Artigos

O que podemos aprender com Wagner Moura

O Capitão Nascimento pediu para sair do Brasil. Defensor do assassino socialista Marighella, Wagner Moura preferiu se refugiar no refúgio conservador e capitalista da América Latina.

capitão nascimento

(Nada.)

Wagner Moura é um ator marcado pela figura de Capitão Nascimento, o único personagem do cinema nacional recente lembrado até por pessoas que não sofrem do masoquismo de freqüentar o cinema brasileiro.

Neste mês, Wagner Moura declarou em alto e bom som que não dá mais para viver no Brasil. Homem tipicamente de esquerda mais “clássica”, Moura se declara desencantado com Dilma Rousseff. Conta o Estadão:

Wagner está muito feliz com [seu novo filme] Praia do Futuro, mas não tão feliz assim com o Brasil. Confessa: “Tenho o maior amor por esse País, mas não está dando para viver aqui. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas estou gostando que meu próximo projeto – uma minissérie sobre Pablo Escobar que será dirigida por José Padilha – vai me tirar do Brasil por uns dois anos”. Ele reclama do preconceito e do conservadorismo, e diz que Praia do Futuro vai contra isso, mas reclama mais ainda da política. Na eleição passada, já se havia distanciado do PT e apoiado Marina Silva para presidente. “O PT não inventou o toma lá/dá cá, mas o institucionalizou”, diz, desiludido. O Rio é uma das cidades mais caras do mundo. “Eduardo Paes governa com a iniciativa privada.” É o oposto do que vivenciou em Medellín, na Colômbia (onde vai filmar Narcos).

“Vão me chamar de demagógico, mas o projeto de reurbanização de Medellín realmente privilegia os necessitados. O metrô sai de dentro das favelas, e elas estão sendo urbanizadas. No Brasil, temos as UPPs, que são um primeiro passo, mas a coisa não vai adiante. São os mesmos policiais, olha a quantidade de denúncias.”

“Não voto em Aécio nem em Dilma. Lula ainda mascarava a fragilidade do PT, mesmo com o mensalão. Dilma não tem o carisma dele nem a competência.”

Ia fazer logo seu longa sobre Marighella, que agora está prevendo para 2016. “Tem gente que diz que era um assassino, mas ele entendeu o Brasil e sabia que a chapa ia esquentar, já antes do golpe. Marighella pertence a uma geração que se sacrificou pelo Brasil, eu quero fazer o filme sobre ele para a minha geração. Ficou difícil, hoje, entender e aceitar esse idealismo, as pessoas estão muito centradas.”

Traduzindo: Wagner Moura pediu pra sair. Mas gosta de políticos que mentem bem para o povo e assassinos em massa, desde que “idealistas”. Os policiais que morreram enfrentando seu bando para que ele não instaurasse uma ditadura não “se sacrificaram pelo Brasil”.

Wagner Moura não é um homem de imensa profundidade filosófica – é a típica celebridade que segue os ventos de mudança ditados por outros, quase sempre políticos oportunistas, que se aproveitam de queixas populares para assumir plenos poderes quando estão no poder – um filme eternamente repetido, e que sempre alguns ainda crêem que vale a pena ver de novo.

Suas declarações, simples, rasas – verdadeiros clichês – são apenas conseqüência de um fenômeno, não um pensamento que seja causa de alguma coisa. Nada de novo no front. Cabeça de celebridade palpitando para as multidões instigadas por declarações que são incapazes de compreender.

Wagner Moura está insatisfeito com o PT. Diz que o problema do Brasil é o “conservadorismo”, algo quase inexistente no continente. Os únicos dois países com algum conservadorismo começando a aparecer na região são o Chile e a Colômbia. Qual país Moura prefere ao Brasil? Logo a Colômbia. Qual a felicidade de Moura ao sair do país? Se pirulitar diretamente para um país INCRIVELMENTE MAIS conservador.

Se a Medellín dos cartéis de Pablo Escobar era extremamente violenta e hoje é uma cidade mais segura do que o Rio de Janeiro, que se torna cada vez mais perigosa, não foi graças ao progressismo, à política do pode-tudo da esquerda, a conivência e o relativismo com o crime, o vitimismo pseudo-social que trata o assassino como vítima do assassinado – todas essas políticas típicas da esquerda, que Wagner Moura tanto defende. Foi justamente seguindo o caminho contrário, ponto a ponto.

no mas farc 2Se os cartéis de droga geravam violência, eram justamente porque o comércio das drogas, ligado às FARC que criaram o Foro de São Paulo junto com o PT, para implantar o socialismo em toda a América Latina (logrando êxito cada vez maior ano a ano), não segue a lógica do mercado, como jura a esquerda, caso seja liberado: é, afinal, um cartel, e não uma empresa concorrendo pacificamente com outra. Um cartel, por exemplo, é o que o Estado faz quando atua na economia. Exatamente o que a esquerda defende – não a liberdade, mas a repressão, a brutalidade, o poder total e central.

