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Dossiê do dossiê: as pessoas por trás do livro do Amaury

A confissão de Amaury; o depoimento de Dirceu; a carreira de Luiz Emediato, editor do livro; E os acusados como “mandantes”

Falamos das mentiras, comprovando objetivamente que são exatamente lorotas e também abordamos a metodologia narrativa de cascatas empregada no livro. Agora, as pessoas. E são elas: Amaury Ribeiro Jr., Luiz Emediato, Pimentel e Aécio Neves.

Dirceu e Amaury
A Polícia Federal indiciou Amaury Ribeiro Jr. em quatro crimes, cujo processo tramita sigilosamente na Justiça Federal do DF (12ª Vara). Ao tratar do tema, o autor desenvolve histórias absurdas, como os dois encontros com Dirceu Garcia (vocês o conhecerão melhor mais adiante). Vejam se faz sentido:

Comecei a desconfiar que ele (Dirceu Garcia) poderia ter sido envolvido em algum tipo de armação no dia 4 de agosto de 2010, quando mantivemos o último encontro, por sinal, a seu pedido. Lembro bem da data porque fui a São Paulo assinar um contrato de trabalho. Pareceu tudo esquisito porque o despachante, além de não explicar o motivo da reunião, começou a falar coisas esquisitas (…) Antes, Garcia também havia agido de modo peculiar. No dia 8 de outubro de 2009, exigiu minha presença em São Paulo, porque queria me entregar um lote de documentos. Desconfiei…” (págs. 295/296, grifos nossos)

São dois encontros, separados por praticamente ONZE MESES. No de outubro de 2009, Amaury diz que já estava desconfiado pelo “modo peculiar” de Dirceu agir. MESMO ASSIM, ele o encontra quase um ano depois, pessoalmente, para… NÃO FALAREM NADA.

Por que diabos encontrar-se com alguém de quem já se desconfiava havia quase um ano? Não faz sentido. Menos ainda, aliás, o “conteúdo” da reunião.

Agora, trechos do depoimento de Dirceu, o despachante do Amaury, que realmente ABRIU O CORAÇÃO na Polícia Federal, datado de 06/10/2010:

Um relato MUITO diferente daquele apresentado por Amaury. Nota-se que Dirceu não aguentou a barra e confessou. Vale guardar a informação do depósito de R$ 5 mil em sua conta, ela será relevante como veremos. E Dirceu encerra o depoimento assim:

O despachante leu sobre a notícia na internet e diz que Amaury o procurou, recomendando que não dissesse nada à Polícia, caso fosse procurado. Mas e o dinheiro? Dirceu voltou à PF no dia seguinte e esclareceu isso e outras coisas:

Dirceu leva seu extrato bancário do qual constam dois depósitos de R$ 2,5 mil, perfazendo o total alegado antes. Além disso, seu extrato telefônico mostra várias ligações entre o depoente e Amaury – folha frente e verso somente com ligações DDD. Na página 296 do livro, Amaury diz “sempre depois de eu fazer um depósito na sua conta bancária, que nunca ultrapassou a cifra de R$ 1.500,00.” Será? Vejamos mais trechos desse depoimento de Dirceu:

DOZE MIL REAIS, um valor evidentemente maior que o alegado no livro. E esse trecho é particularmente interessante porque mostra o “modus operandi” da coisa. Segundo Dirceu, em depoimento à PF, os encontros não eram algo “nonsense” como relata Amaury. Muito ao contrário, aliás.

O Histórico de Amaury e Contextos Correlatos
Evidentemente, não foi um único depoimento que levou a Polícia Federal a indiciar Amaury em quatro crimes. As reportagens sobre o caso, factuais, trazem uma miríade de depoimentos e circunstâncias que contrariam o que se diz no livro. Vejamos:

1 – A Folha de São Paulo, dia 12/06/2010, revela a violação do sigilo fiscal de Eduardo Jorge e fala da existência de um dossiê circulando na campanha de Dilma à Presidência da República e pela turma que ironicamente ficou conhecida como “grupo de inteligência”. Surge o nome de Lanzetta. Blogueiros ligados ao governo federal, a essa altura, negavam tudo.

2Reportagem do dia 19/06 revela que os dados sigilosos partiram da própria Receita Federal. Mais uma vez tudo recai ao “grupo de inteligência” da campanha de Dilma – Amaury, no livro, ataca nominalmente o repórter dessa matéria. No dia seguinte, surge a bomba chamada Onézimo (viria explodir mais adiante) e o nome de Amaury é mencionado. No livro, aliás, Amaury reconhece que manteve contato com Onézimo – naquela metodologia típica para contar histórias.

