Artigos

Rio+20: o dia em que Ahmadinejad virou herói das esquerdas anti – “Morumbi-Leblon”

por Flavio Morgenstern

Hoje a presidente Dilma não recebeu o ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad pruma conversinha animada. Perdemos a oportunidade de vê-la sem burca dando um beijinho na testa do nosso iraniano preferido. Não foi por isso que ficamos sem assunto: sem Dilma, membros de partidos extremistas e anacrônicos como PCdoB, “intelectuais” de esquerda e líderes da UNE foram tomar um cafézinho com Ahmadinejad.

Traduzindo: hoje, a esquerda que chama todo mundo de “fascista” tornou-se uma fã devota do apedrejador de mulheres e negador do Holocausto.

Segundo a descrição do site Vermelho.org (se é pra falar em Ahmadinejad, vamos descer o nível também), Ahmadinejad, na Rio+20, “defendeu uma visão holística e humanista em contraposição à injustiça e à opressão”. Eu já sobrevivi a uns 8 fins do mundo, mas nenhum teve o Ahmadinejad pregando urânio enriquecido sustentável. Depois dessa, estou com medo desse cara ter vindo pra cá me vender florais de Bach.

O café foi “um diálogo fraterno e agradável”, Ahmadinejad ouviu “a palavra amistosa e solidária de brasileiros” que “fazem o bom combate ao imperialismo e lutam pela paz mundial”. A despeito da oportuna “luta pela paz”, seriam precisos tantos adjetivos seguidos para narrar um café com alguém que deixe uma mulher sair na rua sem burca? Ahmadinejad também é descrito “com voz baixa, fala mansa, gestos contidos e palavras polidas, o que é um desmentido a mais dos estereótipos inventados pela mídia a serviço do sionismo e do imperialismo”. Nós, aqui do Implicante™ Inc., aproveitamos o ensejo para lembrar que a verba que os sionistas e os imperialistas nos prometeram tá meio atrasada.

Em um texto em que a palavra “imperialista” aparece 19 vezes, somos informados de que o jornalista Beto Almeida, diretor da Telesur no Brasil, “defendeu a criação de uma frente anti-imperialista mundial para impedir que ocorra na Síria o que aconteceu na Líbia”. Falando em Vermelho.org, não é informado como o “líder iraniano” enrubesceu com a defesa de alguns seus inimigos históricos.

A Veja mostrou que sua plateia tinha nomes como: João Vicente Goulart, filho mais velho do ex-presidente João Goulart; o sociólogo Emir Sader; Tilden Santiago, ex-embaixador do Brasil em Cuba; Roberto Amaral, vice-presidente nacional do PSB; Ricardo Zarattini, ex-deputado federal pelo PT; e Haroldo Lima, ex-diretor geral da ANP.

Não é tão legal assim. A descrição do Vermelho.org é bem mais paulada: Socorro Gomes é chamada de “líder do movimento pela paz”. Tem também o “ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo” Haroldo Lima, o “filósofo e poeta João Vicente Goulart”,  a “outra voz credenciada da esquerda brasileira” Roberto Amaral e os “muitos acadêmicos presentes” (gente incapaz de usar uma coordenada assindética num parágrafo), que “destacaram a necessidade de maior difusão da realidade e da cultura iraniana” – realidade iranina by TV estatal do Ahmadinejad: a gente vê por aqui.

Está lá que “também participaram do encontro com o presidente iraniano a Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a União Geral dos Trabalhadores (UGT), a União da Juventude Socialista (UJS), a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e o Movimento pela Democracia Direta (MDD).”. É tanta sigla rachada que lembra um dos melhores momentos de Monty Python, mostrando tanto como funcionam os movimentos de ação afirmativa quanto os grupelhos “anti-imperialistas” rachando tanto.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=fdjxVGkcUaY[/youtube]

É claro que Ahmadinejad aparece como representante “do povo iraniano”, como afirma a “presidenta do movimento pela paz” (sic): “Sinto-me irmanada a este povo em seus esforços para construir uma vida gloriosa, bela e humana, que o imperialismo norte-americano, no plano mundial, e Israel, no Oriente Médio, tentam impedir”. Ou seja, se há opressão, apedrejamentos, enforcamentos e mortes em dia de eleição no Irã, a culpa, óbvio, é dos EUA, de Israel e do imperialismo. Estamos um pouco enciumados por termos sido esquecidos. Sua “vigorosa denúncia das potências imperialistas e seus aliados” afirma que “Estados Unidos e Israel cometem crimes e ainda querem destruir o espírito das palavras”. Palavras como “democracia”, “apedrejamento”, “teocracia” e “energia atômica” também são invenções do conluio americano-sionista, pelo visto.

Mas o Vermelho.org é engraçado, ainda que não voluntariamente. É aquele site curioso que todo mundo que reclama da Veja por ser “imperialista burguesa fascista conservadora reacionária golpista nazi-tiucana” (e, portanto, basta dizer “é da Veja!” para ignorar denúncias gravíssimas) usa como fonte ~confiável~. Ou usa quem o usa como fonte – vide que Nassif adora citá-lo, mas sempre destrói toda a graça dos posts.

