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A polêmica sobre o beijo gay está errada

O beijo entre Felix e Nico, em Amor à Vida, causou polêmica – por tudo, menos por ser um beijo entre dois homens.

beijo gay

Causou celeuma o primeiro beijo gay masculino veiculado em novela, no final de Amor á Vida, entre Félix (Matheus Solano) e Nico (Thiago Fragoso). Todavia, a discussão que se iniciou, com cada lado reforçando seu próprio pensamento anterior ao beijo com cada vez mais raiva, dificilmente atinou com a realidade.

Alexandre Soares Silva, o maior escritor vivo do país (que não fala palavrão; o maior escritor desbocado é o Olavo Pascucci), já definiu que qualquer assunto ganha a maioridade quando passa a ser tratado pela ficção, e não apenas pela não-ficção.

O futebol, por exemplo, ainda é um esporte inexpressivo, se o hockey, o futebol americano, o beisebol e o tênis já foram objetos de tanta ficção, enquanto o futebol apenas é tratado como assunto de bar (a despeito de algumas crônicas de Nelson Rodrigues, a redimir o esporte). Um assunto é assunto de adultos quando entra em discussão pelos maiores ficcionistas da humanidade, que só tratam dos assuntos mais adultos possíveis. Curiosamente, o beijo gay já foi objeto de literatura desde a tenra Antigüidade.

Uma das ferramentas para se entender como a ficção de uma novela se relaciona com a realidade é a chamada imaginação moral, complexo conceito de crítica literária que trata de personagens com conflitos realmente humanos, com uma moral, valores, desejos e circunstâncias muitas vezes conflitantes. Hamlet não é o maior personagem do drama por sorte.

Quando colocados nas situações da realidade ou de verossimilhança da ficção – nas tessituras do real em que as coisas não funcionam no preto no branco, e nem sempre se sabe o que se fazer, diferentemente do mundo ideal e fantasioso das crianças – tais personagens entram em conflitos internos muitas vezes insolúveis em si, quase tendo de criar um novo mandamento para darem sentido aos seus próprios atos em conjugação às leis já escritas – não à toa, não há Constituição no mundo que englobe todas as situações reais possíveis, com seus atenuantes e agravantes, exigindo sempre o trabalho dos operadores do Direito para fazer justiça não só com leis escritas.

No monumental Crime e Castigo de Dostoievsky, por exemplo, Rodion Raskólnikov, estudante pobre, planeja um assassinato de uma “velha má”: usurária (o que a mentalidade anticapitalista da época achava erroneamente odiável). Por um acidente, a irmã da velha também é morta, tornando Raskólnikov duplo homicida.

Criador de uma teoria que divide os homens entre “ordinários” e “extraordinários”, Raskólnikov não percebe, senão quando lhe chamam de volta para a realidade, que ele próprio, ao criar tal teoria, se considera “extraordinário” – não percebendo, portanto, que sua teoria pretende explicar a realidade, mas parte de um pressuposto irreal, em que o próprio teórico estaria “acima” dessa realidade descrita.

Raskólnikov então entra em uma série de diálogos internos cheios de raiva, ódio, exaltação e outros sentimentos e pensamentos contrastantes e, quase como Sócrates discutindo com o espelho, vai voltando para a sua experiência real – sua história própria, seu destino único que só está sob sua responsabilidade, e sua ligação com a justiça sempiterna que exige algum ato além da mera dor de cometer um crime errado.

Em uma das cenas de maior rigor literário já escritas, Raskólnikov, em um quarto escuro, lê a Bíblia com Sonja, menina tímida e pobre que, obediente à mãe morrendo de tuberculose, passa a trabalhar como prostituta para alimentar seus irmãos pequenos (um belo conflito entre a castidade e o “honrar pai e mãe” e proteger a família). Em uma alcova feita para se saciar a carne, um assassino e uma prostituta lêem a Bíblia na madrugada. Um, cheio de orgulho e a um só tempo de humildade cristã, usa seu tempo profano para um ato de amor virginal e elevação espiritual. A outra, repleta de virtudes mas desconhecedora do mundo, conhece finalmente o bem justamente porque se rendeu ao mal do mundo.

Tais são os exemplos de conflitos que a mente culta está acostumada a lidar na literatura – cargas pesadíssimas, capazes de danificar uma alma, são o material didático da formação cultural mais rígida do mundo. Exatamente o oposto do que se tornou a ficção literária brasileira, que atualmente, de cada 10 livros, 9 são sobre a ditadura e 1 sobre drogas no morro. Não surpreende que o final de Crime e Castigo seja o exato oposto das teses que discutem tanto o “social” apenas repetindo slogans sobre “desigualdade” até mesmo para justificar assassinatos, tão típicas de Sakamoto, Alex Castro, Marilene Felinto, Túlio Vianna et caterva.

