Fernando Gouveia

A “pós-verdade” está na moda, mas nem todos sabem realmente do que se trata

Transcrição, em artigo, da palestra proferida pelo nosso colunista Fernando Gouveia na Campus Party, em janeiro deste ano.

Foto: Bill Pugliano / Getty Images

Já de início, é importante deixar bem claro: pós-verdade não é a mesma coisa que “fake news”. E não são apenas conceitos distintos, mas circunstâncias/atos/fenômenos extremamente diferentes. Podem ou não estar ligados, mas muitas vezes existem forma autônoma.

Fake News

É a tradução literal, mesmo: notícia falsa. Isso existe desde que o mundo é mundo, há vários episódios da história da humanidade (e também das mais diversas mitologias) em que lorotas foram noticiadas e isso causou impacto relevante.

Mesmo na internet, o fenômeno é antigo. A ponto de alguns sites, também há vários anos, tornarem-se especializados em desmentir boataria digital. O e-farsas, por exemplo, está no ar desde 2002. E, podem apostar, as pessoas já contavam mentiras antes disso.

Pós-Verdade

Não se trata, portanto, da disseminação de notícias falsas. Essa é a confusão mais comum, a ponto de ser corriqueiro alguém dizer que estariam “espalhando pós-verdade”. Sério, não é nada disso.

Em 2016, o dicionário Oxford escolheu “pós-verdade” como a palavra do ano, justificando que, embora seja expressão antiga, seu uso aumentou em 2000% no ano passado. Sim, quem usa/usava eram jornalistas, no geral alinhados à esquerda, e foi entre eles que tal aumento se deu; evidentemente, o povo normal, em suas conversas nos bares ou meios de transporte coletivo, não usava (nem usa) tais termos.

Foi uma escolha política, obviamente, e a complexidade viria na hora da conceituação. Eles explicam que o “pós” não tem um significado meramente temporal (de “após”), mas sim de superação; desse modo, a verdade deixaria de importar, sendo superada pelo desejo de um grupo quanto ao que QUEREM como verdadeiro. Em suma: a realidade dos fatos deu vez à “verdade” que as pessoas desejam como real.

E esse é um ponto crucial do ambiente de pós-verdade: não se trata apenas de ludibriar os outros com notícia falsa, mas de PARTICIPAR DO PROCESSO de superação da verdade, tratando mero desejo como algo concreto. E os integrantes do grupo, como em todas as seitas fanáticas, acreditam piamente no simulacro.

Também de forma expressa, o Oxford atribui o fenômeno à direita, que teria largado de mão o mundo real e passaria a tratar seus desejos como verdades. Mas esse tiro saiu pela culatra: rapidamente, descobriu-se que o ambiente pós-verdadeiro mais dissonante do mundo concreto é justamente a bolha canhota. Os que se arvoraram a estudiosos do problema não perceberam porque – pois é, pois é – estavam eles próprios dentro de uma bolha.

Fanfic e Pós-Verdade

O erro de ligar a pós-verdade às fake news fica ainda mais crasso diante desse outro exemplo: a “fanfic” ideológica. A quem eventualmente desconheça o conceito, segue explicação simples: uma história fictícia é disseminada como se fosse verdade, a ponto de até mesmo jornais e revistas darem destaque. Depois, MESMO QUANDO CONFIRMADA A MENTIRA, muitos dos disseminadores se justificam na base do “mas isso acontece mesmo” ou “então quer dizer que nunca acontece algo assim?”. Com um adendo: não raro, o expediente já nasce com o objetivo de dar relevância à pauta.

Isso é a pós-verdade em estado puríssimo. Já não importa mais se algo DE FATO aconteceu, o importante é usar aquilo – desejando ser verdadeiro – para passar mensagem, bradar tópicos de agenda ideológica, justificar movimento X, Y ou Z e assim por diante. Esse é o exemplo mais próximo do que seria ambiente pós-verdadeiro.

Trump

Citado na explicação do próprio Oxford, ele foi por muito tempo tratado pela esquerda como o símbolo mor da pós-verdade. Mas, assim como no caso das “fake news”, o feitiço acabou atingindo o feiticeiro (no caso, a velha imprensa). E são hoje os trumpistas que apontam as bolhas pós-verdadeiras do outro lado.

Exemplo recente interessante: o “Dossiê Trump”. Alguns veículos chegaram a divulgar, jornalistas não totalmente imunes a ter alguma tendência falaram em impeachment… e descobriram ser algo falso. Disso, todos sabemos, e morreria por aí apenas como “fake news”.

Mas agora entra a pós-verdade. Mesmo diante do desmentido, MUITOS – sim, muitos – passaram a defender a divulgação, ou relativizar a coisa na base do “mas pode ser sim verdade”, entre outras frases pra lá de curiosas. Em suma, pouco importa o que de fato houve, diante do DESEJO de que determinada coisa tenha havido. O toque final é a transição do ambiente pós-verdadeiro para a pura estratégia política: seguir com a mentira por acreditar num efeito final positivo, mesmo sendo trapaça.

Bolhas

Isso sempre existiu e é um comportamento humano pra lá de natural: não gostamos de passar nervoso. Sim, olha só, odiamos ficar irritados! Que descoberta, não é mesmo? E, nesses casos, preferimos evitar o fato que nos irritou, substituindo-o por algo agradável. E isso inclui pessoas, obviamente.

