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Orlando Silva: da tapioca ao escândalo de milhões

Até 2008, Orlando Silva era nome do cantor das multidões, pois ninguém nem sabia quem era o ministro dos esportes – não tanto por mérito de quem ocupava a pasta, mas por deméritos de quem a deixava, Agnelo Queiroz.

Esse Orlando Silva nunca se envolveu em escândalo de ONGs de fachada – nem comeu tapioca com nosso dinheiro

Orlando Silva, o ministro, ficou famoso quando pagou tapioca com dinheiro público por meio do cartão corporativo. Ele disse que foi um “engano”, e isso nos autoriza supor que talvez quisesse comprar pastel ou empada.

Na época, a governosfera-sem-licitação saiu em defesa do ministro, dizendo que era algo menor. De fato, é mesmo algo menor em proporção financeira, mas que serve para definir caráter. Afinal, o sujeito que fura uma fila é o mesmo que, na administração pública, tem propensão para outras coisas.

Isso lembra a anedota do sujeito que oferece dois milhões para uma garota, a fim de um programa. Ela topa e ele então oferece cem reais. Nervosa, ela diz “o que você pensa que eu sou?”, e ele responde “o que você é eu já sei, agora é uma questão de negociar o preço”. Atribuem o chiste a Churchill e ele serve bem ao caso, guardadas as óbvias proporções.

Afinal, “o que é” o ministro já descobrimos com a tapioca, foi algo público e notório, mesmo diante de espantosas defesas perpetradas pela blogosfera ligada ao governo federal (mediante contratos milionários com ou sem licitação). Ele já deixou claro como tratava o dinheiro público… e então surgem as novas denúncias.

Em fevereiro deste ano, reportagem do Estadão apontou o programa “Segundo Tempo” como “instrumento financeiro do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)”. Orlando Silva escapou da demissão, isso quando já se falava naquela baboseira de “faxina” ministerial (como se não fosse a própria presidente que nomeasse os sacripantas envolvidos em fordunços).

Agora, o caldo entorna ainda mais (ou a tapioca queima?), pois o ministro é DIRETAMENTE acusado de participar e ser beneficiário do esquemão. Ele foi acusado por um militante do próprio PCdoB que também participou do tal “Segundo Tempo”.

O que se tem: desvios COMPROVADOS e destinados a pessoas ligadas ao PCdoB, partido do Ministro. Isso é fato, com provas, depoimentos, números etc. Agora, a acusação de envolvimento direto. Ou seria corrupto, como acusa o PM militante de seu partido, ou apenas incompetente ao extremo.

Como não dá mais para falar em tapioca, naquele sentido de pouca grana, algumas teses de defesa surgem para trazer alívio cômico à tragédia. Um especialista em economia que também tem especialização em falir as próprias finanças, sem essa nem aquela, dá a entender que isso é resultado do fato de que Dilma “não ser curvou” à FIFA.

Lorota, pois a Presidente da República assinou decreto ISENTANDO A FIFA DE TODO E QUALQUER IMPOSTO FEDERAL ATÉ O FINAL DE 2015. Talvez isso não seja “curvar-se”, mas sim algo cuja “analogia de postura” seria bem menos louvável – e certamente indelicado para publicar.

E também não é “culpa da imprensa”. Sério, já ficou ridículo isso de “pig”, tal e coisa. Depois do terceiro ministro que cai, na boa, é preciso ao menos COGITAR a hipótese de que haja sim tramóias no governo.

Daí voltamos à tapioca.

Países desenvolvidos tendem a repreender crimes menores, buscando evitá-los e dando a eles tratamento de coisa grave, apostando no fato de que isso pode ser o início de uma “carreira”. No Brasil, ao contrário, pequenos delitos não merecem tanta atenção, e quem os denuncia é objeto de escárnio.

Agora, com a “evolução” do acepipe nordestino a um escândalo de milhões, temos o “efeito tapioca”. O resultado de quando não se afasta o gestor público mesmo depois que ele deixa claro ser o que é.

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