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Felipão e o BB de Rosemary

Reverberou por todos os meios de comunicação: em sua primeira declaração como novo técnico da seleção, Luiz Felipe Scolari comentou a cobrança sobre os jogadores: “Se não tiver pressão, vai trabalhar no Banco do Brasil, senta no escritório e não faz nada.”

Em uma república onde a elite política anterior foi trocada justamente pela elite sindicalista bancária (os metalúrgicos, eram liderados por Luiz Inácio Lula da Silva, e os bancários capitaneados por Luiz Gushiken – tutti buona gente), a frase foi violentamente rechaçada. Exigiram (!) que Felipão se retratasse, afirmando ser cliente do banco há 30 anos.

É o velho padrão de agir de um modo na realidade, e proferir uma teoria que negue veementemente esta realidade logo a seguir. Ora, os concursos públicos no Brasil são almejados justamente por seu alto rendimento para funções que não renderiam o mesmo na iniciativa privada, pela estabilidade no emprego e diversas benesses, que praticamente tornam os funcionários públicos uma casta de trabalhadores bastante privilegiada pela lei em relação aos trabalhadores “comuns”.

Poderíamos esperar que os jornalistas e todos os que trabalham na mídia fizessem essa conexão. A mídia, como o nome diz, é o meio, deveria explicar as ligações de causalidade entre as frases de celebridades e a realidade factual – ordenamento às vezes bem difícil de ser percebido.

Não foi o caso. Ricardo Setti escreveu sobre o assunto em excelente artigo em seu blog. Mas, numa semana marcada pelo Rosegateninguém associou as duas coisas: Rosemary Noronha é a prova de que Felipão está certo.

Felipão definitivamente não atacou o segurança, o caixa, o atendente organizador de filas do Banco do Brasil. Felipão fala da cultura que todo brasileiro conhece: do corporativismo que engessa instituições públicas. Como fazem parte de uma economia de comando, e não de uma economia de mercado, têm sempre dinheiro vindo de cima. E com o dinheiro, paga-se apoio político de toda uma classe sindical e/ou partidária que toma essa instituição para si. São esses que ficam no escritório sem fazer nada o dia inteiro – e ganhando muito bem pra tal. Não necessariamente o atendente, o contador, o gerente, o setor financeiro. As pessoas que loteiam o Banco do Brasil por indicação política é que vão pro escritório sem fazer nada – isto quando precisam mesmo disfarçar seus emolumentos indo ao escritório.

De acordo com a imprescindível reportagem de capa da revista Época dessa semana, Rosemary Noronha, a Rose, fez lobby para a indicação de Aldemir Bendine como atual presidente do Banco do Brasil. Também teria indicado diretores (um deles apedido de nosso grande Delúbio Soares). Também intermediou encontros de empresários com dirigentes do BB (e o que mais uma “chefe de gabinete da Presidência em São Paulo” poderia fazer?).

Em um dos e-mails interceptados pela Polícia Federal, Rose pergunta a Paulo Vieira, indicado para diretor da ANA (assim como seu irmão virou diretor da ANAC), sobre a liberação de um empréstimo de cerca de R$ 48 milhões para a Formitex, empresa do setor portuário ligada a Paulo. O pedido fora feito ao então vice-presidente de crédito do Banco do Brasil, Ricardo Flores, considerado inimigo de Bendine nas indicações de cargos. O e-mail revela como se faz para ganhar cargos sem precisar dessa coisa toda de estudar pra provas chatas e complicadas (os “sic” foram abolidos para não entupir a mensagem):

De: Rose <[email protected]>
Assunto: vários

Para:  “paulo vieira” <[email protected]>
Data: Segunda-feira, 17 de Agsto de 2009, 14:22

Oi  Paulo,

Tudo bem?
Estou insistindo com a Rosina um pouco mais de desconto na bolsa da indicada da Evangelina, mas está pratciamente (sic) impossível acho que não vou conseguir.
Outra coisa…
Estou no pé do meu chefe sobre o seu caso aguarde.
Preciso de um emprego de pelo menos R$ 1.000,00 para um homem de 50 anos pode ser de motorista ou trabalhador braçal e pessoa próxima preciso ajudar, mas tem que ser registrado.vc pode me ajudar?
Bem é isso vamos nos falando e torcendo par que tudo de certo.
Aquele assunto do Flores foi resolvido né?

Bjokas,

Rosemary

Rosemary Nóvoa de Noronha
Tão Fácil te Querer 2009 Vou te abraçar de verdade 2009
Djumzinando Limer.

Como se vê, toda linha de um e-mail da nossa respeitável Rosemary é um pedido de emprego. Claro, direto: tem vaga pra esse “companheiro” aqui? E praquele outro? Quem é “companheiro” do partido é bom camarada. O resto da humanidade que se exploda. Tenham algo pelas vias do estudo com afinco para provas maçantes de concurso, e isso se sobrar alguma migalha.