3 – No dia 25/08, depois daquelas bobagens de “vamos investigar” e até mesmo o corregedor da receita dizer que encerraria o caso em 60 dias (notem que o tempo passou e isso não aconteceu), descobre-se que outras duas pessoas tiveram o sigilo violado na Receita Federal. Ambas, coincidentemente, figuram no livro de Amaury.

4 – A Corregedoria da Receita, no dia 31/08, finalmente aponta mais duas pessoas envolvidas na quebra de sigilo. Todas da seccional de Mauá. E o escândalo piora pois noticiam que a filha de Serra também foi vítima da quadrilha da quebra de sigilo.

5 – Exatamente no dia seguinte, começa a circular a versão meio estúpida de que as quebras de sigilo seriam aleatórias e contumazes, sem qualquer viés político. É a primeira vez que um governo se defende justamente confessando que seu órgão tributário seria todo ele comprometido. Romero Jucá, então líder do governo no Senado, divulga a história (depois desmentida de forma vergonhosa) de que Veronica Serra teria solicitado os dados ela própria – nesse mesmo dia, ela negava a autoria de assinatura. A turma governista da internet chegou a endossar a versão de Jucá. Até mesmo Lula, a quem a Receita Federal era subordinada, tentou jogar nesse sentido.

6 – Não durou nem algumas horas a tentativa de supor que seria verdadeira a assinatura. Um tabelião confirmou que houve falsificação grosseira e surge o nome de Antonio Carlos Atella, a quem uma reportagem imputou “perfil de estelionatário”. Lula continua falando bobagem, na base do “cadê o sigilo que não aparece?” – o que aparece são os DADOS, já que “sigilo” é uma circunstância, não algo material, visível aos olhos etc. Ele aproveita para fazer piada acerca do crime. Pior é a funcionária da Receita confirmando tudo depois.

7Revela-se que quebra de sigilo de Eduardo Jorge ocorreu em uma cidade de Minas Gerais, Formiga. A seção mineira da SRF alegou que seriam apenas “dados cadastrais”.

8 – Enquanto o PT se vê em maus lençóis pelo fato de Atella ser filiado ao partido, Aécio Neves aparece como mandante da quebra, segundo petistas. Nesse mesmo período, início de setembro, a corregedoria da Receita AINDA não tinha concluído a investigação – e a adia por tempo indeterminado.

9Descobre-se que o genro de Serra, que também aparece no livro de Amaury, teve seu sigilo quebrado. Até mesmo o presidente do PT declara que isso é caso de polícia. A essa altura, é claro, duas teses negativas estavam derrubadas: sim, houve quebra; e, não, não foram as próprias pessoas que solicitaram isso.

10 – Voltemos a Onézimo. Assim como o despachante Dirceu (que o fez em depoimento à PF cujas cópias vocês já viram), o ex-delegado também “entregou o ouro” do esquema. Apontou o empresário Bené como pagador do dossiê. O empresário mantinha diversos contratos com o governo federal e deu uma “ajuda” para a campanha de Dilma. Bené confirma a existência da reunião mas nega o conteúdo da prosa. A famosa reuniãozinha no Restaurante Fritz contou com Onézimo, Lanzetta, Amaury, Bené… Há um dado MUITO relevante no depoimento de Onézimo ao Senado, segue transcrição:

O delegado contou, ainda, que tentando convencê-lo a aceitar a tarefa de preparar o dossiê, um dos seus interlocutores falou das vezes em que foi procurar dados fora do País, viajando na primeira classe. “Um deles me disse que viajava, que foi ao exterior levantar esses dados e que ia em avião de primeira classe, tentando talvez me entusiasmar e não me entusiasmou nada”, contou. “E um falou que teria conseguido dois tiros fatais contra um candidato.” (grifos nossos)

Tiros? Já ouvimos algo sobre isso, não é? Mas quem seria o interlocutor que viajava ao exterior para “levantar dados”? E viajando de primeira classe, hein? Seria Lanzetta? Bené? Amaury? Informação bem privilegiada e coincidentemente razoável essa do Onézimo, já que o livro e seu conteúdo só apareceriam alguns meses depois do depoimento.

