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As redações com “enchergar” e “trousse” no Enem: luta de classes na gramática

Cabelereira

Assim que saiu o espelho da redação do ENEM, em fevereiro, o jornal O Globo pediu que estudantes que tivessem obtido pontuação máxima na prova (nota 1.000) enviassem suas redações. Para quem desconhece o que se “estuda” porta adentro de certos cursos de Letras das Universidades brasileiras, o resultado foi assustador.

Erros gritantes do uso da norma culta da língua portuguesa, como “rasoavel”, “enchergar” e “trousse” passam batidos, desde que a redação, vista “como um todo”, esteja coesa.

Segundo nota publicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anysio Teixeira (Inep), “um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”. Essa visão “holística”, de ver um texto “como um todo” ignorando suas partes constituintes, diluindo erros no todo, é a mesma desculpa da Homeopatia, que não é estudada como Medicina, mas fez sucesso entre lingüistas brasileiros de importância meramente circunstancial e local (e só estudados à força graças ao MEC).

O “pensamento” dessa turma, já apresentado aqui, baseado em escritos de Pierre Bordieu e sintetizados em obras como “Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz”, de Marcos Bagno, parte de um pressuposto válido entre vários pressupostos, na melhor das hipóteses, burros. O correto é notar que erros gramaticais são marcas na linguagem de uma cultura na qual o falante está inserido, além de seu próprio traquejo dentro dessa cultura.

linguiçaOs erros, então, não são anárquicos e aleatórios, mas se encaixam em padrões. Uma criança aprendendo a falar copiando os adultos troca “eu sei” por “eu sabo” (por analogia: se “beber > eu bebo”, então “saber > eu sabo”), erro que adultos de qualquer classe social não costumam cometer. Já falar “bicicreta” é um erro marcado das classes sociais com pouca renda e estudo. É um erro mais estigmatizado socialmente (não aquilo que se fala por acidente e rende só umas risadas no bar). Já erros de concordância verbal que são comuns, por exemplo, a jornalistas, quando escrevem longas sentenças cheias de apostos (portanto, comuns à linguagem escrita), e assim se acaba usando diversas sentenças com tempos verbais diversos que acabam confundindo o próprio leitor, já é um erro mais “tolerado” socialmente, pois trata-se de erro “de gente letrada” (note-se que há um erro de concordância nessa sentença que ficaria horrível sem o monte de frases intercaladas que o “escondem”).

Obviamente que a língua não é como a matemática – até mesmo sua lógica é própria e variável conforme o tempo. Por exemplo, o emprego de “entre você e eu” é errado, pois “você e eu” estão na condição de objetos indiretos na sentença, e “você” é pronome de tratamento derivado de “Vossa Mercê”, que o português brasileiro adotou como pronome pessoal no lugar de “tu” na maior parte das regiões do país (e, sendo pronome de tratamento, é invariável), ao passo que “eu”, pronome pessoal stricto sensu, se torna “mim” na condição de objeto indireto (o único resquício de declinação que o português herdou do latim). O correto, então, é “entre você e mim”, embora a confusão que o pronome “você” causou na língua provavelmente fará com que esta regra logo deixe de ser assim encarada. Todavia, note-se que falar “entre você e eu” ainda tem um valor muito distinto de proferir “chicrete” ou “iorgute”.

placa comportasEntretanto, é preciso notar que há forças tanto centralizadoras da língua e forças que a fazem mudar. Isso é natural e não há motivo para pânico. A confusão causada pelo pronome “você”, que inventamos de tratar como pronome pessoal (ainda, para piorar, com sentido de segunda pessoa, mas conjugado como terceira – o mesmo caso da troca de “nós” por “a gente”, nesse caso ainda com o agravante de se conjugar plural como se fosse singular), é um exemplo óbvio de força de mudança, com todas as suas justificativas (e note-se novamente uma vírgula separando verbo de predicado, que em uma sentença escrita com aposto e parêntese passa quase despercebida). Já fatores como o grau de leitura, os laços culturais, a tradição lingüística e a própria estética da língua são forças de conservação da língua.

