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A deliciosa realidade paralela de Marcelo Rubens Paiva

por Flavio Morgenstern

Marcelo Rubens Paiva, a cada dia mais parecido com o Gravataí (ou seria o contrário?), novamente resolveu falar mal “da direita” em seu blog no Estadão (mídia golpista). O texto começa assim:

DIREITA é como 1 avestruz, por vezes esconde a cabeça debaixo da terra.

Não entendemos por que trocar um artigo indefinido por um algarismo arábico na sentença. Se ainda fosse “um” de numeral, vá lá, dá preguiça digitar. Mas um um assim, um um que é um artigo indefinido, esse é outro um. Um sr. Um, um um que não merece ser transmutado em algarismo.

Marcelo Rubens Paiva (MRP, já que ele chama um de 1) é o famoso autor de Feliz Ano Velho. Lê-lo, de fato, é uma viagem no tempo. Podemos entender como era a vida antes dos intelectuais blogueiros. Ao invés de vários intelectuerdas em coro repetindo o mesmo, tínhamos um só na página de um jornal por já ter escrito um romance de algum sucesso. MRP quer ser uma espécie de Reinaldo Azevedo de esquerda, mas só consegue copiar mais o histrionismo espalhafatoso e nem 1% da informação e erudição. MRP consegue ser, no máximo, um Sakamoto que deu certo.

O texto de MRP também começa com uma imagem ilustradora:

Infelizmente, ilustra exatamente o que MRP não quer ilustrar. Isso aí é a “extrema-direita”? Um velhinho de suspensórios? É disso que MRP tem medo? Poderíamos falar sobre os extremistas nem tão extremos de esquerda. Mesmo antes de chegarem ao poder, já são um pouquinho mais… ahn… anti-sociais.

Mas não é apenas como piadinha que a imagem é um erro. MRP confunde o tempo todo “direita” com “extrema-direita”. Se nos EUA, onde curiosamente o vermelho é a cor da direita, afirmar que se é um extremista da right-wing significa afirmar que se é muito conservador – ou seja, defender posições religiosas e/ou muito moralizantes dentro do escopo democrático (com seus dois nichos, ou suas duas wings) – a chamada “extrema-direita”, como definimos o conceito em português, quer destruir a democracia e usar o Estado para instaurar uma ditadura voltada a promover idéias de alguma ordem geralmente fantasiosa.

Quando MRP explica por que não gosta da direita, dá como exemplos basicamente a extrema-direita, ou outros regimes autoritários de identidade ideológica incerta. Abundam exemplos adolescentes. Para ele, falar mal da direita não é criticar privatização, e sim autoritarismo. Não é falar mal da idéia de um Estado mínimo, e sim dos brucutus ultra-estatizantes da ditadura. Não é criticar o liberalismo, e sim o nazismo (cuja concentração de poder político e econômico surge do mesmo fator que faz a esquerda ser tão controladora, como já mostrava Friedrich Hayek, autor ipse dixit no que se refere à direita, em O Caminho da Servidão).

É uma divisão natural de posições, aceita tanto por um esquerdista como Norberto Bobbio (Direita e Esquerda – Razões e significados de uma distinção política) quanto pelo mais aguerrido defensor do livre mercado do planeta, Murray Rothbard (Psquerda e Direita: Perspectivas para a liberdade). Por fatores históricos, deram o nome de “direita” e “esquerda” a duas facções existentes em alguns regimes democráticos. Não significa que uma democracia precisa necessariamente ter ambas (o Brasil praticamente não possui uma direita no Congresso), pois os termos confundem. Não é só porque uma sala tem um lado direito e um esquerdo que, quando você a enche de políticos, necessariamente alguns defenderão idéias de justiça social através do Estado e outros serão tradicionalistas defensores do livre mercado. “Esquerda” e “direita” são apenas nomes, tais como “desenvolvimentista” ou “militarista” (notando-se que o segundo é o único que diferencia a política da ditadura da política do governo Lula). Não se deve confundir a metáfora do signo pelo seu significado.

É assim que Hannah Arendt define os dois termos (As Origens do Totalitarismo). É como Alain Besançon enxerga uma política mais tridimensional: os Estados totalitários que dominam tudo, as democracias liberais com sua esquerda e sua direita, os regimes autoritários que tentam passar por cima dos seus inimigos tomando o poder de todo, as eternas teocracias islâmicas se secularizando (e ficando mais violentas) justamente com auxílio até intelectual da extrema-esquerda (Michel Foucault que o diga). Tanto a extrema-direita quanto a extrema-esquerda querem tomar o Estado, concentrar todo o poder em suas mãos, “resetar” as instituições e impedir que alguma liberdade de atuação fora do Estado exista. A extrema-direita, portanto, é muito mais parecida com a extrema-esquerda do que com a direita. Basta pensar: quem são mais parecidos – Hitler e Stalin ou Hitler e Margareth Thatcher? Basta pensar que enquanto Stalin e Hitler assinavam seu Pacto Molotov-Ribbentrop, Churchill, para uma puritaníssima Inglaterra, vociferava que se Hitler invadisse o Inferno, não teria pudores em se aliar ao capeta.