Um beijo gay no seio de uma família milionária não significa absolutamente nada para a “mentalidade conservadora” ou como se queira chamá-la.

Faz parte da formação de qualquer “conservador” o estudo de muitos autores gays, de Júlio César a Oscar Wilde, sem falar em Marcel Proust, Virginia Woolf, André Gide, Gore Vidal, Walt Whitman, Anaïs Nin, Arthur Rimbaud, Gertrude Stein ou Tennessee Williams, só para ficar nos modernos. O erotismo homossexual aparece desde o Alcibíades do Symposium de Platão até em Thomas Mann, muito mais respeitado por conservadores do que por progressistas. E o que dizer de figuras emblemáticas como Andrew Sullivan, escritor gay e soropositivo, mas católico e conservador de carteirinha?

A questão não se deu graças a um beijo gay. Os personagens Nico e Eron poderiam ter dado o seu primeiro beijo gay quando comemorariam o filho que “tiveram” – a exaltação de uma vida comemorada com um beijo, e a partir de então os beijos entre ambos poderiam muito bem ter sido freqüentes – e anódinos e entediantes como sempre é ver outras pessoas se beijando sem nos dizerem respeito. Não geraria nenhuma quizumba.

ninfomaníaca-lars-von-trier-shia-labeoufTodo o arranca-rabo na verdade não teve nada a ver com o beijo. As novelas, no Brasil, têm por objetivo implícito dar às pessoas o que elas querem, e não uma trama feita por um autor pouco se lixando para a opinião do público – compare-se a qualquer filme de Lars von Trier, que é elogiado pelos mesmos que repudiaram o beijo gay na novela, e repudiado por quem enalteceu o selinho sem graça. A questão sobre o beijo desaparece em um segundo.

As novelas no Brasil são feitas para se determinar valores para as próximas gerações, também. Pode-se crer que foi mera coincidência que, assim que os muçulmanos entraram no debate público brasileiro, mesmo sem sua presença massiva por estas bandas, a Rede Globo tenha veiculado a novela O Clone – assim como temas tabu como a vida sexual de adolescentes, bulimia, alcoolismo, racismo e homossexuais venham aparecendo paulatinamente como dominantes na maioria das novelas – saindo de um núcleo de personagens exóticos periféricos para estarem sempre no centro do debate. Contudo, é exagerar nas meras coincidências com fatos reais crer que este movimento seja tão bem encaminhado em novelas de autores distintos.

Até mesmo ligações e e-mails para a Globo são enviados quando o enredo vai contra o que os espectadores esperam – como a personagem negra que não comia chocolate porque “empreteja”, não gostando de ser negra (sendo muito criticada pelos espectadores, e fazendo a atriz até ser xingada na rua). Os autores de novela, ao contrário de escritores com imaginação moral profunda (ou desencanados completos da opinião pública como Lars von Trier) só trabalham com aquilo que os espectadores esperam.

Isso se revela na forma como bem e mal são tratados na novela. Não punir o mal e não recompensar o bem é considerado quase tão errado quanto um juiz dar tal sentença na vida real. É como se toda novela, culturalmente, gerasse jurisprudência. E gera – é a ficção que dita os rumos e comportamentos de um povo, e não as análises da não-ficção (o que é contraditório com esta análise, mas meus cupinchas irão entender).

bbb sexoNão é por outro motivo que, na mesma semana em que um beijo gay aparece na novela, no Big Brother duas participantes, uma dela com as tetas de fora, simulam sexo diante dos olhos de todo o Brasil – e nem por isso “os conservadores” reclamaram, e nem mesmo “os progressistas” bateram palma para tal tapa na cara da sociedade.

Óbvio: aquilo era realidade, e beijos gays, sexo, traição, assalto, tiro na cara, mimimi, corrupção, pedofilia, zoofilia, tortura seguida de morte e texto do Mino Carta a gente vê todo dia. Só não atingem o valor de ficção – valor muito mais elevado, já sabia Aristóteles: a história trata do que aconteceu, e a ficção do que pode acontecer. São os ficcionistas os visionários, não os historiadores.

Já o selinho de Félix e Nico era a parte “esperada”, tanto quanto o “final feliz” da novela. Tragédias que não ligam para a opinião do público não precisam, necessariamente, punir o mal – porque são verossimilhantes, e a justiça da realidade não faz o bem sempre triunfar no final (ele triunfa em filmes infantis por serem filmes educativos – e isso só na modernidade).

A Antígona de Sófocles é enterrada viva abraçada ao irmão morto para poder enterrá-lo em solo sagrado – assim atinge “justiça”, de uma maneira extremamente injusta, mostrando que a lei dos homens é conflitante com as leis eternas através de um ato extremo. Mas não é assim que os desdobramentos da ficção são mostrados em novela: lá, se espera que se puna o mal – quantas vezes ele triunfou em novelas?

