uma ciência que analisa as línguas sob diversos pontos de vista, muitas vezes sanguinarimente conflitantes. Como se preocupa com a língua, e não apenas com documentos escritos sob gramática escorreita, está preocupada em entender se uma sentença é possível em uma língua ou não.

Assim, “os menino pega o peixe” é claramente uma sentença possível em português, mas não é em inglês nem em finlandês. Também “os pega menino peixe o” não é possível em português, por não produzir comunicação de significado, apesar de as palavras serem nitidamente do léxico da língua.

Tais exemplos seriam o Básico I do estudo da Sintaxe. Entender um livro de sintaxe exige profundo entendimento de orações subordinadas assindéticas e vastas leituras. O que só é possível ser realizado a contento com esmerado estudo da gramática normativa.

Mas o incível Bagno diz que pode demonstrar “cientificamente” seu ponto de vista: “de nada serve combater preconceito com preconceito: vamos, isto sim, tentar analisar os fatos com rigor científico” (A norma oculta, p. 25). Não é de se estranhar que logo após encaixe bem e dê pra trás uns 23 cm: “Embora eu tenha escrito que se trata de uma ‘inegável evidência’, é bom salientar que ela só é inegável para os lingüístas que, como eu, acreditam que o português brasileiro e o português europeu são de fato (sic)  duas línguas distintas” (op. cit., p. 49). Os teólogos da Universal invejaram o rigor científico.

Afirma que o conceito não é petista (mas também evita lembrar ao público que é rigorosamente marxista), enquanto na sétima linha de seu segundo livro supracitado encontramos o verbete científico “Luiz Inácio Lula da Silva”. Também comenta em defesa pro domo sua sobre “o discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado”, poucas linhas abaixo de “Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio”. Alguém precisa explicar para o menino Bagno o conceito de “contradição” enquanto ele inventa a primeira “ciência” em que as conclusões só fazem sentido votando-se na Dilma.

O cacarejador Bagno combate posturas “autoritárias”. Basta apenas votar em seus candidatos para cair no reino da liberdade e felicidade – assim como não demora muito para jogar às fauces do seu leitor que a gramática normativa é um produto do comércio!

Não despicienda é a observação de que sua eureka “científica” não se furta a escrever frases como ““Usamos ela segundo as nossas concepções”, para mostrar que não tem medo de falar “errado”. De minha parte, ainda espero um livro do sr. Bagno povoado de construções como “o pré conceito linguistico é tudo culpa das elite”. Não devemos valorizar a variação língüística?

Marcos Bagno, o metafísico

O sofisteco Bagno se diverte apresentando exemplos de erros gramaticais em jornais e revistas, bancando o esbirro de seus desafetos (a saber, qualquer jornalista que não declara voto no PT). A despeito de tarefa mais útil à humanidade ser procurar palavras que ainda não entraram no léxico de corretores ortográficos digitais (como “gramaticais”), não é preciso viajar com LSD para imaginar que esses jornalistas corrigiriam seus erros facilmente (mesmo que, por terem mais o que fazer, como as unhas, não percam seu tempo estapeando-se com Marcos Bagno), em vez de tentarem convencer seus leitores a “prestigiar falares variados”.

Diz o pacóvio: “acusar alguém de não saber falar a sua própria língua materna é tão absurdo quanto acusar essa pessoa de não saber ‘usar’ corretamente a visão” (op. cit., p. 17). Todo o busílis que instiga Bagno a apoucar a inteligência letranda e vomitar seu ódio à ensinança das crianças foi ter faltado às aulas de figuras de linguagem e, indouto no assunto, não saber identificar uma metonímia, a figura de linguagem que troca um termo por outro por relação de parecença!  A mesma figura de linguagem que permite construções ricas e econômicas como “Eu tenho um Picasso” (além da soberba e da mentira). Ora, algum lingüista precisa envidar muito esforço sináptico para perceber que dizer “não sabe falar português” é oração reduzida de “não tem capacidade de sempre que profere sentenças, seguir pari passu as complexas regras da gramática normativa atualizadas da língua portuguesa, última flor do Lácio, bela e inculta, e cada vez mais inculta”?!

