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Direitos Humanos não são urgentes em Cuba, para Patriota

Antonio Patriota cumprimenta o ministro das Relações Exteriores Bruno Rodriguez

por Flavio Morgenstern

O chanceler brasileiro Antônio Patriota foi ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, afirmar polida e disfarçadamente que Direitos Humanos são coisa de Estados burgueses. A notícia é de Clóvis Rossi na Folha:

O chanceler brasileiro Antônio Patriota afirmou ontem em Davos, na Suiça, que a situação dos direitos humanos em Cuba “não é emergencial”. Por isso, a presidente Dilma Rousseff não vai falar sobre o tema em visita à ilha na próxima semana, informa reportagem de Clóvis Rossi publicada na edição deste sábado da Folha.

Há uma mensagem clara aqui: cada vez mais, grupos pressionam a presidente Dilma Rousseff para tomar uma atitude em relação às violações aos direitos humanos cometidas em países aliados a seu governo. Não há nenhuma notícia até o momento de que alguma das O”N”Gs e outras entidades que vociferam repetidamente o bordão “Direitos Humanos” tenha se interessado pela causa. Apenas pessoas que são contra tortura e ditadura (que, aparentemente, são maioria na população, mas não em ONGs de Direitos Humanos) se manifestaram.

Antonio Patriota cumprimenta o ministro das Relações Exteriores Bruno Rodriguez

Antonio Patriota e o ministro das Relações Exteriores Bruno Rodriguez

Dilma Rousseff viaja para Cuba na próxima semana. A blogueira perseguida política Yoani Sánchez pediu, há algumas semanas, ajuda à presidente Dilma para conseguir visitar o Brasil. A blogueira, ridiculamente difamada por setores anti-democráticos da esquerda sob a acusação de ser “financiada pela CIA”, demonstrou admiração pela trajetória de perseguida política de Dilma durante a ditadura (também não fica claro se Yoani sabe que Dilma foi perseguida mormente após ajudar o então namorado a trocar os dólares roubados do cofre da amante de Adhemar de Barros por moeda nacional). A notícia com o pedido de Yoani foi bastante veiculada na internet.

O recado de Patriota é explícito: Dilma não irá falar sobre direitos humanos, nem sobre Yoani Sánchez. Para Patriota, a situação dos direitos humanos em Cuba não é tão urgente quanto em vários outros lugares do mundo – logo, não há motivo para se comentar o caso durante uma visita a uma das ditaduras mais longevas em atividade no mundo.

Duas ilações surgem deste pensamento. A primeira é que, de fato, Cuba não é um país tão fechado e hostil como a Coréia do Norte, o Irã, o Zimbábue, o Haiti. Conforme a excelente Carta para a Dilma sobre Cuba, de Celso Barros, publicada no Amálgama, um detalhe importante é que a voz do PT pouco significaria se criticasse a Coréia do Norte, o Irã, o Zimbábue, o Haiti ou parte das eternas teocracias islâmicas (com um adendo: o PT ainda é responsável moral por negociar com tais ditaduras, visto que setores progressistas sempre lembram das relações discutíveis dos EUA com algumas ditaduras mundo afora). Entretanto, a voz do PT faz muita diferença se criticar Cuba. Muitos quadros do PT são ligados ao regime semi-monárquico dos Castro até hoje, incluindo figuras do alto escalão, como José Dirceu, Marco Aurélio Garcia e Tarso Genro.

Some-se a isso a luta do PT contra a ditadura militar brasileira, que foi numericamente muito mais banda que a cubana. O PT surgiu reunindo as esquerdas em nome de um ideal de abertura democrática, ainda que sob discurso socialista (seja lá o que for “socialismo democrático”), agrupando diversos ramos da esquerda, fazendo justamente com que abandonassem as armas e o terrorismo. É portanto inconcebível que o PT não critique violações aos direitos humanos, seja nos EUA, em Israel, na Inglaterra, na Alemanha ou na gestão tucana de São Paulo. Mas também completamente inconcebível que o partido se alie aos piores ditadores vivos do mundo e silencie sobre os crimes dessas ditaduras: e a lista vai de Cuba e Líbia até mesmo o Irã e uma tentativa de aproximação com a Coréia do Norte, orquestrada justamente pela gestão petista do Itamaraty. Ou seja: mesmo que seja verdade que outros lugares do mundo têm violações aos direitos humanos mais urgentes do que Cuba, o PT também se alinhou com diversos desses regimes.