Como é possível o mesmo ser humano se preocupar em fazer o papel de assassinos esquerdistas em massa como Pablo Escobar, um dos homens mais ricos do continente que matava pobres em massa semanalmente para aumentar seu poder e seus bolsos, e Marighella, o assassino que queria instaurar uma ditadura ainda mais assassina, e usar como exemplo de algo que dê certo a política de “Un millón de voces contra las FARC” da Colômbia?

Por que Moura, que faz filmes junto ao cabo eleitoral do PSOL José Padilha, não defende justamente o país rival, a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro? Por que reclama da violência do Rio e culpa “a iniciativa privada” (alguém criar riqueza sem exigir seu dinheiro, esta atitude tão imoral), mas não testa os níveis de violência de Caracas – e busca o verdadeiro culpado?

Entender isso exige um pensamento um pouco mais profundo do que palpitaria de celebridade embasbacada com promessa de político “renovador”.

Um pensamento único

Todos sabem pensar em questões complexas como a política – o difícil é atingir uma unidade de pensamento teórico, livre de contradições, que unifique todo um conjunto de fenômenos distintos no tecido da realidade e lhes dê um tom único. Esse é o trabalho dos cientistas políticos e filósofos, sempre buscando e corrigindo uma teoria que unifique tudo o que pensam a respeito de temas tão diversos quanto flutuação cambial, aborto, educação pública, drogas, imigração ou variação salarial entre gêneros.

Todos têm alguma opinião sobre algumas dessas questões, seja fundamentada ou um mero flatus vocis automático, sem nenhuma reflexão por trás. A dificuldade é criar uma única carga de pensamento que unifique todo o nosso saber, sem contradições e sem disparidades entre intenções e resultados, entre princípios e métodos, entre o constructo teórico e sua aplicação prática na realidade concreta.

Os filósofos buscam isso e, mesmo os mais gabaritados, costumam deixar alguma falha em suas especulações no fim de suas vidas. Os erros dos intelectuais, numa sociedade construída por eles, têm conseqüências cada vez mais grandiosas. Vide o belo tratado Os Intelectuais e a Sociedade, de Thomas Sowell.

Quando discutimos tanto esquerda e direita, estamos entre pessoas com opiniões mais ou menos estudadas – supõe-se – e que demoram-se nas regras deste jogo. Esquecemos que a maior parte da população não toma uma teoria política para si, vagando ao sabor das circunstâncias sem nenhuma unidade de pensamento.

São os indecisos que decidem as eleições: defendem uma economia liberal, com distribuição de renda socialista, um esquema de poder social-democrata, cotas progressistas com cultura e direito penal conservadores, tudo junto e misturado. Decidem seu voto por alguma questão mais premente do momento. Uma pesquisa recente revelou, por exemplo, que 26% dos eleitores cogitam mudar de voto caso haja aumento no preço da cerveja – e Dilma Rousseff cuidou de aumentar 30% de imposto sobre bebidas alcoólicas discretamente em ano de Copa.

sartre maoPior: esquecemo-nos de quanto intelectuais e cientistas políticos mesmo se contradizem (basta pensar no quanto sofreram os homossexuais sob regimes governados pela esquerda no séc. XX, e hoje a esquerda se considera a grande guardiã de seus direitos – quando os únicos países que lhes deram direitos civis foram as potências liberais e conservadoras). Que dirá pensadores pouco aprofundados na filosofia política. Que dirá professores universitários palpiteiros. E que dirá celebridades encantadas com algum político igualmente celebridade do momento.

A grande tertúlia entre direita e esquerda não se dá em princípios, mas em detalhes. Em resumo, a esquerda, dominando o imaginário coletivo, crê na possibilidade de se trabalhar menos ganhando-se mais, transferindo os rendimentos de uns para dar aos menos favorecidos. A direita, planilha de custos à mão, desacredita nessa solução e mostra que o melhor ao trabalhador é que ele fique com o seu dinheiro, sem depender de um plano redistributivista central. Ambos os lados parecem pouco afeitos a abandonar seus princípios, mas vez por outra são pegos estabanados nos detalhes.

