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Opressores e oprimidos nos rolezinhos

É fácil encontrar “opressores e oprimidos” e outras explicações fáceis para o fenômeno do rolezinho. Difícil é descobrir que pobres são gente – e, portanto, são bem diferentes do que sociólogos acreditam que sejam.

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O assunto já miou, até as mais exaustivas análises foram feitas (exaustivas in stricto sensu: é de se duvidar que alguém tenha terminado de ler o artigo de Eliane Brum até além de 30%). Os rolezinhos assombraram São Paulo, aterrorizaram os “centros de consumo” e todos já emitiram um mol de opiniões a respeito.

A constante nas opiniões é a dicotomia entre quem busca alguma ordem de comportamentos esperada em um ambiente e quem enxerga desigualdade social e a eterna luta entre opressores e oprimidos.

Se a aleivosia marxista com seus cacoetes sobre “luta de classes” não cola mais, falar em “desigualdade social” e “opressores e oprimidos” está na última moda Primavera-Verão. Embora seja apenas um eufemismo daquela, tratam esses cacoetes lingüísticos como a fina flor da análise social contemporânea e atualizada.

Não existem “opressores e oprimidos” senão quando alguém usa de força ou coação para forçar outra pessoa a agir diferentemente do que voluntariamente agiria. A função de um governo é, justamente, evitar o sofrimento no convívio dos homens – sejam agressões, coações, trapaças, discriminações desnecessárias, assédios, ameaças, constrangimentos e afins. “Criar direitos” e outras invenções do gênero são apenas invenções de um movimento com origens em Rousseau, passando por Marx e que chega com histórico único até o progressismo.

A forma como os progressistas visualizam “opressores e oprimidos” não é apenas estanque, como é inata. Alguém “nasce” opressor tão somente por ter algo que o “oprimido” não tem – se pensam apenas em “igualdade”, toda traição a este projeto igualitário e coletivista de “igualdade” é uma traição a todas as pessoas, mesmo nunca tendo feito nada contra elas – ou mesmo as ajudando.

Uma pessoa bonita está naturalmente “oprimindo” uma pessoa feia, uma pessoa com sorte está “oprimindo” o azarado, o rico está “oprimindo” o pobre graças à ostentação, o forte está “oprimindo” o fraco – e tudo isso antes mesmo de um cruzar com o outro. É uma versão nova do pecado original. Se é culpado até prova em contrário – geralmente, passando-se a fazer parte da matilha.

Essa mentalidade doentia passa a ser aplicada a qualquer relação com possibilidade de conflito, mesmo que o conflito não exista. É como lidam com preconceitos: o branco está “oprimindo” o negro, o homem está “oprimindo” a mulher, o heterossexual está “oprimindo” o gay. Utilizando-se os conceitos do filosofeta de gabinete Michel Foucault, encontram a “sociedade disciplinar” em tudo: o professor “oprime” o aluno, o pai “oprime” os filhos.

Curiosamente, para sobrepujar a “sociedade disciplinar” e sua “microfísica do poder”, buscam uma sociedade igualitária, que, para igualar desiguais, precisa de uma força disciplinar do tamanho do Universo and beyond.

rolezinho polícia revista brancaPara a ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT) – ministério criado ad hoc para o PT dizer que tem ministros negros – quem faz rolezinho no shopping não é discriminado por tumultuar um ambiente feito para a calma, por saquear lojas, por “zoar” um espaço em que se paga pela tranqüilidade e segurança. Para a ministra petista, “os problemas são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam esses lugares e se assustam com a presença dos jovens”. Ou seja, o problema não são saques, tumultos, zoeiras, e sim quem não gosta disso – e é branco.

O branco está errado, mesmo não tendo feito absolutamente nada além de não ter gostado de ser tumultuado por quem, sim, fez alguma coisa.

Para o Brasil 247, o rolezinho “desmascara o racismo no Brasil”. Para o Jornal GGN, em post de Luís Nassif, proibir o rolezinho é “atitude racista” dos shoppings – mesmo quando as imagens mostram que a maior parte dos rolezeiros são brancos. Para o Diário do Centro do Mundo, reação a rolezinhos é “histeria racista” que quer “criminalizar” rolezinhos – mesmo ninguém tendo proposto proibir negros de entrarem em shopping, ou de jovens irem a shoppings em galera, ou dito que um ajuntamento de pessoas da periferia deve ser considerado “crime”, como as eternas criminalizações do sr. Leonardo Sakamoto. Para a revista Fórum, aconteceu um “apartheid à brasileira”. Faltou apenas uma comparação com Auschwitz. Quer dizer, faltou em blogs: no Twitter não faltou.

