Thiago Pacheco

Por que a esquerda adora criminosos e faz questão que você não possa se defender deles?

O colunista Thiago Pacheco fala sobre o desarmamento – e como o esquerdismo trata o tema.

O estatuto do desarmamento, forçado goela abaixo dos brasileiros que votaram no referendo rechaçando a proposta, vigora há quase 15 anos. Nossa Constituição – usada como subterfúgio exegético para toda sorte de discurso que alivia as consequências da prática criminosa – já vai um pouco mais velha, com quase o dobro da idade. Há um paralelo entre as duas coisas, que trafega pelo fio condutor da tragédia legiferante brasileira. Poderíamos chamar de “boa intenção” a dos constituintes quando criaram um documento pensando nos mínimos detalhes do funcionamento do país – desde a manutenção do Colégio Pedro II na “esfera federal” até os vencimentos e vantagens funcionais da magistratura e do ministério público, passando por uma detalhada lista de “direitos sociais” e declarações principiológicas que viraram verdadeiros coringas na manga dos aplicadores e intérpretes da lei. O texto final da CF, vale lembrar, foi “editado” por ninguém menos que Nelson Jobim – jurista que já foi ministro da defesa e integrou o STF – na calada da noite, depois do texto final aprovado. A história pode ser conferida aqui.

Mas não há apenas a “boa intenção”: havia as expectativas de um país sendo redemocratizado, as pressões de grupos organizados e de partidos recém-inaugurados como o PT, que votou contra o documento por considerá-lo abaixo de suas expectativas (embora seus integrantes o tenham brandido sempre que lhes foi conveniente), e toda sorte de luta intestina. Afinal, era de uma nova constituição que se estava falando – e se o processo político já é o “balcão de negócios” com que estamos habituados para a aprovação de uma simples lei ordinária, o que dizer, então, da lei maior, que vai ditar os rumos do país? Daí que a “constituição cidadã” saiu como saiu: como a fama benigna de cuidar dos seus mas, no fundo, um grande e desajeitado compêndio que, tentando atender a todos, não atende bem a ninguém. A constituição é ruim e envelheceu pior ainda – culpa que não pode ser atribuída apenas aos legisladores constituintes e ao atribulado processo de sua elaboração, mas à falta de tradição constitucional do Brasil. Trocamos de constituição como trocamos o óleo do carro, e é evidente que não há meio disso se tornar uma história de sucesso – exceto quando se trata de literalmente trocar o óleo do motor, claro (consulte o manual do fabricante etc.)

Essa “boa intenção”, como qualquer observador atento já notou, foi sequestrada e se tornou monopólio discursivo da esquerda: fazer as coisas “pelo bem dos pobres”, “pelos trabalhadores”, “para erradicar a fome” e tantas outras missões virtuosas que, se você ligar a tecla SAP num convescote esquerdista, vai ouvir que “só quem é de esquerda pode fazer o bem”. Nessa semana mesmo, Maria do Rosário disse que só existe democracia quando a esquerda está no poder:

O discurso “bonzinho” da esquerda, é claro, é um artifício feito para enganar incautos – coisa que mais de 100 milhões deles descobriram de maneira definitiva. E é sobre “consequências definitivas” que a esquerda mais gosta de discorrer enquanto fantasia sua retórica sedenta por sangue derramado de virtude e boa intenção – o que tem um impacto especialmente notável quanto aplicado a dois dos campos mais férteis para inoculação revolucionária: o direito penal e a política pública sobre armas de fogo. A infiltração do pensamento revolucionário nesses dois ramos de atuação estatal é tamanha que órgãos normalmente associados ao anti-comunismo, como o Exército, estão servindo a agenda da esquerda com devoção canina – e disfarçada de “legalismo” e da mesma “boa intenção” que dá o tom geral do discurso desarmamentista. O bravo Benedito Gomes Barbosa Jr., fundador do Movimento Viva Brasil e lutador quase solitário pelo direito de autodefesa, habitualmente mapeia e denuncia tais absurdos.