Para o Bagno, portanto, a língua é suficiente quando o falante é nativo e consegue se fazer entendido. Apesar de lingüisticamente correto, tal parecer produz uma nova azáfama que passa longe do olhar “científico” do lingüista teenager: se um menino na favela da Rocinha diz “daê, jão, colé as nova cos alemão?”, estará falando português. Se um estrangeiro em visita ao Brasil tentar balbuciar: “Voltei da peruqueiro, mas onde ficar azogue?”, sendo da mesma forma compreendido (com igual dificuldade), estará falando português, mesmo com palavras e construções igualmente inexistentes na norma culta?

Afirma o alquimista: “Por estar sujeita às circunstâncias do momento, às instabilidades psicológicas, às flutuações de sentido, a lingua em grande parte é opaca, não é transparente” (op. cit., p. 19). É doloroso ver um lingüista defensor da variação confundir conceitos tão básicos de Ferdinand de Saussure (1857-1913), a langue (língua), unificada, e a parole, a fala, esta sim suscetível a “instabilidades psicológicas”.

Profere o caranguejo: “a língua é uma ‘coisa’ que é vista como exterior a nós (…): uma espécie de entidade mística sobrenatural, que existe numa dimensão etérea secreta, imperceptível aos nossos sentidos, e à qual só uns poucos iniciados têm acesso” (op. cit., p. 18). Ao invés de estar livrando a gramática de preconceitos da época metafísica em que se acreditava que a língua provinha dos deuses (os egípcios chegaram a trancafiar recém-nascidos num recinto fechado para ver se eles aprenderiam a falar a língua divina, o egípcio), o estraçalho Bagno está metafisizando a linha imaginária que delimita a divisão imaginária dos idiomas e tornando seu interior puro e desprovido de erros! O alemão, por exemplo, de norte a sul da Alemanha (fora Suíça e Áustria) é mais diferente do que o português é diferente do espanhol. Como fica a “capacidade lingüística” para o alemão, segundo Bagno? Só dividindo cada zona limítrofe em outra língua, acreditando assim que consegue esmagar a realidade até ela caber em sua teoria, como ele pretende fazer com o português do Brasil e de Portugal?

Para tal empresa, argumenta contra moinhos de vento a triste figura do desvairado que a norma culta da língua é “venerada como uma verdade eterna e imutável (cultuada)” (ibid, p. 54), informação tão longe da realidade que não há como contra-argumentar sem se sentir meio pirado por isso também.

E toda essa chorumela vem em nome de uma suposta “língua viva”, ao invés da língua dos gramáticos cujos exemplos são, oh horror dos horrores e pecado mortal!!, “tirados ou de sua própria imaginação ou, mais uma vez, de obras literárias” (op. cit., p. 45). O Ministério da Educação não tomará providências, açoitando esses perversos gramáticos até a morte e construindo uma estátua para Marcos Bagno, o homem que conseguiu a utilíssima façanha de separar a gramática e o acesso dos brasileiros aos livros de Camões, Fernando Pessoa e Camilo Castelo Branco, em prol de monumentos artísticos como Pavilhão 9 e Planet Hemp?!

Prossegue o alesmaido: “Hoje, no século XXI, a opção pela literatura como ‘modelo’ de língua a ser ‘imitado’ é, no mínimo, absurda. O impacto da linguagem literária sobre uma sociedade como a brasileira, por exemplo, é ínfimo.” (ibid, p. 48). Pois a contribuição de Bagno, usando a si próprio como exemplo, é mostrar que temos mais necessidade de papel higiênico do que livros de sociolingüística – embora acabe por confundir o que fazer com cada um deles.

