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65% da população concorda que mulher de roupa curta “merece” ser estuprada? Muita hora nessa calma.

É preciso tomar cuidado antes de tirar conclusões apressadas da pesquisa do Ipea. É estranho pensar que 65% de brasileiros (e brasileiras) crê que estupro é alguma forma de “punição justa” contra a “imoralidade”.

cultura de estupro

Há um dito atribuído ao primeiro ministro e teórico político britânico Benjamin Disraeli, afirmando: “Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas.” Outro apotegma diz: é possível provar qualquer coisas com números – ocasionalmente, até mesmo a verdade. A Lei de Murphy também garante, entre seus adágios, que números confessam qualquer coisa sob calor e pressão extremos.

É o velho descoco provocado pela interpretação pedestre de estatísticas. 32% dos acidentes de trânsito ocorrem quando o motorista está embriagado. Conclusão apressada: dirigir bêbado é mais seguro do que dirigir sóbrio.

Nessa semana, causou celeuma a divulgação de uma pesquisa encomendada pelo Ipea. De acordo com a pesquisa, 65% dos brasileiros entrevistados concordam ou concordam fortemente com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. 58,5% concordam com a frase “se mulheres soubessem se comportar (sic) haveria menos estupros”.

Antes de engatar a sociologia de botequim e ligar a metralhadora giratória de opiniões cabais na internet, seria de bom alvitre lembrar de algo que deveria ser o óbvio ululante: esta é uma pesquisa popular. Uma pesquisa popular é feita com populares.

São brasileiros pouco instruídos (num país em que as classes altas costumam ser bem pouco instruídas), brasileiros (e, na verdade,  66,5% de brasileirAs) de camadas populares – telespectadores do Gugu, eleitores de Dilma Rousseff, leitores de Eliane Brum. Dado o estado de nossa educação, não se deve esperar uma complexidade alta de noções de criminologia aplicada – ainda mais com pesquisas direcionadas, baseadas em frases prontas, buscando um resultado já previamente delineado.

Qualquer pessoa com mínimo trejeito com a realidade factual sabe que não se pode sair na rua contando todas as notas que acabou de sacar em um caixa automático, que não se deve dirigir a 187 km/h na Radial Leste mesmo sem trânsito, que não é bom se expor a situações em que algum potencial agressor encontre mais facilidade para concretizar suas más intenções graças à facilidade que é transformar outro ser humano em vítima – difícil acesso da polícia, multidões apinhadas ou becos escuros, por exemplo.

marcha_brasiliaTodavia, quantos sentidos são passíveis de serem extraídos das palavras pode, deve bom na frase acima? Poder, no caso, não indica uma impossibilidade. Dever não está associado à exigência legal cabível. O bom aludido tampouco tem alguma referência a alguma moralidade filosófica. Quantas conclusões até mesmo alguém com nível superior pode retirar de tais sentenças, escorregando nos desvãos da polissemia de palavras de uso comum?

Quando se tenta explicar que tais comportamentos não precisam ser impossíveis, ilegais ou imorais para não serem incentivados (no mundo ideal, assaltantes e estupradores nem sequer existiriam, e dirigir a altas velocidades deveria ser mais seguro do que andar de skate), estamos tentando explicar uma relação de risco através do potencial de relações de causalidade ainda não-contingente. Se isso é até de difícil expressão, que dirá pedir para o seu Sebastião Virgulino da obra da esquina ou pra dona Josicleide Conceição da faxina explicar esta abstração ainda não concretizada sem apelar para resumir tudo ao verbo “merecer”.

Tal verbo também é muito polissêmico – ou seja, é uma palavra com diversos sentidos. Segundo o dicionário Priberam, podemos elencar:

me·re·cer
1. Ser digno de.
2. Ter jus a.
3. Incorrer em.
4. Fazer por.
5. Atrair sobre si.
verbo intransitivo
6. Tornar-se merecedor.

Será mesmo que 65% dos brasileiros (e brasileiras) concorda que mulheres com pouca roupa “são dignas de serem estupradas” ou que apenas “atraem sobre si” potenciais estupradores com maior facilidade, assim como contar notas de dinheiro na rua atrai mais assaltantes do que agir discretamente em relação às nossas posses?

Quando se pede concordância a uma frase feita, tendenciosa e direcionada, com muitas frinchas obscuras entre suas diversas camadas de significado, a pessoas com pouca instrução, é fácil extrair do resultado da pesquisa a conclusão desviante de que o brasileiro (e uma maioria de brasileiras) crê que mulheres com roupa curta sejam atacadas por “merecimento”, como se fosse uma punição aceitável, e não um risco mais alto de sofrer algo ainda considerado negativo – assim como, quando reprimimos uma criança quando ela se suja de molho ao brincar com a comida, dizemos que ela “mereceu”, embora não haja nada que consideremos imoral em seu comportamento, e nem que desejemos isto para ela.

