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A revista piauí e a cortina do Genoino

A revista piauí cria uma “crônica” para analisar o cotidiano da família de José Genoino. A revista ainda não fez o mesmo com as famílias de Demóstenes Torres, Roberto Arruda, Paulo Maluf, Hildebrando Pascoal…

genoino cortina

A revista piauí tenta fazer pegar no Brasil uma versão do new journalism, estilo de contar reportagens com uma narrativa típica da ficção. Suas reportagens são sempre num formato quase de crônica.

Foi assim que traçou um perfil (uma das coisas que mais gosta de fazer) de Cesare Battisti, terrorista da extrema-esquerda italiana que fugiu do julgamento por 4 homicídios em seu país para a França e, posteriormente, para o país que mais ama assassinos no mundo.

O foco nunca é nas idéias que movimentam a cabeça dessas pessoas, que elas tentam materializar à força com muito ou, quando temos sorte, pouco sucesso.

Muito menos nos atos das pessoas que mais lhe deram projeção – a revista falou da Itália, do clima, das uvas, da pizza, ocasionalmente até da violência política da extrema-esquerda por aquelas bandas. Mas mal lembra que comentou esse detalhe porque estava falando de Cesare Battisti.

O foco é sempre mostrar um dia cotidiano na vida de seus heróis.

É mais ou menos como aquelas entrevistas do Video Show em que alguma atriz biliardária da Globo abre sua sala de visitas, cruza as pernas para mostrar que usa uma sandália que a deixe com cara de pobre que custou 6 mil reais, jogue o cabelo para o lado e diga: “Porque você sabe, comigo não existe 99%, quando me chamam pra algo eu me jogo!”

CesareBattistiSó que a revista faz isso com personalidades políticas. Assim, ao invés de perguntar pra Battisti se ele se considera mesmo inocente, como é matar um joalheiro, o que ele pensa de quem trabalha no ramo do comércio de jóias sendo um militante sedizente “proletário” (risos) de um partido ditatorial radical ou, sei lá, sua admiração pelo PT, o vemos em sua casa, escrevendo para seu novo “romance” e com comentários sobre a perseguição que sofre da mídia.

Com muitos elementos de ficção, como aquele destaque brother para as lágrimas nos olhos em preto e branco quando fala do quanto sofreu nas mãos de seus inimigos e as pausas tradicionais (isto é, que não querem mesmo dizer nada) quando se tenta falar de seu passado, mesmo o mais recente.

Com essa técnica narrativa, um personagem do quilate (desculpem o trocadilho) de Cesare Battisti entra no seu imaginário como um pai de família, sofredor e morador de Guainazes. Um cara pra quem você pagaria uma no bar só pra ele se abrir e você bancar o psicanalista diante da cara de perdedor do seu interlocutor. Ele lutou contra o sistema e perdeu. É gente como a gente. É um esquecido por todos que você acabou de transformar em um perseguido que merece proteção.

Você terminar de ler a reportagem e dá até impressão de que está devendo um dinheiro pro cara.

Mal aí, Battisti. Eu não quis ferir os seus sentimentos também, né, meu amigão. Não é todo dia que podemos conversar com um assassino ou extremista de esquerda assim, tão de perto.

Quer dizer, só com um assassino. Pra ver comunista em seu habitat natural basta ler uma caixa de comentários na internet.

Bitch, please.

Tal como no new journalism de Truman Capote, que em In Cold Blood mostrou o lado humano de Richard “Dick” Hickock e Perry Edward Smith, assassinos de uma família inteira por ela não ter dinheiro (caso parecido com o dos dentistas Cinthya Magaly Mnho de Soutiouza e Alexandre Peçanha Gaddy, estes casos em que a “lógica” de Sakamoto, Marilene Felinto ou Túlio Vianna mostram-se apenas baboseira pra chamar atenção), ou de Norman Mailer em seu Oswald’s Tale afofizando Lee Harvey Oswald (radical comunista com ligações com o Serviço Secreto Cubano que assassinou John F. Kennedy), o foco prioritário da piauí, quando não são assassinos, são radicalóides de esquerda igualmente criminosos.