O cabidão de empregos é personalista até a última ponta. Em 2009, Rose conseguiu um emprego para seu ex-marido, José Cláudio Noronha. Enquanto vocês aí, tontos, ficam estudando pra concurso pra ganhar 3 mangos por mês com vossos cursos superiores, Noronha abocanhou a vaga de suplente no Conselho de Administração da Aliança Brasil Seguros, atual Brasprev. Foi essa vaga que necessitou de um diploma de curso superior forjado por Paulo Vieira, que Rose chama de “baixaréu” (sic). Seu atual marido, João Vasconcelos, também conseguiu uma boquinha: através do BB, Rose articulou seus cupinchas para que a New Talent, construtora de Vasconcelos que Rose ajudou a montar, conseguisse um contrato de R$ 1,1 milhão – sem licitação, é claro – com a Cobra Tecnologia, subsidiária do BB. Mais uma vez, Rose forjou documentos com Paulo Vieira, que emitiu falso atestado de capacidade técnica para a New Talent. Digam aí: quantos anos vocês precisam estudar para, sem se filiar ao Partido dos Trabalhadores, conseguir tal vaga? Quantos diplomas precisam ter e em quantas provas precisam passar?

Alguém aí consegue esse cargo por, digamos, habilidades técnicas? Por concurso? Por estudo, afinco e paixão por econometria?

E que tal a vaga de superintendência do BB em Goiás, que Rose conseguiu para Édson Bündchen em setembro passado a pedido de Delúbio Soares, novamente através de Bendine?

Rose era tão poderosa que conseguia favores também do inimigo de Bendine, Ricardo Flores, o ex-vice-presidente de crédito e ex-presidente da Previ, o bilionário fundo de pensão dos funcionários do banco. É assim que Paulo pede a Rose que a o exame do pedido de empréstimo de R$ 48 milhões: “Gostaria que encaminhasse esses dados técnicos ao Dr. Ricardo [Flores] e, se possível, conseguisse uma agenda para o Dr. César Floriano”.

Que tal esse empréstimo, então? Alguém consegue mantendo as contas em ordem? Prestando serviços de relevante valor social? Ou o que conta é ser apaniguado do PT?

Toda a quadrilha envolvida no Rosegate, afinal, quer emprego público e dinheiro em empréstimos por “trabalhos” que, na prática, se resumem a ir pro escritório e não fazer nada o dia inteiro. Felipão poderia estar mais certo ao marcar seu primeiro gol na seleção?

Mas nada é mais claro do que um diálogo de Rosemary revelado pela matéria de capa da revista Veja dessa semana. Entre seus inúmeros desafetos dentro do próprio PT que foi angariando através de seu estilo impulsivo e mandão (tolerado tão somente por suas ligações com Lula, de quem o PT deve tudo o que tem) estava o  governador da Bahia, Jaques Wagner.

Wagner patrocinara a indicação de um técnico sem filiação ao PT para a diretoria do Banco do Brasil, enquanto Rosemary defendia um petista. Wagner venceu. Meses depois, quando Wagner chegou em São Paulo para uma reunião, Rose o interpelou: “Como você pode jogar contra o PT? Isso é uma traição ao partido”. Wagner colocou-a em seu lugar: “A senhora me respeite, eu sou um governador de estado”.

O modelo Rose de ação é o modelo lulista, que é o quem garante voto ao PT. Este é o lema: tudo pelo Partido, nada fora do partido, nada contra o Partido. Um técnico? Isso não serve pra nada. O que importa é dominar o Estado, que pode sempre exigir mais dinheiro do cidadão pagador de imposto, à força. Não é algo novo: o mensalão usou também os fundos do Banco do Brasil, mas ainda é um crime menor numa cadeia de crimes muito mais perigosa – o que se quis foi comprar o Legislativo para concentrar poder nas mãos do Executivo. O dossiê dos aloprados (cujos donos do dinheiro até hoje não o reclamaram) também são concentração de poder para fazer o partido estar acima de tudo, já nas eleições. E assim vai.

Todos  crimes de concentração de poder nas mãos do Executivo central, cujo chefe supremo do Executivo central e único nome “sobrevivível” do tal partido, é claro, não sabia de nada.

Mas claro que ele defende as estatais ao contrário da “privataria”. E vocês aí, tontos, estudando pra concurso…

Aproveitem que agora ligaram os pontos de como Felipão estava certo e não deixem de ler o novo livro de Rodrigo Constantino (por sinal, que também saiu essa semana, sem ninguém conectar os fatos), mostrando a quem interessa essa geringonça do Banco do Brasil nas mãos de um partido que o privatiza pra si (o nosso dinheiro, claro). Leiam Privatize Já! e parem de acreditar em um partido que jura defender o que é “do povo” para mantê-lo com salário de fome  enquanto não faz nada, sem pressão, com cargos milionários, como Felipão alertou.

 

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