A mesma pesquisa mostra, por exemplo, que 63% disseram concordar com a ideia de que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre membros da família”, enquanto que 91% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a prisão dos maridos que batem em suas esposas – como não notar a contradição?

homem sem camisaO corpus da pesquisa, dado nas mãos de pessoas mal intencionadas e com os preconceitos de outras épocas, seria o mesmo a permitir o nojento discurso de separação de pessoas entre as “merecedoras” de proteção estatal e aquelas que devem ser atacadas pelo Estado. Por exemplo, 38,7% dos entrevistados são brancos. O que esse dado geraria nas mãos de um racista da esquerdista Ku Klux Klan ou caudatário do nazismo, o segundo totalitarismo que mais matou no mundo? Não é preciso envidar muitos esforços imaginativos para notar que as manchetes nos jornais da época seriam algo como “Mais negros do que brancos acreditam que mulher merece ser estuprada”. A mentira e a manipulação dirigida permanecem seguiriam o mesmo modelo.

Definir os vários sentidos de “merecimento” não é tarefa simples. Muitas vezes, são sentidos quase inversos. Um esportista que se esforça “merece” vencer, ao mesmo tempo em que o jogador que tenha feito mais pontos é quem “mereceu” ganhar a partida. Ambas as construções são válidas ao mesmo tempo e as duas são contraditórias entre si.

Da mesma forma, na nossa linguagem cotidiana, muitos vivemos dizendo que políticos merecem tomar uma voadora giratória ninjutsu nas fuças, em linguagem figurada. Todavia, quantos de nós não desejaram recuperação rápida a Lula quando de seu câncer na garganta que era concreto?

Peça para o pouco instruído pedreiro da esquina explicar estas aparentes contradições e entenderá o limbo semântico com o qual tal pesquisa trabalha.

Isto posto, é possível dizer que 65% das pessoas acreditam que todo brasileiro é estuprador em potencial, ou talvez 65% passem a perceber esta pesquisa como enviesada e manipuladora?

Entretanto, há mesmo pessoas que acreditam que qualquer pessoa se expondo a uma situação de maior risco passe a ser alguém que deve ter como punição ser atacado violentamente e perder seu dinheiro, se acidentar ou “ser estuprada”. Estas, sim, são as pessoas perigosas – e aquelas que têm um comportamento que deve ser combatido.

Sophia-Costa-enganada-IpeaTodavia, estas pessoas têm um comportamento 102% de acordo com o que pregam os formadores de opinião progressistas, “críticos”, mundo-melhoristas e ligados à esquerda, com sua palpitaria rastejante a respeito de tudo. Os colunistas que tratam o ser humano como um ser com a mesma profundidade moral de um rola-bosta ou de uma nuvem de gafanhotos, que têm a fé que o comportamento do homem é puro instinto, reflexo e resposta irrefletida e amoral a estímulos externos e ambientais, são os mesmos que usam de tal pesquisa para afirmar, mais uma vez, que se o homem é puro impulso e instigação externa, precisamos portanto de mais dirigismo estatal de “bem pensantes” para atingir uma sociedade justa.

De Rousseau à senadora petista Ana Rita (PT-ES), de Marquês de Sade a Marilene Felinto, de Mao Zedong a Leonardo Sakamoto, de Josef Stalin a Túlio Vianna, de Kim Jong-un a Luiz Flávio Gomes, são os pensadores que julgam que se um homem quer o que outro homem inventou e criou com o seu trabalho (um celular, um prédio, um computador ou qualquer riqueza que não estava na natureza, tendo sido criada por outros homens), basta apelar a algo como “igualdade” ou “justiça social” para que ele tome à força o que é o trabalho de outro. Exatamente como se forjou a crença de que o brasileiro médio apelaria a um estupro por “merecimento”.

Estes amantes da palpitaria opinativa e recusadores do saber (no dizer de Eric Voegelin, os filodoxos, em oposição aos filósofos) detestam a responsabilidade individual, e abrem uma exceção conivente até mesmo quando o assunto é estupro quando lhes convém – basta lembrar de Túlio Vianna ou de Marilene Felinto dizendo que Liana Friedenbach, “menina rica judia de sobrenome estrangeiro”, quando estuprada, seqüestrada, torturada por 5 dias a ponto de ter sua vagina destruída e assassinada a golpes lentos de facadas que a degolaram, era na verdade o elo forte de uma corrente, e que seus estupradores, como Champinha e Pernambuco, é que eram vítimas de “falta de Estado”, a entidade que poderia tomar o que é dos outros e dar a eles o que eles quisessem, quando lhes conviesse.