Para o Geledés Instituto da Mulher Negra, o rolezinho está entre (sic) “a elite sem vergonha e a vanguarda do racismo”, mesmo que os rolezinhos tenham sido organizados em lugares hiper elitistas como Itaquera e Campo Limpo. Para o Quadrado de Loucos, rolezinho é “ação afirmativa” (sic) contra racismo. Para o Centro de Mídia Independente, se não fosse o o racismo, não existiria rolezinho.

Para Eliane Brum, ex-Época e atual El País, “a lógica que criminalizou os rolezinhos é a mesma que levou a polícia a registrar a morte do adolescente Kaique Augusto Batista dos Santos como suicídio, antes de qualquer investigação”. Malgrado para Brum, a conclusão da polícia se deu graças a uma investigação, e a própria família da vítima confirmou tal suposição (depois de mais uma marcha contra “homofobia”), tendo encontrado um bilhete de despedida. Para Brum, realizou-se um apartheid no shopping. Para Brum, foi a “rebelião dos excluídos”.

Todas essas análises têm uma coisa em comum: primeiro garantem que há “oprimidos e opressores”, depois vão pensar em analisar os fatos. Não é preciso ter um esgar de dúvida: todas essas pessoas pensavam em “culpar o racismo” antes mesmo de se pesquisar por alguns minutos sobre o que são os rolezinhos e como se dão. A resposta já estava com eles antes dos fatos.

rolezinho apartheid racistaNão à toa, encontra-se “racismo” em rolezinhos cuja maioria dos frequentadores são brancos, encontra-se racismo em policias mantendo a ordem em shopping sem incomodar negros almoçando, encontra-se “exclusão” quando a maioria dos praticantes do rolezinho costuma ir para os mesmos shoppings (inclusive com os amigos) sem sofrerem exclusão nenhuma – por sinal, todos shoppings de periferia (e, claro, encontra-se “homofobia” e culpa da PM em um suicídio).

Mas estão lá, com suas opiniões prontas para tudo através de palavras de ordem em voga que podem ser sempre sacadas da cartola, como “racismo”, “desigualdade”, “exclusão” e a luta de classes forjada, traduzida hoje em “desigualdade social” e “opressores e oprimidos” – estes brancos e elitistas malvados de Itaquera que não querem que pobres freqüentem o mesmo shopping que eles, no fim da linha leste do metrô, do outro lado do Gambazão, o futuro estádio do Corinthians.

É um pensamento pronto que simplesmente não se encaixa na realidade. Opressores e oprimidos não são marcas de nascença – muito menos “comportamentos” que podem existir sem as pessoas fazerem nada. Um simples motoboy passa de opressor a oprimido e vice-versa umas 40 vezes em uma única avenida. Mas esta realidade é complexa demais para nossos formadores de opinião conseguirem colocar cérebro adentro.

A imaginação moral dos rolezinhos

Um dos conceitos mais importantes para se entender a realidade é a “imaginação moral”, um dos temas tratados pelos grandes críticos literários do último século, e firmemente estudado pelo maior dissecador da mentalidade esquerdista do planeta, o crítico literário Lionel Trilling, autor de The Liberal Imagination.

Desde a Idade Média (ou desde Platão) sabe-se que a forma de se encontrar o melhor substrato moral para se viver em um mundo conflituoso, difícil e que não se encaixa em conceitos fixos e estanques (como “conservadores” e “progressistas” fechados, nunca fazendo concessões, misturas, se contradizendo e afins) é recorrendo à literatura clássica e seus dissabores tão grandiosos que exigem soluções difíceis, conflitivas até dentro da própria cabeça, que não são encontradas em um simples manual de instruções para a vida – muito menos em cacoetes e automatismos lingüísticos usados para tudo.

