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A defesa de Cesare Battisti: “prova final” desmascarada

Cesare Battisti com Suplicy, Chico Alencar e a turma do PSOL

por Flavio Morgenstern*

O ex-professor da UNICAMP e ativista da Anistia internacional Carlos Alberto Lungarzo apresentou em seu site uma série de slides chamada “Provas das Falsificações da Justiça Italiana para Condenar Battisti”. Com dados até criteriosos (não pesquisei a veracidade de nenhum deles, mas isso só atesta minha boa-fé em confiar na veracidade das informações apresentadas pelo professor), Lungarzo explica que há três procurações falsamente assinadas por Battisti afirmando que ele determinou seus advogados quando foi julgado à revelia, quando, na verdade, pela visão do professor, “foram falsificadas pelas autoridades italianas” (grifo do original).

Apresenta o professor um rigoroso estudo de grafologia sobre certos documentos (cuja autenticidade, novamente, não verifiquei, mas dou crédito á tese do anistiador) para sustentar tal afirmação. Claro como petróleo. Por que quando um dado vindo de um tribunal democrático, de um filósofo erudito, de uma investigação detalhada e esmerada ou de algum órgão que não é o oficial da esquerda este é sempre posto em xeque antes mesmo de se ver o seu conteúdo, mas quando é um defensor da “Anistia Internacional” mais preocupado em liberar um assassino do que em dar refúgio a mulheres em risco de apedrejamento e pugilistas cubanos, aí ninguém duvida de suas „Hintergedanken”, suas “intenções ocultas”? Por que a direita (supondo que quem busque a punição a Battisti, criminoso comum, seja apenas “a direita”) é sempre mal intencionada e busca matar pessoas, e a esquerda, até quando mata pessoas, é sempre bem intencionada e caridosa?

Cesare Battisti com Suplicy, Chico Alencar e a turma do PSOL

Seus argumentos são simples: as três procurações diriam que o próprio Battisti nomeou os advogados que o defenderam quando este foi julgado á revelia. Para o grande defensor da “Anistia”, parece que o fato de Battisti ter sido julgado à revelia porque fugiu da cadeia é de pouco interesse. Os advogados nomeados eram ex-advogados de Battisti, que também advogaram a favor de sua organização terrorista, os Proletários Armados pelo Comunismo. Afirma ainda o professor que na Europa inteira, “exceto na Itália“, o réu julgado em ausência tem direito a um novo julgamento. Obtempera-se: e daí? Battisti é um criminoso italiano. Se o assassinato for legalizado na Terra do Fogo, ele continua tendo de seguir leis italianas, e não fugir e ainda culpar a Itália por seus quatro homicídios. Para piorar, Lungarzo afirma como algo “positivo” a Battisti que ele só tenha tomado conhecimento da sua condenação em 1990. Ora, alguém mandou fugir? Para embromar circunstantes desavisados, dá detalhes sobre sua pena “política”, mas não diz uma vírgula sobre os crimes de assassinato cometidos pelo terrorista extremista fanático.

Em outras palavras: se o advogado de um grupo terrorista chamado Proletários Armados pelo Comunismo consegue ser “nomeado” numa procuração falsa como advogado de Battisti em um julgamento à revelia, você coloca a culpa nas autoridades italianas. Não é de se supor que as autoridades italianas falsificariam um documento pedindo outro advogado, que não o que já defendera Battisti anteriormente? Qual seria o interesse das autoridades nisso?!

Quem é o suspeito de fraude: um defensor de um grupo terrorista favorecido, (talvez não financeiramente,  o que é um pecado para a esquerda), com sua nomeação para representar o esquerdista humanista Cesare Battisti, ou uma autoridade italiana que teria como primeira vontade não dar a Battisti o mesmo advogado que defendia o grupo Proletários Armados pelo Comunismo (não é só pela homonímia da sigla com o programa governamental petista que se deve sempre escrever seu nome por extenso), e misteriosamente teria fraudado assinaturas de Battisti sem ter a posse dos documentos para dar a Battisti exatamente o que ele tivera antes?!

Obviamente, o suspeito é quem está contra a esquerda, pois esta possui uma virgindade criminal imaculada.

A culpa das “autoridades italianas”

Para confirmar a farsa da atribuição de culpa indevida, não é preciso recorrer senão aos dados passados pelo próprio Carlos Alberto Lungarzo: segundo ele, Battisti foge para a França em 1981 e deixa folhas em branco com Pietro Mutti, chefe dos Proletários Armados pelo Comunismo (sigla que Lungarzo não tem a maior das boas-vontades de escrever por extenso), deixando com ele folhas assinadas em branco:

“Battisti não lembra quantas eram, mas o mais provável é que fossem entre 4 e 7.
Era frequente deixar essas folhas em branco, para que parentes e amigos pudessem fazer tramitações em representação do fugitivo, em caso de um processo por fuga.”

