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Do Minhocão às ciclofaixas, os arriscados experimentos que fazem na cidade de São Paulo

Mesmo quando os benefícios são inegáveis, efeitos colaterais indesejados mostram que seus planejamentos poderiam ter sido mais cuidadosos.

Pouca coisa além do medo de assalto aconteceu em meu coração ao passar pela primeira vez na São João com Ipiranga. Eu só fui entender o fascínio de Caetano para com o cruzamento quando amigos aqui nascidos me relataram que de fato, na época em que o baiano chegou por cá, tratava-se a primeira de uma avenida bastante charmosa, aos moldes do que hoje são a Paulista e a Oscar Freire. Tudo, no entanto, mudaria quando governos militares ergueriam sobre ela o elevado Costa e Silva, infernizando os vizinhos dos primeiros andares a centímetros de suas janelas, e servindo de convite a toda sorte de moradores de rua que encontravam no concreto do Minhocão proteção para sol e chuva.

Praça Marechal Deodoro antes do Minhocão

Praça Marechal Deodoro antes do Minhocão

Porque a burocracia atrasa bastante todo tipo de ajuste que se queira fazer em projetos lançados, políticas públicas precisam ser muito bem pesadas antes de se ter o martelo batido. Em tempos de ditadura, de fato era difícil manter qualquer diálogo mais saudável com as autoridades. Atualmente, no entanto, se não há debate, não há sentido no uso da expressão “democracia”. Hoje discute-se a demolição do mega viaduto, ou a transformação do mesmo em parque ecológico. Apesar de concordar que mais espaço verde numa selva de pedras soa bem-vindo, tendo a achar que a demolição seria ainda mais benéfica, pois resolveria o problema de cima (incômodo causado pelos carros) e parte do de baixo (evitando a concentração de sem-tetos, o que, se bem trabalhado com uma ação de incentivo à busca de vagas livres em alguns abrigos públicos, pode dar em resultados ainda melhores).

Proximidade do "Minhocão" com alguns apartamentos

Proximidade do “Minhocão” com alguns apartamentos

Só depois de recolher impostos na “locomotiva brasileira”, me flagrei pensando na validade de algumas leis tão celebradas por seus próprios habitantes. Uma das características que, por exemplo, mais interessava ao notívago aqui era a venda de seus predicados como uma cidade a não dormir. Contudo, recentemente li com bastante pesar que o último supermercado 24 horas do meu bairro (e toda a sua rede) não mais abriria nas madrugadas. Ao especular com amigos, todos concordaram que o Programa de Silêncio Urbano (PSIU) poderia ter influência direta na queda do número de clientes dos horário alternativos. Porque a imensa maioria dos mais badalados bares da região se viram obrigados a fechar as portas no máximo à 1h da manhã, o que faz com que encerrem a cozinha ainda mais cedo. Com isso, a quantidade de consumidores varando a madrugada e adiantando o mercado da semana antes de voltar para casa teria reduzido bastante.

Outra reclamação comum se dá a respeito de a cidade se tornar mais cara a cada ano. Na minha rua, por exemplo, a taxa de condomínio gira na casa dos mil reais. Meu kitnet, no entanto, mal passa das 300 doletas. Outro dia, conversando com o zelador, a explicação se fez clara: o terraço da cobertura segue alugado para uso de uma antena de operadora de celular, o que amortiza bastante os custos dos moradores. Todavia, não há janelas em toda a lateral direita da edificação configurando o que se chama na arquitetura de “medianeira”, um espaço que vinha sendo aproveitado para veiculação de gigantescas propagandas. Como a lei Cidade Limpa proibiu a exibição de publicidade do tipo em ambientes públicos, só restam hoje enormes muros de concreto em boa parte dos meus vizinhos de bairro. E não posso deixar de especular quanto eu pagaria de taxa condominial se essa mesma operadora exibisse também seu logo em minha parede.