São “pensadores” e formadores de opiniões prontas incapazes de notar que o correto “meu corpo, minhas regras” (maior demonstração de que só existe liberdade com propriedade privada e auto-propriedade sobre nosso próprio destino) é extensível para “os frutos do meu trabalho, das minhas escolhas, do meu esforço e da minha criação são definidos também por minhas regras, e não por algum ‘pensador social’ querendo ‘reformar’ o mundo com base em suas abstrações preferidas”.

Eles o fazem não porque o estupro é uma das piores experiências pelas quais mulheres (e homens) correm o risco de ter de enfrentar – até quando uma dentista é queimada viva dentro de seu consultório, que parece uma experiência ainda pior do que um estupro, o discurso destes palpiteiros é “olhar para o social” – e sim tão somente porque são ocasionistas e aderentes a qualquer modinha da vez – e nenhuma modinha é mais onipresente no momento do que confundir “defesa do feminino” com “feminismo”, tentando extrair significado de uma palavra através do próprio som da palavra. É um erro comparável a confundir defesa da estrutura familiar com “estruturalismo”, ou defender prédios de concreto ao invés de choça para os pobres afirmando que isto é “concretismo”.

marchavadias.nao-e-um-conviteConfundindo sempre a linguagem, misturando sentido literal e figurado, invertendo e manipulando estatísticas, os resultados desta pesquisa, se fossem mesmo tão assustadores e nojentos como parece, na verdade seriam frutos inescapáveis deste pensamento que tomou conta do país – e não o desvio do progressismo. Eles agora tentam fazer crer que se eles são contra o estupro e são progressistas, logo ser conservador seria “apoiar” o estupro. Não é preciso muita esperteza para perceber o que queriam os pesquisadores que encomendaram a estatística.

Estas pessoas com seu discurso abstrato de “desigualdade”, “direitos humanos” ou “função social” culpam a “cultura de estupro”, e não o estuprador – da mesma forma em que culpam “as condições sociais”, e não o assaltante, o assassino. Assim, todos os que não fazem parte de sua patota são automaticamente os piores vermes a rastejarem sobre este Vale de Lágrimas até prova em contrário – mesmo quando eles são as vítimas das maiores violências já perpetradas pelo ser humano.

Urge relembrar sempre do óbvio: responsabilidade individual é coisa de conservador, de liberal – de “coxinha”. É a auto-propriedade, a responsabilidade pelos próprios atos e pelas próprias escolhas. É a idéia de que lucro e prejuízo recaem apenas sobre o agente que tomou atitudes com conseqüências, assim como as ações que agridem outro ser humano, do furto ao estupro ou assassinato, são culpa do único agente humano que o cometeu – e para isso serve a polícia e a cadeia.

No belíssimo dizer de Theodor Dalrymple, “A única causa inquestionável da violência, tanto política como criminosa, é a decisão pessoal de a cometer. (…) Deste modo, qualquer estudo sobre a violência que não leve em conta os estados de espírito é incompleto e, na minha opinião, seriamente insuficiente. É Hamlet sem o Príncipe.”

Este é o pensamento dos chatos “direitistas”, “conservadores”, “reacionários”, “coxinhas”: os homens (e mulheres!) que não abdicam da responsabilidade individual, muito menos da sua própria responsabilidade individual. Não é preciso entender algo além das causas e conseqüências deste fato para abraçar o Tea Party que cada um guarda dentro de si e se preparar para ser xingado de fascista justamente por intolerantes que querem controle estatal sobre tudo – e abraçam qualquer modinha momentânea e frugal.

Os progressistas, por outro lado, só conclamam à responsabilidade individual por conivência – geralmente para culpar seus desafetos, para criminalizá-los encaixando-os à força na “cultura de estupro”, mesmo que sejam odiadores de estupradores, e para dizer que eles “protegem seus interesses” – como se o progressista fosse um monge tibetano que fez voto de pobreza, obediência e castidade, não tem desejo nenhum em relação ao mundo, sabe que todas as palavras são uma ilusão, é constituído de pura energia e se alimenta apenas de cores. Sem nenhum preconceito entre o azul e o marrom.

Antes de se indignar e espezinhar “a mentalidade conservadora” e “a cultura de estupro” do brasileiro, tendo medo de sair na rua, é bom haver um pouco mais de labor entre uma pesquisa feita por frases prontas e conclusões aterrorizantes feitas de improviso na sétima marcha.

causas do estupro

 

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