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A greve dos coxinhas contra os pobres

Há uma luta de classes na greve do metrô: a luta de sindicalistas da classe média usando a vida de pobres para “fazer pressão” em políticos e tentar conseguir um dinheirinho.

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Imagine que alguns jovens de classe média resolvam ter mais dinheiro no bolso, e para isso, em conjunto, tenham uma idéia curiosa: impedir que os pobres trabalhem, até o momento em que tiverem mais dinheiro.

Parece um cenário apocalíptico de psicopatia extrema dominando todo uma sociedade – aquilo que Andrzej Łobaczewski chamava de Ponerologia – Psicopatas no Poder.

Mas, guardadas as devidas proporções e exceções, essa descrição genérica é bem cabível para a greve dos metroviários que assolou São Paulo.

A retórica de sindicalistas é sempre calcada em substantivos coletivos de contornos pouco discerníveis (“a classe trabalhadora”) e abstrações vazias de significado (“o neoliberalismo”), e gera análises estranhas sobre a realidade, como crer que “as forças repressoras” protegem “os ricos”, e portanto “pobre” não gosta de polícia, quando na verdade são as maiores vítimas dos bandidos – bairros pobres são violentos justamente porque pobres é que morrem mais nas mãos de bandidos e precisam de polícia (e policiais, por sinal, são trabalhadores, a maioria pobres, morando em perigosos bairros periféricos).

Fazendo a inversão no vezo de tratar a realidade por esquematismos ideais afugentados da realidade (já que nenhum esquematismo consegue categorizar plenamente a realidade em categorias arbitrárias estanques), podemos ver o que acontece em São Paulo usando linguagem de sindicato – o resultado acabará sendo algo bem próximo do primeiro parágrafo.

Os metroviários são membros da classe média. Para “fazer pressão” nos “patrões”, impedem os pobres, que precisam mais do sistema público de transporte do que eles próprios, de usufruir de algo pelo qual pagam por impostos (uma greve, já nos ensinou Elias Canetti em Massa e Poder, não é apenas parar de trabalhar, mas um acordo de proibição, proibindo seus pares, que não precisam concordar com suas opiniões, de trabalhar).

Descrita nesses termos, a greve dos metroviários nos aparece in true colours. Ou, na verdade, com generalizações, mas mostrando a bizarrice do pensamento sindicalista.

Às vezes o difícil não é fazer as pessoas entenderem complexidades alucinógenas intelectuais, e sim ver o óbvio que esta verborragia esconde. É por isso que o pensamento filosófico, de Sócrates a Husserl, dos estóicos aos pragmatistas, é sempre uma tentativa de encontrar a coisa de volta, perdida em meio à logorréia do dia-a-dia.

Quando a greve eclodiu, as principais e mais antigas linhas do metrô de São Paulo pararam. As únicas que funcionaram perfeitamente, como se nada tivesse ocorrido, durante toda a greve, foi a pequena linha Lilás e a nova linha Amarela, que é privatizada. Essa linha nunca entra em greve – nunca seus empregados impediram trabalhadores de usar pelo que pagam (visto que o custo do serviço também vem em imposto, e não apenas no preço da tarifa) ou foi acusada de má gestão. Os jornais, quando noticiam o fato, raramente dizem o que essa linha têm de tão abençoada: não ser estatal.

Todavia, quando se usa termos cheios de cargas emocionais (mas muitíssimo raramente estudados) como “privatização” ou “público” (eufemismo para “estatal”), acredita-se comumente nas palavras, e não nos significados a que elas se referem. Por exemplo, defende-se controle social, centralizado e burocrático, afirmando-se que se está “democratizando” ou “socializando” o acesso. A linha Amarela do metrô “socializou” o acesso dos pobres aos transportes MUITO MAIS do que as linhas “públicas”.

Por que o medo da privatização, com medo da palavra, mas não das benesses dela? (o mesmo se pode dizer sobre telefonia: com mais celulares no Brasil hoje do que brasileiros, por que não chamar as privatizações de “socialização”? telefone era artigo de luxo por ser estatal.)