11 – Vale destacar o “Grupo de Inteligência” e um pouco do que se noticiou sobre ele. Amaury, por exemplo, usou um flat cujo dono era de um contratado da Lanza, de Luiz Lanzetta, que prestava serviços à campanha presidencial petista. Esta reportem do Estadão traz a CONFISSÃO de Amaury quanto às quebras de sigilo e o pagamento de R$ 12 mil. Seguem trechos (e a Folha também tratou disso):

Jornalista ligado à campanha de Dilma confessa violação de sigilo de tucanos – Amaury Ribeiro Jr. participou do grupo de inteligência da pré-campanha da candidata do PT – BRASÍLIA – A investigação da Polícia Federal aponta que o jornalista Amaury Ribeiro Jr. encomendou a quebra dos sigilos fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, da filha de José Serra, Verônica, do genro dele, Alexandre Bourgeois, e de outros tucanos entre setembro e outubro de 2009. De acordo com a PF, na época, o jornalista trabalhava no jornal Estado de Minas, que teria custeado as viagens dele a São Paulo para buscar os documentos. O jornalista participou do grupo de inteligência da pré-campanha de Dilma Rousseff (PT) em 2010, quando não tinha mais vínculo com o jornal mineiro. Esteve, inclusive, numa reunião em abril com a coordenação de comunicação da campanha petista para discutir a elaboração de um dossiê contra os tucanos. Em depoimento que durou 13 horas na semana passada, Amaury confirmou que pagou R$ 12 mil ao despachante Dirceu Rodrigues Garcia, que trabalha em São Paulo. Mas não contou de onde saiu o dinheiro (…) Amaury confirmou que durante o período em que ficou em Brasília, em abril de 2010, negociando com a equipe da pré-campanha de Dilma, a despesa do flat onde ficou hospedado foi pago por “uma pessoa do PT”, ligada à candidatura governista. A PF já fechou praticamente todo o caso. Resta saber agora de onde saíram os R$ 12 mil e quem é a pessoa do PT que pagou a hospedagem do jornalista. (grifos nossos)

12 – Após a CONFISSÃO de Amaury, o indiciamento de Atella e o depoimento de vários envolvidos, a Polícia Federal concluiu que o autor do livro foi quem ordenou as quebras de sigilo – embora não se saiba até hoje a origem do dinheiro. Amaury foi indiciado por QUATRO crimes, sendo eles: violação de sigilo fiscal, corrupção ativa, uso de documentos falsos e por dar ou oferecer dinheiro ou vantagem à testemunha.

Esse é Amaury. O autor das lorotas que desmentimos e do método que desmontamos. Segundo a Polícia Federal, ele é autor também de quatro crimes. Com essa ficha, convenhamos, é até ridículo que alguém hoje se fie em qualquer vírgula de seu livro – mas deixamos para falar da PESSOA depois de desmentir a “obra”.

Emediato, o Editor, Consultor, Membro e Ex-Presidente do Conselho Deliberativo do FAT (CODEFAT) etc…
O editor do livro, assim como Amaury, também escreve – e não é muito bom nisso, a exemplo do contratado de sua editora. Ele também é consultor. E seu perfil na “Geração Consultoria” é relativamente modesto:

Notabilizou-se primeiro como um dos mais respeitados escritores e jornalistas do país. Seu prestígio, honestidade e credibilidade são nacionalmente conhecidos, o que o torna o maior fiador dos negócios de suas empresas. Luiz Fernando Emediato é também consultor de organizações trabalhistas e governamentais na área de políticas de emprego e desenvolvimento social. É membro do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT e representante do Conselho junto ao BNDES, Finep e outras instituições, sendo conhecido por sua atuação firme e seus profundos compromissos com a ética e a transparência.”

Será? A ver.

Ele foi eleito Presidente do CODEFAT, em 2007, como representante da Força Sindical. O FAT é o Fundo de Amparo ao Trabalhdor, cujo capital total, em 2009, era de 38 BILHÕES de reais. E não é chute Amaury Style, vejam aqui (pdf).

No início de 2008, já presidente do CODEFAT, Emediato surge numa reportagem (apenas para assinantes) da Folha de São Paulo, na qual surge a denúncia de que ele teria ajudado empresas da família em 2004, já como membro do Codefat. Trechos a seguir:

