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Lula diz que financiamento privado de campanha deve ser ‘crime inafiançável’. E o mensalão?!

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No Fórum Novos Desafios da Sociedade, promovido pelo jornal Valor Econômico, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não apenas defendeu o financiamento público de campanha numa possível reforma política: decretou que “se deveria tornar crime inafiançável o financiamento privado”.

Estranhamente, ninguém na platéia ou na imprensa que noticiou o fato apenas como uma inofensiva opinião perguntou na lata ao ex-presidente se caixa 2, mensalão e dinheiro do BMG, empréstimo fajuto do Banco do Brasil etc etc se encaixam na categoria “financiamento privado”, e se Dirceu, Genoíno, João Paulo Cunha et caterva devem ir para cadeia sem poder pagar fiança.

De acordo com Lula, fazer uma reforma política agora seria difícil porque aqueles que estão no Congresso querem manter o statu quo (Lula não deve ter acertado a declinação latina, mas a Folha, que sempre corrige os erros de concordância do presidente, poderia ser informada de que o correto é “statu quo“, e não “status“).

Estranhamente, o mesmo Congresso com maioria da base petista/aliada (de Genoíno e Cunha a Maluf, Sarney, Feliciano e afins). Mais estranhamente ainda, o mesmo Congresso que recebia mensalada para votar a favor de projetos do Executivo central quando Lula era presidente, no maior atentado à democracia e separação dos poderes já visto no Brasil democrático (mas, claro, Lula não sabia de nada).

A própria idéia de “financiamento público” deveria ser explicada criticamente pela imprensa. As campanhas políticas brasileiras são inacreditavelmente caras até para um país com Estado dominando 40% da economia e famoso pela corrupção. Gasta-se milhões de reais para cargos que não pagarão 10% do que é torrando em campanha. Ao contrário do imaginário popular, não é meramente uma luta por dinheiro, e sim por poder político.

Para evitar um desgaste enorme juntando dinheiro de empresários e doações vultosas, fora o óbvio problema político que Lula conhece bem de, abusando do eufemismo, “troca de favores” entre o poder político e os donos da grana, os políticos pensam no óbvio: ao invés de ter de cooptar o poder econômico, incluindo grandes empreiteiras, bancos e empresas de gosto duvidoso, por que não legalizar logo tal captação?

Melhor, torná-la compulsória. O “financiamento público” nada mais é do que trocar uma doação voluntária (“dê-me uns trocados por que tenho um bom projeto” ou “porque posso te favorecer se ganhar as eleições”) por um sistema obrigatório: quem tem dinheiro, seja o Eike Batista ou quem consegue pagar por um bem de consumo, paga imposto e parte dessa bolada vai para partidos políticos financiarem suas campanhas caríssimas e conseguirem poder, incluindo aqueles partidos nos quais a pessoa que paga à força o financiamento não votaria nem sob tortura, preferindo se mudar de país a viver sob o jugo de tais mandatários.

Ora, é estranho que o tal “presidente mais popular da história” não tenha um projeto convincente o suficiente para conseguir financiar sua campanha (aliás, a campanha que finalmente lhe fez deixar de ser um perdedor compulsório foi um dos primeiros germes do mensalão). Por que precisaria ele, logo Ele, com seus 88% de aprovação, só conseguir dinheiro forçando a população a pagar por isso? Por que alguém, incluindo os mais de 10% da população que não votam (mais de 20 milhões de gentes), deveria pagar à força para favorecer projetos políticos de pessoas que só lhes enche de nojo?

Como se não bastasse essa carrada de contradições, o ex-presidente Lula não deixou de alegrar quem busca uma piada fácil com seus discursos perdigotados.

Segundo a Folha, Lula também defendeu o fortalecimento dos partidos políticos e criticou as “legendas de aluguel”, que existem “só para vender espaço na TV e fazer negociata no Congresso”. “Partido tem de ser representativo de uma parte da sociedade”, disse.

É claro que nosso ex-presidente não é exatamente um gênio da matemática, da economia, da ciência política ou sequer do Paint Brush. Se o Congresso quer “manter o statu quo” e por isso não aceitaria a sua reforma política, como supor que essa reforma modificaria o statu quo? Não haveria um fundo “público” (ou seja, dinheiro de todo mundo) que deveria ser distribuído às legendas conforme seus assentos no Congresso? E tal distribuição de butim não seria uma manutenção para os fortes continuarem fortes, e os fracos continuarem fracos?

