Blog

Haddad quer criar uma Ancine paulistana. E a conta será paga por…

O prefeito Fernando Haddad conversou com cineastas de São Paulo para fazer piadinhas, criar uma agência de cinema de propaganda e discutir, óbvio, dinheiro.

haddad jucaa ferreira

“Mais duas lambidas e esse projeto estará pronto” – foi com estas delicadas palavras que o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Juca Ferreira, anunciou à plateia formada pelos principais cineastas de SP que se reuniram nesta semana com ele e o prefeito Fernando Haddad para discutir a criação de uma agência de cinema, a SP Cine.

Uma expressão (talvez reveladora) dessas vinda da oposição e a própria imprensa iria martelá-la até doer em ouvidos do outro lado do país. Com Haddad, a “mídia golpista”, o PiG, só deixou passar como mera piadinha boba na coluna de Mônica Bergamo, na Folha.

De acordo com Ferreira, “A cidade está madura para ser uma plataforma internacional de audiovisual. Cabe aqui um grande festival. Vamos instalar dez cinemas na periferia. Talvez a prefeitura se transforme no maior exibidor do município.”

Não sei quão São Paulo está “madura” para ter sua própria agência de cinema. Na verdade, sequer sei quem são “os principais cineastas de SP”, que se reuniram com Haddad. Há bastante tempo que sei que cinema é Hollywood, ou filme sobre areia e camelos no Irã, ou produções nacionais feitas pela Globo com atores reprodutoriamente ruins, todos feitos pela Rede Globo. Os que não são feitos por ela, têm cara de Rede Globo, qualidade de Rede Globo e inevitavelmente os mesmos atores da Rede Globo. Não sei de filme nacional grande sem Wagner Moura, Selton Mello e Lázaro Ramos, por exemplo.

O único filme paulista – ou, pior, paulistano – de que me lembro, fora o trágico Bellini e a Esfinge, é Rota Comando, policial de baixo (baixíssimo?) orçamento, um Tropa de Elite paulistano, baseado no livro Matar ou Morrer, do deputado Conte Lopes, que mostra a rotina de policiais da Rota.

Será que é este porte de filme que garante a São Paulo “maturidade” para ganhar um verbinha do pagador de impostos pelo interesse que os senhores Fernando Haddad e Juca Ferreira têm em apresentar à população produções artísticas selo São Paulo™ de qualidade, por um nobre gesto de administração eficiente e interesse na cultura dos pobres e necessitados, com um desinteresse estóico por dar uma boquinha a seus cupinchas formadores de opinião, que talvez nem sequer respondam defendendo a gestão do prefeito com unhas e dentes nas próximas eleições, talvez até com alguns filminhos totalmente livres de dinheiro e doações e criados por mero reconhecimento imparcial e honesto?

Parece exagero? Continua o relato de Mônica Bergamo:

Em cartaz com o filme “Uma História de Amor e Fúria”, Luiz Bolognesi disse que o audiovisual é “o grande instrumento de poder que pode fornecer novos repertórios para um pensamento crítico”. Só assim seria possível confrontar “esse fundamentalismo que ameaça transformar o Brasil numa teocracia. A gente reclama da mídia que fabrica o mensalão. O ‘Jornal Nacional’ não é a verdade, é uma versão dela”.

Uma agência de cinema para dar dinheiro a cineastas incompetentes que estão “em cartaz” (ou que precisamos ser informados de que estão em cartaz em algum lugar com algum filme) afirmarem que “a mídia que fabrica o mensalão”, aquele troço que durou anos com milhares de páginas sendo julgadas por ministros indicados em sua maioria absolutíssima por Lula e Dilma. de fato, os jornais não são uma verdade, são uma versão dela. A Verdade mesmo é Luiz Bolognesi.

(Não encontrei artigo em português na Wikipedia sobre quem é este sujeito, mas a em inglês explica e enaltece: “He won several awards as a screenwriter, including ‘Best Screenplay’ in Grande Prêmio Cinema Brasil, Recife Cinema Festival and Troféu APCA”. Um novo Fellini está surgindo.)

Só assim teremos “pensamento crítico”. Com o cinema de Luiz Bolognesi. Só ele nos salvará de uma teocracia. Será que com o nosso dinheiro? O Marco Feliciano e esses pastores mongolóides que vemos por aí pedem dinheiro, não importa por qual método lobotomizado – mas pedem. Será que o único jeito de nos livrarmos da teocracia do dízimo será dando o dinheiro para os apaniguados do partido no poder retidos na fonte, e sem possibilidade de falar: “Seu pastor… hoje não”?

Segue Ferreira: “Se o Rio é uma cidade mais atiçada, SP é tímida. A cidade não pode estar de lado com o Brasil. Nem precisa sufocar o país”. Você disse sufocar, meu caro? Talvez seja um ato falho bastante significativo. Mas que tal a continuação?

Haddad concordou. “SP tem que se reconciliar com si mesma e com o Brasil”. “É a Revolução de 32…”, brincou Ferreira. “Quem sabe em breve poderemos finalmente dar o nome de Getúlio Vargas para alguma coisa”, completou Haddad, provocando risos.