O que o lusofóbico desconhece é a noção mais elementar e lógica do saber de Humanas: a norma gramatical segue o uso, e não o contrário. O parvo-rei faz crer a seus parvoetes discípulos que a norma gramatical foi criação de um bruxo maligno que determinou regras complexas demais para alguém que ganha menos de 2 salários mínimos por mês dominar, e dominadas ipsis litteris por cada dembargador, cirurgião-geral, engenheiro-chefe, jogador de futebol, dupla sertaneja e atriz global de sucesso, apenas com o fito perverso de separar os ricos dos pobres (BUAHAHAHAHAHA!!!!!), num abismo social que só poderia ser trespassado pelo mais hermético, arcano e danbrowniano instrumento de distribuição de renda: a gramática de Napoleão Mendes de Almeida. Queriam Marx e Jesus Cristo que a miséria mundial fosse assim tão fácil de virar fartura!

“Ya no hay clase alta, ni pueblo; sólo hay plebe pobre y plebe rica” – Nicolás Gómez Dávila

Por sinal, algum gramático ousaria discordar que a língua é “viva”? Quantos neologismos há nestas mesmas linhas, que provam ser a língua putaqueopariumente mais ampla do que a norma culta? Os ricos falam certo e os pobres falam errado? E a classe média, fala o quê? E, afinal, qual a vantagem dessa “vivência” toda? É melhor do que a língua de Camões, Machado de Assis, Petrarca, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Camilo Castelo Branco – que nenhuma gramática e dicionário são capazes de acompanhar? Guimarães Rosa, que demole a norma culta a cada linha, precisou ser coitadista como o patarata? Algum aluno do Bagno tem a destreza  para o ler sem auxílio da gramática normativa? Ou a língua viva, para nosso gramático com nojinho de livros, é a exaltação do lulês, da bibliofobia, do pedreirismo e do “Morro do Dendê é ruim de invadí – nóis cus alemão vamo si divertí”?

Que tal Bagno cuidar também do coitadismo poético para não termos preconceito com a feiúra do funk carioca? Ademais, uma das funções da linguagem não é justamente a estesia, achar algo bonito? Que tal o Bagno tentar o efeito com “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”, construção corretíssima por sua teoria, e tão poética e pura quanto uma overdose de supositórios?

A literatura moderna se acha revolucionária por espatifar a sintaxe. Os professores precisam sempre “justificá-la” fazendo o grande gesto de… desfazer a complicação. Sua temática é uma viadice de “angústias existenciais” entre cagar ou desocupar a moita. A literatura clássica possui sangue, decapitações, putaria, blasfêmias, paganismo, palavrões hirsutos, arrola tomos de filosofia em um prefácio. Qual é a maldita vantagem do ódio à tradição? De dificultar o contato do aluno com Eça de Queiroz para facilitar seu contato com É o Tchan? Se a discussão se escora na eliminação de preconceitos, por que não cuidar na mesma carrada de evitar o preconceito dos “academicistas” com quem passa o domingo assistindo bundas no programa do Gugu?!

A língua discrimina mesmo, é assim que tem de ser. Discrimina Luciana Gimenez de José Saramago. Discrimina Faustão de José de Alencar. Se é contra o academicismo de alguns gramáticos, onde está a defesa de Marcos Bagno das vantagens dos usos lingüísticos destes eminentes paradigmas do uso gramatical do povão?

O trocinho Bagno inicia seu livro Preconceito Lingüístico citando erroneamente Aristóteles (afirmando ser seu livro político, quando para Aristóteles a política é o bem comum, e não o desejo de um partido), mas sua lógica clássica não lhe impede de confundir causa com conseqüência: a língua é variada não por sua riqueza interna (há grande vantagem em ter 10 gírias idênticas para “cocaína”, além de confundir a polícia?), mas justamente as línguas ricas se conservam mais. O sânscrito é conservado e rico desde milênios. O islandês só conseguiu se alterar em quase nada nos últimos 800 anos por ter praticamente 99% de população letrada durante todo esse tempo (e 10% da população islandesa escreve livros). Marcos Bagno pretende erradicar o analfabetismo obrigando cada um a decorar uma enorme gama de variantes da gramática ao invés de uma só. É assim que pretende proteger os pobres “na sua integralidade física (?!), individual e social” (op. cit., p. 29): praticamente enchendo suas caras de piche. Ou pelo menos só a pontinha do nariz.

