Rafael Rosset

O evangelho marxista e a nossa elite culpada

“A esquerda inteira pode ser resumida nisso: uma elite culpada e bem-criada que se deslumbrou com Marcuse e Foucault e acha que vai redimir o próprio crime de ser rico “salvando” algum oprimido de si próprio.”

Foto: Andre Coelho / AG

Em 23 de fevereiro de 2016 um grupo de moças, estudantes do Colégio Anchieta em Porto Alegre, organizou um abaixo assinado intitulado “vai ter shortinho, sim!”. No texto, as meninas pediam que “a instituição deixe no passado o machismo, a objetificação e sexualização dos corpos das alunas e a mentalidade de que cabe às mulheres a prevenção de assédios, abusos e estupros”. Tudo porque algumas delas haviam sido admoestadas a obedecer ao regimento interno no colégio no que dizia respeito a roupas dentro da sala de aula. Não era só pelo shortinho, diga-se de passagem: também se mencionava o “direito” de vestir regatas e chinelos dentro da escola.

Os pais das moças do Colégio Anchieta pagam cerca de R$ 2.000,00 de mensalidade pra suas filhas estudarem numa escola católica. É uma escola de elite, sob qualquer ponto de vista. Com o apoio do Partido Socialismo e Liberdade elas lutam pelo “direito” de usarem seus shortinhos contra a cultura burguesa do estupro, enquanto na periferia as meninas pobres e com necessidades reais ficariam felizes se tivessem merenda quente todos os dias. Chama atenção alguns dos sobrenomes das organizadoras do protesto: Stein, Morschbacher, Paškulin. Maior pedigree europeu, impossível.

Como é de elite a maior parte dos ciclo-ativistas de São Paulo: você não vê auxiliar de escritório ansioso pra usar a bicicleta como alternativa pra vir trabalhar no Centro saindo de Pedreira ou de São Miguel. O plano só funciona direito se você morar no Itaim e for trabalhar na Vila Olímpia com sua bicicleta Schwinn de R$ 10.000,00. O trabalhador mais pobre, que mora na periferia, não sonha com ciclovia, sonha em adquirir seu carro próprio pra ficar poluindo o ar parado no trânsito com ar condicionado e som estéreo.

Você vê a cara das meninas do movimento feminista, que dizem defender o direito ao aborto pra “salvarem” as mulheres pobres, mas não tem uma empregada doméstica lá: são quase todas brancas, jovens e de classe média alta, o que dá ao projeto delas um indisfarçável cheiro de eugenia. Como também não tem pobre no meio dos veganos, ou dos ambientalistas, ou dos defensores dos animais: tem que ser muito rico (para os padrões brasileiros) pra sustentar uma dieta orgânica e se tratar com homeopatia. Tudo o que o pobre quer mesmo é conseguir marcar uma consulta com um médico de verdade em menos de 3 meses, achar seu remédio pra pressão no posto de saúde e comer carne ao menos 5 vezes por semana.

Em São Paulo, instaurou-se uma guerra entre a prefeitura e os pichadores, pelo “direito à intervenção urbana” nos muros dos outros. Não tardou a tentarem emplacar a narrativa segundo a qual o “prefeito-gestor” seria “higienista”, e que a “guerra contra o picho e o grafite é marca da exclusão social”, ou que “O muro do condomínio é muito mais autoritário do que o picho”, entre outras platitudes vazias de sentido. Ironicamente, contudo, o desmentido da fábula não veio a cavalo, e sim de Boeing: em 25 de janeiro o primeiro detido por pichar um monumento público foi o jornalista Pedro Amaral de Souza, filho do embaixador José Estanislau do Amaral Souza Neto, diretor-geral do Instituto Rio Branco, em Brasília. E em 4 de fevereiro, a estagiária de direito Maíra Pinheiro tornou-se a segunda pessoa presa pelo crime ambiental de deteriorar patrimônio público. Maíra foi candidata a vereadora nas últimas eleições e é suplente na Câmara Municipal pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

Os políticos de esquerda têm a mesma história de vida: Luciana Genro, Manuela D’Avila, Jandira Feghali, Dilma Rousseff, José Dirceu, Antônio Palloci, Fernando Gabeira, Marcelo Freixo, Lindberg Farias, todos de classe média alta, bem-educados, que nunca deram um dia de trabalho na iniciativa privada em toda a vida (ONG não conta). O mesmo quanto aos artistas e “intelectuais” engajados: Chico Buarque, Gregório Duvivier, Tico Santa Cruz, Paulo Betti, José de Abreu, todo mundo na parte de cima da luta de classes, elucubrando críticas ao capitalismo de seus Macbooks de R$ 15.000.00 e sentados num café às margens do Sena, ou criticando a “mídia reacionária” de suas colunas no Estadão ou na Folha (e agora na Veja).

Daí a importância, pra eles, da figura do Lula: no meio de tanta gente branca e rica, ele é o único cara que personifica, redime e confere alguma veracidade ao discurso do “somos pobres contra os ricos”. É por isso que eles até aceitam o sacrifício de Dilma Rousseff, mas chegam a formar cordão de isolamento na porta do condomínio de classe média alta de Lula em São Bernardo do Campo, a cada rumor de que o juiz Sergio Moro finalmente carimbou o mandado de prisão do capo di tutti capi dos justiceiros sociais tupiniquins. O problema é que ele também há muito tempo deixou de ser pobre: viajava em jatinhos de empreiteiros, era dono de tríplex de frente pra praia e bebia (ainda bebe?) vinhos de R$ 40.000,00 a garrafa. Aliás, apontem um único líder socialista, em toda a história, que tenha nascido e vivido pobre. Deve ser por isso que adoram tanto o Pepe Mujica: em 150 anos de história, parecia ter sido o ÚNICO a ter feito algo parecido com viver de acordo com os princípios que prega (parecia: o Conselho para Transparência e Ética Pública do Uruguai exigiu que o ex-padre cristão e atual evangelista do marxismo explicasse um aumento patrimonial de 74%, a despeito do bom velhinho apregoar que sempre doou todos os seus rendimentos).

A esquerda inteira pode ser resumida nisso: uma elite culpada e bem-criada que se deslumbrou com Marcuse e Foucault e acha que vai redimir o próprio crime de ser rico “salvando” algum oprimido de si próprio. Nada que não pudesse ser resolvido com algumas sessões de terapia, mas que no século XX acabou custando a vida de 150 milhões de pessoas, e no Brasil do século XXI a maior recessão de toda a história.

Rafael Rosset é advogado há 15 anos, especialista em Direito Ambiental, palestrante e articulista; perfil no Twitter; e no Facebook. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

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