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O preço do Playstation, a desigualdade social e os pobres

Eternamente baseada em Marx, a esquerda crê que a desigualdade social explica o preço do Playstation. A verdade é simplesmente o oposto: o preço do Playstation explica a desigualdade social.

PlayStation4

O maior economista da história da humanidade, Ludwig von Mises, explicou em uma frase como a mentalidade dos planejadores sociais inverte toda a realidade: “Não é porque existem destilarias que as pessoas bebem whisky; é porque as pessoas bebem whisky que existem destilarias.”

Da mesma maneira, Leonardo Rossatto postou recentemente que a desigualdade social explicaria o preço anunciado do futuro Playstation 4 no Brasil, orçado em R$ 4 mil.

Ora, basta perguntar a qualquer pessoa que não tem dinheiro para comprar o Playstation 4 e gostaria de poder comprá-lo. Não é a desigualdade social que explica o preço do Playstation, é o preço do Playstation que explica a desigualdade social. Afinal, só existe desigualdade porque alguns querem ter coisas e não podem, enquanto outros podem. Parece muito complicado, difícil e pós-doc?

ps gameA tese de Rossatto é baseada (óbvio) em Karl Marx, o único pensador que qualquer universitário brasileiro conhece, e que serve para explicar tudo, desde preço de videogame até unha encravada. São poucos os universitários que escapam da gaiolinha de conceitos do velho barbudo alemão (exploração, mais-valia, desigualdade, luta de classes… ou mesmo simplesmente classes), mesmo negando que se baseia no professor do totalitarismo comunista a todo custo (ops). Obviamente que criticar o fato de Karl Marx ser usado tão totalitariamente na academia, na mídia, na internet e onde mais for é coisa de quem vê comunistas embaixo da cama.

Segundo essa “idéia”, o preço dos produtos é calculado com base nos custos de produção (matéria-prima + salário da força produtiva, ou seja, do proletariado), e todo o restante são lucros que ficam para os donos das empresas. O preço do Playstation 4 no Brasil, que pagaria quase 5 videogames na América, não poderia ser explicado pela altíssima carga tributária brasileira: o escorchante preço seria devido apenas à malevolente ganância da Sony, que quer lucrar no Brasil o que estranhamente não quis no resto do mundo (aliás, onde ela mais vende e lucra é, naturalmente, no resto do mundo). Rossatto tira dados de sua própria caçuleta para inferir:

“E daí constatamos que os R$ 2.300,00 adicionais que a Sony vai cobrar no console são APENAS lucro adicional.”

Stephen Kanitz, ainda em 2003, fez um questionamento curioso sobre esta visão:

Qual é a porcentagem de lucro embutida em tudo o que você compra no Brasil? (Dica: entre 1% e 50%.) Se um produto custa, digamos, 100 reais, quantos reais correspondem ao lucro da empresa que produziu o que você queria e quanto é o custo efetivo do produto? Qual, em sua opinião, é o nível de “espoliação” capitalista, tão enfatizada pelos nossos intelectuais? (…)

Numa pesquisa que realizei anos atrás, 200 operários de fábrica e donas-de-casa achavam que o lucro do patrão era de 49%, quase a metade do preço do produto. (…)

A maioria de nossos jovens estudantes não lê os balanços das companhias publicados nos jornais, prefere acreditar no que os outros dizem. Se tivessem um pouco mais de senso crítico e de observação, descobririam que a realidade é bem diferente. O lucro médio das 500 maiores empresas do país nos últimos dez anos foi de 2,3% sobre as receitas, segundo a última edição de Melhores e Maiores, da revista Exame.

