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Terrorismo na Noruega: caçando mocinhos e bandidos

por Flavio Morgenstern*

 

Pergunte-se a um Homo brasilis médio por que o Brasil não vai pra frente e há uma alta chance de a resposta ser: Educação. É a nova panacéia para nossa miséria. A despeito da verdade óbvia da asserção, suas justificativas padrão são um pouco mais insólitas: com educação, o povo votaria direito. A atividade política democrática é entendida como a melhor escolha entre candidatos que ninguém escolheu, com o tempero de alguns piquetes e greves ocasionais.

A educação de Humanidades é voltada para a “conscientização” política. Diz-se trocar a informação pela formação. Além de se suprimir um “in” bastante inclusivo, a idéia é proibir o acesso do aluno a informações discordantes. Não se forma alguém sem informação. O trocadalho serve apenas para se diminuir a quantidade de informação dos discípulos e apelidar sua infantilização de boa ensinança.

A manobra deriva da aplicação da dialética marxista na pedagogia. Se a dialética aristotélica é a arte da boa discussão, identificação de argumentos e possível aquisição de conhecimento, o marxismo a transforma em um simples mecanismo de análise da História em que coloca a si próprio como o grande redentor: tese (feudalismo) precede antítese (capitalismo) que culmina em síntese (socialismo). Ainda que o socialismo nunca tenha vindo da falência do capitalismo (que continua alive and kicking mesmo depois da sua segunda maior crise, enquanto o socialismo sim ruiu sozinho), com seus defensores tendo sido os piores clarividentes do futuro no século passado, o método ainda é ensinado como a única verdade possível.

Essa visão “dialética” é excelente para fomentar um preconceito bastante tolinho: a História se faz por uma briga entre mocinhos e bandidos (vocês conhecem o nome), e o que se deve atingir é um estado (ou Estado) em que todos passem a se amar como iguais – a História descobriu o que fazer contra os “bandidos” e os que traem tamanha caridade. Mesmo ao se analisar guerras e saldos de mortos, a “dialética histórica” está sempre torcendo para um dos lados. O lado dos mocinhos.

Adicione-se uma litania sobre ter um tal de “pensamento crítico”, que nunca ninguém descobriu quem estão criticando: não há uma dialética aristotélica entre dois argumentos, dois pontos de vista. Há apenas essa tal “crítica” que desconhece o que critica. O discurso “crítico” há muito, na verdade, é mero senso comum. Conhecer pensadores, acadêmicos ou não, que criticaram esses tais “críticos” é que é tarefa hercúlea.

É uma logorréia demasiado binárao para servir para Humanidades. Transforma alunos em um mero bit. É difícil concorrer em pensamento com computadores que possuem milhões deles. Não se cria idéias com um único bit. Apenas se diz “sim” ou “não”. As Humanidades brasileiras sofrem pela falta de criatividade política. A divisão política entre “direita” e “esquerda” parece supor que só existiram duas idéias políticas desde a Revolução Francesa até hoje.

Diga-se, aliás, que parte disso é verdade. Desde O Capital, pouco mudou na visão política, sobretudo na  – mas não se restringindo a – esquerda. A única idéia dos “críticos” de esquerda em um século em que dominaram as Universidades (o século mais populoso da humanidade) foi descobrir que a Guerra Fria acabou e eles perderam. Não que constatar um fato de proporções globais, consabido até por analfabetos, possa ser considerado “a segunda idéia da esquerda” em um século, mas é isso ou nada. É a esquerda do “precisamos de um novo discurso”. É a esquerda do “socialismo democrático”.

NÃO É COMIGO!

É com essa visão maniqueísta chumbreca que se quer analisar algo complexo como o recente atentato terrorista em Oslo, Noruega. Como disse o Magno Karl (@mkarl), de ambos os lados, o que se vê é a corrida bizarra para colocar todos os imbecis num grupo do qual você não faz parte.

