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‘A UNE nem ama nem odeia Dirceu’, segundo seu líder

O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Daniel Iliescu, de 28 anos, concedeu entrevista ao Estadão explicando suas relações com o ex-ministro-dispensa-apresentações José Dirceu. A UNE é controlada desde a década de 90 pela União da Juventude Socialista (UJS), braço do dispensa-apresentações PCdoB.

José Dirceu, ex-líder estudantil (whatever it means) na década de 60, pediu, em um congresso da UJS, que estudantes fossem às ruas defendê-lo. Na “democracia socialista”, a turba te pega de galera.

Na entrevista inteira, Iliescu usa do mesmo estratagema: não fala de Dirceu em nome da UNE como “entidade”, de maneira “institucional”. Ou seja, faz a divisão: ele é Iliescu, a UNE é a UNE. Curiosamente, só está sendo entrevistado por ser, afinal, o presidente da UNE. A mensagem não fica nas entrelinhas, mas atirada com violência às fauces do incréu leitor: o presidente da UNE quer um “contrapeso” ao julgamento de Dirceu no mensalão. E se não coloca isso como programa “institucional” da UNE (por qual motivo, além de temer perder votos? ou será que o próprio PT tem outro motivo para não usar um “julgamento popular” como mote de campanha em 2012?), ainda assim, os membros da UNE querem julgar Dirceu à parte – e de maneira absolutamente mais branda.

Isto se dá já nas primeiras linhas da entrevista:

A UNE planeja algum ato em prol do ex-ministro José Dirceu?
Daniel Iliescu –
Como entidade, não está em nossa pauta hoje realizar nenhuma manifestação nesse sentido. Mas nem o mais fragoroso opositor de Dirceu pode negar o papel que ele teve na luta democrática, no movimento estudantil contra a ditadura militar. Isso, no entanto, não o exime dos erros que cometeu, assim como não nos exime de reconhecer o papel que ele teve na história.

Ou seja, apenas “como entidade” a UNE não fará nada em prol de Zé Dirceu. Individualmente, é de se supor que toda a UNE, membro a membro, o faça. Com o aparelhamento esculhambado que o PCdoB perpetrou (e provavelmente perpetuou) na UNE, outros partidos de extrema-esquerda criaram a ANEL, Assembléia Nacional dos Estudantes. Apesar de ainda mais lunáticos, não deixa de ser notável que nem mesmo a extrema-extrema-esquerda discorde da extrema-esquerda por questões de corrupção e aparelhamento.

Ademais, é claro que não é preciso ser um “fragoroso opositor de Dirceu” para negar seu papel na redemocratização. Dirceu não participou da “luta democrática”, e quem prova isso é o próprio Dirceu. Quando um grupo de uns seus cupinchas, do MR-8 (Dissidência Comunista de Guanabara) e da ALN (Ação Libertadora Nacional), seqüestraram o embaixador americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, foi dado logo de cara o golpe mais humilhante que a esquerda armada deu no regime militar: obrigaram que uma carta fosse lida em cadeia nacional, dizendo a que vieram os terroristas de esquerda. “Luta democrática”? Não há uma palavra. Apenas belas justificativas para o terrorismo. O começo já mostra que veio:

“Ele [o seqüestro do embaixador] se soma aos inúmeros atos revolucionários já levados a cabo: assaltos a bancos, nos quais se arrecadam fundos para a revolução, tomando de volta o que os banqueiros tomam do povo e de seus empregados; ocupação de quartéis e delegacias, onde se conseguem armas e munições para a luta pela derrubada da ditadura; invasões de presídios, quando se libertam revolucionários, para devolvê-los à luta do povo; explosões de prédios que simbolizam a opressão; e o justiçamento de carrascos e torturadores.

Na verdade, o rapto do embaixador é apenas mais um ato da guerra revolucionária, que avança a cada dia e que ainda este ano iniciará sua etapa de guerrilha rural.”

Alguém encontrou alguma palavra sobre “democracia”, sobre eleições diretas e constantes, sobre um regime com troca de poder, sobre uma população longe dos perigos de uma luta armada e violenta pela tomada integral do poder concentrado inteiramente nas mãos de uns dirigentes de extrema-esquerda? Ou só encontraram palavras sobre “guerra revolucionária”, “assaltos a banco”, “explosões de prédios” (que simbolizam exploração!), “invasões de presídios” etc etc? A carta pode ser lida na íntegra na página da Wikipedia de Charles Burke Elbrick. Recomendo a Daniel Iliescu nem sequer dar um Ctrl + F procurando pela palavra “democracia”. A página já deixa de encontrar resultado na quarta letra.