Ou seja, a ganância desenfreada por lucros de que fala Rossatto, tão lindamente descrita na teoria da luta de classes, corresponde a uma média de 2,3% na prática. Claro, isso significa que alguns segmentos ficam um pouco acima disso (a indústria automobilística, por exemplo), e alguns ficam bem abaixo (acredite, um hipermercado multimilionário muitas vezes lucra exploradores 1 centavo sobre cada batatinha que venda).

ps_Gran_Turismo_5Rossatto culpa, então, outro conceito marxistíssimo até o último furúnculo: o “fetichismo de mercadoria”, afirmando que a alta elite brasileira, que tem tanto dinheiro que deve assoar nariz com nota de R$ 100, gosta de pagar caro (sic), assim, por puro prazer de dizer “eu posso, você não pode” (sem brincadeira, é isso que chamam de análise de preço em faculdades e blogs por aí, cada vez mais indiscerníveis uns dos outros).

Ou seja, existem milionários malévolos que pagam caros em produtos como o Playstation 4 tão somente para mostrar que podem, e pobres famélicos coitados. Só estes dois. Lembrando até de um trecho do excelente e profético romance Plataforma, de Michel Houellebecq,

“Segundo o modelo de Marshall, o comprador é um indivíduo que procura maximizar a sua satisfação em relação ao preço; o modelo de Veblen, ao contrário, analisa a influência do grupo no processo da compra (avaliando se o indivíduo deseja se identificar com ele ou então afastar-se). O modelo de Copeland demonstra que o processo de compra é diferente segundo a categoria produto/serviço (compra habitual, compra refletida, compra especializada); já o modelo Baudrillard-Becker considera que consumir é também produzir signos.”

Esta visão seria uma espécie de modelo de Veblen radicalissimo, em que qualquer compra, de uma universal caneta Bic até um videogame desejável também universalmente, são medidos apenas por um único grupo específico: a sua faixa salarial, como se cada pessoa que estivesse interessada em diversão se preocupasse em saber se vai se identificar ou não com outros de contracheque parecido. Como se a diferença entre um Porsche e uma Brasília fosse tão somente a “diferenciação”.

 Todo o comércio (as trocas entre seres humanos que não passam pelo aval e planejamento de políticos) são avaliadas moralmente, num moralismo onipresente que sempre te culpa pelo que você pode fazer, ainda que não faça. O pecado original econômico. E, claro, sempre desculpando-se o quanto o Estado toma à força do indivíduo a cada vez que deseja algo, e oferece alguma coisa em troca desse algo a quem o possui (como nós, oferecendo uma fatia do nosso salário, ou no caso brasileiro, nosso salário e mais um pouco, por um videogame).

O Estado está sempre desculpado, pois é visto como uma espécie de “serviço social” – assim, pode cobrar boa parte do dinheiro em uma troca comercial, encarecendo-a horrendamente, mas por uma “boa causa”. A carga tributária é sempre o menor dos males, de acordo com essa mentalidade. Só de passagem, vale lembrar que 52% do preço do produto são… impostos. Mas a margem de lucro “três vezes maior do que no resto do mundo” de 2,3% é que é culpada. Kanitz de novo:

Tirar 52% do consumidor como imposto para devolver muito pouco à sociedade é considerado justo, mas tirar 2,3% para oferecer o produto que você está comprando é um crime social a ser eliminado. Percebam a crise política que nos espera nos próximos anos, porque a maioria da população não sabe nada disso. (o artigo é de 2003)

Ora, se o lucro que as empresas de certos nichos têm no Brasil é maior do que no resto do mundo, quantas vezes maior é nossa carga tributária, noves fora regulações imbecis, corrupção etc?

Como a conta não fecha (e Marx, não sei se vocês repararam do lado de lá da Cortina de Ferro, está sempre errado), resta então culpar a “classe média” (sempre ela): o Playstation seria um bem de consumo supérfluo, por ser um videogame. Assim, consumidores “fanáticos” pagariam qualquer preço pelo videogame, assim como a Apple faz. A Sony estaria então com pouco trabalho, podendo vender menos videogames e lucrar o mesmo.

Como se uma empresa preferisse vender eternamente para uns poucos que podem comprar, ao invés de vender para muitos outros que, com uma pequena economia, poderiam comprar. Como se empresas, afinal, fossem tão estúpidas quanto o Estado.