“To tolerate does not mean to forget that what we tolerate does not deserve anything more.” – Nicolás Gómez Dávila

É num átimo que se ouve vozes “tolerantes”: “Ah, mas o que importa é comunicar, a forma é o de menos!”. Os estróinas não percebem que a forma fixa é o que permite que não se precise prestar atenção o tempo todo à própria forma de se proferir, além do que se profere (ao contrário daquele momento em que tentamos construir uma frase simples como “Eu não quero açúcar no meu café” em um idioma estrangeiro que ainda mal dominamos), além de liberar os filósofos de latrina para cometer tais disparates sem prestar atenção no que é complemento nominal e no que é predicativo do sujeito. Mesmo que tal estulticoco tivesse alguma parecença com a realidade, é impreterível lembrar aos tolerantes e plurais que os paleolíticos que desciam a clava no cocoruto das mulheres e as levavam para suas cavernas puxadas pelos cabelos também conseguiram comunicar o que queriam com eficiência. A forma foi o de menos. A isso se chama ser progressista. Ser conservador e ultrapassado é inventar a geladeira.

“As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia lusitana, Por mares nunca dantes navegados…”

A levar as idéias desse helminto Bagno a sério, nossa literatura não será senão compilações de portas de banheiro, nossa filosofia será em monossilabos, nossa música será em instrumentos de uma única corda, nossos intelectuais de esquerda… bem, esses continuarão sendo os mesmos Marcos Bagnos, Marilenes Felintos, Emires Saders, Paulos Freires, Marilenas Chauis e Juarezes Cirinos dos Santos de sempre. Com essa elite pensante, em breve o som mais articulado que será capaz de produzir o lumpesinato urbano será o grito de Blanka quando vence um round. Marcos Bagno quer que abandonemos nossa condição de mamíferos.

Vamos nos unir ao aprendiz de Tiririca Bagno e fazer a coisa mais importante da Humanidade desde a invenção da roda e da descarga: esfainemo-nos na gloriosa tarefa de praticar análise sintática das músicas dos Racionais MC’s!

O próprio galimático Bagno, que quer usar toda a população de um país continental como cobaia de suas teorias de cientista maluco, também é alvo de suas próprias diatribes, revelando incultura febril devida a tanta toleimice: afirma que o Brasil do séc. XIX era um “império monárquico absolutista” (ib. p. 84), talvez o único absolutismo dividido em 4 poderes – dentre uma carrada infinda de outras necedades.

Confessa aliás o trocinho que o próprio Lula “sabe servir-se muito bem deles [elementos da fala popular] quando fala de improvisão para grandes multidões, recusando-se a usar uma retórica balofa e ornamentada de quinquilharias sintáticas e lexicais, que é a característica principal do ‘falar difícil’, quase sempre para não dizer nada de substancial”. Sobre sua inconsciente conclusão, três palavras: quod erat demonstrandum.

“Uma vez que você sai da norma culta, em qualquer língua, você está num campo subjetivo, que não pertence a ninguém. (…)

O brasileiro tem uma relação mais relaxada com regras e com leis. Ele obedece ao que ele acha bom obedecer e não obedece a aquilo que ele acha que pode não obedecer, que não vai ser pego. Eu vejo isso pela sonegação, pelos motoristas passando pelo semáforo vermelho no meio da noite.”

(Alison Entrekin, australiana tradutora para o inglês das obras de Chico Buarque)

A defesa de Bagno

A profundidade de carcaça de planária do pensamento de Bagno é que a educação é desigual no país – logo, limemos a educação! Acabemos com o paradigma da literatura para os atos de fala! Atingiremos finalmente o reino da igualdade democratizante – exatamente como o Camboja, o Zimbábue e a Albânia socialistas o fizeram. É o caminho mais curto para que logo um candidato a leitor de Marcos Bagno não consiga mais compreender o mestre, e ter uma experiência estética com a norma será proibido. LEIÃO ENQUANTO EH TEMPO!

