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Cynara Menezes descobre por que Roger e Lobão viraram à direita

Cynara Menezes, uma de nossas grandes musas, escreveu em seu blog Socialista Morena um certo arrazoado sobre a visão política agora “direitista” de duas grandes personalidades do rock nos anos 80: Lobão, o elétrico (a saber, o músico, não o ministro) e Roger, do Ultraje a Rigor.

Cynara Menezes faz a metáfora bíblica do retorno do filho (“de papai”) pródigo. Barrocamente, apelida seu próprio título através de um “ou” de “a metáfora do roqueiro burguês”.

Burguês vem de burgo. Um burgo é uma feira comercial. Apenas comerciantes, portanto, podem ser considerados burgueses. Como as artes liberais precisam ser “vendidas”, do contrário os artistas morrem de fome, todo artista é, por si, um burguês. Até mesmo Ludwig von Mises, o maior economista do Sistema Solar, lembra que os artistas é que devem ser os grandes defensores de uma visão liberal de mundo (caminho exato que trilhei antes de o conhecer). Ora, é melhor vender sua música livremente, ou torná-la assunto de políticos que podem liberar ou proibir sua música através de seus gostos pessoais? Será que poderíamos ter conhecido “Inútil”, “Filha da Puta”, “Me Chama” ou “Vida Bandida” se a música não fosse assunto de indivíduos livres, e não do Estado?

(será que alguma coisa além de Chico Buarque seria ouvida entre o Oiapoque e o Chuí? será que músicas como “Polícia” ou “Veraneio Vascaína” teriam chance sob o socialismo? logo elas?)

Essa não é a única confusão conceitual de nossa querida Cynara. O próprio conceito de “socialismo moreno” é uma esquisitice que só. Citando Darcy Ribeiro, apenas fala que é “um socialismo à brasileira”. Um socialismo com jeitinho. Um socialismo malandro. Um socialismo belo e inculto. Um socialismo com favela e miséria. Um socialismo com assassinato por bobagem. Um socialismo que empaca no lado esquerdo das escadas rolantes. Um socialismo em que a mândria, a hipocrisia, a rapinagem e o conchavo com burocratas governamentais definem o enriquecimento, e a liberdade de pensar sozinho sem se mancomunar com políticos é suprimida. Enfim, o bom e velho socialismo dos Ceauşescus e Pol-Pots de sempre.

Nossa heroína Cynara inicia seu pastiche com outra definição invertida de tão torta: “Nem todo direitista é derrotista, mas todo derrotista é direitista”. Muito pelo contrário, todo direitista é mesmo um derrotista, mas nem todo derrotista é direita. Hemingway é um derrotista que faz Schopenhauer parecer um animador de jardim da infância, e de direitista não tem nada.

Cynara prossegue: “Começou a falar mal do Brasil e dos brasileiros, a demonstrar desprezo por tudo daqui, a comparar de forma depreciativa com outros países, é batata. Derrotista/direitista detectado”. Não que esteja errada, mas não é pra tanto. Um direitista pode muito bem comparar o Brasil com outros países de forma nada depreciativa. Com a Venezuela, por exemplo.

Usando Lobão como exemplo pedra-de-toque de direitista (o que causou uma onda de ciuminho na redação), fala de suas músicas, como “Corações Psicodélicos, em parceria com Bernardo Vilhena e Julio Barroso, ai, ai… Adoro.” Para continuarmos em nossas definições, podemos entender agora: “socialismo moreno” é quando você enfia um “ai, ai… Adoro.” no seu texto.

Segundo nossa querida Cynara, Lobão “virou um reaça no último”, “se identifica hoje com a direita brasileira mais podre” e se uniu “ao conservadorismo hidrófobo para perpetrar barbaridades”. Um exemplo que dá de barbarismo anti-civilizacional é a frase de Lobão “Há um excesso de vitimização na cultura brasileira. Essa tendência esquerdista vem da época da ditadura. Hoje, dão indenização a quem seqüestrou embaixadores e crucificam os torturadores, que arrancaram umas unhazinhas”. A civilização nos ensina matemática, quantidades e qualidades. um bárbaro desconhece o peso e as medidas. A frase de Lobão, reconduzindo as coisas às suas corretas dimensões sob tal perspectiva, seria “barbaridade” ou civilização “no último”?

Já sobre o vocalista do Ultraje a Rigor, Cynara diz que “os anos não foram mais generosos com Roger Moreira” (é por isso que MILFs costumam ser um ideal apenas do imaginário masculino, querida!). Roger teria virado “um coroa amargo que deplora o Brasil e vive reclamando de absolutamente tudo com a desculpa de ser ‘contra os corruptos'” (aspas do original).