Como culpar a autoridade italiana, que não teria acesso a estas assinaturas? O próprio Lungarzo responde:

“Como eles recebem essas cópias em branco? Os que conhecem o caso Battisti sabem que houve um delator principal, Pietro Mutti, o mesmo que o ajudou a sair da prisão. Ele queria culpar a Cesare; então também deve ter passado as folhas assinadas ao Juiz, o Promotor, etc… [sic] Também pode ter sido outro do grupo.
Então aparece como se, neste novo julgamento, Pelazza e Fuga continuassem sendo seus advogados.” (grifos do original)

Despiciendo atentar para a intimidade ou o carinho que Lungarzo parece ter por Battisti para chamá-lo simplesmente de “Cesare”. Nada suspeito. Também nada mais justo que um fugitivo perder qualquer direito de usar a jurisdição de que foge para se defender (e tão somente para se defender, nunca para ser acusado de quatro homicídios). Caso ainda tenha algum direito, ter um advogado chamado “Fuga” soa bastante adequado.

No mais, então Battisti assina “entre 4 e 7” folhas em branco, para que alguém superescreva qualquer coisa por cima com sua chancela. Quando elas são, enfim, utilizadas, o assassino, terrorista, comunista e fugitivo chora. Se tivesse assinado um cheque em branco, também ficaria invocando os anjos para sua defesa?

Há indicação de que a terceira procuração teria sido falsificada por magistrados, por usar uma procuração original de Battisti de 1979 em decalque. 1) Não fica claro em momento algum a necessidade de ter informações armazenadas na Justiça para se montar uma procuração baseada numa procuração anterior (a não ser que um terrorista com uma enxurrada de processos na Justiça não tenha nenhum documento que lhe defenda perto de si próprio). 2) Ainda que isso fosse necessário, alguém que tinha as folhas em branco teve de entregar para uma autoridade para essa nova procuração ter sido “montada”. Por que esse fato, que fora afirmado no slide anterior, de repente passa a ser completamente irrelevante, e a culpa recai quase sobre o “governo de extrema-direita da Itália fascista de Berlusconi”?

É o que revela a argumentação de Lungarzo:

“Políticos, defensores de Direitos Humanos, advogados, intelectuais, e outros, contaram essa história [da falsificação] a muitas pessoas.”

Alguém precisa explicar para o sr. Lungarzo que políticos, defensores de Direitos Humanos, advogados e intelectuais são exatamente as quatro categorias que qualquer bípede desmamado conhece serem os campeoníssimos da mentira em escala global.

Se parece uma velha intriga ideológica, basta ver a forma estapafúrdia como Lungarzo fala da influência do admirável filósofo Albert Camus sobre a esquerda: segundo ele, influenciou a “esquerda humanista”. Pode ser que tenha sido (no caso do Brasil, sua influência beira a nulidade), mas daí a querer forçar uma aproximação entre Battisti e uma “esquerda humanista”… ou é piada, ou sou obrigado a fazer uma pergunta: se Battisti é humanista, as pessoas não assassinas com influências libertárias (e também de Camus) são o quê?!?!


A prova final da “falsificação da Justiça italiana”

Até mesmo o fato de a terceira procuração ter sido alegadamente recebida pela “justiça italiana” (quem? qual órgão? “a Justiça”, com J maiúsculo, é diferente de “um órgão da Justiça”) via uma carta do México é suspeito para Lungarzo: ora, e onde está o envelope? É bem mais difícil falsificar um envelope com selo internacional: “Essa falsificação possivelmente teria exigido uma gráfica do Estado, e poderia chamar atenção”. Isso se fosse a alta cúpula da Justiça? Não, isso não “chamaria a atenção”. Isso só se quem a falsificou não tivesse lá muito a ver com o Estado italiano.

Bem longe deste momento da argumentação Lungarzo dá pra trás um pouquinho, daquele jeito que não se compromete, mas seu leitor, já predisposto a acreditar em sua fanfarronice, não percebe o truque:

“Não sabemos quem foi o autor, mas parte do MP e a [sic] magistratura italiana deve [sic] estar envolvida. Os italianos guardaram muito bem o segredo. nem sabemos se fo confiado a seus aliados brasileiros e franceses.”

