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Dicionário Houaiss censurado: o PT tem preconceito lingüístico

por Flavio Morgenstern

A esquerda, por cerca de duas ou três décadas, vem reafirmando ad nauseam a primazia da “língua viva” sobre os livros de gramática, retórica e (oh, horror) literatura, usados por professores como moldes que mantêm a multifacetada expressão verbal razoavelmente uniforme.

Ao se digitar a expressão preconceito lingüístico no Google, um termo desengastado de Pierre Bourdieu para explicar o preconceito que as “altas classes” têm pelas “baixas classes” através de seu linguajar, dá-se rapidamente de cara com um texto meu aqui no Implicante™ em que discuto tais idéias, famosas ao público laico das faculdades de Letras graças a um livro do MEC que afirmava, irresponsavelmente e sem atentar para todas as nuances do verbo “poder”, que se “pode falar nós pega os peixe“, colocando como único problema de tal ato a possibilidade de sofrer o tal “preconceito lingüístico” por isso. Ou seja, o problema estaria em quem ouve, não em quem profere. Seriam as outras pessoas que precisariam de aulas e estudo, não o aluno com aprendizado insuficiente.

É um conceito complicado, derivado do pensamento politicamente correto que faz com que o Estado seja aparelhado para funcionar como uma grande babá a evitar comportamentos que vão contra a cartilha do que o Partido permite. Na verdade, apenas um caminho para instaurar a desconfiança paranóica entre as pessoas – o exato caminho que faz com que tratemos um Estado policialesco (seja nas ruas, seja na fala) como a única solução para nos corrigir a pauladas de nossos defeitos como seres humanos.

Entretanto, se tais teorias já são contraditórias por si (como exposto), o comportamento que o Partido exige rapidamente é multiplicado por -1, e muda da água para o vinho (ou para não-água) assim que os motivos para instaurar a paranóia se mostram insuficientes para instilar novas paranóias. Segue notícia do UOL:

MPF quer tirar de circulação o dicionário Houaiss

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia (MG) para tirar de circulação o dicionário Houaiss, um dos mais conceituados do mercado. Segundo o MPF, a publicação contém expressões “pejorativas e preconceituosas”, pratica racismo aos ciganos e não atendeu recomendações de alterar o texto, como fizeram outras duas editoras com seus dicionários.

O caso teve início em 2009, quando a Procuradoria da República recebeu representação de uma pessoa de origem cigana afirmando que havia preconceito por parte dos dicionários brasileiros em relação à etnia. No Brasil, há aproximadamente 600 mil ciganos. Desde então, segundo o MPF, foram enviados “diversos ofícios e recomendações” às editoras para que mudassem o verbete. As editoras Globo e Melhoramentos, de acordo com o órgão, atenderam às recomendações.

Isto é uma contradição recentemente apontada pelo Gravataí Merengue sobre a politização da educação. Ora, a grita que mobiliza inocentes alunos primeiranistas de Letras para se transmutar, de futuros educadores, em verdadeiros esbirros policiando comportamentos sociais, é a idéia de que a língua e, sobretudo, a fala, é “livre” e, afinal de contas, compreensível, mesmo quando não segue pari passu as regras de sintaxe, morfologia, fonologia e mesmo semântica das gramaticas normativas. Num arroubo marxista, metaforizam a gramática normativa como um Estado fascista, e passam a confiar na língua “do povo” como uma atitude tão libertadora quanto as forças russas derrubando o nazismo em 1945 e fincando a bandeira da União Soviética em Berlim. Nunca perceberam que há diferenças de obediência à gramática entre membros da mesma classe.

As contradições que daí decorrem por acarretamento já foram explicadas. É difícil acreditar que um povo é mais “livre” simplesmente por poder tirar boas notas sem estudar o que o professor pede, sendo que justamente essa atitude os torna menos livres para entender um caderno de Economia do jornal, um livro de política, um detalhado artigo da Constituição.

Mas eis que, quando essa “língua do povo”, que supostamente sofre de “preconceito” (embora o próprio Marcos Bagno, maior defensor desse conceito no Brasil, lembre-se que na verdade é apenas preconceito social), mostre que também é capaz de provocar preconceito (afinal, o próprio povo é eivado de inúmeros preconceitos contra os quais, muitas vezes, a elite minimamente esclarecida é vacinada), aí abandona-se completamente a teoria e seus pressupostos e passa-se a pregar o contrário.

Ora, tratar a gramática como instrumento de dominação elitista e obrigar todos os que trabalham com a língua a apenas registrar placidamente os usos da maioria foi exatamente o que o dicionário Houaiss fez. Ou os sinônimos pejorativos para a palavra cigano não são exatamente, como aponta o dicionário, “aquele que trapaceia, velhaco” etc? Não seria “fascismo” usar de “correção gramatical elitista” para “oprimir” quem fale algo ofensivo a ouvidos hipersensíveis, no fim das contas? Os próximos livros financiados em milhares de reais pelo MEC avisarão: “Então eu posso chamar um trapaceiro de cigano? Claro que pode! O problema é que com isso você pode ser alvo de preconceito lingüístico“?