Que tal algum grupo “democrático” pregar por aí assaltos a banco, explosões de prédios-símbolos, invasões de presídios e “guerra revolucionária”, com adicional de “guerrilha rural” hoje? Que tal associar os assassinatos de PMs em São Paulo, já chegando á primeira centena em poucos meses (curiosamente, os meses de eleições) com o “justiçamento de carrascos” que a esquerda promovia? (verbo no passado por mero comodismo) Quem sabe a UNE não seja a primeira “entidade” a voltar a ter um discurso de “luta democrática” ’68 único dono, sem riscos?

Na mesma resposta, Daniel continua:

A gente deve conseguir ter a maturidade e a generosidade de atribuir o tamanho do erro de cada pessoa e também dos seus acertos. O Dirceu é uma figura polêmica, uns amam, outros odeiam. A UNE nem ama nem odeia, mas reivindica respeito por sua história.

Daniel Iliescu quer ter um discurso “moderado”, dizendo que quem duvida do papel de José Dirceu na democratização só pode ser pior do que um “fragoroso opositor”. Como se fosse coisa de fanáticos lunáticos acompanhar a história (e não só a escolha de temas a serem discutidos que se faz em salas de aula) e saber se Dirceu lutou ou não em favor da democracia ou de “guerra revolucionária” – basta analisar que a Cuba para onde se exilou teve menos eleições desde 1959 (antes do golpe militar no Brasil) até hoje. É a postura “moderada” e “imparcial” de quem pensa: “Bem, os nazistas odiavam negros, gays e judeus. Como sou moderado, eu odeio só judeus” (postura não muito diferente do que a esquerda progressista fez nos últimos 50 anos, diga-se).

Será que a UNE irá furtar-se a reconhecer que os erros anti-democráticos de busca de poder à força de Dirceu começaram antes do mensalão, e não será eximida de “reconhecer o papel que ele teve na história”, respeitando assim sua história como guerrilheiro revolucionário com treinamento em Cuba, que, afinal, “alguns amam”?

Sobre as relações da UNE com Dirceu (por que manter relações com Zé Dirceu, ó raios?!), Iliescu novamente diferencia as pessoas de carne e osso que comandam a UNE (como ele próprio) da UNE como “entidade” só materializada no correto terreno de umbanda, ideal, abstrata, intocável e hagiograficamente virginal no Reino de Perfeição do Mundo das Idéias Platônico:

A UNE nunca foi abordada por Dirceu como entidade, isso não aconteceu. O que Dirceu pediu (no congresso da UJS), na verdade, foi que houvesse algum contraponto na opinião pública e eu acho que esse contraponto está sendo oferecido. A própria UNE, quando problematiza a politização do julgamento do mensalão do STF, oferece, não individualmente ao Dirceu, mas para o debate democrático no Brasil, esse contraponto que o ex-ministro pediu.

Então como Dirceu foi parar num congresso da UJS, se tal “entidade” não serve para nada além de gerenciar a UNE? Ou quais foram as outras atividades recentes da Juventude Socialista do Partido Comunista? Pedir votos para Netinho de Paula? Proibir o filme do Ursinho Ted?

A visão de “luta democrática” da comunada fica clara nesse trecho: o STF, instituição democrática (goste-se ou não, e tendemos a não gostar muito da maioria ali), julgou e já condenou Dirceu por crimes que deixariam Collor no Tribunal de Pequenas Causas. O que a “democracia” deve fazer? Ir às ruas, para fazer um “contraponto da opinião pública” (?!?!?!). Ou seja, em nome do “debate democrático no Brasil”, se “problematiza” (?!) a “politização” do julgamento (de um político, dãã), tentando fazer um clamor popular de turba enfurecida contra o que foi democraticamente definido por poderes separados por quase uma década, e não por urros de fúria irracional ensandecida nas ruas.

A propósito, qual a função da UNE? “Problematizar” a política? Já não temos problemas o suficiente? Precisam de tanta verba pública pra isso? E o que é “problematizar”? Nossos “futuros intelectuais” acham que democracia virou conversinha de corredor?