Como se não bastasse, essa visão ainda carrega um preconceito violentíssimo de quem vê pobre de longe, ou só no programa da Regina Casé, bem enjaulados e com desdentados sorrisos obedientes de quem não sabe bem o que está acontecendo a seu redor. De quem vê pobres como golfinhos.

O preço do Playstation não é culpa da desigualdade – a desigualdade é culpa do preço do Playstation. Afinal, pobre quer comprar um Playstation 4 (pergunte a qualquer menino da periferia, se algum dia você pisar por aquelas bandas). E a Sony está desesperada para oferecer um produto que possa ser comprado por cada guri numa periferia brasileira (já imaginou o lucro que ela teria? já imaginou qual seria seu principal objetivo caso fosse diretor de vendas da companhia?).

ps4 openingDane-se que é um bem supérfluo. Se você quer que os pobres melhorem de vida, parem de lhes dar subsistência mais primitiva, quase animalesca, e lhes ofereçam o que pobre mais quer: bens que vão além da mera necessidade de arroz com um pouquinho de feijão e um barraco treme-treme. Para pobre enriquecer, ele precisa ter em casa geladeira, sofá de veludo, papel higiênico macio (ele sozinho explica porque as teorias econômicas “sociais” nunca dão certo), home theater, videogame última geração e, quem sabe, livros (quer um produto mais “supérfluo” do que esse?).

Adivinhe o que acontece com pobres quando tentam poder consumir mais – ou seja, serem menos pobres? Fatalmente, passam a querer produtos taxados demais em nome da “diminuição da desigualdade social”, e percebem que precisam trabalhar 3 anos de sua vida para poder comprar um videogame, blu-ray ou comprar um carro. O Estado, e a visão “social” de pessoas de esquerda, encarece produtos para manter a máquina estatal funcionando, e quem não pode pagar por elas e nunca poderá enriquecer são, justamente, os pobres.

Nada é mais inimigo de um pobre do que alguém de esquerda, ou alguma visão planejadora “social”.

A visão intervencionista, ou seja, de planejadores centralizados, centraliza o poder em suas mãos em nome de “boas intenções sociais”. A esquerda, que só conhece a chave da “desigualdade social” para explicar a realidade, só consegue enxergar estatísticas, e tenta corrigir tudo em nome de estatísticas toscas como “igualdade de resultado”, não importando o quanto cada um trabalhe e estude diferentemente.

Voltando ao whisky e as destilarias, é o mesmo erro recente de feministas reclamando de que existem brinquedos “de meninos” e “de meninas”, acreditando que algum planejador social malévolo assim concebeu. É o mal de planejadores sociais: quando o projeto falha, ou quando encaram a realidade e percebem que ela não se encaixa dentro do seu tubo de ensaio, crêem que é culpa de um planejador social malévolo rival, e não de as coisas não serem como eles pretendem. A bem da verdade, até acertam: algum planejador resolveu entupir o Estado de impostos para diminuir a desigualdade, e criou exatamente isso que eles vêem.

Bastaria perceber o óbvio que qualquer um vê, se não tiver entupido de Marx até os furúnculos: pagar por um videogame seria fácil para as classes baixas brasileiras, como o é para as “classes baixas” em qualquer país de economia livre. Porém, pagar um videogame e mais toda uma máquina estatal “lutando pelo nosso bem” (afinal, nada mais confiável do que políticos pegando o nosso dinheiro e gastando em projetos que nunca usaremos e nem sabemos que existem) já fica mais difícil para um pobre pagar. O resultado: um videogame que custa R$ 4 mil.

Claro, a outra opção é sempre pensar que a Sony escolheu por coincidência o Brasil e a Argentina para lucrar explorando o “fetiche de mercadoria”, que misteriosamente não existe na América, na Dinamarca, na Suíça, em Hong Kong, no Singapura…

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