Na vida real, não é tão fácil assim. Por fatores da vida, muitos deles dificilmente modificáveis, somos obrigados a frequentar estabelecimentos no bairro, fazemos trajetos em que determinadas pessoas estão presentes com frequência, temos pessoas desagradáveis como colegas profissionais e também vizinhança, e quase nunca conseguimos fazer algo para nunca mais encontrá-las – e, ainda que façamos, nada impede que outras apareçam.

Mas na internet a coisa é diferente, especialmente com as redes sociais. É em razão disso que surgem as bolhas, e vale tratar de dois casos da esfera virtual, e um terceiro no mínimo curioso (mas também importante):

Voluntária/Deliberada

Todos nós (sim, todos), aos poucos, vamos eliminando das redes sociais aquelas pessoas mais chatas que, não raramente, são aquelas de quem mais discordamos. A bolha não acontece de uma hora para outra; ela resulta desse processo, que leva tempo. E vale para time de futebol, música e obviamente política. Assim, por nossa ação deliberada, vamos pouco a pouco nos fechando em diversas bolhas temáticas/ideológicas.

Algorítmica

Não bastasse nossa ação voluntária, há também os “algoritmos” das redes, que selecionam o conteúdo de nossas timelines. O objetivo de uma rede é que todos interajam mais e mais, de modo que elas tendem a mostrar o que é de nosso (ou melhor, o que “acreditam” ser de nosso interesse). Assim, aparecem posts das pessoas com quem mais interagimos (sim, são quase sempre as pessoas que nos são mais agradáveis e, eureka!, com quem geralmente concordamos). Desta feita, mesmo não bloqueando ou deixando de seguir de maneira deliberada, aqueles de quem discordamos vão sumindo aos poucos.

Algumas pessoas, diante disso, passam a acreditar que TODO MUNDO pensa da mesma forma, dada a hegemonia em suas redes. Na verdade, por óbvio, é apenas um grupo, devidamente selecionado (por ação direta ou efeito algorítmico). Não por acaso, quando 99% do mundo pensa de forma diferente daquela expressa numa bolha, os integrantes de tal redoma chegam a ficar assustados com a dissonância – o choque do fanático quando percebe que o resto do mundo não partilha de suas crendices (e isso muitas vezes leva à agressividade).

Geográfica

Não é a bolha existente na web, mas sim no mundo físico. E pode ser exemplificada na seguinte imagem:

Este é o mapa do resultado eleitoral dos EUA da revista Time. Os grandes veículos de comunicação, de alcance mundial e dos quais os correspondentes de todo o mundo pegam notícias, estão em grande maioria nos pontinhos azuis.

Tais pontos correspondem às cidades onde Hillary venceu e, por óbvio, aquelas onde Trump não era exatamente amado pela maioria. Todos ali acreditavam que ele iria perder, afinal SAÍAM PARA AS RUAS e viam que não existia apoio popular massivo. Decretaram sua derrota sem medo de cometer equívocos. E deu no que deu.

Soma-se à bolha geográfica o desejo de muitos, especialmente nos meios de comunicação, de que aquilo fosse mesmo o retrato de todo o país. O impacto da realidade foi forte, de modo que a simples negação do mundo real não foi fato isolado. Até hoje, aliás, vários insistem nisso – e aqui vale reiterar a analogia com as seitas fanáticas.

Ah, sim: isso não acontece apenas nos EUA, no âmbito nacional, mas em vários outros lugares do mundo – e o Brexit é outro exemplo interessante.

Solução: individual, não coletiva

Em suma, você pode fazer sua parte, informando-se nas mais variadas bolhas, ponderando tudo e descobrindo o que é narrativa, o que é versão, o que é desejo, o que é torcida e o que é FATO de verdade. Um dos caminhos fundamentais é não ficar empolgado com uma notícia que endosse seu pensamento. Sim, a tendência é alastrá-la na mesma hora, mas é aí que está o erro. Segure esse ímpeto e trate de checar a fonte.

Mais que isso: também a fonte-da-fonte. Citaram uma pesquisa? Veja qual é essa pesquisa, quem foi entrevistado, qual o instituto, se os números correspondem às proporções corretas e assim por diante. Apareceu um “especialista”? Vá atrás da obra, de quem é ele, de qual apito político toca e assim por diante. É chato, mas é o único jeito.

E não adianta ser otimista, isso não se dará no plano coletivo. A tendência humana é sempre buscar esse tipo de conforto, voluntária ou involuntariamente; para piorar, hoje ainda há os algoritmos, e uma rede social que traga coisas desagradáveis nunca fará sucesso, então a tendência mais óbvia é que também isso se acentue.

Enfim

“Fake news” é uma coisa, pós-verdade é outra. E, quanto a esta última, não apenas estamos sujeitos a seus efeitos como quase sempre também somos dela culpados, por ação deliberada ou resultado de nossas interações nas redes sociais. Os ambientes pós-verdadeiros (bolhas) existem em toda e qualquer comunidade ou grupo que concorde sobre um tema e no geral expurgue os discordantes; e a tendência, pelos fatores já expostos, é de tudo piorar cada vez mais.

Há saída individual, não sem esforço demasiado e contínuo, mas seria ingênuo acreditar em solução coletiva. Mais do que nunca, faça sua parte. E desconfie de tudo.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde escreve às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 16 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

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