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Netinho diz que paulistano é racista

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O pagodeiro alçado a vereador Netinho de Paula (PCdoB-SP, ex-Negritude Júnior) realçou a tese da filósofa spinoziana Marilena Chaui. Recém-desistido do posto de vereador reeleito, e agora secretário da Promoção da Igualdade Racial de São Paulo (secretaria criada ad hoc para lhe dar um cargo), Netinho disparou: “a sociedade paulistana é racista”.

De quebra (ou de uma vez, para usar uma expressão menos netinhoana), também afirma que pretende criar uma TV para exibir conteúdo feito com “a visão da população negra”.

A TV Lula (TV Brasil, EBC ou outro nome que nunca ninguém lembra), que também serviu para dar a Franklin Martins um bom cargo remunerado com o dinheiro da população (e fez contratos de R$ 6 milhões com empresas onde atuava o filho de Franklin, mas ninguém chama isso de “corrupção”, e nem vai parar no STF), teve audiência de 0,4 ponto porcentual entre 7 da manhã e meia-noite no Rio de Janeiro no seu segundo ano de existência. Em Brasília foi 0,3. Nem o Lula deve saber em que canal é essa tal de “TV Brasil”. O traço na audiência até agora custou mais de R$ 2 bilhões, e a previsão de gastos para esse ano é da casa dos R$ 500 milhões. Entre os gastos, inclui-se o salário de Mônica Monteiro, namorada de Franklin e dona da Cinevídeo, que vem recebendo R$  2.39 milhões desde fevereiro do ano passado para fazer documentários na África para a TV Traço.

Será que a TV de Netinho, com a “visão da população negra”, terá uma audiência um pouco maior, com gasto um pouco menor? Será uma TV municipal? Não seria mais interessante desativar tais TVs “públicas” e converter, por exemplo, R$ 2 bilhões em mais Bolsas Famílias, assistência social para população em situação de rua, criação de escolas e cursinhos para a periferia e afins? Não renderia até mais votos para tais políticos?

A secretaria criada ad hoc para dar um cargo a Netinho ainda depende da aprovação dos vereadores da Câmara Municipal para ser condenada à eternidade, e e deve ser votada em plenário após a volta do recesso em fevereiro. Apesar disso, Netinho já tem vários projetos para sua gestão, que pretende focar na mulher e no jovem negro. Para começar a delinear uma resposta, uma ministra demitida na farra dos cartões corporativos será auxiliar de Netinho na empreitada.

O plano original de Netinho era ser o vereador mais votado da história de São Paulo (já havia tentado ser senador e prefeito), conseguir uma grande secretaria que lhe desse destaque e, posteriormente, tentar se tornar prefeito. Sua rejeição, sua falta de apelo além do modelo de “proteção de minorias” (cota, cota, cota), a falta de apoio do PT (seriamente envergonhado do aliado comunista) e as lambanças em que é pródigo em se envolver não lhe permitiram sequer ficar entre os 10 vereadores mais votados. Sua última campanha selou seu desastre político, mostrando que sua capacidade promocional frente à população anda muito fraca.

Sem o apelo de um resultado nas urnas para lhe garantir uma grande secretaria, restou-lhe um prêmio de consolação tal secretaria meramente simbólica (mas potencialmente ainda muito rentável) chamada Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Social, criada apenas para ele, sob auspícios da já deflagrada gastança de dinheiro do pagador de impostos por Fernando Haddad. Já desistente do cargo de vereador, Netinho não deixou de demonstrar um certo rancor com a população que, naturalmente, não foi convencida por sua campanha. Em entrevista ao G1, disparou:

“A gente precisa convencer a sociedade paulistana de que ela é racista, ela precisa entender que ela é racista. A partir do momento que ela se assumir como racista, ela pode trabalhar isso, porque a gente perde economicamente, a gente exclui uma sociedade que pode ajudar muito o país.”

É uma coisa estranha um político eleito precisar convencer a sociedade que o elegeu (ou talvez só aquela parcela que não o elegeu, claro) de que ela é viciosa e errada. Talvez, assim, só “a partir do momento que (sic) ela se assumir” como uma imbecil completa (se é que apenas “imbecilidade completa” seja suficiente para avaliar uma postura racista), ela vai poder “trabalhar isso” freudianamente. Algo como um impulso de morte eternamente reprimido (Freud) pelas convenções morais burguesas (Lacan).