Estranho que ser “contra os corruptos” mereça aspas. Estranho ainda que não se possa reclamar de nada no Brasil. Como disse o Guy Franco, a grande graça do Brasil é poder falar mal dessa sacrossanta imagem do Homo brasilis. Querer subtrair-nos isso faz todo o esforço acachapante em ser brasileiro dar com a cara no muro (ou com algum meliante na saída do teatro).

Então não posso reclamar de gente empacada no lado esquerdista das escadas rolantes, não posso achar um absurdo que falta de desodorante não seja tratada como problema de saúde pública, não posso preferir Hyundai a Gurgel e nem iPhone a Gradiente, não posso criticar o bunda-molismo demograficamente igualitário que faz com que futebol e novela se tornem assuntos mais importantes (e mais interessantes) do que telecatch e literatura alemã do séc. XIX, não posso criticar a aversão do brasileiro por línguas “estrangeiras” quando o Chile está se tornando o primeiro país bilíngue da América Latina de cunho próprio sem nenhum inglês pisar por lá (e nem criticar a ausência cada vez maior se sessões de filme legendado nos cinemas), não posso achar feio o país ter tantos pobres e tantas políticas pobristas ao invés de seguir o modelo dos países que enriqueceram e, acima de tudo above all und über alles, não posso criticar corruptos sem aspas no meio dessa patacoada toda para não me tornar um cara amargo derrotista de direita?

Bom, então prefiro ser um cara amargo derrotista e de direita. Nossas MILFs são melhores. Desculpaí, humanidade “esquerdismo way of life” (sic²).

A explicação cynarista para o turn to the right (calma, essa foi só pra provocar) de Roger e Lobão é que os dois eram ricos (ou, no linguajar “socialista moreno”, burgueses) e, depois da rebeldia da juventude que faz todo mundo ser meio panaca nessa fase da vida (basta pegar ônibus lotado de adolescente pra ver o que é a esquerda em ação), voltaram “às origens”. Que o único estranho seria se Emicida ou Mano Brown fizessem o mesmo, porque tiveram passado pobre.

Ora, analisando a vida de uma imensa parcela dos grandes direitistas do mundo, muitos tiveram passado pobre. E aí podemos voltar ao erro inicial de achar que nem todo direitista é derrotista. Todos o são, obrigatoriamente.

A direita nasce justamente da desconfiança de ideais. Como já nos ensinou G. K. Chesterton (only English, sorry), um reacionário é aquele que já viu como as coisas reagem. Atirar em um coelho, um padre ou um rei terá conseqüências distintas. E é isso que a experiência nos ensina – e exatamente por isso não se nasce com idéias reacionárias: chega-se a elas. Com a esquerda isso nunca se dá (é impossível pensar em um grande pensador que, enquanto devorava páginas de Sowell, Jouvenel, Stove ou Croce, concluiu: “putz, o melhor é ser esquerdista!”).

A bem da verdade, os direitistas geralmente têm um passado de esquerda, e se desencantaram com a realidade da experiência. Não é o sonho marxista que é ruim – o socialismo ideal continua sendo lindo. Na verdade, também o capitalismo ideal (onde todos serão ricos e as MILFs serão republicanas), ou até mesmo o fascismo ideal, desde que você não seja uma das minorias que são usadas como bode expiatório pelo governo (que é o mesmo caso do socialismo, claro): são todos ideais agradáveis como o Éden bíblico ou a terra dos Teletubbies.

O problema é o real. É isso que se ganha com experiência, por isso todo direitista tende a ser mais velho: a experiência nunca levou alguém da direita para a esquerda, apenas o contrário. É saber que as coisas reagem, como as reações muitas vezes inesperadas de quando se atira em coelhos ou reis. E o reacionário é aquele que sabe prever reações através de sua experiência mesmo antes de precisar atirar de novo em um coelho ou rei. O direitista é o derrotista por definição: é aquele que, apresentado a um ideal, já presume que muita coisa não dará certo, porque espera reações que o idealista nunca pensará (ainda mais quando o ideal vira ideologia, que é quando sua própria visão passa a selecionar elementos da realidade para confirmar sua crença unidirecional).

Nossa Cynara ainda tem todo o caminho para se tornar uma boa e (não tão) velha MILF republicana. Os anos, digamos, ainda podem ser generosos com ela. Basta também pesquisar um pouco sobre a política que tanto critica e ter uma explicação um pouquinho mais burilada para a realidade e a experiência. Não precisa nem ser um Chesterton.

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