Então a “prova final” de que houve fraude da Justiça italiana é que “não se sabe quem foi o autor”, logo, “a magistratura italiana e o MP devem estar envolvidos”. Afinal, onde já se viu confiar numa Justiça que não deixa ninguém assassinar quatro pessoas a sangue frio num momento de stress pós-traumático?! E a dita “extrema-direita” italiana com seus interesses escusos no pescoço de Battisti deve ter muitos “aliados brasileiros e franceses”. Talvez a “extrema-direita” do PSDB, talvez outra. Afinal, se não descobriram “o segredo”, é uma prova de que ele existe e foi passado.

A conclusão para tentar colocar toda a farsa da farsa (sic) em tons de história de espionagem com um injustiçado é a suprema sem-vergonhice:

“Imagine que você está no lugar do Battisti, em maio de 1982, escondido em algum lugar do mundo.
1) Você sabe que vai ser julgado e pode ter uma pena dura.
2) Você acredita na justiça italiana (estamos fazendo hipótese, não custa nada imaginar)
3) Seus amigos e parentes lhe pedem fazer [sic] uma procuração, dirigida ao Tribunal de Udine, e você faz e manda pelo correio.
4) Dois meses depois, você sabe que o Tribunal de Milão reclama jurisdição e é possível que você precise de outra procuração!”

AI MEU DEUS O QUE FAZER NESSAS HORAS, pergunta o herói. E onde já se viu democracia na Itália, minha gente? Temos de implantar logo o regime de Cesare Battisti. Afinal, ele não lutava por um grupo chamado Proletários Armados pela Democracia com Decisões Soberanas no STF?

Seu advogado da Anistia Internacional também pergunta: “não seria natural fazer uma NOVA procuração, com o mesmo texto, mas não decalcada da anterior?” – Supondo que todos os documentos apresentados pelo anistiador sejam verdadeiros, sem prova alguma, a resposta é: não. Não dou como presuposto esse comportamento vindo de alguém que assina folhas em branco para que outros o defendam de processo (processo, não assassinato!) por fuga.

Mesmo assim, não nego que essa terceira procuração também deva ser uma farsa. Há bons argumentos em sua apresentação para isso. Mas a questão que fica é outro belo e glorioso “e daí?”. Battisti mata 4 pessoas, destrói a vida de sabe-se lá mais quantas, e o “crime” que seus acusadores cometem é aceitar um documento que Battisti assinou, mesmo sem o ler, mas justamente para isso, ou seja, para que alguém colocasse o texto que quisesse na folha, com a sua anuência?

Para Lungarzo, a explicação seria que “os advogados atuavam sob ameaça” (grifo do original). Sem nenhuma prova. Não sei o que deu na Justiça italiana para ser tão burra e não pensar logo em usar um advogado definitivamente contrário ao réu, já que, creio eu, encontrar pessoas contrárias a um assassino parece-me bem mais fácil do que “fazer pressão” num advogado de um grupo terrorista. Já vi “ditaduras” mais duras por aí.

Também “supõe” Lungarzo que estes fatos que ele apresenta (embora com uma interpretação pra lá de torturadora de evidências) “foram levados em conta pelos 4 magistrados brasileiros que votaram a favor de Cesare e pelo ministro Tarso”. Como disse Jânio a respeito destes pré-nomes, “Intimidade gera aborrecimentos ou filhos. Como não quero aborrecimentos com a senhora, e muito menos filhos, trate-me por Senhor”. Mas este argumento de Lungarzo só comprova o aparelhamento do STF pelo governo petista. Não indica que algo disso seja uma prova de que Battisti merece um apartamento em Higienópolis com vista para o quintal do Nassif.

No mais, a Justiça brasileira, ora, não julgou estes fatos. Se é para Battisti se defender disso, ele deve recorrer com as provas criminalísticas que suas centenas de advogados e capangas gratuitos, conquistados por sua ideologia totalitária, lhe forneceram, e num tribunal italiano. Vá lá pra Itália, Battisti. Vá la se defender de seus acusadores. É apenas mais um motivo para pedir uma extradição nada forçosa.

Entre os “aceitadores de documentos falsificados” (que favorecem seu advogado, trabalhando “sob ameaça” de defender Battisti) e quatro homicídios, qual lado você prefere? Carlos Alberto Lungarzo, os Anistiadores Internacionais, a portadecadeiosfera e a esquerda “humanista” brasileira já escolheram o seu lado.

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Faz um esforço sobre-humano pra não matar a sangue frio umas quatro pessoas por aí quando lê certas coisas na internet. No Twitter, @flaviomorgen

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