Sob o sutil título TEMPORADA NO INFERNO, a revista piauí narra o drama de Miruna Genoino, filha de José Genoino, mulher que “se divide entre a obsessão pela saúde do pai preso e a preocupação com os filhos”. Se não dá pra dizer que Genoino é inocente, vamos mostrar como prendê-lo está causando sofrimentos inomináveis.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=rvuO2EvCTAE[/youtube]

Obviamente, há muitas pessoas que a revista piauí pode apresentar de uma maneira mais afetiva para seus leitores ultra-racionais. Que tal o governador do Distrito Federal, Roberto Arruda? Basta ir até a casa dele e relatar como sua prisão está escangalhando a rotina de sua família. Ou por que não um dia de leituras na biblioteca de Demóstenes Torres? Sugerimos títulos como “A Divina Comédia” ou “Paraíso Perdido”.

(essa é só uma de três reportagens tentando mostrar o lado igual a gente de mensaleiros na revista: tem também reportagem com a ex-mulher de Dirceu e com o Land Rover que ficou perdido sem reclamações de posse muito claras, afinal o mensalão foi só caixa 2. ah, na capa também já tem chamada sobre um diário fictício de Dilma: “A exumação de Goulart mexeu comigo. No segundo mandato vou realizar as Reformas de Base”, grifos cretinos nossos.)

genoino_câmaraLá veremos expressões de apelo emocional que derrubam qualquer esquerdista, estes homens de nervos de aço que não se emocionam com qualquer novelinha mexicana.

Também leremos sobre como “Miruna permaneceu na capital federal por mais alguns dias para acompanhar o calvário do pai”, como “tentou reconstruir ‘o inferno da última semana’” mexendo num colar de contas pretas. Veremos muito choro dos filhos e dos netos do “vôvis” Genoino, saberemos que todo jornalista que tentou chegar perto de Genoino naqueles dias foi um “paparazzi maluco”. Que “depois da notícia do mandado ele [Genoino] fez coisas práticas. Me pediu para pegar o desenho das crianças e colocar na mala”.

Estas falas da filha de Genoino são um show à parte:

“É um martírio, do ponto de vista pessoal [sic], você ter que passar por tantos laudos diferentes para provar uma coisa que a gente viveu na carne [sic]. A gente sabe o que é, a gente não está mentindo. E aí vira enquete na mídia: você acha que o Genoino deve ter prisão domiciliar? Como se fosse dizer quem você acha que deve sair do Big Brother. A saúde do meu pai virou Big Brother, entendeu? Tem o minuto a minuto… Mas isso não é assim. Essa é a minha vida.”

Faltou, é claro, dizer que todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Não que as falas selecionadas não revelem um belo lapsus languae:

“Não vou ficar falando agora: ‘Olha, ele é inocente.’ Não vou ficar falando do julgamento de X, Y e Z. Não quero falar disso agora. Ou sobre quem do PT apoiou, quem não ajudou. Não me importa. O que me importa é que a saúde dele seja realmente cuidada.”

O mensalão não foi só um caso de corrupção, é uma mentalidade. E é curioso que a desculpa de que Genoino não enriqueceu (como se alguém que compra votos, ou empadinhas, enriquecesse no processo) só anda a revelar que o PT, o partido da distribuição de renda, não parece ajudar sequer um companheiro pobre. Enquanto isso, tente encontrar outro petista “pobre”…

Nem por isso, o pobre Genoino deixa de ter um acompanhamento médico digno de Mao Zedong:

“No curto período de duas semanas, ele [Genoino] já foi avaliado pelo Instituto Médico Legal do Distrito Federal, por um cardiologista particular enviado ao presídio pela família, pela junta de cinco médicos da UnB formada por ordem do Supremo para dar subsídios aos ministros sobre a necessidade ou não de precisão domiciliar e, finalmente, por um grupo de quatro médicos designados pela Câmara dos Deputados para avaliar se ele pode se aposentar por invalidez”.

Per fas et per nefas, inventamos agora o médico porta-de-cadeia. Tudo isso, muito com o nosso dinheiro, apenas para tentar tirar Genoino da cadeia e deixa-lo em casa, curtindo uma aposentadoria por invalidez tranqüilão com a família, e ainda chamar isso de “inferno”. Ofereça trocar essa vida com a de 90% dos brasileiros tão bem cuidados por Genoino para ver qual será o resultado.