Os termos conflitivos usados por Trilling, estudados pela grande gênia da literatura Gertrud Himmelfarb, são, nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho, “os termos que traduzem a própria substância da vida moral, não como aparece no esquematismo abstrato dos códigos e regras, mas na realidade da existência concreta, que não é acessível à compreensão intelectual antes de ser elaborada em símbolos pela imaginação literária.” Isto quer dizer:

O progressismo, observava Trilling, era de fato a única tradição intelectual dos EUA. Entre o povo havia sentimentos conservadores, mas não, entre os intelectuais, uma história contínua de idéias conservadoras em debate. Daí a importância de examinar o fundo de símbolos e emoções por baixo das idéias esquerdistas em evidência. E a primeira coisa que o crítico aí notava era a rigidez esquemática das reações morais, a falta daquela abertura para a variedade e ambigüidade das situações humanas, que tão nitidamente transparecia entre os conservadores como Samuel Johnson, Edmund Burke, Samuel Taylor Coleridge, Mathew Arnold – ou, acrescento eu, Balzac, Dostoievski, Leonid Andreiev, Manzoni, Papini, Henry James, Conrad, Mauriac, Bernanos, Soljenítsin, V. S. Naipaul, Eugenio Corti.

Ou seja, o progressista, o esquerdista, o socialista, o social-democrata são fracos em conceitos para analisar o real. Basta ver como qualquer música de Chico Buarque tratando um personagem como um anjo sofredor e outro como o Cramunhão Tranca-Rua Ele Próprio é vista como “obra belíssima”.

Falta uma imaginação que entenda que é preciso se aferrar a uma moral rígida, mas que o tecido do real se deslinda de tantas formas que nunca será possível prever o que se faz em todas as situações. A cena inicial do filme Limite Vertical, em que uma família de alpinistas fica presa em uma montanha por apenas uma corda que não agüenta o peso de todos, e o pai, no fim da corda, pede para o filho cortá-la, deixa o filho em uma situação bastante conflitante entre o “Não matarás”, o “Honrar pai e mãe” e o princípio geral de que três mortes inevitáveis que aconteceriam “sozinhas” são piores do que apenas um parricídio cometido por ele próprio. É nessas horas que a imaginação moral, para a ficção e para a vida, impõe algo além de cacoetes de explicações fáceis da realidade (e totalmente erradas). Explica Olavo:

“Se o progressismo tem uma fraqueza desesperadora, é uma imaginação moral inadequada.” Inadequada porque simplista e irrealista. “O progressista pensa que o bom é bom e o mau é mau: ante a idéia de bom-e-mau, sua imaginação falha.”

A diferença aparece com ênfase máxima na maneira como os romancistas traçam os personagens de seus virtuais antagonistas políticos. Os romances escritos pelos conservadores pululam de revolucionários, comunistas, anarquistas, terroristas e assassinos políticos retratados com toda a complexidade moral da sua vida interior e das situações que atravessam. Nos romances “de esquerda”, o adversário político quase sempre aparece sob forma caricatural, desumanizada ou monstruosa, sem qualquer atenuante, sem qualquer ambigüidade, sem qualquer concessão relativista ou mera simpatia humana. Leiam Gorki, Barbusse, Brecht, Hemingway, John Steinbeck, Ilya Ehrenburg, Theodore Dreiser, Lillian Helman, Howard Fast, e entenderão do que estou falando.

Ora, rolezinhos são a nova onda de jovens de periferia que não têm referências culturais, todas assaltadas do país pelo progressismo que impera na educação e na cultura desde a agitação universitária na ditadura até a instalação progressiva do analfabetismo de Paulo Freire em todas as esferas da educação. Sem ídolos, literatura, música, arte e ficção de qualidade, restam-lhe os apelos dos funks de periferia, que basicamente reduzem o ser humano às suas funções mais primitivas: é um bicho que se alimenta, se reproduz e faz excreção (e não será surpresa se a próxima leva do funk passar a tratar essa última função como tema musical precípuo).

une chapa brancaTodavia, mesmo esses jovens, os “excluídos” de uma sociedade que não lhes feriu em nada, não caem na conversa mole de exclusão, desigualdade, oprimidos e o que mais tenha cativado algumas mentes riquinhas e empulhadas de Deleuze e coitadismo academicista nas últimas décadas. Pelo contrário, apenas querem consumir, ainda que pelos piores motivos, da pior forma, com péssima gramática e com trejeitos que apenas os estigmatizam.

São pessoas com grandes contradições dentro de si, que se conhecessem teorias sólidas sobre a realidade poderiam purificar seus comportamentos, pensamentos e desejos e se tornarem pessoas morais. Todavia, com a hegemonia de pensamento pronto que dominou o Brasil, só têm como referência o discurso malemolente da desigualdade e da exclusão – mas, mesmo com o orgulho de serem da periferia, ouvindo péssima música e fazendo arruaça que permite arrastões, não caem mais nessa esparrela.