Ora, é claro que um estudante ingressando na Universidade passou mais de uma década aprendendo um padrão único da língua não apenas por que algum gênio do mal, bruxo agourento da elite dominante pensou: “Vou inventar uma regra gramatical complicada não compreensível para os pobres, assim podendo separar a classe média eleitora dos tucanos dos pobres oprimidos viciados em Bolsa Família, BUAHAHAHAHAH!”. Ele aprende um único padrão pois na Universidade, ao menos em teoria, deveria aprender ciência, e a linguagem científica (seja em cursos de Ciências Políticas ou Engenharia Nuclear) precisa ser única, em todas as suas regras.

Quando alguém diz “mecanismo para os reatores”, todos devem entender o mesmo para que o experimento não termine em tragédia (despiciendo comentar a bobagem que fez o tal “Novo Acordo” em sentenças como essa). Por essas e outras a linguagem científica não deve ser a mesma apenas para uma cultura, mas deve ser mesmo universal (por isso a Europa inteira publicou ciência em latim milênios depois da derrocada de Roma. Por isso também que hoje todos os trabalhos científicos de peso buscam ser escritos em inglês (no Brasil, faz-se um disfarce com um simples “Abstract”).

No entanto, na versão de correção “como um todo”, esses pequenos “desvios” (o eufemismo da moda para “erro”) são tolerados, já que não farão diferença para ninguém (já que ninguém leva as usinas nucleares de Angra a sério, mesmo). Ainda acreditando que foi um bruxo maligno buscando um feitiço para aumentar a desigualdade social quem criou as regras gramaticais tão somente para fazer exclusão social dos pobres, não percebem que a norma da língua segue o uso, e não o contrário. Mesmo em línguas criadas ad hoc como a unificação do alemão (que começou com a tradução da Bíblia por Lutero), as regras seguem um uso anterior, pois absolutamente ninguém (muito menos ricos com mais o que fazer do que se preocupar com gramática) vai tentar lembrar do que é uma coordenada assindética ou um genitivo epexegético antes de falar sobre mercado financeiro.

Toda compilação de regras é criada a posteriori, apenas marcando os usos com maior rigor lógico e de separação de conceitos que os usuários da língua foram capazes de conceber. A regra, assim, é dada já mastigadinha para que o falante não tenha de ter a capacidade científica de um Aristóteles, o rigor lógico-matemático de um Leibniz e a cultura lingüística de um Umberto Eco para que consiga apreender sentenças simples. Se o exemplo dos reatores parece exagerado, pense-se em sentenças em que o sujeito aparece depois do objeto, numa língua em que a posição das palavras é que marca sua função sintática. “Minha mãe o seu pai vê ali com a Maria” pode causar um nó nos neurônios se o verbo não estiver muito bem conjugado. Pior ainda o perigo de se ignorar a vírgula. Ficou famoso um livro para a quinta série que jogou às fauces dos infantes: “Coma Maria que é bom”.

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As premissas que geram esse tipo de ideologia são autofágicas (contraditórias com um objetivo claro). Ignorar os erros das classes sociais mais baixas (como escrever “enchergar” ou “trousse”) torna os estudantes muito menos preparados, e incapazes de enxergar a sua própria fraqueza intelectual. Desprotegidos e eternamente em dificuldade para encarar textos que podem lhes formar como intelectuais independentes e moldar o seu futuro (tanto as Investigações Lógicas de Edmund Husserl quanto O princípio da correspondência de Niels Bohr), para serem universitários, precisam evitar a meritocracia do mercado e se amparar sempre sob a barra da saia de seus salvadores: as políticas inclusivas do Estado, aquela entidade que só age obrigando os outros a fazerem o que dá na caçuleta de seus burocratas. Os defensores da tomada e expansão da atuação do Estado, como o sr. Bagno, assim, surgem como os salvadores dos oprimidos, sempre tomando dinheiro, vagas e até capacidade comunicativa dos outros para, robinhoodianamente, “dar aos pobres”.

Claudio Cezar Henriques, professor titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Uerj, disparou:

— A demagogia política anda de braço dado com a demagogia linguística. É preciso lembrar que as avaliações oficiais julgam os alunos, mas também julgam o sistema de ensino. Na vida real, redações como essas jamais tirariam nota máxima, pois contêm erros que a sociedade não aceita. Afinal, pareceres, relatórios, artigos científicos, livros e matérias de jornal que contiverem esses desvios/erros colocarão em risco o emprego de revisores, pesquisadores e jornalistas, não é? — ele indaga.

Demagogia é um tema de redação que dificilmente cairá no vestibular.

