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Trabalho escravo na Zara: Evo Morales explica

por Flavio Morgenstern*

Estou sendo instado a pronunciar-me a respeito do caso Zara, grife cuja fornecedora, uma empresa chamada AHA, mantinha 16 pessoas, sendo 15 bolivianos, em regime de semi-escravidão em um barracão na Zona Norte de São Paulo. Tudo se deriva de uma frase que escrevi há 2 dias, graças a um anuro que “defendeu” negros na Carta Maior com o argumento de que eles são ótimos pra nos entreter com futebol. Como ele quis fazer a manjada aproximação forçada entre nazismo e capitalismo, repliquei-lhe (já em negrito no original):

“O capitalismo foi o único sistema econômico da História a abolir o trabalho escravo. Nenhum outro o conseguiu. Muito menos vocês-sabem-qual.”

A frase, na verdade, é uma idéia passada pela Ayn Rand, em seu monumental A Revolta de Atlas (1100 páginas que vocês mudariam pra melhor o destino da humanidade).

Antes mesmo de a denúncia do Ministério Público sobre a Zara vir à tona, já tentaram me lembrar do colonialismo africano no séc. XIX para trás. Ora, a afirmação “A é o único que faz B” não significa “A só faz B”. É difícil perceber? Há algum erro lógico no afirmado? Para apontar um erro, bastaria mostrar um único sistema econômico não-capitalista que não dependa do trabalho escravo. Ou existe algum, ou o capitalismo foi mesmo o único sistema econômico na História a abolir o trabalho escravo. Como diziam os latinos, não há uma terceira opção – tertium non datur.

O que precisa ser explicado é apenas que, afinal, isso é uma manchete. Dizer “cubano vive vida miserável” ou “negros morrem mais do que brancos no Brasil” não é notícia (a mesma Carta Maior, sempre embaixo de um banner da Petrobras e em cima do seu dinheiro, já fez outras análises racistas querendo indicar “motivos raciais” nesse fato, como se tentar encontrar “motivos raciais” analisando quem mata mais, negros ou brancos, não fosse um argumento bastante hitlerista). Notícias são coisas que não acontecem com freqüência. A não ser que seu padrão de noticiário seja o Canal Rural.

Quer entender por que o capitalismo é o sistema que vive sem trabalho escravo? Porque quem tornou o caso famoso foi Rafinha Bastos – aquele mesmo “comediante” de quinta (que só merece esse título por exclusão das outras hipóteses), que era detonado por falar de mulheres feias estupradas e órfãos no Dia das Mães (impossível responder a tais acintes com mais civilização do que fazer referências à sua própria mãe). Já pensou tentar afirmar o mesmo em um regime não-capitalista? No capitalismo, é possível lucrar criticando o modelo trabalhista. Tente em qualquer outro sistema e deixe seu testamento contar o resto da história.

 

Socialismo é trabalho escravo com Verified Account. ✓

Ortega y Gasset, no monumental A Rebelião das Massas (o melhor livro de filosofia do séc. XX, claríssimo em suas idéias e cheio de piadinhas), lembra algo importante sobre a escravidão:

“Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor.”

Ora, por increça que parível, não é um caso muito diferente dos bolivianos da Zona Norte. Ora, é uma questão de saber o que é melhor para a própria pele: viver na miséria total do país mais pobre da América Latina ou emigrar para viver uma vida subumana no Brasil? Quem conhece o país de Evo Morales e seu socialismo do séc. XXI sabe o que prefere para si próprio: a vida suburbana num país desconhecido, onde são tratados como lixo.

Qualquer brasileiro que preferiu a vida de suburbano no Primeiro Mundo sabe disso. É o efeito conhecido na Europa como “encanador polonês”: pessoas sem instrução, que ainda viviam em países miseráveis graças ao Estado inchado e tendências políticas esquerdistas no governo emigravam para a Europa Ocidental trabalhando por muito menos do que um europeu ocidental aceitaria pagar por aquilo. O “encanador polonês”, no fim, vivia num paraíso ganhando bem menos do que um francês, um inglês, um alemão ocidental. Não foi senão por isso que o chefe da Organização Polonesa de Turismo, Andrzej Kozlowski, notando que a Polônia, além de “encanadores”, exportava também muitos modelos, que esmirilhavam os europeus ocidentais em concursos, teve a idéia de usar o modelo Piotr Adamski para uma campanha como “encanador”, com a Torre Eiffel ao fundo, mostrando que os europeus não tinham muito o que temer dos “encanadores poloneses”. Vai uma garçonete polonesa aí?

O caso dos bolivianos é ainda pior. São a ralé num país que já é a ralé, e ainda não têm sua beleza reconhecida internacionalmente. Mas vieram para o Brasil sem terem sido forçados a tal. Ao menos, não como os escravos negros, escravizados em batalha com outros negros (vide Ortega acima) e depois vendidos aos portugueses, holandeses e ingleses que vieram praticar o tráfico negreiro por estas bandas (não é curioso que se diga “tráfico negreiro” justamente porque a prática era proibida na maioria dos países de onde saíam os traficantes?).

Mas há uma lei óbvia para eles: é melhor esse trabalho indigno e não aceitável por ninguém recebendo R$400,00 por mês do que o salário mínimo boliviano. Você prefere trabalhar só 6 horas por dia e ganhar no máximo R$150 por mês (algo próximo do salário mínimo boliviano) ou trabalhar 16 horas de segunda a sábado por R$400? Suas crianças chorando podem responder essa por você.

Trata-se do que os teóricos da Escola Austríaca chamaram de “praxeologia”, a melhor definição de preços que já vi (e que joga O Capital inteiro na lixeira). O preço de algo não é definido pelo quanto de matéria-prima e mão-de-obra foram gastos ali (como acredita Marx). Trata-se de uma questão de necessidade.