Membro do Codefat agiu em favor de empresas da família em 2004 – Atual presidente do conselho do FAT, Luiz Fernando Emediato pediu a banco que firmas fossem contratadas como intermediárias na concessão de crédito consignado – O atual presidente do Codefat (Conselho Deliberativo do FAT), Luiz Fernando Emediato, intercedeu, na condição de conselheiro do órgão, em favor de duas empresas de sua família para que fossem contratadas como intermediárias na concessão de empréstimos para trabalhadores com desconto em folha: o crédito consignado. Emediato tem, em família, uma empresa de consultoria de crédito, a Ativa. Em outubro de 2003, foi constituída a CAN Captação, da qual o irmão, Renato, era sócio. Até hoje, as duas operam como correspondentes bancárias, uma espécie de representante dos bancos, nas empresas que aderem ao programa de crédito consignado. Para isso, ganham uma comissão sobre as operações. Os sindicatos -segundo informou Emediato num e-mail à Folha- podem se unir aos bancos para indicar às empresas as instituições financeiras de sua preferência. A Força Sindical até assinou com bancos acordos de cooperação. Emediato é o representante da Força Sindical no Codefat. Também representou a central no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social. Em fevereiro de 2004, enviou ao atual vice-presidente do Banco BMG, Márcio Alaor, um e-mail em que pede “um apoio para o pessoal” da Ativa e da CAN. Segundo o e-mail, ao qual à Folha teve acesso, a Ativa estaria enfrentando prejuízos com outro banco. “Peço mais uma vez seu apoio para o pessoal da Ativa -que está tendo prejuízos, infelizmente, com o Santander, mas não podem deixar de atender- e da CAN.” (…) No e-mail endereçado ao BMG, Emediato registra ainda a pressão dos sindicatos filiados à Força contra a “morosidade” dos bancos no atendimento às pequenas empresas: “Convivo há 12 anos com estes sindicalistas e eles são assim mesmo -querem pressa em tudo. Geralmente têm razão”. À época, Emediato integrava o Codefat, mas não como presidente. As empresas da família estavam também sob responsabilidade dos irmãos Solange e Renato Emediato (…) Falando em hipótese, o advogado afirma que, configurada a tentativa de vantagem pessoal, o conselheiro fica sujeito a sanções disciplinares, da advertência à perda do cargo. Para Ventura Alonso Pires, da Pires e Gonçalves advogados, “há um conflito de interesses, que pode resvalar em ilegalidade”. Também falando em hipótese, diz: “O caso precisa ser analisado com cuidado”. (grifos nossos)

Não houve afastamento. Ao contrário, ele se tornou PRESIDENTE do Conselho Deliberativo do FAT quatro anos após os fatos narrados.

Três dias depois, ele reaparece na Folha. A acusação: ajuda a uma entidade ligada à Força Sindical (Emediato era o representante da Força no CODEFAT) a montar uma proposta “inflada” para captar R$ 13,5 milhões. Há trechos interessantes, como por exemplo:

Em e-mail a Gildo Bezerra Rocha, funcionário da CNTM, presidida por Eleno Bezerra, Emediato escreve: “Caso tenhamos que trabalhar no domingo, ofereço as instalações de minha casa da Cantareira. Tem computador, internet e impressora. Se der sol, tem piscina, chope e churrasco, que ninguém é de ferro”. Todos os principais números relativos ao convênio, como total de inscritos, vagas e trabalhadores colocados, constam em e-mail e tabela enviado por Gleide Costa, coordenador do Sistema Nacional de Empregos do MTE, a Gildo Bezerra. A proposta “acertada” por Emediato e MTE implicaria custo 97% maior ao que o governo do Estado de São Paulo gasta para fazer o trabalho de colocação de mão-de-obra. A discrepância foi revelada pela Folha no mês passado e levou a um corte de 31% nos custos. Com a redução, a economia passa de R$ 2 milhões só na colocação de pessoal. Mesmo assim, as comissões estadual e da Prefeitura de São Paulo já se posicionaram contra o convênio. A decisão final cabe agora ao Codefat/MTE. Convênios como esse da CNTM estavam suspensos desde 2003 após acórdão do TCU (Tribunal de Contas da União). Havia suspeitas de irregularidades envolvendo a própria Força Sindical. Eles só foram retomados após a assinatura da Resolução 560, de 28 de novembro de 2007, do Codefat. Emediato foi quem assinou a resolução logo após assumir (…)“Outras reportagens da Folha revelaram em fevereiro que o MTE aprovou convênios de R$ 50 milhões com ao menos 12 entidades ligadas a parentes, amigos e doadores de campanha de políticos do PDT. Os convênios só foram possíveis a partir da Resolução 560. Pelo menos três das entidades beneficiadas foram avalizadas pela Força Sindical, sendo que duas funcionam no endereço da central. Várias das entidades concorrentes também se recomendaram umas às outras. Reveladas as relações entre Força, PDT e os convênios com o MTE de Lupi, Paulinho agora ameaça processar a Folha.” (grifos nossos)

Segundo a reportagem, ao assumir a presidência do CODEFAT, Emediato assina uma resolução que revoga a suspensão desse tipo de convênio (vigente desde 2003). Logo após isso, segundo a reportagem, ele próprio participa da formulação de um convênio, com dados inflados, que beneficiaria entidade ligada à Central Sindical da qual faz parte.