O que sobra do discurso de “opressor e oprimido” são comentários de jornalistas e blogueiros que nunca usaram a linha leste do metrô, mas se sentem “defensores dos pobres” em bares caros com decoração rústica na Vila Madalena. Parece um papo de justiça, sobretudo aquela modalidade de injustiça chamada de “justiça social”, mas o perigo continua latente.

Se ser “opressor” é apenas ter algo que outra pessoa não tem (e, por esquemas simplistas de pensamento, se você inventa algo e passa a ter, todos os outros passam a ter direito a ter o que você tem), basta marcar alguém como “inimigo de toda a sociedade” e problema resolvido. Os maiores massacres da história mundial não foram perpetrados por opressores contra oprimidos, e sim por aqueles que martelaram propaganda por tempo o suficiente que eram “contra os opressores” e os reduziram a pilhas de cadáveres na vala comum.

Não à toa, os judeus (os “burgueses”, os “coxinhas”, os “elitistas”) foram a maior vítima do nazismo (aquela coisa com a qual a esquerda compara tudo o que não gosta). Pergunte as relações da esquerda vitimista com os judeus, com Israel ou com a tradição comercial judaica para perceber como se tornam imediatamente opressores. É o que acontece quando se cola bem a idéia de que um “opressor” é um opressor “inato”, sem retorno: qualquer agressão a um opressor está justificada. Qualquer agressão.

Como toda a tropa de choque de pensamento esquerdista se resume ao dinheirismo mais baixo, acreditando que seres humanos são apenas sua faixa salarial, fica-se com a economia de banheiro, jurando que shoppings na periferia são pátios de consumismo da elite. Não importam os fatos, e sim palavras de forte apelo emocional por si, como “elite”, “consumo”, “exclusão”.

yasmin_rolezinhoÉ por isso que Yasmin Oliveira, 15, freqüentadora de rolezinhos e flagrada em uma laje sem reboco com tênis de R$ 500, postou um vídeo explicando que cada um tem que cuidar da sua vida ao invés de cuidar das dos outros, que ela gasta com o que ela quiser sem ninguém encher o saco, que a mãe dela ganhou dinheiro com o esforço dela, e se antes pagava aluguel, hoje tem uma casa para arrendar, que quando quer roupa de marca faz seus bicos e compra, que na favela as pessoas querem consumir e trabalham pra isso.

A melhor defesa do capitalismo vista em anos – deu uma surra violenta em todos os sociólogos da “desigualdade” do Brasil JUNTOS (em que momento a moça disse que, já que é da favela, precisa de cota e “distribuição de renda” pra usar roupa de marca?). E a moça até mostra que trabalhar embeleza todo mundo.

Dêem uns 5 livros de Escola Austríaca pra essa menina e em breve teremos a primeira mulher a explicar as vantagens do capitalismo selvagem pra esse país que coloca “social” até em nome de bolacha. Ela, moradora da periferia, nunca vai aceitar o pobrismo de intelectual brasileiro, que acredita que defende pobre ao defender ladrão e assassino que tem os pobres como principais vítimas.

Não adianta perguntar para a Eliane Brum, para o Luís Nassif, para o Paulo Nogueira, para o P. C. Siqueira, para a ministra dos negros e para um escol de formadores de opinião com o mesmo arcabouço intelectual sempre igualitariamente do mesmo quilate: sobre tais grandes contribuições à cultura e civilização humanas, são hagiograficamente virgens.

Sem a própria imaginação moral, resta sempre crer fielmente segundo a cartilha do Pentateuco progressista: tudo o que é que crítica ao que se pensa é “interesse de classe”, e essa imaginação moral é só uma forma de esconder que o pobre é só um pobre, e nada mais do que um pobre – nunca um homem digno, corajoso, beberrão, bondoso, preguiçoso, estóico, religioso, agressivo, aproveitador, vaidoso, defensor dos fracos – possivelmente tudo isso junto, ao mesmo tempo.

O pobre é apenas um pobre – uma estatística, um número baseado em seu salário. Não por outro motivo que Mao Tsé-Tung quis abolir os nomes em sua China igualitária, deixando cada pessoa apenas com um número de referência.

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