Fernando Gouveia

Guia prático: como a esquerda “sequestra” pautas, causas e bandeiras

“A esquerda, uma vez dominando determinada causa, apresenta uma solução (invariavelmente ideológica) para o problema e, ao mesmo tempo, trata como INIMIGO DA CAUSA quem é contra a solução apresentada”

Na semana passada, falei sobre a perda de terreno, pela esquerda, entre ‘minorias’ que ela fingia defender. Em suma: o pessoal acordou e viu que estava fazendo um mau negócio, algo contraproducente sobretudo para as causas a eles mais sensíveis.

Mas é preciso compreender como isso acontece, qual procedimento adotado para que a coisa funcione – e, até hoje, tem funcionado de forma eficiente. Vale explicar alguns passos:

Subversão

Para entender como a coisa funciona, é preciso voltar à época em que tudo começou, lá pela metade do século passado. A disputa entre os blocos capitalista e socialista estava no auge e todo tipo de tática era empregada para desestabilizar o lado contrário. Sim, a dominação de causas e bandeiras foi parte disso. A coisa nasce aí.

Há um vídeo famoso do jornalista Tomas David Schuman, outrora Yuri Alexandrovich Bezmenov e ex-informante da KGB (o serviço secreto da União Soviética), em que ele explica o funcionamento da estratégia de subversão, bem como suas etapas e o quanto isso funciona na desestabilização de um sistema. É bem longo, e de 1983; com alguns exageros, mas sobretudo vários acertos (a quem quiser ver inteiro, está aqui).

O sequestro das pautas, causas e bandeiras começou assim. Mas é preciso tratar as outras etapas de maneira pormenorizada.

ONGS e afins

Há algumas semanas, mencionei a importância, para a direita, de dominar setores em que a esquerda é hegemônica, e um deles é o segmento de ONGs, associações, fóruns e afins. E o predomínio esquerdista nesse tipo de coisa é também parte da estratégia. E uma parte fundamental.

Não adianta apenas aparecer o “especialista” para falar de uma causa. É importante também chegar com o “estudo” ou a “pesquisa” (as aspas são mais do que necessárias, todos sabemos). Com esse tipo de documento em mãos, elaborado pelo FÓRUM BRASILEIRO DE (preencha aqui com o nome de uma causa), os veículos de comunicação repercutem a coisa toda, atendendo quase sempre a demandas da agenda da esquerda – e, aí sim, o “especialista” aparece para comentar, endossando.

Essas entidades, quase todas com nomes pomposos e várias menções positivas na imprensa, acabam se revestindo de uma autoridade que, na prática, não tem. Tudo é viés, tudo é narrativa, mas sempre com a roupagem técnica necessária. Sem isso, o sequestro da pauta não daria certo.

Contra o Método = Contra a Causa

Eis a narrativa essencial, uma espécie de sofisma não muito brilhante, mas eficiente (e a função do sofisma não é ganhar pontos de brilhantismo, mas sim lograr êxito). Funciona da seguinte forma: a esquerda, uma vez dominando determinada causa, apresenta uma solução (invariavelmente ideológica) para o problema e, ao mesmo tempo, trata como INIMIGO DA CAUSA quem é contra a solução apresentada.

Sim, o problema existe. Exemplo: racismo. Claro que existe racismo, ninguém seria maluco de negar a existência disso. Ok? Ok, sigamos. O esquerdismo dá como solução, por exemplo, uma lei de cotas. E o truque vem a galope: quem é contra essa lei, bem sabemos, eles dizem que é CONTRA O COMBATE AO RACISMO – ou seria mesmo alguém RACISTA.

É isso que fazem. Quem discorda do método ideológico passa a ser tratado como alguém que ENDOSSA O PROBLEMA. Um truque sujo, verdadeiramente repugnante e até raso, mas que funciona – um pouco também por receber endosso de boa parte da imprensa tradicional e “especialistas” por ela consultados.

Lobby: imprensa e publicidade

Uma vez hegemônica nas ONGs e associações, bem como tendo emplacado a narrativa do tópico anterior, a esquerda passa a pressionar veículos, marcas e quem mais vier pela frente. Em nome da causa, certo? Não, claro que não. Em nome do esquerdismo, mesmo. Sempre haverá o viés ideológico, ou mesmo o partidário, seja na fúria contra determinada marca/pessoa, ou na atenuada quase inexplicável com outras marcas/pessoas.

Mas, quando a coisa chega a este ponto (e é nele em que estamos agora), é quase impossível combater a estratégia de forma eficiente. A luta é árdua e quase sempre ingrata.

Desse modo, vale reiterar a constatação do outro artigo: ou a direita começa a ocupar todos esses espaços, aprendendo a desconstruir narrativas em todos esses processos e etapas, ou nunca vai ganhar de fato coisa alguma. Porque não adianta apenas vencer pequenas batalhas enquanto há toda uma guerra em curso, e sem previsão de trégua.

Fernando Gouveia é co-fundador do Implicante, onde escreve às segundas-feiras. É advogado, pós-graduado em Direito Empresarial e atua em comunicação online há 16 anos. Músico amador e escritor mais amador ainda, é autor do livro de microcontos “O Autor”.

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