Os salários dos metroviários são quatro vezes maiores do que a média nacional. São, no linguajar chulo e perigoso da esquerda, “coxinhas”. Uma greve completamente coxinha, prejudicando trabalhadores mais pobres que dependem do transporte, e não de “fazer pressão política” às vésperas da Copa, para ter o que comer.

Um pedreiro, uma faxineira, um músico, um pasteleiro, uma costureira que saia da periferia de Ermelino Matarazzo, Guaianazes, Sapopemba ou Jova Rural e precisa chegar no centro da cidade para poder trabalhar são os prejudicados – pela “classe trabalhadora” dos metroviários, com médias salariais entre R$ 2 e 4 mil (alguns salários superam os R$ 10 mil).

E por acaso o discurso de estatização da esquerda não garante que nós somos “donos” de empresas como Petrobras, Banco do Brasil, Correios ou do metrô? Por acaso querem fazer pressão… em nós? Se somos mesmo tão “patrões” assim em seu esquematismo de amigos imaginários, fica claro o quanto ela quer o nosso dinheiro e irá nos atrapalhar o quanto conseguir enquanto nosso dinheiro não sair de nossos bolsos e for para o deles – por outro lado, a livre iniciativa do mercado cria riqueza para haver algo novo a ser desejado, e não algo tomado de alguém, sendo subtraído.

Se fosse uma categoria de pessoas que não está numa área politicamente estratégica, os transportes (basta se lembrar das manifestações de 2013), e se os “patrões” fossem políticos de alinhamento ideológico esquerdista/progressista, queridinhos dos sindicatos, os grevistas seriam tão somente pechados disso: coxinhas.

Ao invés de “luta de classes”, hoje temos uma luta de grupos de pessoas que podem ser xingados como “dos nossos” ou inimigos, e tal categoria se inverte ao bel prazer da política sindical e do discurso coletivista e imediatista do momento.

Infelizmente, além de jornais não noticiarem o que está por trás do funcionamento das linhas de metrô, também se calam sobre o que são os sindicatos. Ora, esta greve ocorreu na semana de estréia da Copa do Mundo em solo pátrio. A escolha foi assumidamente “política” – ou seja, quer se fazer pressão política para ter coisas tomadas dos outros via política, como aumento salarial tomado da população como um todo.

Alguém já viu um pedreiro tentar aumentar o salário dessa forma? E por acaso a polícia e a Tropa de Choque, liberando vias para toda a população da cidade e de outras usar o que é público, não está cumprindo o seu papel e fazendo muito menos do que “pressão” para que as pessoas tenham o que é delas?

Urge que a mensagem chegue claramente para todos: quem está por trás dessa greve, como das manifestações do ano passado, são partidos com nulidade eleitoral, mas imenso poder político pela mobilização de massas – a extrema-esquerda de PSTU (controlador do milionário Sindicato dos Metroviários), PSOL e PCB. Eles que formam o chamado MPL – Movimento Passe Livre, estrutura suprapartidária vendida como “apartidária”. Eles que em junho de 2013 juravam que o preço da tarifa significa precificar “o direito de ir e vir”, e agora simplesmente querem impedir pobres de irem e virem a seus trabalhos para conseguir um trocado a mais.

Estes partidos, que crêem tanto numa luta de classes, podem até manter parte de sua “ideologia” intacta, crendo na superstição de que ricos e pobres querem coisas opostas e guerreiam pelo mesmo, precisando um extinguir o outro (por isso crêem em transformar tudo, de gênero a opção sexual, de cor de pele a opinião política, moral e estética, em “luta” dividindo bonzinhos e malvados). Todavia, precisam saber que, se algo disso pode ser forçosamente considerado verdadeiro, os ricos da equação são eles: sindicalistas não trabalham e são entupidos de privilégios, que a grande massa trabalhadora não possui.

