Thiago Pacheco

Thiago Pacheco: “Generosidade, aflição: um filme que, ainda bem, existe”

Nosso colunista fala sobre “O Jardim das Aflições”, documentário de Josias Teófilo sobre Olavo de Carvalho.

Estreou ontem, em cinemas de algumas capitais brasileiras, o documentário “O Jardim das Aflições”, dirigido pelo cineasta pernambucano Josias Teófilo. Produzido exclusivamente com doações feitas por meio de “crowdfunding” e patrocínios privados, o filme retrata o filósofo, professor e “polemista” Olavo de Carvalho – o uso das aspas serve apenas para indicar o quão pequena e circunstancial essa imputação se torna quando comparada com as outras duas: filósofo e professor. Dizer que Olavo é “polemista” não é uma mentira, claro: quem ouviu o podcast “True Outspeak” e acompanha suas postagens diárias no Facebook sabe disso. Não se trata também de diminuir a relevância de seus comentários mais pontuais, jocosos, sarcásticos, satíricos, ácidos – chame-os como quiser. Eles são parte fundamental do que ele faz. Como quem ilumina o caminho com uma velha lamparina a querosene e maldiz uma pedra em seu sapato, avisa que há um urso nas proximidades e que ele é um filho da puta perigoso, mas que há meios de continuar na trilha em segurança.

A “polêmica” é uma fração menor do que Olavo faz – mas no ambiente previsto e descrito por ele, já há bastante tempo, se tornou uma questão aberrantemente central, tanto é que os maiores divulgadores de “O Jardim das Aflições” acabaram sendo seus detratores: atores, cineastas e produtores esquerdistas que protestaram contra a inclusão do documentário em um festival pernambucano de cinema. O epíteto “o filme que não deveria existir” foi cunhado por um ator, e houve diversas manifestações semelhantes do establishment cultural, cujo uso do cachimbo estatal entortou as bocas que só sabem repetir “a narrativa” da luta de classes e da revolução permanente. Isso sem falar nas vestais escandalizadas com palavrões, cigarros e armas de fogo, as quais só mordem, de maneira tão didática, a chumbada, provando, assim, o ponto segundo o qual não fazem a menor idéia de contra o que estão se “insurgindo”.

Mas, se tem detratores intentos, Olavo tem muito mais admiradores sinceros – o fato de as duas únicas exibições em Curitiba terem lotado, e os ingressos esgotados com muitos dias de antecedência, bem o demonstra. E há, é claro, uma importante distinção: ao contrário de quem habitualmente o xinga, o associa ao “fascismo”, “nazismo”, “extrema-direita” etc., os admiradores de Olavo o conhecem – conhecem sua obra, seu pensamento; são seus alunos, ex-alunos, leitores; enfim, pessoas que pouco ligam para o “fla-flu ideológico” que sua obra possa encetar e estão mais interessadas no que ele propõe: conhecimento. Antes, autoconhecimento.

O documentário tem o mesmo título de um dos mais importantes livros escritos por Olavo, e isso é explicado logo de saída: como o idealismo é o caminho para a tragédia e o morticínio. Não é sem motivo que um dos temas centrais de seus ensinamentos seja a importância do autoconhecimento – conhecer as próprias limitações e defeitos é o primeiro passo para ser livre. Se você não os conhece, há uma chance enorme de que eles sejam usados para escravizá-lo. É só a partir da consciência do indivíduo que a realidade pode ser apreendida. A ânsia por alterá-la e melhorá-la, no mais das vezes, não passa do devaneio de um adolescente que sequer varreu o próprio quarto mas quer determinar como todos os seus semelhantes devem viver e se comportar. O poder do Estado, alerta Olavo, alimenta e é alimentado por essas visões utópicas da ideologia, e cresce e sempre crescerá exponencialmente.

Teófilo dosou, cuidadosamente, o quanto da vida pessoal de Olavo é exibida no filme – o documentário não se ocupa da sua rotina, mas de seu pensamento. Assim é que já há resenhas maledicentes em que se diz que é uma mera reprodução de suas “palestras”, o que é absolutamente injusto com a excelente edição. Quando o filme acabou, eu tive a sensação de que havia começado há pouco tempo, e acabado muito cedo – quase como ler um texto de Olavo: mesmo com bastante conteúdo e informação, é tão bem escrito que se torna fácil de ler e compreender, fluído. Essa clareza, a objetividade que não perde em substância, também é marcante no filme.

Em uma das passagens mais bonitas do documentário, Olavo, ao lado de Roxanne, sua esposa, conta como frequentemente tem entre seus alunos “loucos de todo o gênero” que o abordam com idéias mirabolantes como construir um “ufoporto”, e Roxanne o interrompe para dizer que ele é incapaz de interromper essas tresloucadas exposições, ouvindo-as com o semblante sério, sem jamais contradizer o interlocutor. É a enorme generosidade de Olavo de Carvalho que é melhor retratada no documentário. Adquirir um vastíssimo conhecimento, para ele, parece pouco – o que importa, de verdade, é, no dizer de sua esposa, “libertar inteligências”, e é exatamente isso que ele faz: seja entre seus alunos, seja entre detratores seus que não sabem explicar porque ele está “errado” ou é um “picareta” (embora isso se dê de uma outra maneira). Quem não gosta de Olavo raramente se dispõe a debater com ele, e mais raramente ainda expõe as razões pelas quais ele estaria “errado” – e por uma razão muito simples: é muito difícil. Em uma das passagens mais esclarecedoras do filme, ele diz que é muito mais importante ter uma idéia “verdadeira” do que uma idéia “original”, e como idéias “originais” são raras; cada vez mais raras. Sem humildade – sem conhecer as próprias limitações – é muito difícil compreender, verdadeiramente, o caminho que ele aponta: o que não é mero falatório, vindo de um autodidata sem qualquer “rabo preso” acadêmico. Haveria maior prova de independência e honestidade intelectual? Sempre me pareceu que não, especialmente quando se considera que o meio acadêmico brasileiro há muito tempo virou uma madraça ideológica da pior espécie.

Enfim, devo esclarecer que sou um diletante – não fui aluno de Olavo e, se fosse, já teria tomado um pito dele, certamente, pela minha total falta de disciplina e organização com estudos e leitura. No entanto, ele dispensou a mim a enorme generosidade que “O jardim das aflições” tão bem retrata. Me recebeu em sua casa, quando morava em Curitiba, onde passei uma tarde inteira a ouvi-lo, ainda sem entender inteiramente a importância daquele momento – o que aconteceu ontem, quando assisti “O jardim das aflições” e compreendi o quão decisivo foi, para mim, aquele dia.

Thiago Pacheco é advogado, pós graduado em Processo Civil e formado em jornalismo. Escreve no Implicante às quintas-feiras.

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