Se a esquerda é tão contra a “iniciativa privada” e acredita que o livre comércio gera pobreza, como pode reclamar tanto do tal “embargo americano” a Cuba, culpando-o pela miséria horrenda que se abate sobre a ilha do general Castro, se o embargo é justamente o impedimento do livre comércio e da iniciativa privada na ilha?

Se o Brasil está ruim e violento e se culpa o “pensamento conservador”, como se pode encobrir de encômios a um só tempo o modelo colombiano, calcado na perseguição às FARC – e ainda, no mesmo golpe, render alvíssaras a Pablo Escobar? Ocorre a Wagner Moura pesquisar a posição da Colômbia no Índice de Liberdade Econômica da Heritage Foundation (34.º lugar, o último classificado como “Mostly Free”) e cotejá-lo ao risível posto do Brasil (114.º lugar, classificado como “Mostly Unfree” ao lado de potências anti-mercado como Honduras e Butão)?

Esperanza AguirreNão se pode negar que Wagner Moura possa ter boas intenções, e acredite numa melhora da vida dos pobres para defender mais Estado, sem perceber que isso significa mais poder (inclusive financeiro) para políticos. O problema é que ele não percebe que se encanta com um palavrório de algum político qualquer (“o mundo é injusto, portanto precisamos mudar tudo isso que está aí!”) e, tentando criticar um detalhe (como a repulsa de certos conservadores a um beijo gay), compra no pacote todo um conjunto de idéias que é péssimo para os mais pobres, inclusive para os gays. De lambuja, ainda não percebe que defende um sistema de mais capitalismo como melhor para os pobres, usando-o como exemplo, criticando justamente um sistema menos capitalista – mas conclui que, ora, a culpa é da “iniciativa privada”.

O difícil da filosofia não é saber se alguém merece ser agredido à toa ou não, mas sim buscar um princípio básico de convivência pública em larga escala que evite conflitos, inclusive com quem discorda de você e está pouco interessado em manter a paz. Não é um exercício inocente e livre de riscos – como se vê, pessoas defendem as maiores ditaduras, os genocídios mais brutais, o esbulho miserável para os pobres, justamente crendo que estão defendendo o melhor para eles. Essa unidade de pensamento em raros momentos foi alcançada na humanidade.

Podemos compreendê-la melhor com uma comparação. Se é fácil saber a diferença entre um gato e um cachorro, embora ambos sejam mamíferos quadrúpedes domésticos, a coisa se complica com palavras abstratas, genéricas, de delimitação escorregadia e variação no tempo como “democracia”, “liberdade”, “igualdade” etc.

Os gregos, em busca de um conhecimento mais sólido do que a mera opinião (doxa), inventaram a filosofia justamente buscando definir bem os termos. Algo tem de ser definido pelo que tem de intrínseco. Compreendemos o caráter das coisas pelo conjunto dos traços que os definem, o que os gregos chamam de eîdos. São traços de cachorros e gatos serem quadrúpedes domésticos, mas o que define cada um são seus traços distintivos um do outro.

Todavia, precisamos encontrar os traços comuns a todos os gatos e todos os cachorros, não a um em específico. Se começa a complicar com “objetos” concretos como gatos e cachorros, tente-se fazer isso com termos multicapilares e pantanosos como “democracia”. O que define uma? Apenas eleições? Deveríamos considerar Hitler um democrata, portanto? Poderes separados? A Inglaterra, então, teria um sistema autoritário? E as medidas provisórias brasileiras? O exercício é incrivelmente mais difícil do que parece – se fosse fácil, não haveria novos livros de discussão política.

Quando tentamos apreender em nosso pensamento conceitos como “gato”, “cachorro” ou “democracia”, esquematizamos o que é comum a todos eles em nossa mente. Estes eîdos reunidos formam uma notio, uma noção já hierarquizada. Todos os eîdos são vistos por este unum que mostra que todos os gatos miam, todos os cachorros latem e todas as democracias não são absolutismos. É o que se chama conhecer algo sub species unitatis.

capitão+nascimento1Unificar esses esquemas de traços, fácil com gatos, difícil com democracias, já causa, em si, um novo traço, pois esta unidade, como bem define o grande mestre Xavier Zubiri em Natureza, História, Deus, tem também operações próprias internas: um gato que não respira é um cadáver de gato, mas não de cachorro. Estas operações próprias, seus oikeîon érgon, mantêm o mesmo esquema do ser vivo, mas a carência de um érgon distinto é indicador de que carece do eîdos de um ser vivo. Aparentemente banal, este detalhe mantém o esquema de noções, mas com apenas uma distinção interna joga a noção para outra categoria de objetos observáveis. Todavia, não é “estar vivo” que define o que é um “gato”, como não é “ter eleições” que define o que é uma “democracia”.