Claro, uma cidade mais silenciosa e com menos poluição visual soa bem mais interessante. Resta a dúvida se à época foi colocado à mesa a possibilidade de ocorrência desses efeitos colaterais. E se foram sugeridas as escolhas: poluição visual ou um custo de vida um tanto mais elevado? Supermercado 24 horas ou silêncio? De minha parte, eu não teria vindo para cá buscando noites tranquilas de sono. Ou cenas de sangue num bar da avenida São João.

Por isso mantenho um pé atrás com a implantação das ciclofaixas na atual gestão. De janeiro para cá, de uma esquina a outra, sete comércios baixaram as portas em minha rua. Uma volta no quarteirão e esse número facilmente dobra. Fato é que a economia está em crise e medidas mais conservadoras deveriam vir antes de qualquer experimento mais arriscado.

ciclovia

Eu adoro andar de bicicleta nos parques daqui, sinto que eventualmente as usarei num dia em que precise chegar com mais rapidez ao metrô mais próximo (a 20 minutos de caminhada), mas me preocupa que este benefício consuma 40 mil vagas de estacionamento gratuitas – para efeito de comparação, todo o Zona Azul soma 38 mil – numa cidade já tão cara. Toda a vida do meu bairro se deve ao comércio de rua que divide espaço com seus moradores. É o que me permite dizer a todos que meus pés são o principal meio de transporte que uso. Em no máximo 5 quadras, resolvo 90% dos meus problemas.

Mas uma das regras mais básicas do varejo diz que “no parking, no business”. Quando lembro do amigo que fechou sua próspera loja apenas 3 meses após a prefeitura proibir estacionamento na avenida em que se encontrava, temo que cada vez mais o paulistano prefira recorrer aos grandes shoppings em detrimento das pequenas empresas da vizinhança, gerando uma sequência ainda maior de baixar de portas. Ironicamente, é quando precisarei me locomover mais para resolver os mesmos imprevistos básicos que resolvo tão perto, complicando aquilo que projetos como o das ciclofaixas visam combater.

A população local adora o PSIU, assim como a Cidade Limpa e, segundo pesquisas, a reserva de espaço aos ciclistas (apenas 10 porcento de seus moradores estariam do meu lado). Mas será que essa mesma população consegue notar uma relação de causa e efeito entre as medidas públicas aqui enumeradas e estes infortúnios? Será que, em alguns anos, quando notarem o custo de vida ainda mais alto, irão lembrar que antigamente tinham ao menos acesso a 40 mil vagas de estacionamento gratuitas? Será que vão associar o fechar de portas de alguns comércios de rua à crescente dificuldade em se estacionar veículos em seus bairros? Será que vão perceber que o ciclista, em geral, tem menos poder aquisitivo que o chefe de família que precisa de um carro para se locomover? Será que vão associar o próximo recorde de engarrafamento ao estreitamento de algumas vias?

Eu acredito nos benefícios de ciclovias. Mas questiono o das ciclofaixas (uma ciclovia que funciona no meio da rua). E mais ainda o benefício destas alternativas numa cidade como São Paulo, com distâncias tão cruéis, clima imprevisível e poucos bairros planos. Se a implantação visasse transformar a bicicleta numa alternativa a mais, algo que auxiliaria moradores de alguns bairros no acesso a estações de metrô ou terminais de ônibus, estaria dentro daquilo que entendo como mais seguro. No entanto, a paixão ideológica de seus líderes os faz crer que o projeto irá vingar, custe o que custar, mesmo que até o momento menos de 1% da população gere demanda para os terços de asfalto a eles reservados.

Obviamente eu posso estar equivocado e nada disso se concretizar. E até torço por isso, por mais hipócrita que soe. Entretanto, diferentemente dos corredores de ônibus, que demonstravam alguns problemas naquilo que mais soavam exceções, as ciclofaixas me parecem ter dificuldades já nas próprias regras. Até mesmo pela falta de regras. É, no meu entendimento, a aposta mais arriscada já feita por uma gestão pública por essas bandas.

Riscos devem ser assumidos quando há margens para perdas. Com o país em recessão técnica, não parece ser o caso. Soará irônico, mas, como alguém que aprendeu a amar esta cidade, só me resta desejar: boa sorte!

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