Vale verificar os convênios decorrentes da mudança promovida pela Resolução 560.

Emediato aparece nesta reportagem da Veja, que trata de convênios firmados com ONGs pelo Ministério do Trabalho (sob Lupi, vale destacar). Segue trecho.

Na semana passada, aliás, soube-se que Luiz Fernando Emediato, presidente do Codefat, outro órgão do ministério, assinou como testemunha um patrocínio de 1,32 milhão de reais do BNDES à ONG Meu Guri, presidida pela mulher de Paulinho e investigada pela polícia por irregularidades. Emediato trabalha no ministério, é contratado como consultor da Força Sindical e, durante as campanhas políticas, dá uma mão aos candidatos do PDT.” (grifos nossos)

O editor do livro do Amaury já havia aparecido na Veja na semana anterior. Há documentos: emails que teriam sido enviados pelo próprio Emediato. Vejam no quadro ao final, na página da revista. A seguir, alguns trechos:

Para coroar a tomada da Pasta do Trabalho, o jornalista Luiz Fernando Emediato, consultor da Força Sindical, foi eleito presidente do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, o Codefat. É ali que se define o destino da dinheirama do FAT. Somente no ano passado, os conselheiros decidiram como investir 9,5 bilhões de reais – em programas de qualificação profissional ou em linhas de crédito, como as oferecidas pelo BNDES e que estão sob investigação da PF. Amigo de Paulinho, Emediato é consultor da Força desde 1991. Em suas palavras, presta “serviços intelectuais”. Foi com esse tipo de atividade cerebral que ele conheceu o lobista João Pedro de Moura, no fim dos anos 90. Emediato recrutou-o para os quadros da Força, onde o lobista passou a coordenar os cursos de qualificação profissional da central. Foi imediata a empatia entre ambos. A tal ponto que, tempos depois, Emediato vendeu a Moura sua casa de campo, hoje avaliada em 700 000 reais – mas, num gesto que só uma grande amizade explica, os dois nem chegaram a registrar a transação em cartório. “Ele me deu 40.000 reais de entrada e um apartamento em São Paulo”, diz o presidente do Codefat. Amigos, amigos, negócios incluídos: Emediato indicou Moura para integrar um grupo de trabalho que iria reformular as políticas de investimento do FAT (…) VEJA teve acesso a e-mails trocados por Emediato com funcionários do ministério e assessores da Força que revelam um comportamento exatamente oposto. Essas correspondências mostram que, à frente do Codefat, Emediato se comporta como tarefeiro da Força Sindical, valendo-se da posição para proteger e beneficiar a central. Em fevereiro, a Força foi notificada pelo Tribunal de Contas da União a devolver cerca de 59 milhões de reais, dinheiro do FAT que deveria ter sido investido na qualificação de trabalhadores – mas que sumiu nas contas do IPEC, um instituto ligado à central e comandado pelo lobista João Moura. Ao saber da decisão, Emediato, em vez de se portar como presidente do Codefat, agiu como dirigente da Força: pediu à advogada Sandra Lage, funcionária do ministério, que ajudasse na defesa da central. A funcionária ajudou. “A doutora Sandra vai examinar tudo e aí a gente decide se ela faz essa defesa ou entregamos tudo ao Ricardo Tosto”, escreveu o consultor em e-mail de 21 de fevereiro, endereçado a uma assessora da Força Sindical. Tosto é aquele que foi preso pela polícia, indicado pela Força como conselheiro do BNDES. Trocando em miúdos: de dia, Emediato faz as vezes de zelador do dinheiro dos trabalhadores. Na calada da noite, porém, usa seus conhecimentos para defender, como consultor, os responsáveis pelos desvios de dinheiro – sendo que ambas as partes lhe pagam salário. O presidente do Codefat acha normal a dupla militância: “Não há nada de irregular nisso”. Emediato também acha normal um e-mail enviado a ele por Gildo Rocha, assessor da Força, em agosto de 2006, no qual o sindicalista remete anexo um “atestado de capacidade técnica” da central – a ser impresso e assinado “em papel timbrado” da pasta. Esse documento seria usado para permitir a assinatura de um convênio entre a Força e a prefeitura de São Paulo. “Mas ele não foi assinado”, garante o conselheiro-consultor. Emediato é uma espécie de faz-tudo dos sindicalistas ligados à Força dentro do ministério – atuando até em áreas aparentemente estranhas, mesmo considerando suas múltiplas funções. Não se sabe por quê, mas ele se mantém informado, inclusive, sobre valores de empréstimos que grandes empresas tomam do BNDES. Em uma correspondência eletrônica datada de 15 de janeiro passado, Emediato recebe informações detalhadas sobre um empréstimo contraído pelo frigorífico Friboi, o maior do país, do BNDES. Curiosidade? “Mandei averiguar, mas não tenho interesse nisso”, disse o consultor-conselheiro, justificando que estava apenas atendendo a uma solicitação de um sindicato de trabalhadores de alimentação (ligado à Força, é claro), que negociava um acordo. Não dá para entender a diferença que faz para os sindicalistas em uma negociação trabalhista conhecer valores de empréstimos que uma empresa conseguiu em uma uma instituição pública. Aliás, o funcionário do ministério que repassa a informação ao consultor-conselheiro adverte que os dados são protegidos por sigilo, portanto ele estaria cometendo um crime ao passar as informações à frente (…) Os métodos pouco ortodoxos de arrecadação que permitiram a criação da central foram refinados com o passar do tempo. Cinchetto dedicou-se nos anos 90 a encher os cofres da central – e da turma de Medeiros. Ele despachava no escritório de Emediato, em São Paulo. “Se a coisa continuar assim, o Medeiros vai virar presidente, e eu o PC dele”, costumava dizer Cinchetto aos assessores da central, numa referência a Paulo César Farias, tesoureiro de Collor. Cinchetto, porém, acabou rompendo com o chefe (…) Treze anos após as denúncias de Cinchetto, o aparecimento das malfeitorias da turma da Força no BNDES mostra que a tecnologia de arrecadação da central continua a mesma. Só os personagens mudaram. Saiu Medeiros e entrou Paulinho, seu discípulo e fiel assessor nos primórdios da Força. Saiu Cinchetto e entrou João Pedro de Moura, o lobista que adentrou na central graças aos serviços intelectuais de Emediato…” (grifos nossos)