Somos informados de que “mensalão é uma palavra que Miruna nunca usa”. Ou como a “perseguição da mídia” está registrada no iPhone de Miruna. Aquela mídia de cujo repórter Genoino, com filha a tiracolo na Câmara, chamou de “torturador moderno”. como ela relata nesse “longo desabafo”:

“O que eu passei com os meus filhos… Porque, assim, eu entendo que meu pai seja notícia nesse momento. Eu entendo aquela foto dele saindo (…). Eu até entendo agora que queiram tirar uma foto dele, onde ele está, porque ele é a notícia. Agora, eu não entendo essa agressividade comigo, com meu irmão, com a minha mãe e com os meus filhos.”

Nós ainda não entendemos aquela foto. Mas é uma declaração estranha, visto que na frente da Papuda vemos, na verdade, uma agressividade da peste com quem passe por ali parecendo ser jornalista. A agressividade vem de um bando (turba? coletivo? farândula? patuléia? quadrilha?) de militantes do PT que não fazem mais nada dia e noite, a não ser gritar por Genoino e Dirceu e agredir repórteres.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=FzTW1GErkTc[/youtube]

Quem, afinal, poderia causar tamanho infortúnio a um vovô tão “vôvis”?

“O meu pai não é um avô de mês, de visita mensal ou de almoço de domingo. O meu pai é um avô da vida toda dos meus filhos. Ele é do cotidiano. Entende? Ele faz parte.”

Ou então essa ode ao mysterium tremendum, algo tão raro que só poderia acontecer na família de um herói como Genoino?

“MInha relação com meu pai é muito, muito, muito forte. Vem desde o meu nascimento.”

Mas finalmente vamos entendendo qual é a do Genoino, se o “vôvis” está gagá e, afinal, por que diabos ele “se entregou” (é assim que a revista diz, “se entregou”) à Polícia Federal trajando uma CORTINA COR-DE-ROSA e indo para o presídio com o punho esquerdo erguido como se fosse alçar vôo.

Na verdade, a pobre família de Genoino buscou “ajuda profissional” para explicar aos netos que o “vôvis” seria preso. As crianças, cuidadas para não assistirem TV aberta, não deixavam de ouvir o que não deveriam ouvir. Um neto indagou:

“Vovô, por que umas pessoas querem matar você? E por que você não mata elas também?”

Aí o vovô teve de explicar que as coisas não eram assim, tão extremas, que seu projeto de transformar o Brasil em Cuba e mandar opositores pro paredón não tinha dado muito certo, que o paradeiro de Celso Daniel, Toninho do PT e Yves Hublet já davam muito trabalho, imagine para a maioria de eleitores que não votou na Dilma, que ele na verdade só estava na Câmara como suplente mas seu advogado Luiz Fernando Pacheco recomendou que se adiasse o assim tão-rugente pedido de prisão domiciliar para Genoino conseguir antes ganhar a aposentadoria por invalidez e aproveitar o otium cum dignitate com R$ 26 mil garantidos dos bolsos dessas pessoas que queriam matar não tão extremamente assim o vôvis como se não houvesse amanhã, mas que depois que o mandado saiu antes do esperado aí o discurso mudou e o negócio era dizer que Genoino precisava voltar pra casa urgentemente porque uma terapeuta ocupacional jurou que ele estava com “princípio de enfarto”… mas enfim, a revista só preferiu ficar com a primeira frase.

O netinho já havia dito antes a Miruna: “Mamãe, eu rezei tanto essa noite para não ter ninguém na porta da casa do vovô”. É chocante como frases de cunho religioso de repente se tornam motivo para incendiar corações esquerdistas.

Mas para explicar para os netos por que o “vôvis” foi ver o sol nascer quadrado, a filha de Genoino teve uma boa narrativa: “Paulinha, sabe quando o bonzinho do filme enfrenta um monte de dificuldades? Então, a gente está agora naquela parte chata do filme.

Chata ou não, fato é que Genoino ficou épico com a cortina de casa enrolada no pescoço para mostrar como é o bonzinho do filme. Os netinhos talvez não tenham se acalmado, mas dada a militância petista na internet, certamente eles ainda acreditam na fábula de seu super-herói. Talvez até mesmo que Genoino voe e dispare raios lasers de seus olhos.

E nós já quase acreditamos que devemos uns trocados pro Genoino. Mal aí, companheiro.

genoino pf

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