Artigos

Sopão só nas tendas: boa notícia para os mendigos

por Flavio Morgenstern

A notícia que manteve o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD) em primeiro lugar nos Trending Topics de hoje foi que a prefeitura quer proibir sopão grátis no centro em um prazo de 30 dias, como noticiou o Jornal da Tarde/Estadão. Na verdade, a notícia já vinha de 2010, quando a Época São Paulo mostrava os primeiros passos da prefeitura para concentrar o sopão só nas tendas.

Dar comida para mendigos é mesmo uma atitude louvável. Mas nosso país precisa entender que há um abismo muitas vezes intransponível entre intenção e resultado, talvez paremos de engatinhar. Para piorar, qualquer atitude tomada por um prefeito como Kassab a respeito de mendigos é imediatamente pechada como “higienista”. Há de se entender com urgência que as ações feitas com o melhor dos corações podem ter conseqüências desastrosas, mesmo para aqueles que queremos ajudar.

Ora, pessoas na condição de miséria muitas vezes  não têm consciência de sua situação. Um percentual altíssimo dos mendigos em São Paulo têm deficiências mentais – e, graças à política anti-manicomial, são largados às ruas. Cabe tanto a órgãos estatais (se lhes cabe alguma função, essa é a primordial por excelência) quanto a entidades privadas que se preocupem com isso que dêem assistência às pessoas em situação de rua.

No entanto, lendo bem as notícias (e não apenas se chocando com o título, passando a imaginar as piores descrições dos ciclos mais ínferos de Dante como complemento de uma frase chamativa e confundindo a imaginação com a realidade), vê-se que a medida da prefeitura, afinal, é um excelente passo para ao menos tentar modificar a vida de mendicância a qual muitos cidadãos de São Paulo estão relegados.

A atitude da prefeitura, na realidade, foi fazer um convite a entidades que cuidam da distribuição do “sopão” para os moradores de rua para que “a distribuição filantrópica de comida será restrita aos espaços municipais de convivência conhecidos como tendas. Nelas,os desabrigados encontram banheiros químicos, chuveiros, kits com toalha e sabonete, jogos, TV e assistentes sociais”. Soa muito higienista?

Lugar de criança é mendigo é mesmo na rua?

É claro que tudo é pensado de modo a tentar culpar a figura de Gilberto Kassab a qualquer custo. Em um caso curioso em que direita e esquerda deveriam se unir em prol de algo comum (entidades filantrópicas tirarem os mendigos das ruas, ao invés de mantê-los lá), ambas se uniram contra a medida do prefeito, só por ser a do prefeito. Uma alega que a medida propõe “estatizar a caridade”, pois tudo o que tenha “proibido” e “governo” na mesma frase soa a socialismo. Outra, procurando encontrar alguma função do Estado não cumprida, questiona o que a prefeitura fez em contrapartida à medida que pede que a caridade seja feita apenas nas tendas. Nenhuma das duas coisas tem qualquer relação com o ocorrido.

“Estamos convidando entidades que já distribuem comida para virem servir nas tendas, que são locais mais apropriados”, diz a vice-prefeita, Alda Marco Antônio, titular da Secretaria de Assistência Social, na reportagem da Época São Paulo. Não parece algo tão despropositado: os abrigos para moradores de rua em São Paulo possuem 680 leitos vagos, segundo reportagem do R7 de 2011. Por que não são ocupados?

Obviamente, porque há algumas “vantagens” em ficar na rua em grupos de proteção: muitos dos moradores de rua se viciam em drogas, podem mendicar pela noite e não têm uma rotina de disciplina em troca das noites nos albergues. Ou, em termos econômicos, há uma “concorrência” das ruas que os albergues não conseguem enfrentar. Logo, mesmo que a prefeitura construa mais albergues, não fará nenhuma diferença.

O vezo em atacar per fas et per nefas um governo que não se declare de esquerda ou social é flagrante – como quando houve um projeto de revitalização da Praça da República com bancos com braços e um grande jornal de São Paulo (odiado por setores progressistas, mas usado como sagrada escritura nessas horas) publicou que Kassab criava “bancos anti-mendigos”. Logo, a “contrapartida da prefeitura” não só está feita há muito: está sendo atrapalhada. Um caso raro em que uma ação estatal tenta ajudar e não consegue.