O que acharam de Amaury e Emediato? Aí está um pouco do que se escreveu sobre eles na imprensa. Mas há uma outra coisa interessantíssima. Adivinha quem foi ENDOSSADO pelo editor do livro? NINGUÉM MENOS QUE DELÚBIO SOARES.

Alguém duvida? Eis as palavras dedicadas ao ex-tesoureiro do PT (até salvei a página aqui, porque às vezes a Internet sai do ar):

Conheci Delúbio Soares de Castro quando nos tornamos colegas no Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, o Codefat, do qual ele foi, inclusive, presidente. Discordamos, várias vezes, ao votar nesta ou naquela Resolução. Era uma discordândia democrática, ética, limpa. Aprendi a admirá-lo por causa disso. Ele representava a CUT e eu a Força Sindical num momento histórico diverso do de hoje. As centrais estavam em confronto. Na mesa do Codefat, nada disso valia: valia o interesse público. Não tenho procuração para defender Delúbio, nem sou do PT, mas minha opinião é que o PT deve aceitá-lo de volta.” (grifos nossos)

É ele quem diz…

PIMENTEL E AÉCIO: Muitas coincidências…
O livro tenta atingir duas pessoas: Serra e Rui Falcão. O tucano é adversário de Aécio Neves e o petista, de Pimentel. Isso, por si, não vincularia ninguém a nada, é apenas uma coincidência. Só fica complicado quando há MUITAS coincidências ao mesmo tempo. Vejam só:

1 – A Motivação
Amaury cria uma história sem pé nem cabeça para falar dos motivos pelos quais começou suas “investigações”. Trecho (pág. 24):

O que me pedem é o seguinte: descobrir quais são os arapongas que estariam no encalço do governador de Minas, Aécio Neves, durante seus discretos roteiros sentimentais pelo Rio de Janeiro. Segundo o relato, Aécio é vigiado e tem seus movimentos seguidos por agentes arregimentados por seu adversário na disputa dentro do PSDB pela pré‑ candidatura à Presidência da República. O então governador paulista, José Serra, trabalhava nos bastidores para alijar o concorrente mineiro do páreo. De posse de um dossiê, Serra teria mandado um recado, por intermédio de seus emissários, para que Aécio jogasse a toalha. Ou seja, Serra, com seu estilo inconfundível, estaria chantageando o neto de Tancredo Neves. O conteúdo do suposto dossiê nunca me foi revelado. Mas vale acentuar que a pauta não nasceu de um boato qualquer. Ao contrário, surgiu de informações dignas de todo o crédito transmitidas pela assessoria do governo mineiro ao Estado de Minas que, aliás, nunca negou sua condição de aecista de corpo e alma.” (grifos nossos)

Amaury fala de um dossiê que nunca viu e que nem mesmo o conteúdo teria sido revelado. Mas assevera que seriam “informações dignas de todo crédito”. O motivo: foram transmitidas PELO GOVERNO DE MINAS; na época, liderado por Aécio Neves.