Pelos deuses da linguagem, se é para policiar a língua, há exemplos que furam a fila dos ciganos na preferência de correção histórica. Onde estão rolando as marchas pela retratação em praça pública da Humanidade em relação ao preconceito histórico com canhotos, e a exigência para retirem de qualquer dicionário a palavra como sinônimo de inabilidoso? “Destreza” ser sinônimo de habilidade é no mínimo, piada com a cara dos canhotos. E imagine a tristeza de ser italiano e ser pechado, como uma estrela de Davi marcada a ferro na cara, como sinistro?!

Falando em estrela de Davi, Graciliano Ramos exprobou sua facúndia com expressões como “juros de judeu” em seus livros. E eles caem no Vestibular! E quanto anti-semitismo conseguimos encontrar em Dostoiévski, Shakespeare, T. S. Eliot e tantos outros? E o anti-semitismo do Novo Acordo Ortográfico, que nos obriga a escrever “antiSSemita” com SS? Se os sentidos pejorativos de “cigano” não podem ser compilados, por que palavras como denegrir ou judiação continuam impunes? Vão trocar pretoriano por afrodescendenteano? Como ficarão as sábias palavras de Moisés, conforme relatadas por Hermanoteu? E por que coitado ainda não foi proibida pra menores de 18 anos?

Existe acaso algum sentido pejorativo que não mereça um olharzinho torto do Ministério Público? Imagine se um dicionário mostrar todos os sentidos pejorativos da palavra “baiano”? Isso porque não temos uma relação deslavada de racismo como o Brasil ou a Argentina, que usam “negro” como xingamento pra tudo (em inglês, curiosamente, o termo mais correto é black, e nigger é que é ofensivo). Aliás, já tentaram censurar edições de Hucleberry Finn, de Mark Twain, um dos maiores gênios da língua inglesa, por conterem a expressão nigger. Mas grupos ecológicos também já tentaram proibir Moby Dick pelo predatorismo contra uma baleia. Uma baleia de mentirinha.

Não basta o dicionário afirmar que o uso é pejorativo. Só faltou avisar aos leitores: “ATENÇÃO: CIGANOS SÃO BONZINHOS E NÃO DEVEM SER TRATADOS DESSA FORMA”. Que tal economizarmos árvores e, ao invés de pedir novas edições do Houaiss, apenas o verbete “cigano” conter as acepções normais, e depois: “3. pej. CENSURADO CENSURADO CENSURADO”? Talvez o verbete “dicionário” também deva mudar para “s. m. 1. livro que explica o significado das palavras como nós achamos que elas deveriam ser”.

Em 1997 a deputada petista D. Lúcia Carvalho, então na presidência da Câmara Legislativa do Distrito Federal, também exigiu que dicionários retirassem a explicação de que a expressão “mulher pública” é usada como sinônimo de prostituta, como engraçadíssimo artigo de Olavo de Carvalho denunciou à época (está em seu livro O Imbecil Coletivo II). A proibição da vox populi, vox Dei é substituída por uma lógica das mais chinfrins: se homem público é expressão dignificante, “mulher pública” deve significar algo ilustre como a própria Lúcia Carvalho. Assim, as próximas edições dos dicionários deveriam afirmar que Margareth Thatcher, Golda Meir e indira Gandhi foram “mulheres públicas”, como aliás sempre afirmaram seus detratores. Despiciendo lembrar as diferenças de significado entre homem dado e mulher dada. Entre vagabundo e vagabunda. Entre homem da vida e mulher da vida. Entre pistoleiro e pistoleira. Entre atirador e atiradora. Por sinal, entre puto e puta.

Ao invés de o dicionário demonstrar o que é falado pelo povo, em uma taxiografia que permite um código de sinais comumente entendido, o dicionário deve exigir um comportamento lingüístico específico. Assim, aquele óbvio lulante e ululante que foi preciso explicar em detalhes para a turma do “preconceito lingüístico” – a saber, que a norma gramatical, sendo posterior à própria língua, segue o uso, e não o contrário – se mostra aqui mais uma vez esquecido. É o único ponto no qual os dois atos confluem: na ignorância. Ambos ainda acreditam que a gramática normativa de uma língua foi criada por um bruxo malvado que inventou de estro próprio regras incompreensíveis para a patuléia ignara, podendo assim separar ricos de pobres – e agora, acreditando-se serem pobres que subiram ao poder derrubando tiranos, crêem que tomando o Ministério Público Federal e trocando uma acepção em um dicionário (todos os outros permanecem não muito diferentes), poderão evitar comportamentos preconceituosos – como se quem gosta de xingar judeus fossem todos correndo ao dicionário rever os significados de seus xingamentos a cada nova edição.

Ademais, é um tanto quanto estranho indiciar pessoas jurídicas por “racismo”, ainda mais quando afirmam que tomar um cigano por “velhaco” (e o preconceito contra velhos, também presente em Dostoiévski?!) é um uso pejorativo. É o mesmo que avisar sobre o uso da palavra “crioulo” ser ofensivo, e sofrer processo por… ter usado a palavra “crioulo” para conseguir afirmar isso. Confundir palavras pelos conceitos que elas representam é a maior das burrices da humanidade, que já custou muito mais do que parece. E quem não lembra de uma cena onde se proibir que se fale uma palavra transforma um apedrejamento em vários?

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Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Gostaria de explicar o verbete “corrupção” no dicionário como “dinheiro caindo do céu para a população” para ver se funcionaria alguma coisa. No Twitter, @flaviomorgen

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