A desculpa apresentada pelo Inep, incapaz de explicar seus próprios pressupostos sem cair no ridículo, é de “um egresso do ensino médio ainda [está] em processo de letramento na transição para o nível superior”. Depois de mais de uma década lendo e aprendendo? Apenas, assim, um júnior? Ora, como um estudante desses, que pode estar prestando vestibular para Letras, será capaz de compreender James Joyce, Maiakovski, Paul Celan, Ezra Pound, Guimarães Rosa, William Blake ou outros artífices da língua? Como supor que possam compreender os sofisticados versos de Camões? Apenas a partir dos 40 anos que estará apto a ler o texto mais importante da língua que fala como universitário? Como irão compreender as inversões, prosódia e ritmo das traduções de Homero, geralmente apresentadas já no primeiro ano do curso? (notando, é claro, que conhecer o texto mais importante da literatura apenas por traduções, sem contato algum com o original, já é um sinônimo de barbarismo). Um livro de Thomas Mann ou Eric Voegelin nas mãos desses estudantes não pode servir para muito além de peso de papel, nivelador de cadeira ou seda para fins recreativos.

Nota-se, assim, não uma medida para diminuir a desigualdade social e incluir os pobres na massa pensante (a “democratização da filosofia”, que juram que Marilena Chaui fez na USP ao excluir qualquer capacidade de um universitário compreender a diferença da noção de logos ou intelecção entre Aristóteles, Tertuliano, Schelling, Heidegger e Zubiri). Trata-se apenas de um projeto de poder, feito por affirmative actions, ativismo judicial, cotas, aparelhamento e coitadismos, fazendo com que apenas um partido ou grupo político desponte no horizonte como “defensor” dos pobres, que cada vez mais dependem de sua proteção — daí a autofagia dessa nova “luta de classes”, que atinge até mesmo a gramática.

empregadaClaro que há diferenças de fala e escrita, que muitas vezes não precisam seguir a norma gramatical (é possível encontrar diversos erros acima, sem muito prejuízo do entendimento). Todavia, mesmo mestres da linguagem informal, de Rosa a Bukowski, de Conrad a Houellebecq, ao menos conseguem se comunicar em linguagem formal caso queiram. A avaliação “holística”, que ignora os “desvios”, faz com que estudantes apenas dominem a linguagem de entender bilhetes que os patrões lhes deixem (fomentando, mais uma vez, a briguinha social que julgam ser ciência política, por falta de conhecimento adequado). Mais uma vez, precisam correr para o partido de massa que lhes “defenda”, sob auspícios da lei do menor esforço.

O estudante passa a ser avaliado não pelo que faz, mas por quem é (todo movimento anti-liberdade de mercado se escorou em tentações totalitárias de cunho fascistóide). Claro, os bem servidos dirigentes que dão suas migalhas aos pobres assim, conseguindo um poder inquebrantável em troca, não querem que os pilotos de seus aviões particulares tratem a altura e tangência em relação à pista de pouso como “desvio” que possa ser ignorado “no todo” (as cotas de Dilma não valem para o ITA, urge relembrar). Os engenheiros que colocam prédios de pé não podem cometer “desvios” capazes de fazer um edifício ruir sobre suas bases.

Mas esses são uma elite com a qual o novo modelo político sabe lidar. Aqueles que se viram por si, nunca se achando coitadinhos perante a força estatal, enriquecem e são forçados a dar um alto percentual dos dividendos de seu trabalho para a máquina burocrática que tanto lhes atrapalha. Outros, que mandam os escrúpulos às favas e aprendem o jogo, podem virar donos das empreiteiras tão faraônicas cujo único cliente possível no país é o próprio Estado. Para esses, até o José Dirceu sabe cobrar um preço módico na base dos milhões como “consultor” para que também consigam seus contratos com o governo, como fez com a empreiteira Delta. Quando a situação aperta, o Partido sempre pode também dar uma canetada invertida, demonstrando o mesmo preconceito lingüístico que só combate quando pega bem eleitoralmente.

Enquanto vendem essa dicotomia entre o partido e o resto da população, o discurso oficial é uma busca de “igualdade” para o povo (“representado”, obviamente, apenas em um partido). Como diz Thomas Sowell, há mentiras tão burras em que apenas um intelectual é capaz de cair.

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