Se é para se compreender, afinal, o que é direita, esquerda e o que cada uma defende, como esse lindo Diagrama aí mostra, façam o teste de 2 minutos do Diagrama de Nolan, do excelente projeto Estudantes Pela Liberdade, e descubra qual é a sua.

Mas esse conhecimento histórico de primeiro colegial passa longe de MRP, que para falar mal da “direita” dispara:

No final da Segunda Guerra, o Holocausto e os horrores nazistas deixaram a direita em hibernação.

Pois é preciso avisar MRP que nunca as duas maiores forças conservadoras do mundo, o Império Britânico e os Estados Unidos, tiveram tanto peso na geopolítica mundial quanto depois da Segunda Guerra – justamente por combaterem o horror de um Estado gigante (ou em risco de se agigantar) desde o início, ao contrário da esquerda, já fragilizada, que teve de esconder documentos de sua própria população (alguns revelados uma década depois por conveniência de Kruschev, outros ainda sendo redescobertos mais de duas décadas após o colapso soviético) e agüentar o peso de um passado com pactos firmados pela união de estatismos contra o “imperialismo” do “capital”. Foi com o triunfo das forças da “direita” que o inglês se tornou língua mundial após a Segunda Guerra (mais importante que o francês, que só se mantém para a diplomacia). Foi com o desastre do New Deal posterior que os maiores nomes de estadistas das décadas posteriores foram os austeros Ronald Reagan e Margareth Thatcher – grandes responsáveis pelo maior ato de liberdade das décadas recentes: a queda do Muro de Berlim, feito para manter “em hibernação” forçada quem preferia correr para um sistema nitidamente mais direitista. John “Ich bin ein Berliner” Kennedy, o maior nome da esquerda do pós-guerra, é um político admirado por duas características famosas: um profundo anti-comunismo e uma forte campanha de corte de impostos. Soa muito “esquerdista” para MRP ou qualquer brasileiro?

Mas claro que MRP não tem uma realidade paralela assim tão boba quanto supor que a esquerda é a reunião de todas as pessoas boazinhas com preocupações com o planeta e outros seres humanos, e a direita seja composta por xenófobos (“A xenofobia continua a ser a tese que mais agrega”), violentos skinheads homofóbicos (“Lembra do bando skinhead que matou o adestrador de cães, Edson Neri da Silva, em 2000 na Praça da República, em São Paulo? Eram homofóbicos”) e saudosistas do estatista regime militar (“O fim da ditadura também deixou a direita piano piano.”) – ele até consegue encontrar algo além disso, em um exemplo de erudição ofuscante:

“Glauber nunca foi de direita. Como Gil, Caetano e alguns tropicalistas. Compunham outra força cultural que não fazia o jogo das esquerdas. Ou melhor, da esquerda mais ortodoxa.

Superada a dor da prisão e exílio, Gil cantava “realce, quanto mais purpurina melhor…”, enquanto a plateia cantava “quanto mais cocaína melhor…”, e Caetano cantava “deixa eu dançar, pro meu corpo ficar odara…”

Não denunciavam a perseguição política, a ditadura, a censura, os milicos. Mas jamais poderiam ser acusados de enveredar rumo à direita.

O tropicalismo é mais profundo do que a visão maniqueísta da vida: 2 lados, 2 ideais.

Não é marxista, stalinista, maoísta, leninista. O tropicalismo gostaria de inventar seu próprio ismo.”

(acredite ou não, grifos do original)

Com, ahn… “parágrafos” como estes, fica difícil desacreditar a tese de que Caio Fernando Abreu cansou de revisar o mais famoso romance de MRP antes de permitir sua impressão. E quando você precisa de Caio Fernando Abreu pra revisar seu livro, meu amigo…

Por sinal, o artigo de MRP se intitula “por que virou à direita? marketing, ora” (sic). Trata-se de referência ao livro recém-lançado “Por Que Virei À Direita”, com ensaios de João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfeld. Livrinho muito interessante para aprender bastante em pouco tempo, que não tem pretensões de ser algo além de uma agradável leitura inicial para deixar o leitor com mais curiosidade com as ótimas referências explicativas. MRP nem faz menção ao livro, a não ser deixando a imagem de sua capa no texto.