Geralmente sabe-se tanto sobre a Noruega quanto se sabe sobre a Geórgia, com o diferencial de que a Noruega teve o black metal e o primeiro IDH do mundo para deixá-la mais famosinha. Foi um país que começou a se industrializar de verdade na segunda metade do séc. XX (razoavelmente ao mesmo tempo do Brasil). É a única democracia do mundo exportadora de petróleo (e talvez o único país do mundo que já era uma potência econômica e de qualidade de vida antes de descobrir o ouro negro). É uma social-democracia pesadíssima com índice de liberdade econômica encostado em paraísos fiscais como Bahamas, Malta, Barbados e Bahrein. Foi o país que Hitler proclamou como exportador da “raça pura”, mas que é um dos mais receptivos da Europa com imigrantes (que aparecem muito pouco por lá). Ao mesmo tempo em que faz parte da OTAN. Tudo junto e misturado, sem picles e embrulhado pra viagem.

É uma pretensão um pouco grotesca tentar compreender a Noruega e tirar daí lições de moral cívica através de nossas lentes “intelectuais” e “críticas” que só conhecem de orelha uns 3 intelectuais racionalistas da Revolução Francesa. Não se conhece nem escritores nobelizados como Bjørnstjerne Bjørnson (pesadamente criticado por Mencken), Knut Hamsun (do agonizante Fome, forte influência de Henry Miller) ou Sigrid Undset.

A discussão onde quer que se vá se resume a querer saber se o terrorista Anders Behring Breivik era: cristão ou ateu, pró ou contra Israel, de direita ou não. Como se agrupelhar à força o rapaz em alguma coletividade conhecida por nós, desconhecedores da História, ideologias dominantes e mesmo partidos políticos da Noruega, fosse servir para nossa identificação política. Como se o atentado fosse dizer algo a respeito de religião, de Israel ou da direita.

Anders Behring Breivik se define como um “Cavaleiro Justiceiro – Comandante dos Cavaleiros Templários Europeus”. Também fôra filiado ao Partido Progressista, que, apesar de reunir militantes de extrema-direita, não é um partido nacional-socialista: defende menos impostos e um desinchaço do Estado gigante norueguês (coisa bem aversa ao nacional-socialismo). Também é anti-imigração: não são defesas contraditórias na Noruega, por mais que nossa visão não-norueguesa acredite que uma coisa sempre precise estar vinculada à outra, por só conhecermos um pedaço ínfimo da História e acreditarmos que todo o resto pode ser explicado pelo que já sabemos. O que ainda não se conhece é sempre colocado como algo de somenos importância.

Outroladismo democrático

Pode-se perguntar agora se a defesa do “Estado mínimo” pelo partido é legítima ou não, visto que seus membros parecem fazê-lo mais por xenofobia, já que o Estado nórdico gasta bastante com auxílio social para imigrantes ilegais. Isso não tornaria o racismo menos errado, nem o Estado mínimo mais correto. Nem tornaria a imigração ilegal menos ilegal. O problema é que discutir os pressupostos do partido ou do que quer que seja nada tem a ver com a chacina. Se querem tanto ideologizar a matança, que ao menos ideologizem direito.

Com formação feita de desinformação, é sobejante difícil conhecer o outro lado das discussões. O princípio mais importante dos chamados “libertários” é bastante simples: não se deve agredir alguém violentamente. No entanto, a violência é justificada em retaliação ao primeiro agressor, ou em legítima defesa. Apesar de parecer universalmente aceita, não é uma teoria não aceita pela esquerda. Para o liberal/libertário, nenhuma conduta não agressiva pode ser punida com cadeia, portanto. Por isso que não aceitam impostos: é uma forma de forçar alguém a manter uma relação comercial (com o Estado), não podendo rejeitar o produto oferecido – e indo para a cadeia caso se tente rejeitar.

Parece em alguma coisa com o que prega e faz Anders Behring Breivik? Mas de que adianta, se basta dizer que é tudo “direita” e explicar o mal com um rótulo…

Note-se que mesmo um conservador favorável às idéias do liberalismo econômico (o que é bastante raro que se dê) deve agir assim. Se é contra a prostituição, as drogas, o homossexualismo ou outras condutas que lhe sejam reprováveis, nenhuma delas pode ser punível com cadeia. Toda a discussão deve ficar restrita ao âmbito das idéias, e não ao âmbito jurídico (coisa que os conservadores brasileiros nunca irão aprender, morrendo junto com outras idéias pré-colombianas). É o que defende um auto-intitulado “conservador cultural” como Walter Block, do imprescindível Defendendo o Indefensável (leitura obrigatória para quem quer ser um crítico de verdade, não um repapagaiador do professor). Parece em algo com o “conservadorismo cultural” de Anders Behring Breivik? Mas basta chamar de “extrema-direita” e todo o complexo problema está resolvido.