Ou seja, não fossem funcionários públicos (o sonho da esquerda, crendo que seu discurso é apartado da extrema-esquerda ultra-estatal), não fosse uma greve contrária a um governador da oposição, o tucano Geraldo Alckmin, e não fosse uma área politicamente estratégica para “fazer pressão”, veríamos a esquerda estrilando que “coxinhas estão impedindo trabalhadores de irem ao trabalho”.

Por comer banana, Yoani Sánchez, a dissidente de um totalitarismo homofóbico, genocida e racista, foi chamada de “agente da CIA” e agredida por estes mesmos playboys que pagam somas beirando mil reais por mês em cursinhos para não pagar por universidade pública. Yoani pediu ajuda a Dilma, que preferiu ignorá-la para puxar saco da ditadura de Fidel e Raúl Castro.

Afinal, se salários devem ser definidos por um plano central e burocrático conforme a “função social”, o que diria a nossa esquerda se estivesse no poder do orçamento desse dinheiro, e visse pessoas com os números que seguem pedindo aumento? Informa a Veja:

Metroviários têm maior reajuste do setor

o Sindicato dos Metroviários decidiu neste domingo não voltar a trabalhar. A categoria considera pequeno o percentual de 8,7% de reajuste salarial oferecido pelo governo paulista – e chancelado pela Justiça. No entanto, dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos (Dieese) apontam que os metroviários têm conseguido aumentos salariais maiores que a inflação e que a média obtida pelos empregados do setor de transportes.
Segundo o Dieese, os metroviários tiveram 6,26% de aumento real entre 2011 e 2013. A média para o setor de transportes nesse período foi de 4,9%. Nas primeiras rodadas de negociação, o sindicato dos metroviários chegou a reivindicar aumento de 35,5%. Depois, passou a falar em reajuste de “dois dígitos” e, na última sexta-feira, pediu 12,2%.

Por sinal, vimos cenas de vandalismo (sempre criticável), mas não no centro e nem nos bairros nobres onde se reúnem lideranças universitárias, sindicais e “trabalhadoras”, sempre posando de “pobres”: foram cenas de vandalismo em bairros afastadíssimos, como o extremo da linha leste do metrô Itaquera (4 dias antes do início da Copa mais apagada da história), e não foi de pobres tacando fogo em ônibus, como vimos o PSTU fazendo ano passado:

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Foram vândalos, ainda que vândalos, querendo pegar o metrô à força para ir trabalhar. É esta a diferença entre um pobre de verdade e uma “classe trabalhadora” que só existe como abstração na cabeça de sindicalistas.

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Por sinal, o que faziam os grevistas enquanto a população ficava sem trabalho, sem dinheiro e sofrendo porque alguns extremistas querem poder político controlando áreas estratégicas? Ora, bebendo cerveja de R$ 7,50 e jogando dominó. Revela a Veja:

Algumas das principais estações do metrô de São Paulo amanheceram fechadas pelo quinto dia consecutivo, mas na lanchonete do Sindicato dos Metroviários, na Zona Leste da capital, nunca houve tanto movimento. Nesta segunda-feira, antes da assembleia da categoria – agendada para as 13 horas, mas adiada para o final do dia –, dezenas de garrafas de cerveja (preços de 3,50 a 7,50 reais) podiam ser vistas nas rodas de bate-papo. Um grupo também improvisou um campeonato de dominó. “Não dá mais nem para contar”, disse um funcionário da lanchonete sobre a quantidade de caixas de bebida vendida nos últimos dias. O presidente do sindicato, Altino dos Prazeres, manifestou preocupação com a tomada de decisão ser regada à bebida: “Pessoal, vamos maneirar no álcool até a assembleia. Depois que resolver tudo a gente (sic) toma todas”.

Quem são os coxinhas explorando a pobre classe trabalhadora? Não é preciso ser muito imaginativo para entender por que as 61 demissões dos sindicalistas foram aprovadas por 93% da população, e por que a campanha no Twitter #PrivatizaAlckmin ganha adeptos de todos que percebem o mecanismo da realidade por trás de palavras ocultadoras.

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