Quando pessoas como Wagner Moura criticam “o conservadorismo”, “a iniciativa privada” ou o que quer que acreditem estar criticando, muitas vezes criticam um detalhe de algo de difícil definição, e com isso criticam o todo, o unum da coisa, que costuma nem passar pela sua cabeça que, tomado como uma unidade, causará contradições em suas falas – acaso uma postura “conservadora” não é facilmente encontrada em evangélicos, religião que cresce nos rincões mais pobres, que Moura julga defender?

Atacando um traço que não tem nada de distinto, como “o conservadorismo”, acredita estar separando bem duas realidades – a dos fanáticos obscurantistas que atrasam o Brasil, e a dos progressistas que querem torná-lo um país melhor enaltecendo Marighella e Pablo Escobar, na qual, obviamente, ele próprio se inclui. Bobagem: como não chamar Cuba de “conservadora”, se nos fiarmos apenas pelo traço de que ela se conserva inalterada no tempo desde 1959? Como tentar definir candidatos eleitorais por terem mais votos no Sul ou no Sudeste, entre ricos, classe média ou pobres?

O pior é que viver sem um norte moral, com conceitos sólidos, faz com que as pessoas sejam passíveis de cair no fetichismo, o que Eric Voegelin define como acreditar em palavras sem saber o que elas significam (como “iniciativa privada”). Ataque-se os conservadores, “estes que conservam o mundo injusto”, e abrace qualquer “anti-conservador”, mesmo os defensores dos regimes mais atrasados (como Marighella), mesmo o causador maior de injustiças, que assassinava pobres tão somente para se tornar o mais rico dono de um cartel de drogas a tornar a Colômbia um inferno (Pablo Escobar) e ainda usar como exemplo de que a visão progressista está certa o que a Colômbia fez para destruir Escobar (as reformas em Mendellín feitas por Álvaro Uribe perseguindo as FARC).

Sobretudo, crer que o problema do Brasil é a direita, e fugir para países que melhoraram muito por abrirem sua economia e se tornarem mais direitistas.

Como se vê, algumas boas intenções e um pensamento meio simplista, mas nada tirânico, mas eivado de contradições: uma falta de unidade, um completo divórcio entre intenções e conseqüências, o descompasso absoluto entre o esquema ideal e sua consubstanciação.

rorschachgraveNada surpreendente do homem que, junto de Padilha, fez o Capitão Nascimento, jurando-se que era um vilão e que o público iria ver sair do filme odiando ainda mais a polícia. Malgrado para ambos, a população aplaudiu finalmente um “herói da ficção” (cada dia mais inexistente), que quando se vê na beira da legalidade, entre a violência que leva à justiça e a legalidade ultraformalista que levará à injustiça, preferiu a justiça torta. O público brasileiro é bem mais “justiceiro” do que Rachel Sheherazade. Bem oposto às teses coitadistas do PSOL de Padilha. O mesmo erro que cometeu Alan Moore quando criou seu único personagem profundo, o Rorschach de Watchmen.

Não à toa, Padilha fez nas coxas um Tropa de Elite 2 em que Nascimento adere à retórica corno-mansista da “culpa do sistema”, e o professor Diogo Fraga (que é a versão do deputado psolista Marcelo Freixo), ao invés de um bunda-mole sem noção, vira herói e pega a mulher de Nascimento.

Quando forem discutir política, portanto, atentem para mostrar como as pessoas podem ter boas intenções, mas acreditam demais em ídolos, imagens e palavras, e se contradizem facilmente quando percebem que alguns não defendem um sistema de trabalho duro e recompensas a duros esforços por serem malvadas e quererem proteger seus próprios privilégios, mas porque pensam em conseqüências de longo prazo e na grande distância entre boas intenções e bons resultados.

Não precisaremos nos xingar e nem atribuir intenções ocultas ao interlocutor – às vezes a possibilidade de que eles entendam que apenas vemos algo que eles não viram está bem diante de nós, mas como um detalhe que muda tudo. Do contrário, veremos eternamente adversários do mercado, gente que “lutava contra a globalização”, reclamando do embargo a Cuba.

E cuidem bem dos termos da discussão, para não serem contaminados por emoções viciadas. Mas este é o tema de nosso próximo artigo.

Notícias Recentes

To Top