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Quem leva o Nobel da Paz: Mubarak ou Kadafi?

 

Por Flávio Morgenstern:

Até uns 2 meses atrás, perguntar para um transeunte aleatório qual era o presidente do Egito e obter uma resposta correta era algo bem próximo de ganhar na Quina da loteria. Bem próximo porque sem prêmio. Mas eis que o tal presidente Mubarak cai. No dia seguinte, cada canal, jornal, pasquim, blog, panfleto, lambe-lambe, cabeleireiro e disk-sexo convida um especialista diferente em Egito (sem chamarem Bruce Dickinson ou Karl Sanders) para comentar o caso.

A “explicação média” destes sábios exige mesmo alguns anos de pesquisa e uma alumiada sapiência: é tudo culpa do imperialismo americano (digo, “estadunidense”). Isso advém de um raciocínio complexo e difícil que só mesmo especialistas conseguem acompanhar. Como meus leitores não devem possuir a mesma quantidade de massa cinzenta, tentarei explicar devagarzinho:

1) Se existe uma ditadura, deve-se averiguar se ela pode ser chamada, aparando-se as arestas e jogando com a ignorância da patuléia, de direita. Se for de direita, culpa-se os EUA e fala-se do lobby sionista do Vaticano;

2) Se a ditadura for de esquerda, averigua-se seu apoio popular em outras partes do mundo (por exemplo, as vendas de camisetas com a imagem de um ditador sob uma frase aleatória, suponhamos por mero exercício de imaginação, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”). Aqui há uma bifurcação:

2-a) Caso a popularidade seja alta e a venda de camisetas idem, nega-se a ditadura e aplica-se o princípio da não-intervenção (também conhecido como “Quem mandou ser cubano?!”), ao mesmo tempo em que se enaltece as “conquistas sociais” que só o cacete é capaz de alcançar;

2-b) caso a popularidade seja baixa, ignora-se completamente que a ditadura é de esquerda, e culpa-se os americ… estadunidenses pelo imperialismo.

É um pensamento complicado, que exige muitas leituras e algumas décadas de sólida formação intelectual, mas o caminho das pedras recompensa enormemente: vira-se especialista em Egito, ou Líbia, ou Tunísia, ou Jordânia, ou qualquer país que nenhum desses especialistas conseguiria apontar num mapa de War.

Esta quebra de paradigma é melhor representada por algumas cenas (fictícias, percebam) no gabinete de um presidente (fictício, notem) de um país da América Latina (fictícia, para ser melhor do que a realidade), como mostra o Leite de Pato.

 

CENA 1

– Bom dia, presidente. Ditadores prenderam 200 jornalistas em Mianmar.

– E onde é que fica essa porra?

– Na Ásia, presidente.

– E essa ditadura é de esquerda ou de direita?

– De direita, presidente.

– Então escreve uma nota descendo o sarrafo nesses fio da puta.

* * *

CENA 2

– Bom dia, presidente. O presidente Hugo Chávez reprimiu duramente uma manifestação contra seu governo.

– Contra o meu?

– Não, senhor. Contra o dele.

– Ah, tá. E daí?

– Ele prendeu 200 pessoas e ainda morreram dois jovens.

– Porra, eu falei pro Chávez comprar logo a UNE lá deles… Escreve uma nota de apoio pro Huguinho, vai…

* * *

CENA 3

– Bom dia, presidente!

– Vem cá, tu vai falar de ditadura de novo? Tô começando a ficar com complexo de inferioridade!

– E por quê, presidente?

– Porque todo mundo tem uma, menos eu. Mas continua.

– O ditador do Sudão matou 300 mil pessoas e alguns países querem que o governo brasileiro se pronucie a respeito.

– Tem alguma chance desse cara votar ni nóis pro Conselho de Segurança da ONU?

– Sim, senhor.

– Então escreve uma nota de apoio, vai. Diz aí: “Porra, mas só 300 mil? É muita veadagem!!!”

– Ok, presidente.

– O Fidel já ligou?

 

Et tu, Brasilia, quo vadis?

Enquanto isso, no Brasil, a interpretação de qualquer fato é achatada no funil do anti-americanismo. Como se os EUA, com uma população maior do que a nossa, estados verdadeiramente federalistas que, afinal, são bem mais diversos do que os nossos (a ponto de alguns terem cadeira-elétrica, e outros programas sociais) e uma população solidamente mais culta pensassem todos da mesma forma.

A interpretação de mundo marxista consegue se fazer presente mesmo em quem nunca leu uma linha de Marx: toda revolta é por razões econômicas, definidas por classes estanques que ganham, por hora de trabalho (a única medida aceitável), um valor bem distante das outras classes, e nunca chegará lá.

