Artigos

Nassif, Dirceu, PHA, Safatle e amigos em evento com dinheiro público. Qual a novidade?

por Flavio Morgenstern

noticiamos aqui de passagem que José Dirceu anda com a agenda cheia demais para comparecer a um evento de blogueiros, o 2º WebFor, em Fortaleza.

É compreensível: o evento é financiado por estatais. Estatais financiando qualquer coisa é, no mínimo, imoral: paga quem vai ao evento e usufrui, e paga quem não vai. É por isso que a Petrobras financiando tantos filmes nacionais que nunca ninguém viu (ainda que isso seja uma bênção) é tão criticada. Se receber uma mamata de estatais fosse algo moralmente correto, Dirceu, preocupado com a sua imagem (e os respingos dela na própria imagem do PT) às possíveis vésperas (sic) do julgamento do mensalão, não se incomodaria em freqüentar espaços financiados por dinheiro do contribuinte.

Porém, há figurões que também não perdem um único evento desse tipo e, como não são o principal réu no escândalo do mensalão, e nem foram chamados de “o chefe da quadrilha” pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, não se incomodam em farejar uma boa festinha pública. E como não há afirmações sobre emolumentos, a essa nem mesmo Dirceu, nem mesmo nessa época, se furtou a aparecer como convidado.

A informação é do excelente blog Juventude Conservadora da UnB. A 1.ª Bienal do Livro e da Leitura a ser realizada em Brasília, entre 14 e 23 de abril, sob auspícios do governo do Distrito Federal, através da Secretaria de Cultura e da Secretaria de Educação, tem uma agenda de eventos, no mínimo, peculiar por seu parcialismo, ou até mesmo partidarismo:

“O Seminário Krisis, que acontece de 18 a 21 de abril, no Auditório Nelson Rodrigues do Pavilhão da Bienal, trará a Brasília nomes de ponta para o debate de temas como Ideologia, Religião, Meio Ambiente e Economia. O seminário começa com “Fé, fanatismo e conflitos políticos no mundo atual”, tendo como convidados o brasileiro Leonardo Boff e o paquistanês Tariq Ali, com mediação do secretário de Cultura do DF, Hamilton Pereira. Ficará a cargo do teólogo e professor Leonardo Boff uma abordagem mais espiritualizada do tema, enquanto Tariq Ali deverá lançar seu olhar crítico à realidade política internacional.

É curiosa a forma como a palavra “debate” é usada hoje em dia entre duas partes idênticas. No debate religioso em questão, há um “debate” entre a ave-maria e o amém – tão forçosamente óbvio que a própria programação já cuida de afirmar o que cada um irá dizer.

“O programa começa com o debate Religião – Fé, fanatismo e conflitos políticos no mundo atual, contando com a presença do escritor paquistanês Tariq Ali, um ativista ferrenho contra a guerra, crítico da economia de mercado, com mediação do Secretário de Cultura do DF, o escritor Hamilton Pereira.”

É o mesmo molde de “debate” e “discussão” de um assembléia na USP ou de um plenário político em uma ditadura.

Aliás, a falta de discussão e idéias novas sendo ventiladas é tamanha que cuidam da conclusão já no título do seminário palavroso do dia seguinte:

“A noite de sexta-feira terá o debate sobre Ideologias – O fim das utopias e a ditadura do mercado, contando com a participação de John Gray, do filósofo brasileiro Vladimir Safatle, do ex-ministro José Dirceu e mediação do jornalista Paulo Henrique Amorim. No sábado, dia 21, a discussão será sobre Economia: A terra treme: grandes mudanças e perspectivas na economia mundial, com a participação de Luiz Gonzaga Belluzzo e Luís Nassif e mediação do professor David Fleischer, da Universidade de Brasília.”

Um debate sobre o fim das utopias chamará o mercado, o libertador das utopias mais genocidas de toda a História mundial, de “ditador” já no título. Ora, pra que assistir a isso, se já é dito o que será dito de antemão?