O próprio autor deixa escapar um comentário sobre o jornal O Estado de Minas: “nunca negou sua condição de aecista de corpo e alma”. Em outras palavras e resumidamente: foi Aécio quem deu a ordem inicial, por meio de pessoas de seu governo e utilizando o jornal O Estado de Minas.

Mas Amaury não se cansa e solta mais uma:

Decidiu então ligar diretamente para Aécio, buscando acertar as arestas. Aparentemente, funcionou.” (grifos nossos)

Como assim “funcionou”? O que significa esse “funcionar”? Sendo verdade o que o autor alega, não apenas a ordem teria partido de Aécio como uma ligação telefônica a ele “funcionou”, no sentido de parar com tudo.

Um outro trecho, risível, merece destaque:

Faltava, no entanto, acalmar o comando do jornal mineiro, inconformado com a arapongagem de Itagiba e com o artigo “Pó pará, governador”, plantado pela entourage de Serra em O Estado de S. Paulo, para desgastar o governador mineiro. Publicado em 28 de fevereiro de 2009, e assinado pelo colunista Mauro Chaves, já falecido, o libelo antiaecista ironizava o desejo do governador mineiro de definir logo, por meio de prévias, o candidato do PSDB ao Planalto.” (grifos nossos)

Vamos às incongruências: NUNCA houve espionagem por Itagiba, o próprio autor nunca viu nem soube do que se tratava o “dossiê”. E como diabos o jornal O Estado de Minas estaria “inconformado” com isso? Não apenas por não existir, mas na hipótese maluca de haver algo assim, seria problema do Aécio. Mas o jornal “inconformado”? Não faz sentido.

E mais: desde quando o falecido Mauro Chaves era da “entourage” de Serra? Só porque escreveu um texto contra Aécio? Qual ligação existia entre ambos, afinal? A “motivação” para as “investigações”, portanto, é falaciosa, para dizer o mínimo.

Há a pura e simples MENTIRA de um grupo que nunca existiu, um dossiê que não houve, o “inconformismo” de um jornal mesmo diante dessas duas inexistências e, para piorar, O PRÓPRIO AÉCIO DECLAROU QUE NÃO CONCORRIA PARA VALER EM 2010.

Simplesmente nada bate. E como Amaury iniciou seus trabalhos em 2007, fica relativamente ÓBVIO que a campanha de Dilma, apesar de quase ter usado o material que hoje compõe o “livro”, não foi quem deu as ordens iniciais. Quem o fez? Amaury culpa Aécio. Aécio, até hoje, não processou Amaury – até relativizou a acusação, em 2010.

2 – O Vínculo Jornal/Aécio
Amaury estaria a serviço do jornal O Estado de Minas, que ele próprio chamou de “aecista de corpo e alma”. Josemar Gimenez, diretor do jornal O Estado de Minas, alegou que a última viagem de Amaury paga pelo veículo foi em 23/07/2009.

Mas, então, como explicar o fato de Amaury usar o convênio do jornal para comprar suas passagens? Esta reportagem informa exatamente isso. Trechos interessante:

Segundo o documento da agência de turismo onde as passagens foram expedidas, Marcelo Oliveira era a pessoa credenciada pelo jornal para solicitar compras de passagens. “O mesmo comprava também passagens e serviços para alguns diretores e funcionários quando em viagens particulares”, afirmou a agência à PF. Oliveira aparece como responsável pelo serviço contratado em 11 viagens de Amaury, a partir de setembro –mês em que o jornalista entrou de férias– e depois de o repórter ter se desligado oficialmente do jornal, em outubro. Há registros de viagens compradas por Oliveira para Amaury até dezembro.” (grifos nossos)

Foram ONZE VIAGENS a partir de setembro, quando entrou em férias. Pode-se alegar que o empregado, mesmo em férias, realize compras de passagem por meio de convênio firmado pela empresa. Ok. Mas E DEPOIS DE SAIR DO EMPREGO? Falta achar uma boa explicação para isso.

3 – Pimentel e os Hiatos Coincidentes
Amaury começa em 2007, e ele próprio alega que foi depois de uma tratativa do jornal O Estado de Minas “aecista de corpo e alma” e o próprio governo de Aécio Neves. Os fatos apurados pela PF, contudo, são de 2009. E somente apareceram em 2010, quando Amaury participou do grupo de Lanzetta, que ele considera um amigo e que está na lista de agradecimentos de seu livro.