Ou, fugindo do pedantismo: quando cai Mubarak, a esquerda festeja. É a “revolução” em sentido dialético: o regime não se sustenta, porque o capitalismo selvagem ultra-liberal da Bolsa de Valores do Cairo e seus especuladores internacionais exploradores do proletariado egípcio não conseguem conter a fúria do povo. É a prova de que o povo não agüenta mais ditadores “financiados” pelos EUA.

Mas e quando cai Kadafi, um ditador mil vezes mais sangrento que Mubarak? Kadafi, aquele do socialismo do “Livro Verde”, aquele que fornece armas para todo o terrorismo internacional (financiando por anos o ETA e o IRA, e até mesmo as FARC), aquele ditador que é a própria encarnação do princípio político da “Eurásia” de Alexander Dugin, unida contra o americanis… estadunidismo, com Islã, China e Rússia indo contra os EUA?

Enquanto a esquerda não se articula para dar uma única resposta alinhada a este problema, vemos Hugo Chávez defendendo Kadafi como o maior humanista da paróquia (o princípio 2-a, apresentado acima), enquanto José Dirceu diz que Kadafi mandou fuzilar sua população por culpa dos americanos (o princípio 2-b, mais correto, visto que Chávez não é lá a fonte mais fidedigna, ou menos lunática, no que se refere à avaliação de popularidade de circunstantes).

E não dói um pouco nas partes baixas que as pessoas que descem o sarrafo em Israel sejam as mesmas que festejam a queda de Mubarak? Ou seja, Israel é um imperialista safado, pois invade o Egito e desestabiliza o governo. Mas se o próprio povo egípcio não só desestabiliza o governo, mas o escorraça quase a pauladas… bem, aí é lindo?

E, bem, derrubar ditador Mubarak é mesmo indiscutivelmente bonito. Mas e derrubar o Saddam Hussein não foi? Eu achei. Bonito mesmo.

Aí os argumentos são os de sempre:

1) Os EUA querem manter sua política imperialista e manter o mundo sob seu jugo (se “imperialismo” é derrubar uma ditadura assassina, colocar uma democracia num lugar tribal onde facções se matam a pauladas simplesmente por disputas étnicas e exportar Mc Donald’s e Mickey Mouse, tenho mesmo medo da esquerda subir ao poder e acabar com tudo isso. Regina Duarte was right!)

2) (e derivado de 1) Os EUA querem manter o controle hegemônico da região, com uma política belicosa e sanguinolenta, para poder lucrar explorando o povo iraquiano (com uma guerra que custou US$ 4,5 TRILHÕES, teria sido mais fácil tentar tirar um pouco de milho de caca cachorro-quente vendido para as empresas americanas conseguirem lucrar, ao invés de perder MUITO dinheiro com impostos; e se a idéia era sair detonando com a população iraquiana, com o poder de fogo que os EUA possuem, dava para ter jogado 2 bombas e dominar todo o país, sem precisar gastar tanto para EVITAR ATINGIR A POPULAÇÃO CIVIL);

3) Os EUA foram pro Iraque atrás de petróleo (o preço do barril antes da guerra estava em US$ 33, atingindo US$ 100 nos dias de hoje; se os americanos foram pro Iraque para procurar petróleo, parece que NÃO ENCONTRARAM);

4) Por fim, um argumento só encontrado em universitários no Show do Milhão: ok, os EUA “até podem” colocar democracia onde há ditadura teocrática macambúzia mundo afora. Mas por que o Iraque e o Irã? Não deveriam ter apertado o gatilho contra todo mundo?

 

Bem, em todas as vezes que os EUA intervieram no Oriente Médio, trocaram um governo corrupto e ditatorial que tinha lá certos laços com os EUA por um governo que era inimigo declarado dos EUA; o caso do Irã é clínico: o xá Reza Pahlavi foi pénabundeado com ajuda americ… estadunidense, e em seu lugar foi colocada a teocracia islâmica mais radical e anti-americana do planeta.

Por outro lado, se os EUA (e a UE) cuidassem de fazer uma guerra contra todos os países que infringem direitos humanos, democracia e outras coisas que só a burguesia capitalista é capaz de conceber, o mundo inteiro viveria num estado de guerra constante tão calamitoso que faria os dias que abalaram o mundo da Guerra Fria parecerem férias em Acapulco. E, afinal, os EUA e a UE, aliás, todos os países, não teriam mais o que produzir além de armamentos.

Enfim, qualquer um agora que ajudar a derrubar Mubarak será um humanista, um verdadeiro mártir, um candidato ao Nobel da Paz. Exceto, é claro, Israel, que, afinal, é “negado” por essas ditaduras nas quais o próprio povo não agüenta os governantes (bem mais do que nós não agüentamos os nossos, PT à parte).

