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Lula falta à cerimônia de posse de Haddad para fugir da imprensa

Fernando Haddad e Lula

É consabido que o PT se resume tão somente ao carisma de Lula, e isso até é admitido pelos círculos petistas responsáveis pelas eleições e pela parte prática de ganhar e se manter no poder. Dilma e Haddad, nomes desconhecidos do público até um ano antes de suas eleições, só alcançaram algum destaque martelando a mensagem subliminar: “Nós somos o candidato do Lula”.

O presidente vendia seus candidatos como chefes do Executivo sempre venderam vereadores, deputados e outros nomes menores, de pouco apelo e carisma, ao grande público.

Com o desastre que foram as gestões petistas na cidade (de Luiza Erundina e Marta Suplicy, a petista mais odiada por petistas no território nacional), São Paulo virou um vácuo petista – o estado e a cidade onde as eleições sempre ficaram desfavoráveis ao partido desde o início (a opção para o governo do estado foi Aloízio “escândalo dos aloprados” Mercadante, e, antes, ninguém menos do que José Genoino, hoje nome impensável até para o petista mais radical).

Com o desprezo (abusando do eufemismo) angariado por Marta Suplicy pela população paulista(na), é natural que Lula entre em ação para salvar o coreto. Fernando Haddad ainda tinha uma desvantagem: Dilma era considerada a “salvadora” da falcatrua ministerial do segundo mandato de Dilma, substituindo a cúpula comandada pelos pouco confiáveis José Dirceu e Antônio Palocci e suas eternas disputas por mais concentração de poder. Já Haddad virou notícia tão somente pelos desastres do ENEM e pela inclusão do kit anti=homofobia que foi motivo de constrangimento até para os gays supostamente defendidos.

Mas, eleitoralmente, o mensalão pouco ou nada afetou o PT em si. O partido continua sendo “o partido do Lula” (como o PP é o partido do Maluf, ou o PRONA era o partido do Enéas). A tática, desde a eclosão do escândalo em 2005, foi sempre a mesma: o PT inteiro, de cabo a rabo, pode ser corrupto, mas Ele não sabia de nada.

O problema paulista, porém, mostrou sua primeira face nas últimas eleições: na cidade mais rica do Brasil, e tendendo a ser a mais bem informada, era importante blindar também Haddad de fazer parte do “partido do mensalão”, e Lula foi alçado a apresentar candidatos apenas em rincões mais humildes. A campanha haddadista não teve Lula nem PT: apenas o apresentava como “ex-ministro”, sem explicar por que mesmo que o nome dele era de alguma forma conhecido da população (qualquer menção ao seu trabalho de fato seria um desastre).

A segunda face surge agora, e ela demonstra o que será o PT nos próximos anos. Se o mensalão ainda manteve Lula como homem intocável, o escândalo Rosemary Noronha deixou O Homem frágil. Antes podia se livrar de perguntas incômodas dizendo que não era com Ele, e até invertia o descalabro de corrupção do seu governo, afirmando que acabou o tempo em que se “varria a sujeira para debaixo do tapete”. Mas, agora, O Homem que sempre falava com ares garbosos de O Ético supremo e que sempre podia vender qualquer candidato apenas baseado em seu carisma junto á população humilde foi obrigado a encalhar há meses sem suas famosas declarações públicas semanais.

Coim o Rosegate, o PT entrou numa nova fase, em que continuará sendo o Partido Dele, mas sem seu carisma direto, apenas colocado indiretamente.

A mudança já ficou clara com o comportamento de Lula. Haddad sobreviveu às eleições em que quase foi escorraçado ainda no primeiro turno por um triz, mas Lula, O Falante, preferiu faltar à posse de seu pupilo. Há mais de um mês fugindo de jornalistas como o diabo foge da cruz, o homem que antes os driblava messianicamente (há trocadilho) não pode mais simplesmente sorrir e dizer que não há nada de errado com suas ações.

Numa solenidade festiva para Haddad e para o PT, que finalmente conseguiu mais algum espaço na prefeitura mais importante do país (capaz de, misteriosamente, fazer deputados abandonarem o cargo na Câmara para virarem assessores do prefeito), Lula fatalmente estragaria a festa se perguntado por qualquer jornalista sobre Rosemary Noronha. Isso seria voltar ao PT pré-Rosegate (quando Lula tinha coragem até de apertar a mão de Maluf no jardim aristocrático de sua mansão para selar acordo pró-Haddad).

Lembra o Ucho.Info:

A situação de constrangimento de Luiz Inácio da Silva, por causa dos escândalos de corrupção que o atingem, é tão grande, que o ex-presidente foi obrigado a sair pela por dos fundos de um hotel espanhol, depois de atravessar a cozinha do estabelecimento, para evitar os jornalistas que o aguardavam na porta principal.

 A menção do seu nome nos escândalos foi suficiente para o cancelamento de algumas palestras que o ex-metalúrgico faria em vários países, o que mostra que as consequências são imprevisíveis. (…)

A assessoria do Instituto Lula informou que o petista não compareceu à cerimônia porque está em viagem com a ex-primeira-dama Marisa Letícia.

Para variar, Lula e o PT têm a inteligência extrema de inverter algo ruim em algo bom, e o presidente que sempre deixou a mulher em casa para cuidar de sua vida pública (ou nem tanto), agora está ocupadíssimo no momento mais importante do Partido na cidade mais importante do país em uma prosaica viagem pessoal com a ex-primeira dama.

Agora a regra mudou: o partido ainda é Dele, mas acabou-se o tempo de puro carisma. Agora tem-se que varrer Lula para debaixo do tapete.

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