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Da greve à agressão física na USP: há dinheiro por trás

por Flavio Morgenstern

Alunos não fazem greve, pois não são “trabaliadores” (sic) – caso não vão às aulas, se recusando a receber um serviço, seu protesto se caracteriza como um boicote. Esse é só o primeiro erro socrático cometido por radicais matriculados na USP – não delimitar corretamente o objeto de que falam antes de proferir necedades sobre o mesmo. Mas a tal “greve” na USP cada vez mais mostra aonde os grupelhos extremistas querem chegar com seus métodos de violência.

Quem aí não tomou banho hoje levanta a mão!

A azáfama assembleicitária segue pari passu a cartilha da “democracia assembleística” da Cortina de Ferro e dos regimes fascistas do séc. XX (há até um “Guia Rápido do Assemblearismo”, que tenta democratizar o fascismo e, obviamente, nunca é seguido). Tudo é definido por um grupo que se reúne entre os seus, tomando decisões literalmente no braço para poder impor suas vontades sem consulta geral a todos os afetados.

A idéia de alguns poucos é exigir que os outros abram mão de algum direito para poderem votar – como o direito de ver aulas. Assim, preferindo manter seu direito original intacto, não podem decidir por si próprios – o que acaba por “escolher”, a priori, quais pessoas e partidárias de quais propostas estarão presentes numa assembléia, já manipulando de antemão o resultado almejado. Foi assim que se “votou” pela invasão da reitoria depois da meia-noite em uma assembléia na FFLCH (a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, que reúne dos cursos de extrema-Humanas) – ora, quem, portador de uma vida a ser cuidada, estaria ainda na USP uma hora dessas, senão quem já decidiu que ficará na USP enquanto a reitoria não for invadida?

Uma assembléia de Letras convocada pela turminha radical (e da qual apenas podem participar aqueles com preocupados menos com aulas e mais revolução) votou pela greve e criou um piquete “democrático” e que “não estava lá para prejudicar ninguém” à noite. Tudo isso para “apoiar os invasores” da reitoria. A turma da manhã (que, obviamente, estava sendo coagida à força a obedecer um grupo minoritário) gritou por aula e furou o piquete, deixando a grevista que discursava falando sozinha. Foi uma das cenas mais lindas já filmadas em toda a história da USP.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=p7VSkHcV4jQ[/youtube]

Porém, não se deram por rogados. Marcaram nova assembléia, para discutir mais do mesmo. Novamente, não passaram a tal da greve. A nossa já famigerada Musa do Lixo protestou: “são pró-polícia e fascistas”. Uma doçura:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=1em5LC7UgIc[/youtube]

Teve mais outra (e olha que não estou contando desde o começo). Como toda assembléia repetida, as pessoas com vida a cuidar apareceram em muito menos peso. Nova greve foi decretada, incluindo “não um piquete, mas um cadeiraço” (ou seja, um piquete) para impedir que os alunos da manhã tivessem suas aulas.

A assembléia também decidiu temas importantes, tudo na base do “Vocês tão de acordo?”, com umas 4 ou 5 vozes dizendo “Siiiiiiimm” com voz afadigada (aboliram até o método de levantar as mãozinhas e contar os “votos”). Um deles: de que o Centro Acadêmico da Letras, o CAELL, irá pagar a fiança dos presos que invadiram a reitoria – afinal, os sindicatos milionários que cuidaram da fiança querem o dinheiro de volta. Alguém propos que os alunos mais ricos pagassem do próprio bolso? Que é isso. Distribuição de renda só se faz com a renda alheia. Foi na lata: R$2 mil esse ano, R$2 mil ano que vem, líquido e não discutam. Entre os votantes, pessoas como Rafael Ferreira Alves – ou seja, os próprios invasores, votando para que paguem a fiança por eles.

Não afirmaram em qualquer momento “Nós” – eram sempre “os presos políticos”. Também se votou por uma nota de repúdio contra uma professora grevista e pela formação de um “comando de greve”. Primeira regra a ser votada: PROIBIR que pessoas da gestão atual do CAELL (PSTU) fizessem parte do comando como “delegados de greve”, já que não apoiaram a greve com unhas e dentes. Até que, nos minutos finais, se sugeriu finalmente votar quando serão as eleições do CAELL, já tão adiadas – ou alguém estaria disposto a dar um novo golpe, como já haviam dado nas eleições para o DCE, e deixar que não se definisse nas mãos de quem o CAELL começaria o ano?

Não é preciso dizer nada: se a essa altura, apenas duas ou mesmo uma única voz enfastiada respondia com “Siiiiimm” aos “Tá todo mundo a favor, né?” que a mesa perguntava, o pau pegou feio quando a hipótese de eleições foi aventada. Três ou quatro imediatamente pegaram o microfone para lembrar que arrancar cadeiras da sala imediatamente era mais importante do que decidir quando seriam as eleições. Dessa feita, voltaram a medir tudo por mãos levantadas, e apenas umas 4 se opuseram a deixar isso de eleições pra lá e imediatamente arrancar cadeiras das salas (desde que não fossem as que seriam usadas pelo SINTUSP no dia seguinte). Isso, claro, “sem violência”, só das salas que não tinham aulas (embora fosse difícil ter aula com cadeiras e mesas arrastadas pelos corredores).