O que, diga-se, demonstra a relação ambígua da esquerda com as ditaduras, exposta acima: qualquer atitude errada da direita é apontada como nazismo, embora apóie-se qualquer atitude contra os judeus (como Emir Sader, afirmando que o Holocausto foi culpa, ora essa, dos próprios judeus).

 

Quem merece mais o Nobel da Paz: Mubarak ou Kadafi?

Lula já foi indicado ao Nobel da Paz, pela primeira vez em 2003. A razão, depois de arrancar lágrimas contando sua história como retirante nordestino que não comia carne no Fórum de Davos, era o programa Fome Zero (hueahuehauehuahue!).

Em 2004, com divergências sobre a condução do programa, seu principal articulador, Frei Betto, amigo de longa data de Lula (e também amicíssimo de Fidel Castro e sua ditadura), rompe com o PT. O programa é panfletoriamente “esquecido” (junto com o “Meu Primeiro Emprego”, que só deu emprego para petistas que gastaram uma boa bolada com ele) e é engulfado pelo Bolsa Família, capitaneado por José Dirceu, que só cairia em 2005 com o escândalo do mensalão.

Lula também quis vaga no Conselho de Segurança da ONU e jurava que conseguiria galgar o último passo rumo ao Nobel “intermediando a paz” com o Irã, votando contra sanções (nem o Líbano votou contra, preferindo arrumar briga com os mulás atômicos cabeças-de-toalha). A trapalhada foi tamanha que, em quase 2 décadas, o Nobel da Paz e o da Literatura não foram para esquerdistas ou periféricos.

Ganharam o Nobel da Paz nos últimos tempos Barack Obama, cujo grande feito foi ganhar eleições e prometer mandar mais soldados para o Afeganistão (se Bush prometesse numa cerimônia do Nobel o mesmo, não sairia vivo da festinha). Também Al Gore, cujo grande feito foi não ter ganhado essas eleições. Jimmy Carter, o pior presidente de toda a história dos EUA, também foi laureado. Além de Kofi Annan, que deve ter melhorado o mundo de alguma forma misteriosa.

Retrocedendo um pouco mais, temos o terrorista Yasser Arafat, que assinou um acordo em Oslo prometendo parar de matar. E também Nelson Mandela, que recentemente criticou o filme Blood Diamonds, dando um susto em Leonardo DiCaprio, que pensou que ele adoraria o filme (quando seu governo foi financiado, aliás, pelo próprio trabalho escravo nas minas de diamantes). Anwar Al Sadat também ganhou o Nobel por negociar a paz entre israelenses e egípcios (cadê o Nobel para Israel, se a política de AL Sadat culminou em um Mubarak?!).

Ora, Lula não precisa chorar: até mesmo Lech Wałęsa conseguiu o Nobel, mesmo com um governo mais trapalhão, corrupto e indiscutivelmente canalha do que o governo PT!

Mas quem ganhará o Nobel dessa vez, então? Não faz sentido dar um Nobel para Anwar Al Sadat e agora para qualquer um que escorrace Mubarak do cargo. E, como se vê, o único presidente ameri… estadunidense democrata não-laureado nos últimos tempos foi o melhor deles: Bill Clinton (aquele que ao menos fez um genocida racista como Slobodan Milosevic brincar sem machucar coleguinhas).

Todos os presidentes, então, que não cuidaram de acalmar os ânimos de um psicopata como Kadafi (e hoje, alguns deles, até dizem que “erraram” por isso), coisa que até um Sarkozy tentou fazer. Por outro lado, em um de seus atentados terroristas, Kadafi perdeu uma filha em uma investida aérea comandada por Ronald Reagan. Alguém aí pensou em dar um Nobel para Reagan?

Ademais, George W. Bush (ele) aplicou uma política que ia contra todo o consenso do establishment da década passada (década de 00?): supor que, se as teocracias islâmicas se batessem com o Ocidente, o mundo islâmico iria querer, afinal, o padrão de vida americano. Nas ruas do Cairo, vemos que sua política estava corretíssima, enquanto a esquerda mundial, o PT incluso, pregava uma estrovenga chamada “multiculturalismo” (ah, é a cultura deles, quem manda nascer de mãe que usa burca?!). Mas, certo ou não, e ajudando a democratizar ditaduras ou não, pense em uma frase com “Nobel da Paz” e “George W. Bush” ao mesmo tempo e diga se não soa o cúmulo da maluquice, até mesmo se você concorda com estas mal-traçadas? Mas, bem, alguns amiguinhos do Kadafi ganharam o prêmio. Por que não o próprio Kadafi, se sair do governo e “negociar a paz” (ou seja, parar de matar)?

De toda forma, já aguardamos ansiosamente o pronunciamento de um Tarso Genro, mandando avisar que o refúgio de Kadafi no Brasil é legítimo, pois está sendo perseguido por golpistas de direita na Líbia.

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor e Analista de Mídia.

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