“Extrema-direita”, ademais, é um termo complicado. Se o capitalismo é “a direita” e seus freios são “a esquerda”, um libertário, que não passa de alguém que defende um ultraliberalismo econômico, não deveria ser a “extrema-direita”? Por que então uma visão nacionalista do socialismo ganha o título? A História não liga para ideologias ao criar taxonomias.

Breivik ainda afirma: “Precisamos influenciar outros conservadores culturais para que adotem nossa linha de raciocínio anti-racista, pró-homossexuais e pró-Israel”. Por que só a passagem “pró-Israel” parece arrebanhar todo um grupo odioso, mas no que tange a ser anti-racista e pró-homossexuais, todos sabem que a loucura está apenas em Breivik, e não em quem defenda isso?

“Nos indivíduos, a loucura é algo raro – mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.” – Friedrich Nietzsche

O fato a ser constatado é simples: o guri é maluco. Aparentemente, enquanto não produzirem teses acadêmicas com este óbvio ululante, não se admitirá o fato.

Os psicopatas como ele seguem um padrão bem claro (poderiam trocar as insuportáveis aulas de marxismo por episódios de Criminal Minds). São bem articulados, isolados, não estabelecem laços profundos com outros humanos. Nunca precisaram de ideologia para matar. Quando matam por ideologias, em quase todos os casos já eram violentos antes, e é raro seguirem pari passu uma ideologia para sair por aí, bancando o Charles Manson. Ninguém vê uma ideologia nos assassinatos do Champinha – mas todos querem encontrar rapidamente uma ideologia que “justifique” Columbine, Realengo ou Breivik. Nenhuma ideologia defendida pelos 4 produziu assassinos em série, mas a sociopatia em 4 indivíduos produziu matanças. É tão difícil enxergar isso?

É óbvio que existem ideologias piores do que outras – do contrário, não as discutiríamos. Segundo outra sacada de Nietzsche, são idéias que se engalfinham – não indivíduos. A despeito dos que adoram rejeitar a ciência, ela, sem a totalidade unificadora da filosofia, causou inifnitamente menos mal à humanidade do que a filosofia e sua busca de uma verdade para a vida. A filosofia é a mãe de todos os totalitarismos – não a ciência. Mas mesmo algumas conclusões filosóficas demasiado desastrosas provocam genocídios – não indivíduos psicopatas. Uma ideologia se cura com argumentos. Já um louco não se cura com outra ideologia – e, sem nenhuma, continua sendo um louco.

Terry Eagleton, em seu recém-lançado O debate sobre Deus – Razão, fé e Revolução, assinala: “Nada é mais antipolítico do que plantar bombas em locais públicos, mesmo em nome de uma causa política”. Uma pena não ter dado tempo do Breivik ler. O terrorismo é como a revolução marxista que ele tanto odeia: quer forçar mudanças na base da destruição, o que só faz com que as pessoas se unam contra a sua causa. Mesmo quando alguma coisa ou outra da sua causa seja lá defendível. O problema dos fundamentalistas não é defenderem uma ideologia radical, e sim que eles não têm… fundamento.

Se é para “culpar” uma ideologia, como interpretar o fato de que Breivik reclamou da moleza de seus colegas partidários no combate ao multiculturalismo? Diz o assassino: “A resistência genuína foi reduzida à mera divulgação de comunicados antes das eleições, para assegurar que as vozes do partido estão sendo ouvidas”. Se conhecesse o partido, poderia render uma salva de palmas por sua civilidade.

A culpa é deles

Porém, de nada adianta reclamar da binaridade do pensamento da Academia trocando-a por… nova binaridade. Foi como tentou se defender a direita conservadora brasileira, que tem como maior nome o filósofo Olavo de Carvalho, que rapidamente postou em seu Facebook:

“Os filhos da puta da mídia iluminada estão espalhando que o assassino norueguês é um sionista cristão, do tipo conservador americano, mas a imprensa da Noruega informa que, bem ao contrário, o sujeito é membro do Partido Nazista. Leiam no Laigles Forum, cujo editor, Don Hank, lê norueguês (além de não sei quantos outros idiomas).”