Mas, depois de Leonardo Boff e Tariq Ali, estes últimos convidados são um show à parte – ainda que pese o clichê de serem sempre a escolha óbvia em eventos com verba pública, por razões desconhecidas. Há um evento sobre comunicação, sobre mídia, sobre governo, sobre utopia, sobre ditadura, sobre livros ou sobre receitas de pudim, basta ser financiado por um erário camarada e lá estarão Luis Nassif, José Dirceu e Paulo Henrique Amorim.

Luis Nassif dispensa apresentações. Tem amigos que adoram falar sobre “controle social da mídia”, e tem um programa na TV Brasil, aquela famosa TV Lula do Franklin Martins. Deve dar disparado o maior Ibope da emissora e o pior de sua carreira: é difícil imaginar essa galera que prega controle social da mídia nunca foi flagrada assistindo TV Brasil nem no programa de Nassif. Seu salário, entretanto, dá inveja a muitos com audiência bem maior – e despiciendo lembrar de sua dívida milionária, esquisitissimamente evaporada do BNDES.

Vladimir Safatle é outro grande conhecido desse blog (temo até hoje ter lhe rendido sua maior audiência até então). O filósofo (é assim que é chamado), além de maravilhosas contribuições ao pensamento mundial, como:

“No Brasil, temos um embate em torno da dita nova classe média ao mesmo tempo que encontramos uma sub-representacão de conflitos próprias à ‘velha classe pobre’.”

(um poema do Tarso Genro recitado pelo gaguinho para quem entender a que se refere a palavra “próprias” perdida na dadaísta sentença)

ou:

“As revoltas dos trabalhadores em Jirau é um bom exemplo.”

(e as concordância é uns péssimos exemplo!)

e ainda:

“O PT no Brasil condensa todos esses impasses ao personificar, na opinião de alguns, uma trágica verdade: o preço do poder é a necrose da identidade mudancista.”

(?!?!?!)

Safatle vem se destacando como um dos mais proeminentes pensadores egressos da Faculdade de Filosofia da USP. Seus concorrentes diretos neste mister são Emir Sader, Paulo Arantes, Paulo Ghiraldelli Jr. e a musa de todos.

Basta reclamar da grande mídia que logo algum aspirante a filósofo (é assim que são chamados) aparece para lembrar que há grandes nomes, inteligentíssimos e íntegros, prontos para detonar o discurso manjado da “grande mídia” macaqueadora e mostrar como se pensa de verdade. Ora, mas por que diabos Vladimir Safatle, perguntarísmoa atônitos?! Ah, bem, porque ele tem uma coluna na Folha…

Outras travessuras do Safatle é defender descaradamente os invasores da reitoria da USP, e ser terminantemente contrário à presença da PM no campus. É um comportamento curioso: quando grupos bem parecidos com esses MST’s que essa turma adora defender invadiram a fazenda do seu pai, que tem problemas com a Justiça, a resposta foi chamar justamente a polícia e botar a turma pra correr. Mas seus argumentos são sempre diversão garantida pro pessoal de casa, conforme se vê nessa entrevista ao Jornal da Cultura:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=YIHg7xUUhXY[/youtube]

Além da bobagem sobre “a questão na USP não é a PM” (mentira, politizam questões sobre drogas a posteriori, como já foi devidamente explicado por aqui), também diverte na entrevista a afirmação de que a PM teria “entrado em biblioteca” (um policial que pense: “ora, onde estarão alunos fumando maconha por aqui? já sei! NA BIBLIOTECA!!!” deveria ser despedido por incompetência na tentativa de truculência) “sem mandato” (é mandaDo, sr. Safatle; quem tem mandato é político), coroando ainda com a afirmação de que não se pediu para a PM deixar de atuar na USP (isso logo depois de um vídeo com cartazes “Fora PM!”), surpreende mesmo é o no quarto bloco (aos 6:47):

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=AwBQBvFD5qU&feature=relmfu[/youtube]

Lá, o filósofo (é assim chamado) Vladimir Safatle é obrigado a admitir que não viu nenhum PM invadir biblioteca para prender estudante (lato sensu). Mas deixa um grande paradoxo de Zelão de Eléia para o telespectador: ele não viu, mas garante que alguém viu. Se alguém tiver provas de que ninguém entrou, a obrigação de mostrar a prova é do interlocutor. Got it? Se você tiver uma prova de que não houve invasão (sei lá, circuito interno de TV do dia inteiro sem nenhum PM, o que, aliás, todo mundo tem), você é que deve provar isso – do contrário, vale o afirmado. Sacou? É um FILÓSOFO que afirma isso.