Traduzindo: a assembléia decidiu não decidir. E deixou para uma próxima assembléia, já suposta, decidir SE decidirá sobre as eleições. Nesse ritmo, se houver eleições, elas seriam durante a festa de reveillon do PCO.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=kJY7nWJCk3c[/youtube]

Por que o repentino desespero? Ora, se não ficasse garantido que o comando do CAELL ficasse nas mãos dessa turma sem eleições por mais alguns meses através de um “comando de greve” com “delegados de greve” auto-definidos pela assembléia, eles não teriam assegurado os R$2 mil do ano que vem do CAELL para pagar a fiança ao sindicato. Repetindo: os próprios invasores que meteriam a mão no dinheiro “votaram” para o CAELL sair das mãos do PSTU e cair em suas próprias mãos sem eleições até março do ano que vem (justamente quando a fatura chega). Mais uma vez, alunos que se dizem “críticos” acreditam que fazem “greve” por profundas mazelas educacionais, quando ela esconde o quanto um grupelho quer dinheiro que poderia justamente ser usado para melhorar o seu prédio.

Despiciendo mais uma vez dizer que, no dia seguinte, como era de se esperar, a turma da manhã, mais enfastiada do que a voz de embargo da assembléia, novamente furou a porcaria do piquete. Parece que nem arrancando à unha cadeiras e se perdendo meia hora de vida com esforços físicos a turma das assembléias aprenderá que, afinal, a maioria da faculdade não quer os malditos piquetes.

As invasões bárbaras na FFLCH

O resultado de tais métodos vândalos não poderia ser outro: nesta segunda-feira, pela manhã, o CAELL fazia uma barulheira pelos corredores – se os piquetes e a “greve” não passam, que ao menos se possa épater la bourgeoisie, per fas et per nefas. O alvo eram professores de Lingüística, que, como determina o departamento, dão a prova todos no mesmo dia. Os grevistas acharam um absurdo aplicarem uma prova física, na semana de provas (a última do curso), e isso depois de arrancarem os piquetes que impuseram a outros estudantes.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=BF96D5F_axk[/youtube]

Um dos baderneiros, sedizente aluno de Psicologia, iniciou uma gritaria nos corredores. Foi marcado em vídeo:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=pPE-XoMbkug[/youtube]

O que se seguiu foi algo ainda mais grotesco do que o ocorrido em 2007, quando uma professora de Tradução de Língua Alemã foi perseguida junto com seus alunos por grupos ameaçadores, tendo de se trancar em sua sala com a turma ao invés de continuar a prova, sofrendo ameaças por mais de meia hora e depois de cortarem a energia de sua sala (obviamente que nem a PM nem a Guarda Universitária apareceram para o resgate). Aqui, o tal aluno invadiu a sala do professor Marcelo Barra, virou a mesa em que ele estava sentado e o pegou pelo colarinho, encostando-o na parede e o ameaçando. O maluco chutou a mesa e saiu tirando a camisa, deixando os documentos caírem.

O professor é marido da professora Elaine Grolla, chamada de “reacionária” por enviar um e-mail para o jornalista Reinaldo Azevedo (anátema non plus ultra da extrema-esquerda). Por que foi ele o alvo? É difícil não pensar em um revanchismo.

O CAELL, que organizava a barulheira para tentar voltar a ter algum Ibope entre os radicais, percebeu que perderam as estribeiras. Uma menina entrou gritando: “Não associem isso ao CAELL, a gente não conseguiu parar esse cara!”

Ora, nessas horas, as ações coletivas devem ser interpretadas como individuais. E a violência ao direito do próximo deflagrada pelo CAELL deve ser entendida como “uma violência com limites”, uma violenciazinha. Claro que a culpa envolve a gestão do CAELL, que iniciou o esbulho à ordem assim que começou a agredir direitos alheios – se daí se perde o controle, não se pode deixar de culpar quem empurrou a bola de neve montanha abaixo.

Isso tudo ocorre na mesma manhã em que mulheres anti-greve são xingadas de “vadias” em grupos da FFLCH no Facebook, sem que o tal “Coletivo de Feministas da FFLCH” esboce qualquer indignação, como afirmou que houve “agressões” quando foi afirmado que invasor de reitoria estava em falta de um balaio de roupa para lavar.

Há quem esteja tentando vender a idéia de que toda a quizumba na USP não tem muito a ver com maconha. Estão certos: há processos criminais, que vão de dano qualificado a agressões físicas, e mesmo o destino do dinheiro do CAELL. Se a questão fosse apenas fumar maconha e só causar mal a si próprio – noves fora a marofa que outros são obrigados a agüentar – a situação na USP estaria bem melhor do que está agora.

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Acredita que a maconha no pulmão de criança seja uma droga muito menos nociva do que o PCO e seus similares. No Twitter, @flaviomorgen

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