Aparentemente nenhum dos 404 circunstantes que curtiram a mensagem, nem os 242 que comentaram e os não sei mais quantos que a repapagaiaram (and counting) se preocupou em… bem, verificar a veracidade da informação. No tal site, não há um único post sobre a Noruega – de fato, há postagens em português de um débil mental mentiroso compulsivo como Júlio Severo, que não fez por menos e atirou às fauces do incréu leitor: “Terrorista se proclamava como darwinista, não cristão” – como se a palavra “darwinista” tivesse um significado próximo de “ele é pedófilo e seu pênis lança chamas”, ao mesmo tempo em que no texto cita trechos do próprio Breivik como “Fui de moderadamente agnóstico para moderadamente religioso” e também afirme: “Embora Breivik tenha dito que se considera ‘100 por cento cristão’…” – são os acordes da harpa da loucura, no coro de quem foi expulso da realidade a cusparadas.

if (religion==”christian”)
{ attacker_type=”isolated lunatic”; }
else { attacker_type=”religious fanatic”; }

No mais, a idéia passada por Olavo, se não é já bastante imbecil, não deixa de ter o típico charme tontinho que leva platéias ensandecidas ao delirium tremens: a Noruega possuir um Partido Nazista. Heh, heh. Isso um dia depois de todos “os filhos da puta da mídia iluminada” já terem até dado links para as declarações de Breivik, além de declarações oficiais do Partido ao qual foi filiado. Existe alguma desculpa para a súbita deslocada da realidade, além de querer dividir a Humanidade entre judaico-cristãos bonzinhos e não-judaico-cristãos malévolos? (Com isso não quero, é claro, dizer que não se deve ler o Olavo, muito menos que se deve fugir espavorido a seus textos, costumeiramente brilhantes; apenas se deve dar um pito a cada vez que algo merece correção)

Posso saber por que o desespero em tentar pintar o atirador como ateu? Ou mesmo como nazista? Vai mudar alguma coisa? Vai transformar os ateus em atiradores terroristas? Vai aproximar ateus de nazistas? Como se pode tentar agrupelhar o rapaz em um grupo rival e tentar provar a superioridade moral não-terrorista do seu próprio grupo? Há alguma vantagem? Vão querer fingir que o terrorista defende o contrário do que defende à força, só para saírem de consciência limpa? E por que qualquer pessoa que defenda qualquer coisa deve se preocupar com o que um psicopata defende? Se o caboclo mata em meu nome, definitivamente o matará por ser lelé, não por causa do meu nome – que não enlouqueceu tantos outros, como sua ideologia também não enlouqueceu os outros que a pregam, por pior que ela seja.

O antigo partido de Breivik também tem idéias defensáveis e outras nem tanto. É assim no reino das pessoas, ao contrário do reino das idéias virginalmente mantidas no mundo platônico, em que uma é boa e outra é ruim. Eu também tenho muito de defensável e outro tanto bastante criticável. O fórum Document.no, onde Breivik postava suas mensagens, é mantido pelo famoso jornalista norueguês, Hans Rustad. Alinhado com as idéias de movimentos como o Stop Islamisation of Europe (“Evite a Islamização da Europa”), cujo slogan é “O racismo é a pior forma de estupidez. A islamofobia é o auge do senso comum”, apela para um choque politicamente incorreto para dizer uma grande verdade: ninguém quer a islamização da Europa.

Mas como esperar que alguém compreenda algo passível de análise como a discussão sobre o islã, o terrorismo e a necessidade de diminuição de impostos se os contra-argumentos são baseados em “mídia gayzista” e “terrorista darwinista”, ao invés de explicação do complexo funcionamento do livre-mercado?! Por que, afinal, não admitir que o ideário do antigo partido de Breivik não é o de um partido nazista (mesmo que reúna pessoas de extrema-direita), e está mais certo do que ele? Porque sem isso se perde um bode expiatório, e não se faz que “um grupo” fique menos certo do que “outro grupo” – que é como querem espremer a realidade, aproveitando-se de qualquer tragédia para vender sua ideologia.

Desencantamo-nos com fundamentalismos religiosos na adolescência – exatamente quando damos de cara com marxistas pela primeira vez. Resta se desencantar com a religião mais uma vez.

 

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Consegue reclamar de uma tragédia e ainda perder todos os amigos que tem por isso. No Twitter, @flaviomorgen

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