No direito penal a coisa não é diferente: sob a fantasia de proteção aos “direitos humanos”, da “ressocialização” de pessoas capazes de estuprar e matar crianças impúberes e jogar futebol e fazer churrasco com partes de cadáveres recém-mutilados, e de um difuso “legalismo” fundado nas mais amalucadas interpretações da constituição, a agenda esquerdista é zelosamente cumprida por juízes e desembargadores que se filiam às mais exóticas correntes de pensamento jurídico “abolicionistas” e “garantistas”, e se organizam em grupos que quase sempre se intitulam “pela democracia”, “pela liberdade” ou outra buzzword boazinha e benigna. Sobre armas de fogo, vejamos o que propõe um dos espécimes de esquerdista mais “puro sangue” em atividade pública no Brasil:

PROPOSTAS PARA COMBATERMOS O TRÁFICO DE ARMASA quantidade de fuzis apreendidos pela polícia bateu recorde em 2016,…

Posted by Marcelo Freixo on Tuesday, January 24, 2017

É isso mesmo que você leu: para a esquerda, as fronteiras do Brasil “não são o maior problema” – mesmo a polícia, envolvida no combate diário a criminosos armados com fuzis ilegais e contrabandeados afirme o contrário. E o que ela propõe? Que a fiscalização de lojas de armas e de colecionadores seja ainda mais rigorosa do que já é, pois seria deles a culpa pela circulação de armas entre os criminosos. Mas será que Freixo não assiste o noticiário e entende tão pouco sobre armas de fogo que é incapaz de reconhecer os modelos mais seguidamente apreendidos pela polícia? Se ele é tão ignorante assim sobre o assunto, não deveria capitanear uma CPI sobre ele, não é mesmo? Em tempo: o Brasil fabrica apenas os fuzis utilizados pelo Exército, e a esmagadora maioria das armas apreendidas de traficantes e quadrilhas de assalto a bancos e carros fortes é de fuzis americanos e europeus (modelos AR-15 e AK-47 são os mais abundantes).

Mas não, de burro Freixo nada tem – servir a causa socialista é o que lhe move. Aperte a tecla SAP e o discurso dele vai sair em português claro: “não queremos desarmar o que vocês chamam de criminosos porque eles, na verdade, são os revolucionários 2.0. A era do proletariado acabou. O integrante do PCC, da FDN, do CV e até os que atuam independentemente são o novo soldado da revolução. Ele deve continuar armado. Vocês, não”. Eventualmente, um esquerdista “dá defeito” e aperta a tecla SAP sem querer.

O sonho molhado da esquerda é ver a sociedade inteiramente à mercê dos novos soldados revolucionários – o que ele não quer é que o criminoso tenha que pensar duas vezes ou temer o cidadão. Para toda a corriola desarmamentista, esse é o caminho mais rápido para nossa servidão: o trabalhador que sai de casa sem saber se volta tende a se preocupar menos com o governo e seus desmandos e mais com prestar atenção para entrar e sair de casa, desembarcar do carro, ir ao banco e não morrer nas mãos de alguém mais ávido por fazer uma “expropriação” de seu dinheiro. O bandido, de outro lado, se passar a ter o que temer – a possibilidade de um cidadão armado e treinado para reagir e se defender, por exemplo – perde seu valor revolucionário. Com que você acha que Freixo e o resto da esquerda estão preocupados? Releia a postagem do político carioca. Procure saber o que pensa o juiz amazonense que negociou o fim da rebelião prisional (dica: ele defende, em livro, que a pena de prisão é inconstitucional) e saiba que, longe de ser uma exceção, ele representa um pensamento dos mais comuns e recorrentes nas faculdades de direito e, pior, na própria magistratura – onde a autoridade produz resultados desastrosos e imediatos quando posto a serviço da ideologia.

Não é preciso ser Bidu para perceber que a preocupação dessa gente não é proteger quem trabalha e cumpre as leis de seus predadores – mas de proteger o predador como se ele fosse uma rara espécie em extinção, e nós, o seu alimento.

Se defenda, se puder.

Thiago Pacheco é advogado, pós graduado em Processo Civil e formado em jornalismo. Escreve no Implicante às quintas-feiras.

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