Dilma, portanto, já vai blindada de tecer qualquer comentário sobre uma ditadura mais feroz do que a que a capturou armada na Rua Augusta, sob o argumento de que “há ditaduras piores” (imagine o mesmo argumento usado para dizer que Dilma, portanto, não pode reclamar de seu passado como torturada, visto que a ditadura dos Castro é mai sanguinária). É uma atitude discutível. Não sou católico (nem cristão), mas o papa veio pro Brasil rezar missa no alto de uma favela no Rio de Janeiro. A Dilma se recusa a comentar a situação dos presos políticos em Cuba, duas semanas depois da morte de mais um deles por greve de fome  (será um traidor ou mercenário, como já acusaram?). Isso nos coloca diante de um dilema: podemos confiar mais no Opus Dei, na TFP e na Montfort ou em um petista?

A declaração de Patriota ainda vem em momento infeliz: por uma semana petistas enviaram até para a ONU o caso de violações aos direitos humanos no Pinheirinho, em São José dos Campos (SP). Ora, até mesmo o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) afirmou que abusos cometidos pela polícia deveriam ser investigados. Não foi o suficiente para grupos da esquerda totalitária brasileira pecharem Alckmin até de “nazista”, inclusive com imagens caluniosas hospedadas em sites dos líderes da blogosfera progressista.

Cesare Battisti com deputados do PTTambém ocorreu na semana seguinte ao desfile do homicida italiano Cesare Battisti, acusado de 4 assassinatos a sangue frio na Itália, no Palácio Piratini (sede do governo gaúcho), recebendo afagos de Tarso Genro. O motivo da festa é que Battisti estará logo lançando seu livro, na condição de “perseguido político”. Porém, se o assassino merece tal oferenda, Patriota já afirma de antemão sobre a dissidente cubana: se pedir asilo ao Brasil, terá de abandonara seu blog. Ou seja: a “atividade política” é proibida aos exilados políticos. Porém, Yoani não faz campanha para ninguém: apenas, como todo exilado político, de Salman Rushdie a Vladimir Herzog, de Ludwig von Mises a Shirin Ebadi (Nobel da Paz iraniana que Dilma recusou receber), critica o regime de onde se exilou (tão lógico quanto inevitável). No entanto, a um homicida qualificado sob essa mesma franquia jurídica é não apenas lícito escrever livros, como também é digno receber afagos do governador de um estado (talvez o primeiro assassino recebido por um governador em nossa história), em ações não apenas políticas, como partidárias.

Enquanto isso, setores progressistas, que adoram comentar sobre direitos humanos, defendem um assassino e chamam uma blogueira perseguida por um Estado totalitário de “mercenária”. Podemos talvez acreditar ainda que a bandeira “Direitos Humanos” signifique alguma preocupação social com pessoas, e não com o partido. Por que, afinal, direitos humanos não são um valor universal, a sempre ser discutido mesmo em países democráticos como Brasil e EUA? Por que só podem ser discutidos como uma bandeira, nunca desfraldada caso o opressor seja amigo de longa data? No entanto, como afirmou o Celso Barros linkado acima, é preciso passar a discutir Cuba do ponto de vista de Cuba, e 90% de discutir Cuba sob o ponto de vista de Cuba é deixar os cubanos discutirem. Ou o direito humano de abrir a boca não é lá uma questão urgente?

 

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Não vê possibilidade de uma Cuba livre sem poder ter Cuba Libre para todo mundo. No Twitter, @flaviomorgen

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