Rafael Rosset

Rafael Rosset: “A república dos marqueteiros”

“O que emerge dos depoimentos dos publicitários João Santana e Mônica Moura não é um simples esquema de corrupção. É um projeto continental de poder altamente concertado”

O que emerge dos depoimentos dos publicitários João Santana e Mônica Moura não é um simples esquema de corrupção. É um projeto continental de poder altamente concertado.

Ambos trabalharam em praticamente todas as campanhas desde a redemocratização, e em assim sendo tem conhecimento profundo das entranhas do sistema. Não só isso, mas a partir de 2006, com o sucesso na campanha de reeleição de Lula a despeito do escândalo do mensalão (em que o casal conseguiu a proeza de ROUBAR votos de Alckmin no segundo turno em relação ao primeiro), e a fama recém-adquirida de milagreiros, o casal responsabilizou-se pelas campanhas de quase todos os governos “amigos” na região, incluindo Venezuela, Argentina, Panamá, República Dominicana e El Salvador. Tudo ajambrado e coordenado pessoalmente pela trinca petista formada por Lula, Palocci e José Dirceu, inclusive no que tange ao financiamento.

Mesmo antes disso, João Santana atuou para recuperar a imagem do ex-presidente no auge da crise. Programas como PAC e Minha Casa Minha Vida, criados em 2005, não surgiram como políticas de governo, e sim como “produtos” inventados sob medida numa agência de publicidade para criar a ilusão de que o Brasil tinha um governo funcional, e não uma quadrilha no poder. Vendia-se Pan-americano, Copa do Mundo, Olimpíadas, Trem Bala, tudo como parte do ideal de Pátria Grande, uma grande América Latina unida, solidária e anti-americana, mas que nunca passou de uma grande, enorme, cortina de fumaça: os quase R$ 4 bilhões gastos com o Pan de 2007 foram jogados no lixo, eis que nada se aproveitou para as Olimpíadas. Há 3 anos, estávamos celebrando a “Copa das Copas”. Gastamos R$ 8,5 bilhões SÓ em estádios novinhos, metade dos quais construídos em cidades sem times de futebol na primeira divisão. 3 das cidades-sede não tem times nem na segunda divisão. Em Manaus, o público de um ano, somados todos os jogos de todos os times locais, não enche os 55 mil lugares da Arena da Amazônia. A Arena Pantanal e o Estádio Nacional vivem de locações para times de fora. Na primeira, o jogo de maior público já registrado foi Ponte Preta vs. Palmeiras. Apenas a fase de projeto do trem bala São Paulo-Rio, que deveria ter ficado pronto a tempo da Copa de 2014, já custou mais de R$ 1 bilhão, sem que sequer um dormente tenha sido deitado.

Era tudo propaganda de Estado.

Fato é que o PT montou e exportou uma máquina eleitoral azeitada por montanhas de dinheiro público e privado. Na campanha presidencial de 2006, por exemplo, Monica Moura afirmou que a Odebrecht sozinha arcou com R$ 13 milhões dos R$ 24 milhões pagos por fora. A empreiteira ainda financiou campanhas municipais, como a de Marta Suplicy em 2008. Em 2010, a aliança que elegeu Dilma congregou 12 partidos, todos urubus gravitando em torno do centro do poder em busca de acesso a indicações e verbas públicas, tudo regiamente financiado por empreiteiras, interessadas em vultosos contratos de infraestrutura, sempre sobre faturados para remunerar as propinas pagas, num círculo vicioso perverso para lesar o cidadão pobre.

Dinheiro nunca faltou. Segundo levantamento da Folha de São Paulo, somente o Partido dos Trabalhadores recebeu R$ 324 milhões da Odebrecht entre 2009 e 2014. A simbiose era vantajosa para todos os lados: as empreiteiras elegiam políticos que lhes garantiriam contratos, que a seu turno eram superfaturados para pagar pelas doações via caixa 2 e pelas propinas. No fim, as empreiteiras não pagavam nada: todo esse esquema era financiado pelo contribuinte, via sobre preço de obras públicas.