Talvez se o ler com atenção (ou, afinal, se o ler), vai entender que a direita como entendida é apenas a política do pessimismo – a política que quer um Estado apenas para que não nos matemos, pois concentrar o poder para atingir uma perfeição onde todos nos amaremos pelo que temos em comum causou os maiores morticínios da História mundial – sempre notando que o Estado é incompetente para nos infligir amor e fraternidade forçadas. e que a busca por uma “igualdade” artificial é infrutífera por ser, afinal, artificial, restando ao poder estatal caçar os “traidores” do empenho coletivo. Como não há espaço de ação fora do Estado na utopia esquerdista padrão, resta a extradição, a escravidão, a tortura em masmorras (igualzinho MRP critica na ditadura, que acredita ter muito a ver com “a direita”) e a morte. Por sinal, afora o esquisitíssimo racismo nazista e alguns socialismos com complicações culturais locais (como o vietnamita ou o norte-coreano), qual totalitarismo não tem explícitas as melhores intenções humanísticas?

MRP só critica indiretamente:

“Hoje, existe uma categoria de intelectual que descobriu que, se reproduzir o discurso da direita, ganha moral, destaque, prestígio e espaço.

Pois no debate sempre foi imprescindível ouvir o outro lado- poucos se dispunham a cumprir o papel de alvo fácil do meio acadêmico e jornalístico; papel de boi de piranha.”

Com vírgula mal-colocada, jura que se ganha prestígio defendendo a direita hoje, e que a esquerda é uma coitadinha preocupada em ouvir o outro lado, seja em meio acadêmico ou jornalístico, enquanto a direita, brucutu e intolerante, a trata como boi de piranha e nem quer saber do que a esquerda pensa. Será que é mesmo muito inteligente afirmar isso criticando um livro sem, bem, ler o outro lado? Será mesmo muito fácil encontrar conservadores, ou mesmo liberais da estirpe libertária (será que MRP sabe o que é isso?) – contrários ao Banco Central e a qualquer obrigação estatal sobre a população nas redações jornalísticas – mesmo na Veja, “pedra de toque” para um esquerdista definir o que são seus adversários?

Pior ainda: em meio acadêmico? Acaso o caro leitor, concordando ou não, ao menos já ouviu falar de nomes como Marx, Sartre, Foucault, Chomsky, Adorno, Habermas, Gramsci, Žižek, Chaui, Benjamin, Deleuze, Agamben, Mészáros ou Bauman? E que tal lembrar, sobretudo a turma de Humanas, de nomes como Sowell, Bastiat, Mises, Hazlitt, Kolakowski, Reale, Gasset, Rawls, O’Rourke, Croce, Soljenitsin, Rockwell, Voegelin, Horwitz, Tucker, Peyrefitte, Mencken, Chesterton, Muggeridge ou Santayana? Quantos desses nomes são, no mínimo, familiares aos ouvidos de pós-adolescentes universitários? Pedindo ao acaso, quantos nomes “de direita” MRP, algum jornalista do veículo de sua preferência ou algum universitário consegue citar? Afinal, quem é que não ouve o outro lado, e se tem coragem de abrir a boca, vira “boi de piranha”? Acaso MRP alguma hora vai se preocupar em descobrir, afinal, o que é a direita e o que ela defende, ao invés de não ouvir o outro lado e, como um meninão do DCE, dizer que só ele é democrático, pechando todo mundo que não seja o seu lado direta ou indiretamente de fascista? Como diz o próprio MRP, ao se ir contra a maioria, quem é “patrulhado” – a esquerda ou a direita?

Para MRP, a realidade fácil, onde é só acabar com o pensamento de direita que tudo vai ser uma maravilha (de preferência sem antes dar uma checada no que é que, afinal com mil diabos, esses caras pensam, pra evitar contaminar a sua pureza esquerdista) tem até um adendo:

O escândalo do Mensalão, o fim da pureza petista- a prova de que é preciso colocar a mão na merda quando se quer o Poder- deu a munição que precisavam.

Enfim, se hoje a direita “está na moda”, é graças ao mensalão. Talvez tenha até algo de verdade nisso. De fato, ficou claro para quem quiser ver que a esquerda sabe bem distribuir renda – e que o distribuidor nunca vai lembrar de que aqueles 90% de renda devem ficar com alguém que não ele próprio. Quem já deu uma olhadela em Jouvenel ou Nozick sabe bem. Mas, já que a culpa é “do Poder” (sic, com letra maiúscula), por que o partido adversário do PT (que de direita não tem nada) não possui um escândalo tão grande assim para ser denunciado? Está mais fácil acreditar que MRP é que consegue prestígio defendendo a justiça social bocó e que foi o PT que destruiu as instituições – e não o contrário.

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Entre fazer um pacto com Stalin ou com Churchill, prefere Churchill – e é perseguido na faculdade por isso. No Twitter, @flaviomorgen

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