A República Morumbi-Leblon

Como sempre, nossas constatações mais pessimistas ficam muito aquém da realidade. O engraçadinho da vez foi Idelber Avelar, reproduzido pela Carta Maior.

Segundo um dos ídolos da blogosfera progressista (ninguém manda nossos comediantes serem ruins, precisamos sempre descer ao esgoto pra ter humor funcional), quem critica o líder dos mulás atômicos é a “República Morumbi-Leblon” com seus “gritinhos histéricos”. Ou seja, os ativistas religiosos, do movimento Gay, de grupos de defesa dos direitos humanos, ambientalistas e membros da comunidade judaica, que organizaram um protesto na praia de Ipanema com cartazes com frases como “Negar o Holocausto é o mesmo que negar a escravidão no Brasil”, são apenas burgueses da elite exploradora. Sem querer dar um ponto a mais para a Lei de Godwin, não conheço lugar onde tal argumento esteve mais em voga do que na ascensão de Hitler ao poder.

Em um texto eivado de diminutivos, Avelar afirma que quem critica Ahmadinejad são pessoas que “não deram um pio acerca do inominável massacre israelense em Gaza”, e que agora posam de “defensores dos direitos das mulheres iranianas”, embora tenha até uma ressalvinha (opa, isso pega) ao Ahmadinejad: “etiquetar Ahmadinejad como ‘ditador do Irã’ é ridículo” porque “ele foi eleito”. Ainda que “com os mesmos métodos de George Bush”. Não foram ouvidas as opiniões dos mortos espancados no meio da rua a respeito, nem há menção à impossibilidade completa de alguém não seguir firmemente a Sharia para ter voz polít… bem, para continuar vivo no país.

 Para Avelar, o “o líder iraniano” (como gostam dessa expressão!) “jamais disse” algo sobre a “exterminação dos judeus”. E mostra até traduções do persa para tal (Idelber, por que você não colocou traduções para “líder” vindas diretas do alemão? se quiser, posso te propor uma). Que bom. Uma frase de um “líder” (ausência completa de democracia tem dessas denominações esquisitas) desprova tudo. Inclusive mostra os fins pacíficos do programa nuclear iraniano, por suposto. Dá até pra chegar no Irã com sobrenome judeu no passaporte! Será que o Idelber topa dar um pulinho no Irã com um passaporte com sobrenome Feuerstein, Schmidt ou Zeyev? Do contrário, de que adianta o foco com cabresto em uma frase de um contumaz negador do Holocausto, se na hora de mostrar a tolerância aos judeus, o caboclo pede pinico?

Idelber, claro, não vai me responder, pois só admite debater com a “República Morumbi-Leblon” (já deve ser a terceira vez essa semana que sou das bocadas no caminho pro Jardim Brasil) se ela defender a “maravilhosa a situação no país persa entre 1954 e 1979”. Em outras palavras: não gosta do Ahmadinejad? Opa. Então você defende a situação do país antes da revolução iraniana, ovacionada por Foucault (e, por sinal, até Diogo Mainardi, na época, lembrava que o xá era financiado pela CIA e deveria ser apeado). É assim, preto no branco. Por sinal, já comentamos isso aqui na estréia do Implicante.

Sua conclusão merece vir por inteiro:

Portanto, sem prejuízo nenhum ao meu apoio aos que, no Irã, lutam por uma democracia real, não posso deixar de retrucar: Bem vindo, Ahmadinejad. Tome sua cachacinha com Lula (sim, sim, sei que é proibido…), visite algumas das maravilhas desse que é um dos mais belos países do globo e não ligue para a meia dúzia que protesta. Estão em vergonhosa minoria.

Entenderam, movimento gay, ecologistas, judeus (ô, vergonhosa eterna minoria!), “turminha” dos direitos humanos etc etc? É com vocês.

O efeito desse tipo de texto é o exato oposto do que se pretende. Apenas os mais extremistas da esquerda, ou o naco que pensa no PT antes de pensar na realidade, acha bonito. Essa turma que, se for pra defender amiguinho do PT, chama líderes de movimentos gays de “elite burguesa” sem medo de ser feliz. Uma saída é dar uma de Sakamoto e afirmar que era tudo brincadeirinha quando você olha pra trás e sente o cheiro do que fez. Outra é se calar e esperar que a turma mais sensata te perdoe pelo conjunto da obra.

O problema para eles (e até para nós) é que depois da UNE junto com o Ahmadinejad e do Lula com o Maluf, você entra numa nóia meio Olavo de Carvalho was right. Mas devemos lembrar é que Ahmadinejad e Maluf na mesma semana são só o óbvio. Se a esquerda tivesse senso do ridículo não teria criado a URSS. Aquela, afinal, que é copiada como modelo econômico por Ahmadinejad.

(com piadinha roubada de Jerônimo Teixeira)

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Tomou um café com o reitor da USP e foi chamado por essa “turminha” aí de “inimigo da humanidade” por isso. No Twitter, @flaviomorgen

To Top