Os vilões de novela (que geralmente não são nada senão um poço de ambição e maldade sem limite) são punidos por roubar, matar, trair, seqüestrar etc – mas, como se sabe que a justiça dos homens é inferior à Justiça etérea, geralmente são presos nos últimos capítulos e morrem, seja acidentalmente, seja por alguma doença fulminante, no último capítulo. É a forma para fazer o público se sentir recompensado, para o mundo ainda fazer sentido para o povo (não só o povão, novela é assistida por muito doutor) e para que o senso de justiça e do que deve ser feito permaneça como uma unidade nacional.

O beijo gay de Felix e Nico foi mais previsível do que a vilã-safada-até-o-fim-que-não-pode-ser-assassinada-por-outro-personagem-porque-matar-é-errado-a-não-ser-que-você-seja-pobre-mas-para-fazer-justiça-o-autor-a-mata-num-acidente-que-mostra-sua-sacanice-e-ela-não-morre-por-um-personagem-que-não-existe-e-sim-pela-justiça-onipotente-de-um-autor-que-existe, e tem um motivo para isso.

Tal beijo não foi tratado como normalidade, como seria um beijo comemorativo pela exaltação de um filho (e depois a novela poderia ter vários beijos gays sem grande discussão) porque foi um coroamento de justiça – mas não dos personagens, que qualquer pessoa com mais de 11 anos sabem que se beijam, furunfam, trocam fluídos, dormem abraçadinhos e mordem fronha possivelmente em posição de revezamento.

O beijo gay aparece contra o público, e isso é uma novidade desta novela. É esta a “justiça” que se fez no final da novela. É uma forma do autor dizer que agora será assim e pronto, goste-se ou não, e o beijo entre os personagens (que já estavam morando juntos, e portanto se altercando há tempos) aparece no último capítulo não por ser o primeiro beijo entre os personagens, e sim para atirar às fauces da sociedade o que ela quer e também o que ela não quer ver – embora coisa muito pior apareça todo santíssimo dia no Jornal Nacional, mas aquilo não é ficção, e nem uma ficção “dirigida” para se adequar aos desejos de justiça de um país continental.

O beijo (ridiculíssimo, após a frase “não vai pensar em mim enquanto você está cortando a cabeça do peixe, néééam?”) quer ser imposto como normal – o que não faria a menor diferença se aparecesse como normal de verdade, mas foi usado para gerar briga de torcida (ou a Globo e, sobretudo, o sr. Walcyr Carrasco não sabiam disso?) jogando com valores distintos na sociedade.

Ninguém deve agredir um gay, discriminá-lo ou cometer atos contrários a ele – mas o que a novela fez não foi tratar um beijo como normal (pelo contrário, é praticamente a última cena da novela), e sim redimir um personagem ruim, malévolo, psicopata: teve o “melhor” final da novela (melhor do que personagens que mantiveram sua retidão de caráter como Paloma, Nico ou Bruno), mesmo tendo jogado uma criança no lixo, manipulado a família e o próprio filho, forjado um seqüestro (pelo que entendi, não venham supor que assisti a novela) etc etc.

Se fosse um hétero, seriam 3 anos de cadeia no mínimo.

Mas Félix atingiu a redenção porque era desprezado pelo pai (não num claro caso de homofobia, mas o pai não queria que ele fosse gay – mesmo pelo sofrimento, muitos pais nada homofóbicos não iriam querer que seus filhos fossem gays), ficou pobre e virou a bicha boazinha (a novela mais centralizada num personagem que já se viu). Seu pai, traidor, sua mãe, que matou uma mulher num acidente, e muitos outros, tiveram um final pior. Justamente porque não chamavam atenção como “a bicha má, depois bicha boa” da novela.

Ou seja, tudo pela desculpa de que algum traço inato em alguém justifica qualquer coisa que ele faça a outras pessoas – até mesmo jogar crianças no lixo e, no final, por ser bonzinho, ser aplaudido por isso (e que progressista liga para bebês?). O discurso mais Sakamoto possível foi alçado à categoria de juiz moral de novela das 8.

Qualquer escritor conhecedor da história da literatura sabe que a narrativa é uma arma nas mãos da opinião pública (pergunte a Dante, a Rushdie, a Rand, a Goethe ou a qualquer tirano tentando reescrever a história). Dar esse poder de moldar comportamentos – mas sobretudo julgamentos e valores morais que nada têm a ver com um beijo, nem sequer com as opções sexuais de alguém – a alguém que pode fazer um país julgar um comportamento horrendo aceitável (e aplaudível!) é mesmo o melhor que queremos para nós – só para corrigir os preconceitos da sociedade?

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