Resultado: Dirceu pediu à UNE para ir as ruas. A UNE ficou com vergonha do Dirça e, “como entidade” imaterial fruto do ectoplasma, com medo de perder votos, não foi. Mas, na prática, seus membros “oferece[m] (…) esse contraponto que o ex-ministro pediu”. Good job!

A própria repórter do Estadão passa a dividir o que é a UNE “institucionalmente” do que fazem seus membros da vida (sem piadinhas):

Então, institucionalmente, não haverá manifestações em favor de nenhum condenado?
Daniel Iliescu – Até aqui não surgiu nenhuma opinião de um militante ou de um dirigente da UNE que levasse a uma moção de desagravo, por exemplo. O que não impede que, numa próxima reunião da entidade, alguma pessoa proponha algo nesse sentido. Sempre há essa possibilidade, mas esse não é centro das nossas preocupações como entidade.

 Antes das duvidas existenciais da “entidade” ou se será “institucionalmente””, na realidade prática, aquela que existe antes de se verificar o que escreveram em contrato, isso já está sendo feito. Só querendo avisar ao presidente da UNE e à repórter (e, claro, lembrem-se disso antes de acreditar que gastam uma fortuna com uma entidade desacreditada que “representa” qualquer estudante desse país além de filiados ao PCdoB).

Como a UNE avalia o julgamento do mensalão pelo STF?
Daniel Iliescu – O fato de o julgamento ter sido um processo casado com o período eleitoral fez com que houvesse politização do julgamento, o que trouxe prejuízos, pois poucas instituições conseguem levar a cabo suas opiniões com 100% de imparcialidade.

A UNE “avalia”! Logo, só a UNE consegue 100% de imparcialidade despolitizada, já que é contra ferrar as eleições dos candidatos do partido que domina a instituição. Alguém pode explicar como é possível não haver “politização” no julgamento de políticos? É preciso haver um “contraponto democrático” pelo “debate”? Se o governo perdeu votos (depois de 8 anos impune), urge dar votos gratuitos para partidos apaniguados?

Após admitir a contragosto que o STF é que tem competência para julgar o mensalão (por que UNE e mensalão são assuntos tão próximos, e falam disso com tanta naturalidade?), Iliescu já tasca logo a seguir uma conjunção adversativa:

Mas é importante que a gente vá a fundo nesse debate, porque a impressão que tenho é que, para muitos, basta que se identifiquem os culpados e decretem uma pena para o problema estar resolvido. O que me preocupa é essa sanha condenatória, pois o fundamental não é condenar, o fundamental é deixar um legado para a sociedade brasileira.

O que é “ir fundo nesse debate”? Impedir o STF de julgar os mensaleiros? Impedir a Justiça de puni-los? Quebrar tudo e fazer a revolução? O que é a “sanha condenatória”? Após oito anos deixando todo mundo impune, feliz, dando entrevistas e até cargos públicos, a Justiça, lenta e enrolativa, finalmente condenar políticos é “sanha condenatória”? Pode haver melhor legado do que, afinal, condenar corruptos? Ou o presidente da UNE acha que melhor legado é deixar todo mundo livre para evitar “a sanha condenatória”, pois esse é o foco da UNE “como entidade”?

Sua proposta, claro, é mais dinheiro público, pedindo aquela “reforma política com foco no financiamento público de campanha, pois entendemos que hoje o poder econômico tem uma influência sobre as campanhas eleitorais muito desmedido”. Ou seja: Dirceu precisou falsificar contratos de publicidade governamental (pra que isso existe?) com um banco público para subir ao poder e comprar seus adversários? Ora, acabemos com isso: façamos o banco pagar logo, antes mesmo de um partido pedir. Não precisa nem fingir contrato: basta ir lá e pegar dinheiro público para você e seus asseclas. Assim evitaremos que o “poder econômico” dite as regras: peguemos todo o poder econômico e ditemos as regras nós mesmos!

Antes que outra reunião de esquerdistas assine mais uma petição pedindo o seu dinheiro, é bom entender: existe corrupção, que é quando se burla a lei para ficar com o seu dinheiro, e existe a esquerda, que é quando se muda a lei para ficar com o seu dinheiro. O resultado prático é o mesmo.

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