Em 2010, Época mostrava o cotidiano noturno das entidades:

Enquanto o jantar era servido, um policial veio contar os planos oficiais. “É só indicar o local”, garantiu o pastor, que há quatro anos mantém a rotina de levar, toda semana, as refeições preparadas na igreja. Era o que Alda Marco Antônio queria ouvir. “Tenho um parecer de que é possível proibir a distribuição de comida na rua, mas espero não usá-lo”, diz. “Se as grandes entidades estiverem nas tendas, as menores perderão freguesia.” Pode dar certo. O risco será coibir a ação social sem oferecer uma alternativa para que essa população se alimente – nas ruas ou longe delas.

Na verdade, a idéia é, justamente, não haver alternativa. Não se quer ter pessoas reduzidas á miséria, vivendo em condições subumanas, sem consciência de si ou da realidade ao redor, sendo mantidas no estado em que estão ao serem alimentadas sem precisarem se deslocar para as tendas, onde as 48 instituições que cuidam da vida de mendigos podem fazer seu trabalho de verdade. Manter pessoas geralmente mal conscientes de si em estado semi-vegetativo não é lhes garantir “liberdade”. A liberdade de fazer “caridade” mantendo essas pessoas literalmente na sarjeta tampouco é algo perigoso a ser restrito.

Piorando ainda mais, vê-se que o wishful thinking que busca saber como atacar alguém escorando-se em uma ideologia antes de averiguar a realidade falou mais alto novamente: não se proibiu a caridade. Não se proibiu as esmolas. Não se moveu um aparato policial para tal (como chegou-se a afirmar). Não se está tentando matar mendigos de fome apenas para higienizar a cidade para os ricos. Pelo contrário: foi feito um convite da prefeitura para que as entidades pratiquem filantropia nas tendas. Lá há infra-estrutura para cuidar melhor da vida da população em situação de rua. Lá, há convívio, pessoal e ambiente propício para tentar fazer com que alguém abandone as drogas, que consiga um trabalho, que, afinal, saia da miséria.

Ao “ajudar” um miserável a se manter na miséria, você não está ajudando o miserável – está ajudando a miséria.

O busílis se dá, como se na reportagem do Jornal da Tarde, porque o secretário de Segurança Urbana, Edsom Ortega, disse que as instituições que insistirem em continuar oferecendo comida na via pública para a população de rua serão “enquadradas administrativamente e criminalmente”. Ora, a despeito da falta de necessidade em punições criminais, é o mesmo tipo de reforçamento negativo (em termos comportamentais) que pretende fazer com que os mendigos saiam das ruas: não permitir que a situação permaneça como está. Avisar um mendigo que o sopão que está se dando para ele será distribuído apenas numa tenda na semana seguinte não pretende matá-lo de fome: pretende, acreditem, fazê-lo ir para a tenda. Podem deixar o ódio ao Kassab para outra hora.

Toda a questão é tão simples quanto parece: a prefeitura está forçando as entidades filantrópicas a praticarem seu bom trabalho onde ele é útil. Onde não apenas se dê uma sopa para o mendigo – mas onde ele possa vir a deixar de ser mendigo um dia. Troca-se um modelo em que entidades gastam dinheiro sem assistência da prefeitura para que moradores de rua comam no mesmo chão cheio de dejetos do centro por um modelo onde comam com talheres, em cadeiras, tomem banho e fiquem longe das drogas nos albergues.

Assim como uma empresa que produza um produto excelente possa poluir o ambiente no processo, a melhor das intenções na caridade e na “liberdade de atuação longe do Estado” também pode gerar conseqüências desastrosas – onde a maior vítima, infelizmente, é o “ajudado”. Não há muito sentido em defender o direito do mendigo continuar sendo mendigo em nome da caridade. Basta pensar em qualquer teocracia islâmica e ver como cada pobre é, na prática, um mendigo em potencial.

Deixados ao acaso, nós sabemos qual é o resultado. E ele não é vantajoso. Impedir um resultado melhor em nome da “liberdade” de manter um miserável na miséria não parece algo correto sob nenhuma lógica. Abandonemos as ideologias e fiquemos com o que sabemos sobre causa e conseqüência das ações que buscam ajudar moradores de rua: não incentivemos miseráveis pouco conscientes a permanecerem na miséria.

Flavio Morgenstern é redator e tradutor. Apesar de entender as boas intenções de distribuir curso profissionalizante na Praça da Sé, não acredita exatamente que vá funcionar. No Twitter, @flaviomorgen

Notícias Recentes

To Top