Quem cuidaria de “redistribuir” o fundo “público” para diminuir a “desigualdade”, que mantém os poderosos ganhando mais dinheiro do cidadão brasileiro e as novas forças que podem surgir eternamente impedidas de concorrer com quem já conseguiu seus contratos com Odebrecht, OGX, Delta e domina os fundos da Petrobras? Que partido político seria mais favorecido com isso, podendo se livrar de precisar de novos “mensalões”, e podendo operar na preguiça de explicar para as pessoas por que merece receber alguns milhões para seu projeto de poder.

Acaso ele não “representa uma parte da sociedade”, ou só aquela parte de empreiteiras com conchavos esquisitos com o governo e que pagam milhões a Dirceu e Cachoeira para prestarem serviço de “consultoria” de como conseguir contrato com o governo?

Curiosamente, fez um elogio ao sempre alvo FHC, logo após uma patacoada dessas, dizendo que sua eleição foi um “avanço para a democracia do país”. E ressaltou a importância da alternância no “setor da sociedade” que está no governo. Petistas, vocês ouviram o que seu líder tem a dizer para as próximas eleições.

Não faltou um elogio tardio ao FMI, que tanto criticou, aproveitando-se do desconhecimento do brasileiro: “o FMI não representa hoje para crise europeia o que representou para a brasileira e mexicana. Nas crises dos Estados Unidos e da Europa desapareceu o FMI”. Lula se reelegeu fazendo uma maracutaia que custou cerca de US$ 12 bilhões aos brasileiros para “quitar a dívida com o FMI”. Sem falar no fato de que a dívida com o FMI era de 4% ao ano – Lula “quitou” a dívida externa aumentando descalabrosamente a dívida interna, com juros bancários de 8% até 12,75% ao ano. O Tesouro continua pagando juros de 13% da dívida interna. Contando os juros compostos, é estarrecedor ao ponto de querer dar um tiro nos próprios miolos saber o que significou a eleição de 2006 de Lula.

Para se ter uma idéia, se em janeiro de 1995 a dívida interna era de 62 bilhões, em janeiro de 2003, quando Lula foi empossado, a dívida estava em R$ 687 bilhões. Com Lula, ela atinge R$ 1,6 trilhão em dezembro de 2008 (ou R$ 1,9 trilhão, se computados os títulos em poder do Banco Central e as dívidas das estatais) – aumento de 60% em três anos. Este é o custo da ação governamental de “quitação” (ou balanceamento) da dívida externa. Os gastos do governo até 2008 com juros e amortizações da dívida pública foram de 30,57% do orçamento (R$ 282 bilhões),

Lula hoje sabe que o FMI faria um trabalho muito mais sensato (e inacreditavelmente mais barato) do que o descalabro que fez com o dinheiro do brasileiro. E pode afirmar isso sem ser questionado por jornalistas que pouco ou nada entendem do assunto. E ser aplaudido pelos seus próprios eleitores. Na prática, apenas confessa que está se lixando para o dinheiro do brasileiro, desde que seja eleito. Com “financiamento público” ou com slogans  vazios de significado sobre “quitar a dívida com o FMI”.

Melhor não tentar imaginar o que Lula faria com os EUA, mas que tal deixar as explicações sobre a crise para quem a previu antes de todos, quando ainda acreditavam que investir em empresas com conchavos com o governo (mais ou menos o que os brasileiros fazem com a Petrobras hoje, criando a única petrolífera do mundo que dá prejuízo – nunca antes na história desse Universo), e escreveu muito sobre as soluções antes mesmo de o problema se tornar público?

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Sobre a ONU, Lula também pediu um poder global concentrado nas mãos de seus cupinchas: criticou a falta de uma “governança global” capaz de responder aos desafios atuais e tascou: “A ONU não representa hoje o mundo do século 21. Está superada no tempo e no espaço. Não se explica hoje a falta de [representação de] países da América Latina ou Índia”. Não sabia que esses países não tinham assento na ONU.

Mas a melhor piada coroando o bolo cerejosamente após pedir a definição de “crime inafiançável” para o que fizeram os mensaleiros foi dizer que as pessoas devem ter “cuidado” com aqueles que usam o combate à corrupção como bandeira de campanha. “[Elas] podem ser piores que quem está acusando.”

Você sabe disso melhor do que ninguém, não é, sr. Lula?!

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