Se pensarmos em um sanduíche, pensamos de cara que ele não é um almoço, que é supérfluo, que engorda etc. São fatores que pensamos tão rapidamente que nem lembramos de cada um deles (e são todos levados em consideração) quando nos decidimos por comprar um ou não. Mas, se estivermos com fome e não formos jantar em casa, seu fator de necessidade irá aumentar bastante. Dependendo da fome, pagaríamos, se pudéssemos, R$10 por uma única mordida em um sanduíche de R$30. Já a segunda mordida sairia mais barata, pois, com um pouco de fome saciada, ela já não vale R$10 – mas pagaríamos talvez uns R$5 pela mordida. Assim, o preço vai diminuindo sucessivamente, até que, com a fome completamente saciada e estômago pesado com tanto picles, molho especial e gergelim, algumas mordidas a mais passariam a ter valor negativo.

Ou seja, o preço de algo não é visto como um preço nem por “custo + lucro” (mande minhas desculpas para seu professor de História por mim), e sim por parcelas de interesse, que podem até mesmo não fazer parte do produto como um todo (ou você nunca comprou alguma guloseima só porque tinha uma embalagem que dava pra guardar caneta depois?).

Isso, para deixar com a pulga entre as pernas e o rabo atrás da orelha a turma que adora reclamar do lucro, também pode acontecer negativamente – ou seja, o preço de um produto ser menor do que o custo de produção + matérias-primas. A teoria do trabalho de Marx está completamente errada, como se comprova em qualquer sebo.

Uma revista semanal de notícias custa em torno de R$10. O custo em folhas coloridas de suas páginas é altíssimo (tente imprimi-las em casa para sentir no seu bolso), e só é possível fazer tal mágica em larga escala (o fordismo também mostra que mais-valia é um mito de sociedades primitivas modernosas). Sendo semanal e de notícias, pode-se presumir que a revista vai perder muito de seu apelo já na semana seguinte (pergunte ao seu jornaleiro quantas edições são vendidas á partir de terça-feira, por exemplo). Tente vender uma dessas revistas para um sebo, praticamente pelo valor do seu peso em papel colorido. Se conseguir R$0,30 por ela, considere-se com sorte. Em compensação, revistas com o mesmo preço, com apelo não semanal, podem ser revendidas por, vá-la, R$1,00. Ao menos custam mais caro em um sebo – mesmo que seu valor de capa original fosse mais barato. Então, quantos % disso são a tal “mais-valia”, seu Marx?

Aplique-se o mesmo princípio ao trabalho semi-escravo (não costuma funcionar com o trabalho escravo de fato por fatores óbvios). Trabalhar 8 horas pelo salário mínimo boliviano de menos de R$150? Não dá. Trabalhar 9 horas por R$200? Ainda é pouco. Que tal trabalhar 16 horas por dia por R$400, que é exatamente o caso dos cubanos em questão? É uma escolha difícil, tem de se esforçar. Mas ainda assim, quero saber quantos, em sua situação, prefeririam o regime socialista igualitário original. Ortega y Gasset was right.

Qualquer pessoa que já tenha tido de entregar um projeto urgente passou por um momento desses. É como trabalhar 12 horas por dia, 7 dias por semana durante um mês em troca de salário dobrado. É adorável. A maioria das pessoas aceitaria. O problema é: e se forem 2 meses? E se forem 4 meses seguidos? E se forem um ano? Aí, será que apenas dobrar o salário será um atrativo? Poderemos, então, querer não receber o salário de um dia, nem que seja com salário multiplicado por 30, para não trabalhar. É como “pagar” por esse dia, por sua necessidade ter atingido limites. Mas, em condições normais, quem pagaria seu salário inteiro para poder dormir um dia?

Por mais incompatível que seja com as teorias que aprendemos na escola e na faculdade, a pobreza não foi inventada há algumas décadas por ricos empresários que precisam de pobres para não poderem pagar por seus próprios produtos.

Foi o postulado de Milton Friedman, claramente demonstrado: o preço dos produtos está nas idéias, não nas coisas de que eles são feitos. Qualquer pintor sabe que o objeto final é muito mais valioso do que a soma de suas partes, queiram os defensores da “mais-valia” ou não. Também qualquer dona de casa sabe como o valor de um objeto decai um absurdo assim que ele sai da vitrine e você retira a embalagem. Não à toa que donas-de-casa, que têm mais o que fazer, dificilmente param a vida pra protestar por “distribuição de renda estatal” ou baboseira do gênero.

 Não verifiquei ainda se a imprensa oficial (o que inclui Luis Nassif, Paulo Henrique Amorim, Azenha…) e a blogosfera progressista já decretaram o fim do capitalismo essa semana graças a isso. Mas eles ainda não entendem que “Só A faz B” é diferente de “A só faz B”. E sempre podem se furtar a apresentar um contra-exemplo de “C também faz B”.

Ainda surpreendente que se cavuque algo consabido e torne público ao resto do país e, ainda assim, vire notícia por aqui. Então descobriram que há escravos bolivianos no Brasil. Daqui a pouco vão descobrir que estão usando droga na Crackolândia. Mas isso é sinal de que, mesmo sendo um eterno país do futuro e de capitalismo incipiente, que ainda nem aprendeu a engatinhar, ainda conseguimos ser melhores do que qualquer socialismo.

No mais, conforme publiquei no Twitter, trabalho escravo é ser obrigado a trabalhar e não receber por isso. Ou seja, só falta o governo nos tungar ais os outros 50% de carga tributária e chegamos lá.

 

* Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Escreve pro Implicante sem ganhar um tostão por isso. Tem que ver isso aí… No Twitter, @flaviomorgen

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