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Haddad quer ricos e pobres morando no mesmo lugar para ‘resolver’ trânsito em São Paulo

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O trânsito de São Paulo foi um dos temas mais discutidos durante a campanha à prefeitura de São Paulo – cargo que deve valer o equivalente a uns 10 senadores, se não a uns três governos estaduais no panorama nacional – e no eterno olho nas próximas eleições federais.

Assim que assumiu o posto, o prefeito eleito Fernando Haddad (PT-SP) já parece mudar a tônica de promessas para algo mais “fazível”.

Agora, ao invés de falar em tantos corredores de ônibus, o foco do prefeito parece ser simplesmente dizer que as pessoas devem morar mais perto de seus trabalhos – basicamente o que cerca de 102% das pessoas querem e se esforçam para tal, mas nem sempre conseguindo.

Em entrevista ao UOL, em que também pôde explicar pediu para que todos os tapetes “feios” e as cortinas antigas fossem retirados de seu gabinete (“Eu sofro de rinite e aqueles cortinas, pesadonas, ficavam cheias de poeira”), até mesmo a idéia mais logicamente aceita ganha requintes de crueldade na boca do prefeito petista. Haddad disse apostar na ocupação do centro da cidade, com moradores de todas as classes sociais, como solução para os megacongestionamentos e a superlotação do transporte público:

A lógica [sic], segundo ele, é aproximar os paulistanos de seus locais de trabalho, e vice-versa. “Nós vamos lançar com o governo do Estado no âmbito do Minha Casa, Minha Vida [programa federal de habitação] uma parceria para a construção de 20 mil unidades habitacionais no centro de São Paulo para todas as classes sociais“, disse Haddad. “Ou seja, queremos um centro representativo de todas as camadas sociais da cidade: pessoas de classe média, trabalhadores, pessoas mais pobres, mais ricas. Queremos um centro plural.

Se a iniciativa der certo, a prefeitura conseguiria repovoar o Centro e evitar que um grande contingente de trabalhadores se desloque usando carros, o que aumenta o trânsito, ou o transporte coletivo, que está superlotado.

“Vou colocá-lo [o trabalhador] do lado do seu emprego e ele então vai a pé para o trabalho. Se eu levar o emprego para a periferia, vai acontecer a mesma coisa. Vou tirá-lo das vias e transportá-lo para as calçadas ou para a bicicleta”, afirmou.

Para Haddad, a verticalização que tomou conta de São Paulo nos últimos anos é um problema quando ela afeta negativamente a dinâmica da cidade, ou seja, quando grandes prédios abrigam famílias com três ou quatro carros, que não usam transporte coletivo e provocam trânsito.

“Mas há outras forma de fazer, por exemplo, quando você leva o morador para o bairro e oferece uma estrutura de transporte público”, ressalta. “Isso significa mixar os bairros, transformá-los em pequenas cidades, onde você tem o comércio, o serviço, o morador de alta renda e o trabalhador que atua ali. É distribuir melhor.”

(grifos nossos)

A idéia é boa, mas tão óbvia que é quase como dizer que 2 e 2 são 4. Todos querem morar mais perto do trabalho. Ademais, não há nenhum dissenso político que discuta se o Centro da cidade deve ser repovoado – com famílias ali, ao invés de prédios comerciais que se tornam desertos depois das 19h, o Centro da cidade vira um perigoso deserto à noite – que acaba sendo perigoso, justamente, para as pessoas de baixa renda que moram na região ou seus arrebaldes.

Mas o comportamento humano é óbvio para um humano. Por que alguém não mora no Centro? Basta pensar como um ser humano, e eis a resposta: o Centro é perigoso. É preciso ter mais policiamento noturno, é preciso que as empresas possam revitalizar a maravilhosa arquitetura dos prédios do Centro (muitas com mais de um século de idade, criadas por arquitetos de renome mundial na época) sem o risco de terem tudo contaminado dias depois por pichações, depredações e tomadas de espaço por indigentes desassistidos, que, sem um planejamento correto da prefeitura, acabam tomando todos os lugares, ao invés de se concentrarem em um único lugar, tornando possível uma política pública de cuidado com essas pessoas em situação de rua.

Tudo isso gera tempo, e não apenas dinheiro, como um investimento logístico e administrativo de longo prazo, impossível de render dividendos eleitorais para a próxima eleição, e sobretudo arriscado – ninguém garante que, com a melhor das intenções e das administrações, isso vá dar certo futuramente.

Qual a solução proposta, então? Usar o “Minha Casa, Minha Vida” do governo federal (ou “lançar com o governo no âmbito do Minha Casa, Minha Vida uma parceria”, no linguajar habermasiano do prefeito) “para todas as classes sociais”  Ou seja, agora a dona Neide da faxina pagará com seus impostos que o governo dê uma parcela do dinheiro para as classes altas investirem no Centro. Por isso talvez o prefeito use tanto a voz ativa: “Vou colocá-lo”, “vou tirá-lo”. Haddad anda jogando muito Warcraft nas horas vagas.

Custa simplesmente ter uma política administrativa adequada para tornar o Centro mais transitável e limpo mesmo à luz do dia, ao invés de simplesmente pensar em torrar o dinheiro do pagador de impostos com projetos doidivanas? Não, não custa. Aliás, custa bem menos do que essa mania de resolver tudo no curtíssimo prazo e ferrar a dona Neide no longo prazo.

Afinal, duvido que o Centro comporte todo mundo, inclusive a casa de todas as donas Neides. Mas ela vai pagar pelo imóvel da classe alta, apenas para tentar consertar o trânsito.

Não custava nada, Haddad. Pelo menos para a dona Neide, antes de você não custava.

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