O que será que aconteceria se um governante da oposição de São Paulo fizesse uma piadinha com uma revolução golpista armada paulista para derrubar o governo central? Qual seria a graça se algum tucano, democrata ou qualquer não-petista achasse bonito usar o nome do ditador Getúlio Vargas para algum ato de concentração de poder e dinheiro em suas mãos?

O cineasta Hector Babenco também discursou. “A gente tem que se valorizar. Eu fico lendo barbaridades nos jornais, como a informação de que o Rio pagará R$ 10 milhões para o Woody Allen filmar lá. Eu vou pagar o dote para a minha filha casar? Hoje aqui está surgindo um pensamento grande. E nós temos que corresponder a ele.”

Esse negócio de “se valorizar” não precisa ser em dinheiro cash, né Hector? Sei lá, posso te valorizar assim, elogiando seu penteado? Ou você só aceita que eu seja obrigado a pagar o casamento da sua filha (não deve ser uma festa modesta, aposto que terá uns rapapés mais bem avaliados no mercado que meu rim direito), mesmo que não queira ver seus filmes? Ah, eu sei que aí entre vocês vocês aí “está surgindo um pensamento grande”. Acontece que eu também penso grande, mas você não parece muito interessado em pagar as contas dos meus pensamentos grandes… ou estaria eu felizmente enganado?!

(Hein? Hein? Hein?)

A verdade é que a lei de mercado (lei no sentido de LEI, igual gravidade, morte e impostos, aquela coisa mais inescapável, natural e mandatória do que mamãe mandando arrumar o quarto) mais óbvia de todas é a de oferta e procura. Por que o produto dos cineastas paulistanos vale (dinheiro cash) tão pouco? Por que a procura é inócua. Ninguém tá interessado em assistir esses troços. São – falando um português bastante claro – ruins pra cacete.

Esses cineastas querem lucrar horrores (“pensamento grande” e tal). Mas ninguém quer enfiar a mão na carteira, gastar duas horas no cinema assistindo filmes premiados no primoroso Festival de Cinema de Recife sem sair com uma satisfação de prazer que fará com que a imaginação moral (google it) que aquele filme lhe imprimiu seja tema de suas conversas de bar por anos a fio.

Esses mesmos cineastas poderiam, então, melhorar os seus filmes. Já tivemos filmes brasileiros muito bons. Basta aprender e fazer igual. Melhor. Detonar mesmo. Nós iremos querer ver os filmes, o valor de mercado desses camaradas e também o valor do convite para o casamento de suas filhas ficará automaticamente mais alto. E eles poderão pagar o valor do casamento com o valor de suas obras, igual nós, pessoas normais, trabalhadoras, sadias e com um pingo de vergonha nessas caras redondas fazemos.

Ou então, podem, digamos, “precisar de incentivos”. Confrontar o fundamentalismo e tal. Assim, se ninguém quer ver os seus filmes, dane-se o que esses ninguéns querem, quem manda são os “não-fundamentalistas”, os “críticos”, e apenas se pega o dinheiro delas à força dos impostos (palavra de etimologia reveladora), cria-se uma agência de cinema para proteger os cineastas de seu público e os cineastas poderão pagar a festinha de casamento de suas filhas mesmo se ninguém quiser ver suas porcarias. Como a agência é movida a dinheiro cash retido na fonte, o público nem precisa saber que tem filme em cartaz. Nem precisa saber o nome do filme. O que importa é que a agência está fomentando “a cultura”. Mas, sobretudo, citando Hector Babenco, “valorizando”… a conta bancária dos cineastas.

(Mas eles são especiais, “críticos”, não mentem como a mídia que “fabricou o mensalão”, e portanto não devem ser como os trabalhadores pés-de-chinelo, que pagam suas vontades com o seu trabalho, trocado livremente pelo trabalho de outras pessoas: esses podem simplesmente se entender com partidos estatizantes como o do sr. prefeito Fernando Haddad, pegar o dinheiro do público e nem sempre precisam sequer entregar o raio do filme – aliás, se não entregarem, basta pegar mais dinheiro do povão, não é, seu Guilherme Fontes?)

Você sabe quantos filmes a Petrobras já financia, e nunca têm interesse do público o suficiente para sequer irem pro circuito comercial? (comentário de Reinaldo Azevedo: “O que é uma benção!”) É por isso que o governo tem tanto interesse em defender a Petrobras, com esse papinho de que “o petróleo é nosso”, enquanto pagamos a gasolina mais cara do continente: o dinheiro é do governo e o governo dá pro cupincha que quiser. E você ainda acha lindo defender “a cultura” e “o cinema” e “o petróleo” nacionais.

Mas se é mesmo para dar dinheiro para cineastas lucrarem antes mesmo de alguém se interessar por seu trabalho, e se São Paulo está “madura” a la Los Angeles para produzir tantos filmes imperdíveis, que tal dar uma rápida olhada por cima da produção nacional para saber o que mais vamos financiar mesmo que não queiramos gastar, ao invés de ter produtos que desejamos de verdade? (grande destaque para os números 6 e 2)

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=bmg026ejP7k[/youtube]

E você sabe quem vai pagar a conta disso, e do casamento da filha de cada um desses monumentos ao “pensamento crítico” universal aí em cima?

To Top