E o contribuinte brasileiro não financiava apenas a corrupção doméstica. Na América Latina, Maurício Funes elegeu-se presidente de El Salvador em 2009 com a “colaboração” de R$ 3 milhões da Odebrecht, intermediados por Antonio Palocci e campanha assinada por João Santana. O casal responsabilizou-se pela reeleição de Chaves em 2012, e eleição de Maduro em 2013. Segundo Monica Moura, o então chanceler Nicolás Maduro fazia os pagamentos em dinheiro vivo na própria chancelaria. Empreiteiras brasileiras doavam milhões pelo projeto continental de poder: a Odebrecht doou R$ 7 milhões, a OAS outros R$ 2 milhões. João Santana ainda elegeu Danilo Medina na República Dominicana, que derrotou o ex-presidente do país, Hipólito Mejía. E ainda assinou a campanha de José Eduardo Santos, em Angola. Todos esquerdistas.

Claro que a atuação da máquina eleitoral petista não ficava adstrita a eleições presidenciais. O casal foi determinante em inúmeras eleições legislativas no Brasil e em outros países latino-americanos, sempre ajudando a criar a hegemonia referida por Antonio Gramsci. Além disso, é evidente que boa parte dessa dinheirama toda servia para lubrificar Organizações Não Governamentais, Movimentos Sociais e veículos “alternativos” de mídia, que mantinham a militância constantemente suprida de narrativas. A “luta” era do povo, das mulheres, dos negros, dos gays, contra os ricos, os brancos, os homens, os banqueiros, o imperialismo estadunidense, etc. Programas de transferência de renda, não dos ricos aos pobres e sim da classe média remediada aos miseráveis, garantiam o panis, e dinheiro de empreiteiros e banqueiros asseguravam o “circensis” do poeta romano Juvenal. O círculo se completava com o apoio dos “idiotas úteis”, expressão muitas vezes atribuída a Lênin, e utilizada para descrever jornalistas, professores, artistas e intelectuais ocidentais que pensavam ser aliados do comunismo soviético mas eram na realidade cinicamente usados para fomentar os ideais revolucionários no Ocidente. Eram idiotas porque seriam eles, claro, os primeiros a ser descartados em caso de vitória da Revolução, como de resto a história demonstra na extinta URSS, na China de Mao e na Cuba de Fidel e Che.

Repita-se, o que sobra dos depoimentos de Monica Moura e João Santana, e que será certamente ampliado com a aguardada colaboração premiada de Palocci, não é um esquema de corrupção: É UM PROJETO DE PODER CONTINENTAL.

Em 1941 Bertold Brecht escreveu uma peça intitulada “A Resistível Ascenção de Arturo Ui”, um libelo contra os fascismos e totalitarismos que ameaçavam, naquela altura, destruir o mundo. A peça conta como um cartel de verdureiros arregimenta um gângster na Chicago dos anos 30 (Arturo Ui) para que ele obrigue os quitandeiros a comprarem apenas a couve flor que eles produzem, em troca de um percentual dos lucros. Arturo Ui se aproveita de sua posição para também extorquir os quitandeiros, vendendo-lhes “proteção” em troca de um percentual de seus lucros. O gângster alia-se a políticos tradicionais e constrói uma rede de proteção em torno de si, contando com o apoio de juízes e cooptando a imprensa, com violência e sedução. Lentamente ele expande territorialmente seu poder e influência, ao ponto em que se torna hegemônico e virtualmente irresistível. Vide o que passou no Brasil e adjacências, com a nomeação de juízes ideologicamente alinhados nas supremas cortes, fechamento de jornais e cooptação da classe artística, e de repente o gângster é um personagem familiar a todos nós: tem o olhar de Maduro, a boca de Rafael Correa, o nariz de Evo Morales, as orelhas de Fidel Castro e o sotaque inconfundível de Luis Inácio Lula da Silva.

Bertold Brecht era um socialista convicto, decerto. Mas houvesse ele vivido para conhecer Lula e o PT, talvez revisse algumas de suas posições.

Rafael Rosset é advogado há 15 anos, especialista em Direito Ambiental, palestrante e articulista; perfil no Twitter; e no Facebook. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

Notícias Recentes

To Top