Defende o despauteroso que se deve, sim, ensinar a norma culta nas escolas. Na melhor das hipóteses, portanto, todo o seu pensamento é inútil. Em qualquer outra, é de uma malevolência sulfúrica. O resultado, no melhor dos mundos possíveis, é apenas que pratiquemos o mais desairoso laissez-faire com os padrões de fala, estética, lógica, concatenação e entendimento, afastando os pobres de Antero de Quental e os grudando ainda mais ao Bonde do Tigrão.

Seu livro então tem o mesmo valor sociológico do mosquito da dengue. Tudo se resume a: “Vamos ter uma aula de gramática com menos termos técnicos e sem professoras que nos deixem de castigo”. Para isso, são gastas 200 páginas em cada livro apenas para explicar que a língua vareia. Como se algum gramático não tentasse explicar a norma justafmente para os que usam uma variante diversa da norma culta.

Isso é o que o estafeta profere à patuléia que precisa ser convencida. Um novo livro de seu (dele) professor Ataliba Teixeira de Castilho já prega desabridamente que siscreva como sifala. Dois pedaço de casca de macaxeira pra quem adivinhar quem é seu rábula defensor. O mesmo que afirma “que as regras tradicionais de colocação pronominal são de uma tolice sem tamanho” (lá mesmo, p. 53) e toda aquela papagaiada reprisada.

(essa galera aí VOTA.)

Será que se fosse professor de matemática também publicaria tresvarios sobre o preconceito contra alunos que não sabem fazer conta? Tentaria atingir a novilíngua através dos números? Diria ser 2 + 2 = 4 uma convenção opressiva da burguesia? Pior: se o socialismo que esse quadrúpede defende atingisse o poder, conseguiria ele angariar fama e fortuna ditando que cada um fale longe da escola como bem lhe der na caçuleta ou iria cortar cana no meio do mato?!

E como fica a variação cultural miguxês, obra da própria elite dominante letrada colonial, mas repudiada por 11 em cada 10 brasileiros sem QI negativo? Será o próximo livro de Marcos Bagno o opúsculo Miguxês – A Minoria das Minorias, pelo fim da perseguição de classes? Será que veremos o moleque lingüista defender os principais oprimidos lingüisticamente?

O mesmo lingüista reclama desses “discursos [em que] só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino” em seu site. Acaso existe algo além do masculino e do feminino, pra quem já viu alguém pelado?! (isso exclui a Judith Butler)

Não é senão nosso Gregor Samsa morfado que afirma: “Sem dúvida, as semelhanças lingüísticas entre as variedades prestigiadas e as variedades estigmatizadasa são muito mais numerosas do que as diferenças.” (naquela porra de livro, p. 73). Mas ora, os “reacionários”, “ultraconservadores”, “retrógrados” que “repudiam tudo o que não trouxer a marca registrada de uma atitude fascista diante do mundo” (lá, na p. 121), segundo Bagno, são apenas os que acreditam ser fácil ensinar aos pobres o conhecimento que lhes permitirá ler algo além de bilhetes – mas essa gazela do Satanás ainda prefere vociferar do abismo entre eles!

Eu poderia obtemperar que Marcos Bagno é um socialista, que transformará seus queridos pobres na montanha de cadáveres que foi o socialismo real no séc. XX. Mas hei de afirmar que Marcos Bagno é um fascista, que é mais ofensivo com muito menos mortes. Apenas quer confinar seus “protegidos” num gueto distante do restante da população: prestando obediência à sua preconceituosa metafísica, que acha que pobre não tem a mesma capacidade com orações subordinadas do que ricos (e brancos e machos e neoliberais, necessariamente), num autoritarismo de quem sabe que o grau de entendimento de seu séquito é inversamente proporcional à propensão em votar em seus candidatos.

Marcos Bagno é inócuo a mim, esmerado leitor dos clássicos. Aos pobres, é um buraco negro a sugar-lhes cultura e seu futuros rendimentos pior do que metade do Congresso unido.

Meus cordiais amplexos, se a tanto me ajudar o engenho e a arte.

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor, faz Letras na USP e aprendeu a não dizer “amém” para professores partidários alguns meses após aprender a limpar o bumbum sozinho. No Twitter, @flaviomorgen

Imagens aterrorizantes gentilmente pesquisadas pela @babspider. Veja também:

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