Mas quem é Lanzetta? Voltemos a Onézimo, pois. O ex-delegado disse o seguinte à CCAI:

Sobre a participação do exprefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, Onézimo afirmou que o convite inicial para trabalhar na campanha “teria partido dele”. – Quem se apresentou como representante do senhor Pimentel foi o Lanzetta. O outro foi apresentado como a pessoa que seria responsável por efetuar os pagamentos, que se apresentou como Bené – disse. Pimentel, coordenador da campanha de Dilma, nega participação.” (grifos nossos)

Ele disse o mesmo à VEJA, vinculando Lanzetta, o amigo de Amaury, a Pimentel. Somando-se o que disse Onézimo ao fato de que o próprio autor atribui o início de tudo a Aécio, há o seguinte: a ordem teria partido do tucano mineiro, o trabalho foi feito, e seria aproveitado por um grupo organizado por Pimentel – debelado por gente do próprio PT no decorrer da campanha.

As ações do tal grupo do PT, durante a campanha, não exatamente negam essa cronologia. Após as primeiras revelações, Lanzetta foi afastado da campanha e Pimentel saiu da coordenação da campanha presidencial.

Daí que surge um novo hiato cujo teor de coincidência é realmente impressionante: após meses “ameaçando”, finalmente sai o livro do Amaury. EXATAMENTE UMA SEMANA DEPOIS DAS DENÚNCIAS CONTRA PIMENTEL – ele recebeu uma bolada por consultorias. Uma delas, aliás, desconhecida até por dirigentes da entidade que o contratou (a FIEMG).

As bombas contra Pimentel pipocaram na imprensa no dia 3 de dezembro, o livro de Amaury foi publicado no dia 8 daquele mesmo mês. É coincidência a dar com pau.

4 – O Vínculo Pimentel/Aécio
Aécio e Pimentel são poupados por Amaury, e o primeiro chega a ser chamado de “o neto de Tancredo Neves”. Rui Falcão, adversário de Pimentel no PT, foi acusado pro Amaury de “roubar dados” que estariam num computador. Falcão o processa por isso.

Trata-se, de fato, de uma acusação relativamente patética. Segundo Amaury, e ele não perde uma chance de perder uma chance, Rui Falcão – ou algum emissário – teria invadido seu quarto no hotel Meliá e subtraído tais informações.

Mas como diabos Pimentel, um petista, teria algum tipo de ligação com Aécio, tucano? Não são adversários? Nada. São parceiros.

A aliança surgiu por conta da eleição do atual prefeito de MG, Marcio Lacerda (PSB). Marcio não é um completo desconhecido no âmbito político nacional, pois seu nome apareceu no escândalo do Mensalão.

Pois é. Lacerda trabalhava com Ciro Gomes, no Governo Lula, e ele foi citado por Delúbio Soares:

Delúbio afirmou que os R$ 457 mil supostamente sacados de uma conta da SMPB, de Marcos Valério, por Márcio Lacerda, ex-secretário executivo de Ciro Gomes no Ministério da Integração Nacional, foram para pagar os gastos com a gravação de mensagens de apoio do próprio Ciro a Lula, já no segundo turno das eleições.” (grifos nossos)

A denúncia reapareceu na eleição para prefeito de BH, mas Lacerda obteve decisão judicial que proibiu tal vínculo. Ele se elegeu, sedimentando a aliança Pimentel/Aécio.

Recentemente, quando Pimentel foi alvo das denúncias, Aécio ficou em cima do muro quanto ao aliado, mas seu afiliado político, Governador Anastasia, fez emocionante defesa do aliado do padrinho: “além e tudo, é mineiro e um amigo”. Um agrado a Pimentel, um dos líderes da grande aliança mineira – que provavelmente será repetida neste ano.

Poucos dias depois, saía o livro.

Enfim…
O livro tem mentiras verdadeiramente absurdas que se derivam em mentiras acessórias, todas desmentidas; há um método para contá-las, também desmascarado. E há as pessoas ligadas à obra, como Amaury e Emediato, tratadas agora neste texto.

Aécio é acusado pelo autor de ter dado início a tudo e até agora nem mesmo manifestou a hipótese de processá-lo. Pimentel aparece nas declarações de Onézimo como organizador do “grupo de inteligência”, e não se sabe de processo algum dele em face do ex-delegado. O livro foi lançado uma semana após surgirem as denúncias contra Pimentel.

Cada um tire sua conclusão.

ps – a série de três posts NÃO ENCERRA o tema “livro do amaury”; apenas serve de referencial para rebater os principais pontos. É evidente que voltaremos ao assunto, às pessoas e personagens. Muito obrigado a todos que tiveram a paciência de ler tudo.

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