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Haddad e as enchentes: o discurso e o fato

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Desde que a cidade de São Paulo deixou de ser a Terra da Garoa, a passagem de fevereiro para março é marcada por tempestades de verão. Um clima absurdamente quente, abafado e seco faz com que no fim da tarde (na hora de ir embora) tempestades elétricas e violentas desabem praticamente todo dia.

Fernando Haddad é prefeito de São Paulo há pouco mais de 45 dias. Desnecessário dizer, choveu como só Noé reconhece nesse mês. A relação da imprensa com o prefeito, todavia, mudou radicalmente.

Os prefeitos anteriores da cidade eram cobrados incisivamente a cada chuvarada. E, num rompante democrático, isso acontecia de todos os lados. Paulo Maluf era sacaneado por suas construções de concreto armado incapazes de escoar um filetinho de água. Marta Suplicy ficou com uma foto famosa pulando poças gigantescas com vestido de luxo, sem nunca conseguir resultados satisfatórios de contenção das águas. José Serra e Gilberto Kassab eram também culpados e formalmente indigitados como responsáveis por enchentes.

Não havia escapatória. Até uma muriçoca sabe que São Paulo é uma megalópole cheia de contrastes, cujo clima mudou radicalmente em menos de 20 anos, e incapaz de planejamento adequado para suas consuetudinárias borrascas tropicais.

Mas agora, com Fernando Haddad, tudo mudou. Os fatos não mais criam normas que viram rotina jornalística. Pelo contrário: o prefeito petista, ex-ministro de resultados mais catastróficos do que ribanceiras desmoronando, colocado em São Paulo como projeto meramente lulista para substituir a ultra-desgastada Marta Suplicy, simplesmente diz: “Tá tudo bem” e o jornalismo, ao invés de verificar o fato, simplesmente aceita a norma que vem de cima: a notícia vira “Está tudo bem”.

Então, paulistanos, podem dormir tranqüilos: o prefeito de vocês tá achando que tá tudo ótimo e é assim que o jornalismo passa uma opinião como se notícia fosse. É o que informa a Folha:

A gestão Fernando Haddad (PT) concluiu que a cidade teve um bom comportamento em relação ao temporal que alagou ruas anteontem. Segundo sua assessoria, o prefeito avaliou que a resposta da cidade foi “boa” e que ele não falaria sobre isso.

A chuva de cerca de 90 minutos deixou mais de 80 pontos de alagamento -metade intransitáveis-, ilhou pessoas em bairros da zona oeste e causou pane em semáforos.

Mas, na visão da gestão Haddad, os problemas foram resolvidos rapidamente devido ao trabalho de prevenção.

“Minha avaliação é que as águas escoaram mais rápido do que anteriormente, e a limpeza foi realizada. Nós limpamos 90 mil bocas de lobo desde que o prefeito anunciou um plano de prevenção das enchentes”, disse o secretário de Coordenação das Subprefeituras, Chico Macena. (…)

“Tanto é que todo mundo foi trabalhar normalmente. A maioria das ruas estava limpa quando os ônibus começaram a circular. Tanto a água escoou de forma muito mais rápida quanto a limpeza foi muito mais rápida.”

(grifos nossos)

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Não seria preciso fazer um longo arrazoado para encarar a realidade com acuidade jornalística. Não é preciso ir atrás de teorias de ciência política, história de agências de espionagem, arquivos secretos de ditaduras encarando um mundo global. Basta olhar pela janela: a cidade está um caos do cão.

Em bairros como Morumbi e Butantã (onde fica a USP), a água, de maneira pouco usual, cobriu a cidade universitária inteira até o joelho. Os rios da Cidade Universitária alagaram a ponto de deixarem ônibus encalhados. No meio da correnteza (que não era na calçada, era simplesmente no campus inteiro transformado em uma represa), pessoas se recolhiam subindo nos bancos dos pontos de ônibus, quase sendo ameaçadas de serem dali levadas pela leptospirose, enquanto observavam águas, plantas, ratos, jacarés, monstros do lago Ness e testemunhas de Jeová serem levadas pelo fluxo.

[/three_fourth_last]

enchetesp_carroNão é preciso fazer grande investigação jornalística e cotejar fatos com versões. Basta sacar um celular e tirar uma foto. Nem precisa ser estagiário reprovado no Manual de Redação para isso. Na famosa rua Harmonia, o bar Café Madeira, que não via alagamento há 30 anos ficou em estado de perda total. “Nunca vi enchente como essa”, disse o comerciante. Ali perto, na Aspicuelta, um carro foi arrastado por 300 metros e só parou estatelado num poste.

Mas Haddad pode simplesmente dizer que a cidade “reagiu bem”, isso vira um fato, ele afirma que não vai falar mais nada sobre isso e todo mundo aceita que o fato está dado, pronto, acabou. Não importa que a cidade passe por enchentes, inundações, panes de eletricidade, ataques criminosos e pragas que a tornem parecida com o Antigo Testamento. É o Haddad, ele disse, ipse dixit, tá falado.

Poderia haver uma desculpa melhor. Poderiam jogar a culpa no antecessor, como ainda faz o PT, depois de uma década no poder. Mas não: Haddad é o futuro. Em pouco mais de 45 dias (não é mensagem subliminar) fez o que nunca antes se fez em São Paulo. Varreu tudo, limpou todos os rios, matou jacaré no muque e a cidade está melhor do que nunca. Até a Marta ficou com inveja.

Kassab respondia a repórteres incisivos, Serra respondia. Ambos apanhavam, pois são “demotucanos”. Já o Haddad pode escolher o assunto sobre o qual vai falar. Afinal, ele é a cara nova. As enchentes recuam com seu olhar. Os problemas desaparecem porque Lula manda bênçãos pro afilhado político.

Haddad veio para nos levar para a Terra prometida. Só falta abrir o Tietê no meio.

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