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O beijo de 10 milhões

Por Luan Silva:

José Martiniano de Alencar se foi. Há seis anos, viu seus colegas do PL, antigo partido do qual fazia parte, encurralados em uma série de escândalos por terem recebido dinheiro do valerioduto. O esquema de corrupção montado pelo PT pagou farta quantia de 10,8 milhões para comprar o apoio do PL, que cedeu José Alencar como vice do Lula. A grana foi entregue a Valdemar Costa Neto, então presidente do partido, que se encarregou de dividir o dinheiro entre os coligados.

O PT muito se beneficiou com essa jogada nas eleições presidenciais de 2002, pois a imagem do bem sucedido empresário José Alencar fez com que a classe empresarial do país olhasse a candidatura do ex-metalúrgico de passado subversivo socialista com bons olhos. O beijo de pouco mais de dez milhões que o PT deu no PL trouxe bons resultados, Lula venceu as eleições.

Quando o esquema do mensalão foi descoberto em 2005 e a luz da justiça revelou as falcatruas do PL com o PT, Alencar imediatamente se dispôs a testemunhar em defesa do seu colega Costa Neto e aproveitou pra limpar seu nome da jogada. Afirmou ao STF que só soube dos repasses financeiros quando o ex-deputado Roberto Jefferson fez a denúncia do Mensalão. Agradecido, Costa Neto assumiu a culpa somente para ele. “Fui induzido ao erro quando aceitei receber recursos destinados à campanha sem a devida documentação que oficializasse a doação. (…) Neste momento, senhor presidente, assumo a única e absoluta responsabilidade por esse ato”, disse em pronunciamento oficial dia 1º de agosto de 2005 quando renunciava ao mandato de deputado federal para fugir da cassação. Em 2010 o TRE de SP liberou a candidatura de Costa Neto, que venceu as eleições para deputado federal. Vale lembrar que sozinho ele não conseguiria, só se elegeu porque foi puxado por Tiririca, que teve mais de um milhão de votos.

Linda estória de amigos entre Alencar e Costa Neto, não? Sim, isso que é parceria. Um defende o outro e fim de papo.

Porém, Costa Neto mentiu. A grana não foi apenas utilizada para custos de campanha eleitoral, foi sim distribuída entre comparsas para que efetuassem sujas alianças e apoios. O fazendeiro, caçador, pescador e então deputado federal pelo PL de Goiás, Sandro Mabel, teria oferecido R$ 1 milhão e mensalidades de R$ 30mil para a deputada Raquel Teixeira sair do PMDB e passar para o PL. O réu negou envolvimento no caso e, assim como Alencar, disse que só tomou conhecimento do esquema por meio da imprensa. Mabel foi absolvido pelo Conselho de Ética no mesmo ano, pois havia poucas provas do seu envolvimento no caso. Hoje está em seu terceiro mandato como deputado federal pelo PR de Goiás.

Bispo Carlos Pinto foi um dos cassados pela CPI do Mensalão. Para não perder direitos políticos, renunciou ao mandato de deputado pelo PL do Rio de Janeiro. Ele teria faturado  R$ 400 mil do montante e isso também lhe custou a coroa na IURD – Igreja Universal do Reino de Deus, pois perdeu o título de bispo e teve que se afastar da igreja. O Pinto ficou sem granja, desabrigado, à beira de ser excomungado. Ele é barra pesada. Um ano depois do escândalo do mensalão e já estava metido em outro escândalo, foi preso pela polícia federal em 2006 na operação sanguessuga por roubar dinheiro público destino à saúde. No mesmo mês conseguiu habeas corpus e permanece livre.
Wanderval Santos (PL-SP) ficou com R$ 150 mil e disse que só mandou um motorista ir sacar a grana porque o bispo Pinto pediu. Em 2006, depois de chorar no Plenário e comover seus colegas, foi absolvido pelo Conselho de Ética.

Depois da crise, o PL não durou muito. Acabou em 21 de dezembro de 2006. Fundiu-se com o PRONA e fez surgir o PR – Partido da República. Continuam usando o mesmo número do PL, 22. Mantém filiados os mesmos acusados, como Valdemar Costa Neto e Sandro Mabel.

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