Quem negar o racismo no Brasil está sendo, abusando-se do eufemismo, um grande hipócrita. Todavia, é contraproducente ao extremo tentar combatê-lo acusando-se uma representação abstrata como “a sociedade paulistana”, afirmando a necessidade de “convencer” uma abstração. O pior é cometer a guerra maniqueísta apenas invertendo-se o sinal: a fala de Netinho parece indicar que ou você é negro, ou você é racista. Ou talvez só não o seja votando-se nos candidatos de sua coligação. Como ironizou Ambrose Bierce em seu famoso The Devil’s Dictionary no verbete mais ofensivo da língua inglesa:

AFRICAN, n. A nigger that votes our way.

Qual a vantagem de se criar uma guerra racial modelo fim do Apartheid para se tentar diminuir o racismo, ainda mais como política de governo vinda de cima para baixo? Se não há uma luta racial em curso, por que tentar implantá-la, só por achar que o “lado melhor” vai ganhar, se apoiado pelo governo? (fingindo-se, é claro, que a palavra “raça” possa ser empregada – não existe “raça” na espécie humana, tão somente cor de pele)

Apenas em sistemas bem pouco válidos moralmente os governantes explicam os problemas culpando a população. Não há muita razão para ser agredido verbalmente por um político (ainda mais um recém-empossado) apenas pelos erros de uma minoria. Se São Paulo ainda tem uma criminalidade alta (mesmo depois de 15 anos de políticas públicas que diminuíram incrivelmente esse número, tornando-a uma das capitais mais seguras do país), seria correto dizer que “a sociedade paulistana é ladra”? Se a corrupção ainda não conseguiu ser extirpada da cidade (se é que conseguiu ser de alguma), é lícito prognosticar que “a sociedade paulistana é corrupta”?

A tal “sociedade paulistana” como abstração amorfa e coletiva não é racista, nem corrupta, nem ladra, nem funkeira, nem trabalhadora, nem bonitinha, nem corintiana, nem maloqueira e nem engenheira: apelar para a culpabilização de uma entidade generalizada só torna mais inócua uma gestão que poderia promover um encontro maior da população negra, parda, mestiça e afins com a população branca. E onde ficam os jovens brancos pobres, moradores da periferia? Devem ser esquecidos e ignorados, já que “são racistas”, “precisam ser convencidos disso” e, na qualidade de preconceituosos dos mais estúpidos possíveis, devem ser pré-julgados em desvantagem e como culpados até prova em contrário? (ou, no linguajar de Sakamoto, “nós, homens, somos inimigos até que sejamos devidamente educados para o contrário.”)

Os erros de Netinho, por sorte, se anulam. Criar uma TV para “a visão da população negra” já seria uma segregação contraditória para a própria população negra (apesar de evangélico, seu modelo de “proteção de minorias” também abre espaço para a diversidade sexual, além de incluir coreanos, bolivianos e outras minorias)  No entanto, tal modelo de affirmative action puramente “simbólico” significa tão somente desperdício de dinheiro do povo (e da própria população negra) à toa, e não o início de uma disputa entre cores de pele modelo Mississipi. Resta a única “defesa de minorias” que a criatividade de políticos de tal quilate permite inventar: encher de cota para tudo quanto é lado.

Essa abstração representa muito mal o negro. O que é a tal da “visão da população negra”? Será que a “população negra” em seus diversos matizes e tons de pele tem uma visão diferente sobre a temperatura em que a água congela? Sobre o julgamento do mensalão? Acaso um negro não pode ouvir Beethoven e Mahler, enquanto brancos não vêem problema algum em ouvir blues e jazz?

O mesmo foi discutido quando da posse de Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente. A visão de uma mulher é tão distinta da de um homem? Analisando-se só os sobrenomes das mulheres mais poderosas de sua gestão, podemos encontrar um padrão (tente-se pronunciar no original): Salvatti, Hoffmann, Smith de Vasconcelos Suplicy. Fora serem todas meio sulistas (ou até meio loiras de olhos azuis), é fácil ver que pensam muito mais como homens do sul do que como outras mulheres oriundas do Amazonas, de Goiás ou da Cachemira.

Não há “visão da população negra”. Há uma tentativa de segregação invertida. Um negro deve ser visto como possível economista, estudante de japonês criador de mangás, arquiteto especializado em colunas gregas ou historiador da Escandinávia medieval. Tentar pintar o negro como um oprimido condenado a um berimbau e que não pode conhecer e fazer parte de diversas culturas diferentes da sua origem é negar-lhe um direito que é dado aos brancos sem o menor receio. Morgan Freeman responde lindamente a isso.

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(Ah, leiam Thomas Sowell.)

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