Bem, alguém acredita que vai haver alguma discordância entre Luis Nassif e Vladimir Safatle a respeito de qualquer coisa? É de se desconfiar que os dois peçam até Coca-Cola igualmente light, e com gelo e sem limão. Mas o “debate” com conclusão no título terá “mediação” de Paulo Henrique Amorim.

Este anda tão famoso que ofusca nosso brilhantismo. Atualmente jornalista da Record (Edir Macedo, Universal do Reino de Deus), sua fama atual se deve a um laivo racista contra o jornalista da concorrente que lhe pénabundeou Heraldo Pereira, quando lhe chamou de “negro de alma branca”, sugerindo que o jornalista só conseguiu o que conseguiu na vida sendo um negro entre brancos.

Mas, claro, a maior estrela é sempre José Dirceu. Chamado de “ex-ministro” como se não fosse nada, deixam sempre de lado o fator “ex-todo poderoso da República, obrigado a se retirar do cargo para evitar que investigações mais escrafunchadoras revelassem a culpa de Luis Inácio ‘Eu Não Sabia de Nada’ Lula da Silva”. Imagine-se o que é um evento com dinheiro público (tem cachê nesse troço?) chamando Collor ou Sarney, envolvidos em escândalos bem menores… carisma é tudo.

Mas para não pegarmos tão pesado, tem também uma galera secundária tutti buona genti. Mostra o blog:

Vananda Shiva é uma importante ativista ecofeminista (seja lá o que isso for) indiana. Coordenava um grupo de ativismo ambiental feminista na Índia em que as integrantes amarravam-se a árvores para que não fossem derrubadas.

E mais um detalhe curioso sobre o último dia do evento e seu responsável:

E o último encontro, na segunda-feira, dia 23, o debate sobre Literatura Brasileira – A era de ouro e a produção atual vai reunir os autores Silviano Santiago, Mário Prata e Alcione Araújo, com mediação do jornalista e escritor Luiz Fernando Emediato, coordenador literário da I BIENAL BRASIL DO LIVRO E DA LEITURA.

Quem é Luiz Fernando Emediato?

Emediato é amigo de Amaury Ribeiro Jr., que, segundo noticiado pela imprensa, armou um esquema de arapongagem para espionar lideranças do PSDB. Amaury Ribeiro Jr. lançou recentemente o livro “A Privataria Tucana”,que foi lançado pela Geração Editorial, cujo dono é Luiz Fernando Emediato.Emediato também é amigo pessoal de Delúbio Soares, que, de acordo com a PGR, era um dos operadores do esquema do mensalão.

Dinheiro público coordenado por um… bem, um amigo de Delúbio Soares. O restante é auto-explicativo. Conclui o blog:

Não há dinheiro nem mecanismos eficientes para cobrir o rombo de quase R$ 80 milhões que a atual administração da UnB deixará nos cofres da universidade em 2012, muito menos para realizar as obras de estrutura necessárias para que alunos e professores possam estudar e trabalhar sem o risco imediato de morrer, mas há dinheiro suficiente para se patrocinar um evento claramente ideológico com verbas públicas.

Olha lá a listinha de “patrocinadores”.

Será que nossos heróis teriam a bocada que ganham se não fôssemos obrigado a pagar pelos eventos que freqüentam?

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia.Não vai à Bienal do Livro porque gosta de ler. Leitura de verdade. No Twitter, @flaviomorgen

Mais Lidas

To Top